3. BREVE HISTÓRICO DE USO DAS ÁGUAS NO BRASIL
3.4. O SANEAMENTO NO B RASIL
3.4.2. Panorama presente
As questões de saneamento atuais no Brasil têm sido melhores e mais
profundamen-te estudadas. O acesso a esprofundamen-tes dados é de fácil aquisição, uma vez que o país conta com
uma larga difusão de resultado de suas pesquisas. A criação da Agência Nacional de
Á-guas
10(ANA) reflete esta realidade, sendo um marco na história dos recursos hídricos do
10
país. A ANA dispõe um vasto banco de dados em seu sítio virtual, divulgando publicações e
dados de pesquisas voltadas aos recursos hídricos.
O setor de saneamento está diretamente ligado a questão da qualidade das águas
(gráfico 15). Dados publicados pela ANA dispõem sobre este tema em abrangência
nacio-nal, aferindo seus percentuais. O Índice de Qualidade das Águas (IQA) é medido dentro de
uma escala de 0 a 100, onde 0 representa péssima qualidade e 100, ótima.
Gráfico 15. Distribuição percentual do Índice de Qualidade das Águas no Brasil.
Fonte: ANA, 2005a.
Apesar de sua importância, o IQA tem suas limitações; ele não leva em conta, por
exemplo, metais pesados e agrotóxicos em sua base de cálculo. Contudo, é o indicador
mais largamente utilizado como referência. Para esta finalidade, o Ministério da Saúde (MS)
Fez uma atualização das normas de controle e vigilância da qualidade da água para
consu-mo humano. Buscando a elaboração de uma normal factível e de aplicação nacional, o MS
fez um processo de revisão envolvendo todos os agentes interessados no setor, concluindo
seus Esforços na publicação da Portaria MS. nº 518/2004, que institui o padrão de
potabili-dade e vigilância da qualipotabili-dade das águas de consumo humano. No ano seguinte, o Decreto
nº 5.440/2005 ratificou a importância da qualidade das águas expostas pela Portaria MS nº
518/2004, e estabeleceu instrumentos mecanismos de informação ao consumidor, cabendo
a fiscalização desta aos órgãos do Ministério da Saúde, Justiça, Cidades e Meio Ambiente,
além das autoridades Estaduais e municipais. O indicador de consumo de água (figura 10)
passa a assumir importante papel, pois este está atrelado à qualidade das águas, como
a-presentado no capítulo 2 – da colonização e aumento populacional com degradação dos
recursos hídricos através do consumo desenfreado. Observa-se ao longo da história que o
aumento da população provoca danos diretos na qualidade das águas, e no mesmo sentido,
nas demandas por saneamento básico.
5% 71% 14% 8% 2% Ótima Boa Aceitável Ruim Péssima
Figura 10. Distribuição de consumo médio per capita de água por bacia hidrográfica.
Fonte: SNIS, 2005.
Em análises comparativas, de acordo com os mapas apresentados nas figuras 9 e
10, torna-se visível a condição crítica da RH Atlântico Sudeste, principalmente no Estado do
Rio de Janeiro, onde apresenta um consumo médio maior que seu atendimento; a condição
de escassez já é fato no país, principalmente em algumas de suas regiões.
O principal fator degenerativo da qualidade das águas no Brasil é o lançamento de
esgotos domésticos; apenas 47% dos municípios possuem rede coletora de esgotos (figura
11) e, destes, somente 18% recebem algum tipo de tratamento (ANA, 2005a). A
contamina-ção das águas naturais representa uma das maiores fontes de risco à saúde pública,
princi-palmente para a parcela da população que não tem acesso aos serviços adequados de
sa-neamento (LIBÂNIO et al, 2005).
Figura 11. Atendimento total de esgoto.
Fonte: SNIS, 2004a.
A criação da Resolução CONAMA 357/2005 demonstra a preocupação do país
quan-to a qualidade de seus corpos hídricos; esta Resolução visa o enquadramenquan-to dos corpos
de água em metas a serem alcançadas futuramente, divididas em obrigatórias e
intermediá-rias. Este enquadramento não é baseado na qualidade atual, mas sim no padrão que
deve-ria ser encontrado. A CONAMA 357/2005 visa o controle da poluição, protegendo as águas
e, conseqüentemente, a saúde pública, elaborando instrumentos que acompanhem a
evolu-ção da qualidade destes corpos. O país ainda sofre de carência por redes coletoras, mas os
avanços conquistados têm sido positivos, gerando boas perspectivas futuras. O gráfico 16
apresenta um comparativo neste âmbito, da evolução das redes coletoras entre os anos de
1992 a 2007. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), o
ano de 2007 apresentou um aumento percentual de 3 pontos na população urbana com
a-cesso a rede coletora de esgoto em relação ao ano anterior, sendo o maior aumento nos
últimos 15 anos.
