1996, p.11).
12 O movimento Chega! é uma iniciativa da classe artística teatral da cidade de Belém, que vem se mobilizando e
propondo atos públicos regados a muita arte, em crítica direta à atual política cultural praticada no Estado do Pará. Para saber mais, acessar: www.facebook.com/movimentochega .
hierarquias; [...]. Livrar-se das bandeiras” (LEMOS; SILVA; SANTOS, 2012, p.223). Os femininos imperativos, aqui, não resultam de bandeira político-partidária e tentam desviar, de igual modo, de engessamentos. Na tentativa de denunciar estereótipos para a mulher, não quer criar outros. O que importa é a abertura em multiplicidade com todas as vidas possíveis de se viver enquanto mulher, palhaça. Formas do desejo.
Desejo, libido, tesão. Vontade de sentir prazer, energia que procura o prazer. Prazer de ser mulher, à sua maneira. Ponto. Mulher não como antítese do homem. Simplesmente forma feminina, muitas formas. E um prazer quase sexual de o ser. Ou retira-se o “quase”. Muito prazer, sou mulher. E palhaça.
Já não precisamos mais de um gênero que nos seja tábua de salvação, presa entre os dentes raivosos, espumantes, vítimas esbravejando contra o oposto, adversário. É o que denuncia Suely Rolnik (1996), na atitude comum de movimentos sociais de reivindicação de direitos. Gênero, nesta pesquisa, é uma questão de desejo. Enquanto as roupas nos cobrem, nossa nudez permanece escondida. Como é prazeroso ver o nu, como gera vontade de sentir prazer. O feminino, oprimido, sempre oposto ao masculino, opressor, é roupa, representação visível. No plano invisível, contudo, somos uma série de mundos em nós mesmos, nudezas que despertam e se mostram por puro desejo. As diferenças seguem seu processo de produção contínuo, infinito, que nada tem a ver com oposições homem-mulher.
Amanda do Lago, a palhaça Amandioca, de Macapá (AP), tira as roupas. “É a mesma
coisa que na vida também, eu não diferencio uma pessoa pelo fato de ser homem ou mulher”.
Eu perguntava pelo gênero da palhaça. Ela brincava com os malabares, no picadeiro do Circo Roda Ciranda, que tão bem conhece. Levantou os olhos claros para mim e explicou: ela, a atriz, não trata as pessoas de forma desigual por ser homem ou mulher, o que torna a palhaça também um ser indiferente a essas marcações. Nariz vermelho de tricô, preenchido com papel (que ela mesma fez), segue pendurado em seu pescoço, enquanto Amanda anula as oposições e inventa, artesanalmente, um jeito de tratar as pessoas conforme a própria relação estabelece. Nada pronto.
Amanda deixa-me confusa. Estranho. Parei e observei. Deparei-me com seu nariz de tricô feito a mão, pendurado no pescoço. Foi somente depois de refletir sobre ele que reconheci em Amandioca a postura por meio da qual desejava olhar para o feminino da palhaça. Demarcar oposições, guerra dos gêneros, passou a significar passar para o outro lado e perpetuá-lo: o lado do antigo e contínuo esforço por delimitar o lugar do homem e da mulher, separadamente,
tratando-nos em desigualdade e criando, portanto, posições e oportunidades sociais distintas. Amanda inventou um jeito artesanal, feito à mão, de evitar isso. Os espaços rigidamente femininos e masculinos, subvertidos por Amanda, tendem a diminuir nossa vivacidade. São condições mortas e estanques, que não representam nossos anseios existenciais.
Fotografia 2- Amanda, palhaça Amandioca, Macapá(AP)
Fonte: Andréa Flores, 2013.
[...]. Conclusão: se quisermos evitar que a guerra politicamente correta dos e pelos gêneros se transforme numa guerra politicamente nefasta para a vida, será preciso travar simultaneamente uma guerra contra a redução das subjetividades a gêneros, a favor da vida e suas misturas. (ROLNIK, 1996, p. 4).
Concordo com Suely Rolnik (1996): a perpetuação dos gêneros é uma tentativa de defendermo-nos dos processos de mistura, mestiçagem, tão presentes em todos os tempos históricos e exacerbados na atualidade. É preciso deslocar-se da lógica da representação, do visível, para aquela das multiplicidades e devires, onde habita Amandioca. Perpetuação da vida, ao invés da perpetuação dos gêneros, artesanalmente desfeita. Eu digo: onde corpos se olham,
livres das roupas. Desejam-se, tocam-se, entrelaçam-se e geram prazer. Eles se reconhecem diferentes, mas, tão emaranhados, já não percebem a barreira entre si.
Ambos devêm. Devir-mulher.
nem imitar, nem tomar a forma feminina, mas emitir partículas que entrem na relação de movimento e repouso, ou na zona de vizinhança de uma microfeminilidade, isto é, produzir em nós mesmos uma mulher molecular, criar a mulher molecular. Não queremos dizer que tal criação seja o apanágio do homem, mas, ao contrário, que a mulher como entidade molar tem que devir-mulher, para que o homem também se torne mulher ou possa tornar-se. É certamente indispensável que as mulheres levem a cabo uma política molar, em função de uma conquista que elas operam de seu próprio organismo, de sua própria história, de sua própria subjetividade: "Nós, enquanto mulheres..." aparece então como sujeito de enunciação (DELEUZE, GUATTARI, 1997, p.59).
Fazer comunhão consigo, não comparação13. Descobrir a mulher molecular, por detrás da histórica subjetividade pré-construída para o feminino. Um olhar sobre si, desfazendo a forma feminina, por meio da emissão de partículas que nos digam: “eu, enquanto mulher”. Buscar, a todo momento, o desejo, o prazer que está em si mesma. Singularidade que guarda, a meu ver, muito mais possibilidades de provocar rupturas, que o discurso sobre as aparências. Para que, afinal? Para saber falar do feminino e do que nos cerca, desde outros gêneros possíveis, passando pelas mazelas e lutas sociais, até chegar à arte e na arte da palhaçaria.
“As palhaças vão dominar o mundo!”, anuncia Rosana Coral, palhaça Bromélia, de Belém (PA). Ah, eu concordo. O que percebo no feminino é “uma potência contra a lei, um interior da terra que se opõe às leis da superfície” (DELEUZE, 2006, p.26). Na superfície estão as oposições. No interior, invisível, território movente, que acolhe as diferenças emergentes e traça novos territórios, sua própria cartografia (ROLNIK, 1996). A potência é essa interioridade em devir do feminino, no singular, situado na repetição de todos os femininos viventes; e que encontra, na repetição, a diferença em ser mulher, potência em si mesma, em comunhão consigo. Um dia vamos dominar o mundo. Aguardem.
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