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Palimpsesto como hipertexto: a transtextualidade

CAPÍTULO 3 LITERATURA E INCESTO: O MÍTICO E O CONTEMPORÂNEO

3.4 Palimpsesto como hipertexto: a transtextualidade

Na obra de Genette (1982), a metáfora do palimpsesto é usada para encabeçar as discussões acerca do que ele entende por transtextualidade, conceito cuja compreensão considero fundamental para uma análise mais profunda das dinâmicas de produção de fan

fictions, bem como de sua possível associação a alguma forma de atividade mítica. Com efeito, penso que as concepções de Genette (1982) sugerem que incesto e palimpsesto guardam relações ainda mais estreitas que as até aqui destacadas a partir da releitura de Édipo Rei e das considerações psicanalíticas sobre o complexo edípico.

Por transtextualidade, ou “transcendência textual do texto”, Genette (1982, p. 13) entende “tudo o que o coloca em relação, manifesta ou secreta, com outros textos”, em dinâmicas que seriam, em seu entendimento, constitutivas ao fazer textual. Estes movimentos de atravessamento de um texto por outro se organizam, para Genette (1982), em cinco formas principais, que agora defino, uma a uma: intertextualidade, paratextualidade, metatextualidade, arquitextualidade e hipertextualidade.

A intertextualidade, que talvez seja a mais conhecida e a mais estudada dessas associações, não é vista por Genette (1982) da mesma forma que por outros estudiosos, que costumam aplicar o termo a toda a multiplicidade das práticas transtextuais. De forma mais restrita, Genette (1982) sugere que a intertextualidade é uma “relação de co-presença”, marcada pela “presença efetiva de um texto em outro” (GENETTE, 1982, p. 14), a qual pode se dar por mecanismos explícitos, como a citação, ou implícitos, como a alusão.

A própria elucidação das demais relações transtextuais explicitará, pois, que a co- presença não é a única maneira de um texto afiliar-se a outro. A paratextualidade, por exemplo, descreve a relação entre um texto e os elementos que o apresentem e organizem em termos mais pragmáticos, como “(...) título, subtítulo, intertítulos, prefácios, posfácios, advertências, prólogos etc. (...)” (GENETTE, 1982, p. 15). Nas fan fictions, os exemplos de paratextos incluiriam, portanto, as notas iniciais dos autores, os alertas quanto ao conteúdo e as categorizações. Não cabe pensar, por exemplo, que a nota inicial de um autor quanto ao próprio texto esteja citando-o de forma intertextual, uma vez que essa referenciação se dá com objetivos pragmáticos e efeitos distintos dos da intertextualidade.

Da mesma forma, Genette (1982) percebe uma distinção entre os mecanismos de intertexto, paratexto e metatexto: este último descreveria o texto que guarda com outro uma ligação de comentário, a “(...) relação que une um texto ao outro do qual ele fala” (GENETTE, 1982, p. 17), a exemplo do que se vê em uma obra de crítica literária. Neste estudo, os metatextos serão, de forma muito clara, os reviews, comentários dos leitores acerca de cada segmento narrativo lido.

A mais silenciosa de todas essas formas de transcendência textual seria a da arquitextualidade, concernente a uma espécie de relação de pertencimento que um texto guarda com determinados conjuntos ou gêneros com os quais se identifica. Trata-se, em geral, de uma

associação taxonômica, que não se costuma explicitar no texto em si mesmo, mas que lhe é atribuída pelo leitor, a depender de suas próprias percepções (GENETTE, 1982, p. 17). Refere- se, por exemplo, ao reconhecimento, por parte do leitor, de um texto como fan fiction, e, mais especificamente, da percepção de que estas, usualmente, aproximam-se de outras formas consagradas do gênero narrativo. Note-se, pois, que é por um procedimento arquitextual que se faz possível, aliás, a própria formulação do objeto deste estudo, baseado no estabelecimento, enquanto recorte, de um subconjunto específico de fan fictions aproximadas por um critério temático, qual seja o de abordarem a questão do incesto.

