1 TRAMAS DO CONHECIMENTO: DESVELANDO CONCEITOS E CAMINHOS
1.1 Paisagem: um conceito polissêmico e complexo
A paisagem deve ser analisada além da aparência, dado que resulta “da combinação dinâmica de elementos físicos, biológicos e antrópicos que, reagindo dialeticamente uns sobre os outros” a transforma num “conjunto único e indissociável em evolução” (BERTRAND, 2004, p. 141). Destaque para o ponto em que a paisagem não é uma junção de elementos, mas a combinação que decorre da interação entre eles. Ademais, esta paisagem não é apenas natural, mas é integrada, de modo que a ação humana também é levada em consideração e estudá-la “é antes de tudo apresentar um problema de método” (idem, 2004, p. 141).
Esse é o desafio que os geógrafos enfrentam acerca do estudo da paisagem, uma vez que envolve um problema de ordem epistemológica e de carência metodológica, como enfatiza Bertrand (2004) em seu artigo Paisagem e Geografia Física global, ao esboçar um itinerário para a análise da paisagem fundamentado em alguns princípios, a saber: taxonomia, dinâmica, tipologia e cartografia das paisagens. Ele considera a paisagem importante para a Geografia, mas que ainda é caracterizado como um termo impreciso e cômodo, em virtude de cada pesquisador utilizá-lo conforme a sua orientação teórico-metodológica, perspectiva de análise e abordagem.
A temática da paisagem na Geografia reúne ao longo do processo histórico diversas interpretações e conteúdos. Vitte (2007b) esclarece que isso demonstra a complexificação do conceito em função da forma como foi tratado pelas correntes na ciência geográfica. O autor aponta para o importante fato de que a discussão da categoria paisagem remete ao processo de institucionalização da Geografia como ciência, elegendo a superfície da Terra em seus aspectos físicos e humanos como campo de estudo.
A ideia de paisagem está presente desde os primórdios, fazendo parte da memória dos grupos ao observar o seu meio, representando por intermédio da pintura a diversidade cultural existente. Para Maximiano (2004), as expressões desta memória e da observação podem ser encontradas nas artes e nas ciências dessas culturas que retratavam elementos particulares (montanhas, rios, animais etc.). Essas pinturas datam de um período entre 30 mil e 10 mil anos a.C e configuram-se como os registros mais antigos que se conhece da observação humana da paisagem. Entretanto, é por volta do século XV, no Renascimento, momento em que o homem começa a distanciar-se da natureza e a elaborar técnicas para a sua apropriação (SCHIER, 2003; VITTE, 2007b), que se desenvolve o conceito moderno de paisagem (landschaft) com uma conotação espacial.
O momento reflete o processo de dessacralização da natureza e a emergência do discurso científico para as explicações dos fenômenos naturais, consequentemente, para o desenvolvimento do conceito de paisagem na ciência geográfica.
[...] o aparecimento da paisagem foi acompanhado de uma revolução científica e técnica que libertou a natureza do concurso divino tornando-a objeto de conhecimento e abrindo caminho à sua manipulação e transformação com diversos fins. Ao adquirir-se o conhecimento da forma da terra e a possibilidade da sua medição rigorosa por meio dos métodos de triangulação, estava aberto o caminho para a exploração e domínio de todo o planeta [...] (SALGUEIRO, 2001).
Ainda sobre a variação no conceito de paisagem, Guerra e Marçal (2006) sinalizam que decorre da sua etimologia e origem, o que acarreta uma variedade de significados conforme as escolas relacionadas à Geografia Física. Deste modo, nas línguas românticas a palavra origina do latim pagus (país) com as derivações de paisage (espanhol), paysage (francês) e paissaggio (italiano). As línguas germânicas relacionam paisagem a land, originando landschaft (alemão), landscape (inglês) e landschap (holandês). Percebe-se que o termo paisagem, dos primórdios até os dias atuais, passou por variações linguísticas, mas é no
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século XIX que adquire um caráter científico, abrangendo o significado de território (dimensão espacial) e o caráter visual.
