3 O MUNICÍPIO DO NATAL NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XX:
5.2 PADRÕES DE CASAMENTO EM NATAL – 1937 E 1938
O resultado constante no Gráfico 15 ilustra o padrão etário entre nubentes.
Gráfico 15 – Padrão de casamento por diferença de idade entre os nubentes
no evento, Nossa Senhora da Apresentação, 1937 e 1938
Fonte: Cúria Metropolitana de Natal, 2016.
Conforme se vê, o padrão foi de casamentos em que o noivo era mais velho do que a sua noiva, em consonância com a cultura da época. Foram 114 registros com essa característica (78,6%). Somente 24 eventos (16,6%) apresentaram um padrão inverso, em que as noivas eram mais velhas do que seus noivos. Como ilustração, cita-se o caso de uma mulher viúva, de função doméstica, que, aos 34 anos, casou-se com um agricultor, solteiro, de 22 anos de idade.
As próximas análises se dedicam aos padrões de casamento por condições pré-matrimoniais dos nubentes (estado civil, naturalidade e local de residência).
noiva mais velha (n=24) idades iguais (n=7) noivo mais velho (n=114)
Na Tabela 5, verifica-se um padrão de casamento bem definido entre noivos em primeiras núpcias. O segundo arranjo mais comum por estado civil foi de noivos viúvos com noivas solteiras (93,8%), indicando mais possibilidades de recasamento para os homens.
Tabela 5 – Padrão de casamento por estado civil, Nossa Senhora da Apresentação, 1937 e 1938
Noivas solteiras Noivas viúvas Total Noivos solteiros 95,5% (n=126) 4,5% (n=6) 100% (n=132)
Noivos viúvos 93,8% (n=15) 6,3% (n=1) 100% (n=16)
Fonte: Cúria Metropolitana de Natal, 2016.
A Tabela 6 apresenta o padrão de casamento por naturalidade dos nubentes.
Tabela 6 – Padrão de casamento por naturalidade, Nossa Senhora da Apresentação, 1937 e 1938 Noiva Nossa Senhora da Apresentação (Natal) Outros municípios do Rio Grande do Norte Municípios do Nordeste Municípios do Sudeste Total Noivo Nossa Senhora da Apresentação (Natal) 63,3% (n=31) 32,7% (n=16) 4,1% (n=2) - 100% (n=49) Outros municípios do Rio Grande do Norte 25% (n=14) 64,3% (n=36) 8,9% (n=5) 1,8% (n=1) 100% (n=56) Municípios do Nordeste 33,3% (n=7) 38,1% (n=8) 28,6% (n=6) - 100% (n=21) Municípios do Sudeste 100% (n=1) - - - 100% (n=1) Outro país 33,3% (n=1) 66,7% (n=2) - - 100% (n=3) Fonte: Cúria Metropolitana de Natal, 2016.
A Tabela 7 traz o padrão de casamento por local de residência dos nubentes. Verificou-se que a maior parte dos nubentes era residente do município de Natal. Nota-se, ainda, que foram raros os casos de indivíduos residentes em cidades do interior do estado do Rio Grande do Norte e menos ainda de fora do estado. Em apenas 15 eventos, pelo menos, um dos nubentes não residiam em Natal.
Tabela 7 – Padrão de casamento por local de residência, Nossa Senhora da Apresentação, 1937 e 1938 Noiva Nossa Senhora da Apresentação (Natal) Outros municípios do Rio Grande do Norte Municípios do Nordeste Total Noivo Nossa Senhora da Apresentação (Natal) 97,3% (n=107) 2,7% (n=3) - 100% (n=110) Outros municípios do Rio Grande do Norte 66,7% (n=4) 33,3% (n=2) - 100% (n=6) Municípios do Nordeste 40% (n=2) - 60% (n=3) 100% (n=5) Municípios do Sudeste - 100% (n=1) - 100% (n=1)
Fonte: Cúria Metropolitana de Natal, 2016.
Esse resultado ocorre, também, pelo fato de que, à época, o deslocamento espacial ainda era precário, sem falar na distância entre os municípios que era maior. Os eventos que quebram essa regra são raros. Em, apenas, quatro casos, o noivo era residente do interior do estado, enquanto em somente dois casos o noivo morava fora da jurisdição do Rio Grande do Norte. Em relação à noiva, todos os casos mostram que elas moravam na região Nordeste.
6 CONCLUSÃO
O objetivo principal desse trabalho foi identificar padrões de nupcialidade para o município de Natal em 1937 e 1938 segundo características selecionadas: idade, estado civil, local de residência, naturalidade e ocupação dos noivos. Esta dissertação que apresentou uma análise exploratória demográfica dos casamentos ocorridos em uma sociedade da região Nordeste e utilizando fontes de registros paroquiais, contribui para uma área de pesquisa onde predominam estudos de base historiográfica e qualitativa, em termos de produção local Ademais, em uma perspectiva mais ampla, a produção nacional sobre o tema poucas vezes retratou áreas, além das regiões do eixo Centro/Sul do país e para a primeira metade do século XX.