Como se vê, creio que nenhuma das formas de relação apresentadas dá conta de caracterizar a ligação perceptível entre uma fan fiction e suas assim chamadas “fontes”. Seria impreciso, por exemplo, afirmar que uma fan fiction baseada em Harry Potter se marca pela convocação de uma presença efetiva, ainda que parcial, dos textos da saga, a título de citação ou alusão. Muito menos se pode entender as fanfics apenas como comentários ou textos que acompanham, enquanto suporte pragmático, os objetos culturais tomados por fontes. Por isso, considero que é a hipertextualidade que oferecerá a melhor compreensão da relação de derivação aí estabelecida. O hipertexto designa, para Genette (1982, p. 18), uma noção mais ampla de texto derivado, que ele associa à curiosa metáfora de um “brotamento”. Nas palavras dele: “[e]ntendo por hipertextualidade toda relação que une um texto B (que chamarei hipertexto) a um texto anterior A (que, naturalmente, chamarei hipotexto) do qual ele brota de uma forma que não é a do comentário” (GENETTE, 1982, p. 18).

A relevância desta discussão está em que, para Genette (1982), um hipertexto pode derivar de seu hipotexto por dois mecanismos principais: a imitação, que consiste na tentativa de repetição de certos traços constitutivos do texto tomado por fonte; e a transformação, procedimento de modificação que estabelece as diferenças entre uma obra e outra. A análise desses mecanismos torna mais visíveis as distinções entre a hipertextualidade e as demais formas de transtextualidade, conforme me detenho a comentar brevemente.

Em geral, para Genette (1982), o hipertexto se marca por uma forma de imitação com transformações maciças em relação ao hipotexto, e, ao contrário do comentário (metatexto) ou dos elementos paratextuais, é reconhecido mais claramente como uma nova construção literária. Em relação à intertextualidade, afirma Genette (1982) que sua compreensão não pode ocorrer sem o conhecimento do texto citado, enquanto a hipertextualidade, diferentemente, produz em geral um texto derivado bastante autônomo, passível de ser lido independentemente, ainda que seus sentidos possam ser nitidamente ampliados pela comparação quanto a seus hipotextos.

Ora, no caso das fan fictions, é bastante perceptível que seu caráter derivativo é alcançado precisamente por meio de operações de transformação e imitação. A meu ver, penso que se aplicam, pois, às fan fictions todas as observações de Genette (1982) quanto à hipertextualidade, em especial no que tange aos mecanismos que organizam sua produção e os tipos de práticas em que estes se inserem. A análise genettiana dessas propriedades, bastante diligente e minuciosa, não será, no entanto, retomada por completo, salvo naquilo em que efetivamente auxilie a compreensão, justamente, do caráter palimpséstico do incesto e das respectivas fan fictions que o retratam.

Há que se destacar, nesse sentido, que, para Genette (1982), o hipertexto é o palimpsesto por excelência, uma vez que conserva visíveis, por mais que transformados, determinados traços de seus hipotextos. Ao comentar as versões estendidas ou reduzidas de Édipo Rei, por exemplo, ele demonstra que elas mantêm evidentes, por imitação, alguns traços constitutivos da tragédia tida por fonte, tais como personagens, cenas, espaços e conflitos, ainda que a outros transforme. Da mesma forma, toda fan fiction imita determinados aspectos de seus hipotextos, ao passo que a outros transforma, às vezes profundamente. Aliás, também segundo Genette (1982, p. 43), é possível que um hipertexto tome como fontes uma variedade de objetos textuais, imitando um, transformando outro, e imiscuindo, no processo, alguns elementos novos, extraídos da própria vida ou da criatividade dos artífices. Trata-se precisamente, como se verá, o que acontece em diversas das fan fictions aqui observadas.

Para potencializar a leitura de um hipertexto, Genette (1982, p. 144) assinala a importância de identificar seus hipotextos, bem como os procedimentos de imitação e transformação empregados em sua constituição. Isso explicaria, para ele, por que é de praxe que os hipertextos sejam acompanhados por paratextos que indicam os textos tomados por fonte e, muitas vezes, alertam ao leitor para as intenções do processo de derivação produzido, que podem ser mais ou menos sérias, lúdicas ou satíricas. Depende, aliás, desses traços, a caracterização dos gêneros que, para Genette (1982), são notadamente hipertextuais, como a paródia e o pastiche. Em vista dos objetivos deste estudo, não pretendo detalhar cada uma das diferenças entre tais gêneros, mas antes focalizar os procedimentos imitativos e transformativos que os constituem, bem como seus respectivos efeitos de sentido.

Quanto à imitação, Genette (1982) explica que um hipertexto pode copiar de seu hipotexto diversos aspectos: a forma, o sentido, o estilo. No entanto, nenhuma imitação é perfeita, de tal modo que sempre corresponde, necessariamente, a certo movimento de transformação ¾ algo até usualmente assumido de forma explícita pelo imitador (a menos que deseje incorrer em plágio ou falsificação). As operações de transformação, por sua vez, são as

mais variadas, das quais destaquei algumas, a depender de sua relevância para as posteriores análises:

• Suplementação (GENETTE, 1982, p. 52): caso em que o hipertexto se propõe a desenvolver determinados aspectos não desdobrados no hipotexto. Apresenta- se, usualmente, a título de continuação ou, mais comumente, interpolação, ainda que, a rigor, não faça senão extrapolar. Nesse sentido, um suplemento é um hipertexto complementar pela forma, pois que a imita, e substitutivo pelo conteúdo, como aliás é o caso da maioria das fan fictions;

• Excisão (GENETTE, 1982, p. 76): procedimento de redução do hipotexto por meio da eliminação de determinado elemento ou fragmento, usualmente para corresponder a fins específicos, como o de adaptação da obra a públicos distintos ou mesmo a censura de elementos considerados proibitivos (expurgação). Trata-se de mecanismo fortemente presente nas fan fictions, que não raro recontam determinadas narrativas a partir do apagamento de certos elementos, e produzem versões mais ou menos censuradas, por exemplo, das atividades sexuais que vêm a narrar;

• Condensação (GENETTE, 1982, p. 87): produção de uma síntese autônoma do texto fonte, de maneira a possibilitar sua apreensão geral. Usualmente, esse procedimento tem função didática ou metaliterária, pois resulta em formas como as sinopses e os resumos. Aparece, portanto, nas práticas de escrita de fan fiction quando da elaboração dos elementos paratextuais, que por vezes incluem uma amostra mínima do enredo ou do estilo que a narrativa terá, a fim de convencer o leitor interessado a mergulhar-se nele;

• Extensão (GENETTE, 1982, p. 99): aumento de um hipotexto por adição maciça de novos elementos, como a anexação de personagens, detalhamento de determinados aspectos do enredo, inclusão e aprofundamento de novos conflitos ou contaminação (para usar o mesmo termo que Genette) por elementos de outras obras. Analiso a extensão como o procedimento mais usual na criação de fan fictions, que com grande frequência consistem ou num relato detalhado de situações que os hipotextos apenas insinuam, ou na adição, ao enredo, de elementos narrativos que as fontes em geral não contemplam. No caso específico das narrativas de incesto, é muito comum que as fanfics se caracterizem justamente pelo acréscimo, aos hipotextos, de personagens e

situações relativas ao contexto familiar, a partir da criação das figuras de primos, irmãos, pais, filhos, por exemplo;

• Ampliação (GENETTE, 1982, p. 87): mecanismo que consiste em aumentar um hipotexto não só através da extensão, mas também por meio de uma dilatação estilística, evidente pela expansão linguística de componentes textuais a princípio circunstanciais, realizada por exemplo a partir do acréscimo, a determinada sentença, de mais advérbios e adjetivos. Para Genette (1982, p. 111), devem ser lidas como procedimentos de ampliação as constantes alterações operadas sobre as tragédias da Antiguidade, que desde então vêm sendo retomadas em uma miríade de novas versões, marcadas não aprenas pelo acréscimo de elementos narrativos novos, como também pela reformulação estilística de seus componentes iniciais;

• Transmodalização intermodal (GENETTE, 1982, p. 117): mudanças quanto ao modo de representação do hipotexto, que pode ser tornado mais ou menos narrativo ou dramático. Nesse caso, a transformação de um texto narrativo em sua versão adaptada ao teatro consiste na chamada dramatização, enquanto o movimento oposto (tido por Genette como muito raro) consiste em narrativização. Tratarei com mais detalhe a diferenciação proposta por Genette entre os modos narrativo e dramático no capítulo 4; no entanto, já ressalto que aparecem ambos os procedimentos nas fan fictions. Estas, em geral, operam num misto entre os dois modos; assim, por vezes expressam, como a análise revelará, forte vinculação ao dispositivo cênico, audiovisual (narrativa “que mostra”) enquanto, em outros casos, revelam predominância do mecanismo do relato (narrativa que conta).

É por oferecer tal descrição das operações transformativas, a obra de Genette (1982) tem importância crucial neste estudo, pois certamente facilita a caracterização dos textos que aqui analiso, oferecendo um instrumental descritivo e reflexivo que permitirá compreender e apresentar melhor os mecanismos transformativos e imitativos pelos quais as narrativas de fan fiction são constituídas. Além disso, o detalhamento das operações de imitação e transformação que caracterizam a hipertextualidade elucida de forma brilhante a metáfora do palimpsesto, enfatizando seu efeito de inegável ambiguidade, entre o que se apaga e o que se mantém. Nas palavras do próprio Genette (1982, p. 144, grifo do autor), “[e]ssa duplicidade do objeto, na ordem das relações textuais, pode ser figurada pela velha imagem do palimpsesto, na qual

vemos, sobre o mesmo pergaminho, um texto se sobrepor a outro que ele não dissimula completamente, mas deixa ver por transparência”.

Tal metáfora privilegia, nesse caso, a percepção de que ler um hipertexto corresponde a ler, em um texto, pelo menos dois: o velho e o novo, em complexo coexistir. Bem por isso, pode-se pensar tal leitura como um procedimento similar ao empregado por Lévi- Strauss (1958), quando propõe que um mito leia outro: uma leitura inevitavelmente relacional, transtextual por excelência e, bem por isso, como afirma Genette, prazerosamente perversa (GENETTE, 1982, p. 145). A partir da figura do palimpsesto, o hipertexto, da mesma forma que o mito, pode ser visto como domínio de uma sobreposição, de uma (re)criação indevida e até da brincadeira, procedimentos entendidos como atribuições de usos até então imprevistos aos objetos do mundo. A meu ver, é justamente nisso que consiste o movimento da atividade mítica que compõem as fan fictions, movimento que considero similar ao do próprio inconsciente, que em pulsão de ficção se põe sempre a criar, desdobrando novos sentidos associativos para o que já estava lá.

Para aprofundar essa aproximação entre a hipertextualidade e atividade mítica, proponho-me neste momento a abordar as propriedades dos mitos a partir da reflexão de Barthes (1957), que evidencia a importância, na leitura mítica, do que se pode chamar de uma duplicidade de discurso. Da mesma forma que nos hipertextos, tal ambiguidade está diretamente ligada aos diferentes efeitos de sentido que a análise de um mito vem a possibilitar. Nas fan fictions sobre incesto, esse estatuto duplo se apresenta fortemente; assim, proponho pensar esses textos simultaneamente como hipertextos e narrativas míticas: no primeiro aspecto, porque imitam e ao mesmo tempo transformam objetos tomados por fonte, à luz dos quais sua leitura pode se modificar profundamente; no segundo aspecto, porque a organização de seus elementos narrativos permite lê-los como variações de estruturas já muito consolidadas nas mitologias que, em algum grau, sustentam diversos componentes de nossas atividades culturais.