Humboldt foi o responsável por esse novo direcionamento a respeito da paisagem. Através do estudo da fisionomia e aspecto da vegetação, fez referência à paisagem que passou a ocupar lugar proeminente na Geografia, constituída como disciplina científica na Alemanha, no período supracitado (SALGUEIRO, 2001; SCHIER, 2003). No período, o termo landschaft era utilizado para designar, cientificamente, a paisagem que expressava tanto uma porção limitada da superfície da Terra, que possuía um ou mais elementos que lhe davam unidade, como a aparência da Terra conforme era percebida pelo observador (SALGUEIRO, 2001). Nessa perspectiva, ressalta-se o desenvolvimento da abordagem descritiva e morfológica atrelada a paisagem na fisionomia e funcionalidade da natureza por Humboldt.
Durante o século XIX outros geógrafos procuraram desenvolver a noção de landschaft na Geografia. Eles aproximaram-se da ideia positivista de Humboldt, em que a paisagem aparece como conjunto de relações de fatos naturais (geossistemas naturais); no entanto negavam o seu elemento libertador e estético. Destaque para Carl Ritter, que embora não tivesse a paisagem como seu principal objeto de estudo, dedicou-se às descrições e análises regionais. Do mesmo modo, Friedrich Ratzel com sua abordagem antropogênica da paisagem, demonstrou que ela resulta do distanciamento do homem do seu meio. É nesse períodoque se utiliza pela primeira vez o termo geografia cultural. Contemporâneo a Ratzel, Paul Vidal de La Blache considerava o conceito de “pays” ligado a relação homem com o seu espaço físico (SCHIER, 2003).
As contribuições dos geógrafos do século XIX e início do século XX permitiram o avanço dos estudos da paisagem, aparecendo como um conceito integrador que expressava a nova visão totalizadora da natureza com a sociedade, estendendo para as distinções entre paisagens naturais e paisagens culturais e os delineamentos entre a geografia física e a geografia humana.
A morforlogia da paisagem de Carl Sauer apresenta a demarcação de uma geografia física e cultural, estudo clássico publicado em 1925, no qual a paisagem é considerada como um conjunto de formas físicas e culturais associadas ou interdependentes, cujo o elemento tempo é posto como fator para compreensão das suas mudanças. Nessa vertente, a Geografia está relacionada à conexão entre os fenômenos que compõem uma dada área e a ação humana que se mostra como principal elemento de transformação da paisagem. O autor relaciona as alterações das feições físicas às necessidades humanas.
As ações do homem se expressam por si mesmas na paisagem cultural. Pode haver uma sucessão dessas paisagens com uma sucessão de culturas. Elas se derivam em cada caso da paisagem natural, com o homem expressando seu lugar na natureza como agente distinto de modificação. No sentindo universal, [...], a geografia torna-se, então, aquela parte do último capítulo ou o capítulo humano na história da Terra que diz respeito à diferenciação da paisagem pelo homem (SAUER, 2004, p. 43).
Sauer tratou a paisagem à luz do método morfológico, com a sua aplicação tanto nos aspectos naturais quanto nos humanos. Ao analisar a paisagem cultural, não conseguiu sair do seu caráter físico-material, pelo fato de estar sob forte influência do positivismo descritivo (SCHIER, 2003).
Na segunda metade do século XX, a paisagem vai ser examinada na Geografia sob o prisma sistêmico, fundamentado pelos princípios da Teoria Geral dos Sistemas (TGS), proposta e formulada por Ludwig von Bertalanffy nas décadas de 1930 e 1940. Esse novo caminho permitiu avanços nos estudos de paisagem e influenciou diversas áreas voltadas para o meio ambiente. Nessa abordagem, todos os elementos fazem parte da natureza, sendo os aspectos fisionômicos deixados de lado e as trocas de matérias e energia dentro do sistema (complexo físico-químico e biótico) colocadas em evidência. Os sistemas naturais serão compreendidos através da sua estrutura e funcionamento (GUERRA; MARÇAL, 2006).