Este trabalho também contribuiu do ponto de vista metodológico ao utilizar registros paroquiais para a construção de uma base de dados contendo informações matrimoniais que, para a época, não são possíveis de ser explorada por meio de fontes oficiais como os anuários estatísticos do IBGE. Além das raras características individuais dos nubentes utilizadas neste trabalho, tais como idade ao casar, local de residência, naturalidade e ocupação, é possível ainda conduzir análises relativas aos pais dos nubentes utilizando essas mesmas variáveis, o que pode ser uma importante fonte de pesquisa para trabalhos futuros, dedicados aos padrões de casamentos por coortes. Todavia, apesar das múltiplas possibilidades de análise oportunizadas por esses registros paroquiais, é possível que tenha ocorrido perda de informações, ou seja, os assentos utilizados possivelmente não correspondem à totalidade dos registros que existiram para os anos selecionados. Uma ideia para próximos trabalhos é construir uma base de dados maior e que inclua todos os anos da primeira metade do século XX que estão disponíveis, visando minimizar o efeito das perdas dessas informações. Também, que se submeta a um trabalho de verificação maior da qualidade dessas fontes por meio da comparação com o volume de casamentos, registrados pelos anuários estatísticos.
Com relação aos resultados encontrados, verificou-se de modo geral, um padrão endogâmico de casamentos. Noivos mais velhos que suas noivas, naturais e residentes da própria paróquia, e solteiros. As noivas participavam muito pouco do mercado de trabalho, sobressaindo, sobretudo funções
domésticas, enquanto os noivos, mais inseridos na força laboral, se enquadravam nas profissões emergentes de uma Natal em processo de modernização, tal como, comércio, serviço público, e profissões liberais.
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, H. S. V. R. A importância do casamento consanguíneo na manutenção da família Patrimonial e a posse da terra na região do Seridó Potiguar do século XIX. II Colóquio Nacional História Cultural e Sensibilidades, Caicó, 2012.
AZEVEDO, T. de. As regras do namoro à antiga. São Paulo: Ática, 1986 (Ensaios, 118) apud LEVY, M. S. F. A escolha do cônjuge. Revista Brasileira de
Estudos de População, v. 26, n. 1, jan./jun. 2009. p. 117-133.
BACELLAR, C. A. P. SCOTT, A. S. V. BASSANEZI, M. S. C. B. Quarenta anos de Demografia Histórica. Revista Brasileira de Estudos Populacionais. São Paulo, 2005.
BACCI, M. L. Historia de la Población Europea. Barcelona: Editora Critica, 1999 (Capitulo 5 – Sistemas).
BASSANEZI, M. S. C. B. Padrões de casamento em uma comunidade em mudança: 1870-1890. VIII Encontro Nacional de Estudos Populacionais, Abep. 1992 – Volume 1.
BASSANEZI, M. S. C. B. Uma fonte para o estudo da migração e do migrante: os registros dos eventos vitais. Ideias. Campinas, nº 2, nova série, 1º semestre. 2011.
BOTELHO, T. R. Estratégias matrimoniais entre a população livre de Minas Gerais: Catas Altas do Mato Dentro, 1815-1850. XIV Encontro Nacional de
Estudos Populacionais, Abep. Caxambú – MG, 2004.
BRÜGGER, S. M. J. Legitimidade, Casamento e Relações Ditas Ilícitas em São João Del Rei (1730-1850). PAIVA, Clotilde A.; Libby, Douglas C. 20 anos do
Seminário sobre a Economia Mineira, 1982-2002: coletânea de trabalhos, 1982/2000. Belo Horizonte: UFMG/FACE/Cedeplar, 2002. v. 2, p. 255-280.
CARDOSO, J. A. NADALIN, S.O. Os meses e os dias de casamento no Paraná – Séculos XVIII, XIX e XX. História: Questões & Debates. Revista da
Associação Paranaense de História. Curitiba, Gráfica Vicentina, n. 5, 1982.
CASCUDO, L. C. História da Cidade do Natal. Natal: RN Econômico, 1999, edição Instituto Histórico e Geográfico / RN.
CASTIGLIONI, A. H. Migração: abordagens teóricas. Migração internacional na
Pan-Amazônia. Belém: NAEA/UFPA, 2009.
CAVIGNAC, J. A. Os 'troncos velhos' e os 'quilombinhos': memória genealógica, território e afirmação étnica em Boa Vista dos Negros (RN). VII Reunión de
Antropologia del MERCOSUR - UFRGS, Porto Alegre, 2007.
CINTRA, R. A. Italianos em Ribeirão Preto-SP: Família e nupcialidade (1890- 1900). XXII Simpósio Nacional de História – João Pessoa, 2003.
DE PAULA, T. N. T. A construção da Paróquia: Espaço e participação na capitania do Rio Grande do Norte. Revista Espacialidades (on line), v. 3, nº 2, 2010.
FARIA, S. C. A Colônia em movimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.
GENNEP, A. V. Os ritos de passagem, Petrópolis: Vozes, 1978.