Gráfico 16. Percentual de pessoas em domicílios particulares permanentes urbanos com esgotamento por rede coletora ou fossa séptica, segundo regiões geográficas – 1992-2007.
Fonte: PNAD, 2008.
Um estudo do PMSS (2008a) observou que, dentre os domicílios urbanos, 87,3%
são casas e 11,3% são apartamentos. Estes últimos possuem o maior índice de
abasteci-mento de água (96,1%), acesso aos serviços de esgotaabasteci-mento sanitário (85,8%) e coleta de
resíduos sólidos (93,5%). Já nos domicílios tipo cômodo (1,4%), observaram-se os menores
índices de acesso à água (57,2%), esgotamento sanitário (46,1%) e coleta de resíduos
sóli-dos (79,4%). O estudo afirma que de acordo com o número de cômosóli-dos, maior o índice de
acesso aos serviços prestados. Os domicílios localizados em áreas subnormais apresentam
os menores índices.
Atualmente existe o Projeto de Lei nº 1.991/2007 que institui a Política Nacional de
Resíduos Sólidos, com o objetivo de proteger a saúde pública, a qualidade do meio
ambien-te; a redução, reutilização e tratamento dos resíduos sólidos, entre outros instrumentos e
mecanismos dispostos a contribuir para um desenvolvimento sócio-econômico equilibrado
ao meio ambiente. Este Projeto substituiu o antigo, o Projeto de Lei nº 4.147/2001, o qual
fora severamente criticado pela sociedade e agentes do setor; sua maior crítica era a
pro-moção de uma maior facilidade de privatização das CESBs.
Recentemente, vigorou a Lei nº 11.445/2007 que estabeleceu as diretrizes nacionais
para o saneamento básico. Seus princípios fundamentais são: universalização do acesso,
integralidade, abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana, manejo dos
38,4% 43,9% 82,8% 67,4% 39,8% 66,1% 63,8% 68,4% 93,3% 85,0% 52,3% 81,0% 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100%
Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Brasil Urbano
1992 2007
resíduos sólidos, controle social, eficiência e sustentabilidade econômica, entre outros. Esta
Lei marca a evolução brasileira e sua constante luta pela saúde pública, porém o país ainda
necessita de melhor regulação e estruturação no setor.
No âmbito legal, diversas foram as leis, resoluções e projetos de lei elaborados para
o setor. A tabela 8 mostra uma cronologia geral da legislação de interesse.
Tabela 8. Cronologia geral da legislação de interesse ao setor de saneamento.
NÚMERO EMENTA
Lei nº 6.938/81 Institui a Política Nacional do Meio Ambiente. Constituição Federal de 1988 Constituição Federal do Brasil.
Lei nº 9.074/95 Estabelece normas para outorga e prorrogações das concessões e permissões de serviços públicos e dá outras providências.
Lei nº 9.433/97 Institui a Política Nacional de Recursos Hídricos e cria o Sistema Nacional de Gerenci-amento de Recursos Hídricos.
Lei nº 9.984/2000 Cria a Agência Nacional de Águas.
Portaria 518/MS de 2004 Estabelece os procedimentos e responsabilidades relativos ao controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade.
Resolução CONAMA 357/2005 Classifica os corpos de água e estabelece diretrizes ambientais para o seu enquadra-mento; estabelece as condições e padrões de lançamento de efluentes.
Decreto nº 5.440/2005 Estabelece definições e procedimentos sobre o controle de qualidade da água de siste-mas de abastecimento e institui mecanismos e instrumentos para divulgação de infor-mação ao consumidor sobre a qualidade da água para consumo humano.
Projeto de Lei nº 1.991/2007 Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos.
Lei nº 11.445/2007 Estabelece diretrizes nacionais para o saneamento básico.
Fonte: Elaboração própria, a partir de PENA e ABICALIL, 1999; FARIA e FARIA, 2004; LIBÂNIO et al, 2004; BRASIL, 2007a; PMSS, 2008b.
O Brasil, em seu plano hodierno, conta com o ―Programa Saneamento para Todos‖,
mediado pelo PAC – Programa de Aceleração do Crescimento. O PAC creditou à Caixa
E-conômica Federal a quantia de R$5,2 bilhões para serem investidos exclusivamente em
sa-neamento básico e habitação popular (BRASIL, 2007a). O Programa tem por objetivo
pro-mover melhorias na qualidade de vida e condições de saúde da população, por meio de
a-ções integradas de saneamento básico no meio urbano, além de investimentos nos serviços
de abastecimento de água, esgotamento sanitário, saneamento integrado, desenvolvimento
institucional, manejo de águas pluviais, manejo de resíduos sólidos, manejo de resíduos de
construção e demolição, preservação e recuperação de mananciais, e estudos e projetos
fomentando novas perspectivas de atuação (BRASIL, 2008). A implementação do PAC
re-presenta uma modelagem da política nacional de saneamento, pois a interpretação do
Pro-grama conduz ao esclarecimento de seus objetivos e metas, estes circundados por uma
avaliação da atual política do setor (FILHO, 2008).
O país também conta, em sua agenda, com a execução do Plano Nacional de
Sane-amento Básico (PLANSAB), este sob elaboração e deliberado por meio da Lei nº
11.445/2007. O PLANSAB será instrumento capital para retomada fiscal do governo federal
frente as políticas públicas de outros setores – por meio de avaliação sistemática da
eficiên-cia e eficáeficiên-cia das ações executadas – e promoção da universalização do acesso aos
servi-ços de saneamento como um direito social, através de metas de curto, médio e longo prazo.
Este abrangerá e orientará a integração das modalidades e ações do saneamento básico
nacional, além de contar com articulação e compatibilidade com outros Programas e órgãos
existentes (MCID, 2008). As expectativas de investimentos no setor são aferidas na tabela
9.
Tabela 9. Investimentos em Sistemas de Água e Esgotos por Região Geográfica. Regiões/Investimentos (em milhões de R$) Em 2000 Em 2010 Em 2015 Em 2020 Norte 6.753,8 11.274,6 13.835,5 16.307,3 Nordeste 16.888,5 27.318,8 32.267,2 37.324,6 Sudeste 27.165,5 50.349,3 62.416,0 74.404,0 Sul 12.984,2 23.211,0 28.098,3 33.055,2 Centro-Oeste 6.320,3 11.470,2 14.506,9 17.314,0 BRASIL 70.112,3 123.623,8 151.123,9 178.405,0
Fonte: MCID, apud MMA, 2009.
O PAC e o PLANSAB representam novos desafios para a consolidação institucional.
Estes devem se precaver para, no futuro, com o findar de seus recursos, não se depararem
com o risco de retornarem a uma condição passada e retrógrada de ausência de coesão
entre os setores, rupturas políticas e institucionais, paralelismo e superposição de
compe-tências.
Os ideais de autonomia e auto-sustentação ainda são um desafio. A política federal
passada, visando aplicar seus investimentos somente em regiões que tivessem um
potenci-al de autonomia financeira a médio-longo prazo. Entretanto, potenci-algumas esferas políticas
me-nores desviavam estes investimentos para as áreas que não apresentavam tal potencial, a
fim de seus próprios interesses. A questão de saneamento é plural, não sendo viável e sábio
aplicar seus investimentos de maneira isolada; a figura 12 esboça as interfaces do
relacio-namento do setor de saneamento com a saúde pública e a gestão de recursos hídricos.
Figura 12. Interfaces do saneamento com a gestão de recursos hídricos e com a saúde pública.
Fonte: LIBÂNIO et al, 2005.
O atual modelo de gestão do setor de saneamento pode ser caracterizado por dois
pontos principais: primeiro, pela possibilidade de alternância entre as formas em que o
mu-nicípio pode prestar os serviços de saneamento básico (ora por meio das CESBs, ora por
meio do setor privado); e segundo, pela ausência de regulação melhor definida e
estrutura-da para promover melhor suporte nas diferentes esferas na prestação dos serviços.
• Defesa Civil
• Educação Ambiental
• Abastecimento de água para consumo humano
• Tratamento de efluentes líquidos e esgotamento sanitário • Drenagem Urbana
• Atendimento médico • Vigilância sanitária
• Campanhas de imunização • Outros
• Controle da emissão de gases prejudiciais à saúde humana • Coleta e Tratamento/Disposição de resíduos sólidos
• Preservação/Recuperação de ecossistemas terrestres • Controle da emissão de gases do efeito estufa • Remediação de sítios contaminados
• Outros • Aqüicultura, Pesca • Navegação • Geração de energia • Outros Preservação/Recuperação de ambientes aquáticos •