A escola soviética destaca-se nas contribuições de ordem epistemológica acerca da visão sistêmica de paisagem que é pensada como um todo, com a identificação dos seus elementos internos, estado, funcionalidade, relação com o meio e por fim, como objeto para intervenções e pesquisas científicas. Maximiano (2004, p. 88) menciona que “a necessidade de operacionalizar o conceito de paisagem com fins de gestão territorial levou os geógrafos russos a desenvolverem o conceito de geossistema”. Ora, eram necessários estudos de classificação das unidades que estruturam a paisagem para a compreensão da sua organização e elaboração dos planos que representaram a possibilidade de transformação e seu domínio num período marcado pela expansão das interferências sobre o meio, resultado das políticas de gestão do mundo socialista.
Victor Sotchava mostrou-se como um dos principais nomes da escola soviética nas pesquisas geossistêmicas. Instigado pelos fundamentos da TGS formulou os geossistemas, “classes hierarquizadas do meio natural” (MAXIMIANO, p. 88, 2004). Como salienta Rodriguez e Silva (2002), ele utilizou toda a teoria sobre paisagens (Landschaft) elaborada pela escola russa e formulou a Teoria Geral dos Geossistemas, em que o conceito de paisagem é considerado sinônimo de geossistema, formada por atributos sistêmicos fundamentais:
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estrutura, funcionamento, dinâmica, evolução e informação. Essa abordagem permitiu, pela primeira vez, aos estudos da paisagema a análise espacial (própria da Geografia Física) articulando-se com a análise funcional (própria da Ecológica Biológica). Apesar de os geossistemas serem fenômenos naturais, os fatores socioeconômicos devem ser levados em consideração, visto que influenciam na sua dinâmica.
O modelo elaborado por Sotchava recebeu críticas que apresentaram imprecisões quanto à classificação da paisagem, pois utilizava escalas grandes que dificultavam a ligação com a escala socioeconômica. “A questão da escala também é importante na pesquisa geográfica de paisagem, pois permite a hierarquização de classes de paisagem.” (MAXIMIANO, 2004, p. 88, grifo do autor).
Os franceses Bertrand e Tricart também contribuíram para as investigações sobre a paisagem baseadas na visão sistêmica, embora com métodos diferentes. Bertrand apresentou o geossistema como categoria espacial cuja estrutura e dinâmica é resultado da interação entre o potencial ecológico, a exploração biológica e a ação antrópica. Na sua abordagem, o estudo da paisagem deve ter uma visão de uma Geografia Física Global. Baseou-se nas escalas espaço- temporais de Tricart, classificando a paisagem em seis níveis: a zona, o domínio e a região natural (níveis superiores); o geossistema, o geofácies e o geótopo (unidades inferiores). Já Tricart propôs uma metodologia de delimitação e análise de unidades territoriais, baseada na intensidade, frequência e interação dos processos evolutivos do ambiente, a qual denominou ecodinâmica. Nela, as unidades são classificadas em três estágios que representam o nível de degradação e de conservação: meios estáveis, meios intergrades e meios fortemente instáveis (GUERRA; MARÇAL, 2006; FERREIRA, 2010).
No Brasil, Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro é considerado um dos grandes propagadores das concepções geossistêmicas, pelo fato de ter contato com teóricos russos e franceses (NEVES; SAMPAIO, 2010). Além dele, pode-se destacar Aziz Nacib Ab'Saber com contribuições acerca da metodologia e instrumental nas pesquisas geomorfológicas no país. Para Ab’Saber, a paisagem resulta da relação entre os processos passados e atuais, sendo que os processos passados foram responsáveis pela compartimentação regional e os processos atuais respondem pela dinâmica atual da paisagem (VITTE, 2007b).
Assim, a formulação do conceito de paisagem na geografia brasileira foi influenciada pelos teóricos da escola francesa. Neste percurso, a paisagem foi se configurando como método de pesquisa ou como uma abordagem para análise geográfica do espaço. Sabe-se que embora seja um conceito importante na Geografia, ainda não está de todo acabado, havendo imprecisões quanto a seu conteúdo, como abordado na discussão. Contudo, existem pontos
que são comuns aos conceitos: a inclusão da existência humana, o aspecto visual (resultado dos eventos naturais e sociais) e a questão da escala que permite hierarquizar as classes de paisagem (MAXIMIANO, 2004)
Nos anos 1970, devido à oposição ao positivismo e ao neopositivismo, a paisagem foi isolada, não ocupando espaço na Geografia. Em vista disso, na ruptura entre a geografia física e geografia humana que ocorreu no período, a paisagem foi relegada a uma posição secundária (FERREIRA; PIMENTEL; BARROS, 2016; CORRÊA; ROSENDAHL, 2004). Todavia, na contemporaneidade ressurgiu com facetas fundadas em outras matrizes epistemológicas, apresentando várias dimensões: morfológica, funcional, histórica, espacial e simbólica.
Na avaliação da paisagem sob a ótica cultural, ela está intimamente ligada à cultura, correspondendo a um território visto e sentido, portanto subjetivo e elaborado pela mente (SALGUEIRO, 2001), visão que formata as novas vertentes da paisagem a serem exploradas na ciência geográfica, ou seja, a adesão da abordagem cultural fundada numa análise simbólica de paisagem, em que a cultura aparece como ponto que envolve o homem e o meio.
Cosgrove (2004, p. 99) considera que,
[...] a paisagem está intimamente ligada a uma nova maneira de ver o mundo como uma criação racionalmente ordenada, designada e harmoniosa, cuja a estrutura e organismo são acessíveis a mente humana, assim como ao olho e agem como guias para os seres humanos em suas ações de alterar e aperfeiçoar o meio ambiente.
A ideia de paisagem cultural na geografia está associada às marcas deixadas pelo homem, que traduzem as formas de apropriação e os usos dos elementos que a constituem, que refletem as suas representações em relação ao que o cerca. Elas simbolizam a dimensão socioecológica da paisagem e correspondem aos espaços geográficos que as sociedades transformam para produzir, habitar e sonhar (RODRIGUEZ; SILVA, 2002).
Na década de 1980 surge um novo desafio no tocante à investigação acerca da paisagem, pois era preciso entendê-la sob o ponto de vista ambiental, que engloba uma análise integrada e complexa. Nessa lógica, a paisagem deve ser analisada de forma articulada aos diferentes níveis de interação entre a sociedade e a natureza.
Com base nos pressupostos, salienta-se que a análise da paisagem neste estudo ocorreu mediante o entendimento de como a base natural em determinado espaço de tempo se comporta diante das modificações da sociedade, quando da apropriação, ocupação e usos diversos. Pretendeu-se decodificar a paisagem geográfica além do seu estudo morfológico, ou
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seja, como objeto geográfico que está em toda a parte, conforme destacaou Cosgrove (2004). A paisagem aparece, assim, como caminho para a leitura da organização espacial, da forma como os grupos se relacionam com o meio e entre si, produzindo o território e consequentemente, o espaço geográfico. Nessa perspectiva, a paisagem apresentou-se como cenas dinâmicas que possibilitam a intepretação das relações de poder estabelecidas e que produzem o território.
Paisagem e território surgem como elementos de interpretação da realidade geográfica, como elos para uma análise integrada de comunidades que têm no extrativismo a sua fonte de existência e de luta, permitindo uma aproximação da totalidade espacial.
1.2 Território, territorialidades e identidade territorial: entrelaçando conceitos