GUIMARÃES, S. A. A mulher e o fim do casamento entre 1924 e 1950 (Poções – BA). III Encontro Estadual de História: Poder, Cultura e Diversidade, ANPUH – BA, Caetité, 2004.
GONÇALVES, M. A. T. Trabalhando a endogamia: o caso Paresí. Revista
Brasileira de Ciências Sociais, 1990.
HAJNAL, J. European marriage patterns in perspective. In GLASS, D. V., EVERSLEY, D. E. C. Population in History. London: Edward Arnold. 1965, Cap. 6: 101-143.
HAJNAL, J. Age at Marriaage and Proportions Marriyng. Population Studies, v. 7, nº 2, 1953. p. 110-136.
HITA, M. G. A família em Parsons: pontos, contrapontos e a perspectiva de modelos alternativos. XXII Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-
Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, Caxambu: 1998.
LAZO, A. C. G. V. A endogamia dos casais: Estado de São Paulo – 1984. VII
Encontro Nacional de Estudos Populacionais, 1990.
LAZO, A. C. G. V. Os estudos contemporâneos sobre nupcilaidade: uma revisão crítica. Textos NEPO 32, Campinas: 1996
LEVY, M. S. F. A escolha do cônjuge. Revista Brasileira de Estudos de
População, v. 26, n. 1, jan./jun. 2009. p. 117-133.
LYRA, A. T. História do Rio Grande do Norte. 3ª edição, Natal, RN: EDUFRN – Editora da UFRN, 2008.
LOPES, F. M. Fontes para História indígena do Rio Grande do Norte no século XVIII. I Encontro Regional da ANPUH/RN, Natal, RN. 2004.
MARCÍLIO, M. L. A demografia histórica brasileira nesse final de milênio. Revista
Brasileira de Estudos Populacionais, Brasília, 14(1/2), 1997. P.125-143.
MARCÍLIO, M. L. Os registros paroquiais e a História do Brasil. Revista Varia
História, nº 31, Belo Horizonte, 2004.
MARINHO, M. Natal também civiliza-se: sociabilidade, lazer e esporte na
MARIZ, M. S. SUASSUNA, L. E. B. História do Rio Grande do Norte: Império e
República. Natal, RN: Gráfica Santa Maria, 1999.
MCLENNAN, John F (1970), Primitive Marriage; an Inquiry Into the Origin of
the Form of Capture in Mariage Ceremonies. Chicago, The University of
Chicago Press.
MEDEIROS FILHO, O. Terra natalense. Natal, RN: Fundação José Augusto, 1991 apud LOPES, F. M. Fontes para a História do Rio Grande do Norte no IHGRN, I Encontro Regional da ANPUH/RN, Natal, RN. 2004.
MONTEIRO, D. M. Introdução à História do Rio Grande do Norte – 3ª ed. Revista e ampliada, Natal, RN: EDUFRN – Editora da UFRN, 2007.
OLIVEIRA, M. F. Sexo, Culpa e Interdição: os casamentos consanguíneos no Caicó arcaico. II Colóquio Nacional História Cultural e Sensibilidades, Caicó, 2012.
PARSONS, T. Family: Socialization and Interaction Process. London, Routledge & Kegan Paul Ltd. 1956
Recenseamento Geral do Brasil, 1920. Volume IV (2ª parte). Tomo I, Rio de
Janeiro, 1928.
Recenseamento Geral do Brasil, 1940. Série regional, Parte VII, Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro, 1952.
RODARTE, M. M. S. O trabalho do fogo: perfis de domicílios enquanto
unidades de produção e reprodução na Minas Gerais Oitocentista. Belo
Horizonte- MG, 2008.
SALGADO, J. Q. ¿Un modelo de nupcialidad postransicional en América Latina?
III Congreso de la Asociación Latinoamericana de Población. Córdoba,
Argentina, 2008.
SAMARA, E. M. As mulheres, o poder e a família. São Paulo, século XIX. Tese (doutorado). São Paulo: AMPUH/Marco Zero/Fapesp, 1984.
SAMARA, E. M. A família no Brasil: História e Historiografia. História Revista jul/dez 1997.
SILVA, N. V. Padrões de Nupcialidade no Brasil – 1940-1970 Revista Brasileira
de Estatística, Rio de Janeiro: 1979.
SOUZA, I. A República velha no Rio Grande do Norte (1889/1930). Natal, RN: EDUFRN, 2008.
SPINELLI, J. A. Coronéis e Oligarquias no Rio Grande do Norte (Primeira
TEIXEIRA, P. E. Gerações de migrantes e a formação das famílias em
Campinas: 1774-1920. In XIX Encontro Nacional de Estudos Populacionais. São
Pedro/SP, 2014.
TRINDADE, S. L. B. História do Rio Grande do Norte. Natal: Editora do IFRN, 2010.
ANEXOS
Figura A 1 - Registro Paroquial de Casamento da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação.
Figura A 2 - Ficha de transcrição de dados dos registros paroquiais de casamento da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação.