2 CARREIRA: FUNDAMENTOS E DIMENSÕES

2.2 Papéis como componentes das carreiras

Os papéis permeiam a carreira ao longo da vida dos indivíduos (VAN MAANEN; SCHEIN 1979), e auxiliam na compreensão dos propósitos da vida profissional (INKSON, 2007). Eles também evidenciam orientações sobre como as pessoas devem se comportar, com indicações sobre o que é necessário e esperado como parte do exercício de suas funções, no presente e no futuro (MORRISON, 1993; INKSON, 2007). Em adição, podem conferir significado à vida das pessoas, e devem ser entendidos por meio de expectativas sociais e do próprio individuo (SUPER, 1980).

Embora os papéis possam ser externamente prescritos em diversos contextos, e forneçam orientações formais para o trabalho, assim como para o alcance de desempenhos nas carreiras, admite-se que eles são passíveis de questionamentos e mudanças. É limitada a afirmação de que os papéis são estáveis ou que refletem coesão grupal. Ratifica-se que eles devem ser considerados como mutáveis e passíveis de questionamentos, assim como comportam múltiplos significados. Cumpre esclarecer que significados podem ser influenciados pela estrutura social, contudo, sem que isso suplante a reflexão pelos seres humanos, e pela qual os significados são criados (GIDDENS; SUTTON, 2013). Diante disso, entende-se que os papéis

[...] se referem a posições mais ou menos institucionalizadas na estrutura social [...] papéis não são fixos [...] seu significado é negociado dentro de restrições estruturais em diferentes contextos socioculturais (ISOPAHKALA- BOURET, 2008, p. 69).

Nessa linha argumentativa, considera-se que aquilo que é inserido ou excluído como parte do conteúdo de um papel, advém não somente de normas sociais, mas também das demandas individuais (ASFORTH, 2008). A aquisição de informações para o desempenho de um novo papel no trabalho passa necessariamente por uma interpretação pessoal, sobre sua composição e sobre o que é relevante (ISOPAHKALA-BOURET, 2008). Os papéis podem ser definidos nos âmbitos

individual, coletivo, ou em instituições sociais, e são passíveis de alterações ao longo do tempo, envolvendo determinação e negociação entre as pessoas.

Como perfazem conjuntos de referências, os papéis também podem representar uma dificuldade para os indivíduos, quando eles não conseguem compreendê-los ou desempenhá-los de acordo com o que foi prescrito. Assim, podem ocorrer indagações sobre quais papéis as pessoas julgam ter no presente, quais buscam no futuro, como eles foram definidos e por quem. Entender que os papéis são partes constituintes das carreiras pode implicar reconhecer que cada trabalho pode envolver múltiplos papéis, e que estes, podem mudar ao longo do tempo, que são definidos pelo próprio indivíduo ou por outras pessoas nas organizações nas quais trabalham e em instituições sociais nas quais as carreiras estão incorporadas, e que os papéis contribuem para o processo de construção das identidades (INKSON, 2007).

Cabe esclarecer que, por vezes, papel e identidade são considerados termos intercambiáveis. Entretanto, é possível afirmar que eles não são sinônimos (CASTELLS, 2001; SIMPSON; CARROLL, 2008). Castells (2001) entende que são conceitos diferentes, sendo que as identidades constroem significados e os papéis são organizadores de funções que as pessoas devem desempenhar, mas que também são fontes de significado para elas. Por sua vez, Simpson e Carroll (2008), alertam para o fato de que papéis nunca se tornam identidades, contudo, participam como um dos mediadores do processo de construção identitária. Avanços são constatados no debate sobre papéis e identidades, ao ser entendido que, embora distintos, são conceitos que possuem vinculação. Nesse encaminhamento, vários autores (BIDDLE, 1986; VIEIRA; LIMA; PEREIRA, 2007; INKSON, 2007; ASFORTH, 2008; ISOPAHKALA-BOURET, 2008; SIMPSON; CARROLL, 2008) reconhecem a importância do papel como um dos componentes no processo de construção das identidades. Castells (2001) esclarece que papéis vinculados ao mundo do trabalho, servem para os indivíduos como uma base para a construção de suas identidades profissionais.

De acordo com Inkson (2007), dois outros conceitos que auxiliam no entendimento das carreiras são: as expectativas de papel, e ambiguidade de papel. As

expectativas de papel são componentes socioculturais que indicam o que é esperado em termos de comportamento presente e futuro, de indivíduos e grupos, que procuram definir papéis para si e entre si. Quanto à carreira, os papéis articulados ao exercício do trabalho podem incorporar expectativas tanto formais, tais como descrições para a ocupação de cargos, como expectativas informais, individuais e de outras pessoas (INKSON, 2007). Ambos os tipos de expectativas são também parte do contexto que envolve as carreiras. Ao referenciar o contexto, Cranton (1996) afirma que papéis podem evidenciar expectativas habituais sobre os indivíduos para o tempo presente e futuro, estando vinculados a processos de aprendizagem, e passíveis de questionamentos e reflexão pelas pessoas.

Sobre a ambiguidade associada ao processo de definição dos papéis para uma carreira, e no contexto do trabalho, expectativas podem ser diferentes, incompatíveis e não indicadas com clareza, gerando diversos entendimentos. Diante disso, pode surgir a ambiguidade de papel. Em outras palavras, dúvidas acerca da natureza do que deve ser feito: Qual é o papel? O que deve ser feito? Indagações podem surgir no processo de mudança de papéis ao longo da carreira, contribuindo para que sejam modificados ou abandonados pelos indivíduos. Papéis podem não ser aceitos da forma como foram prescritos, ou de acordo com expectativas formais, ou informais, presentes no contexto em que os indivíduos vivem (INKSON, 2007).

Diferentes posicionamentos dos indivíduos podem existir diante dos papéis exigidos para o desenvolvimento de suas atividades laborais nas carreiras (VAN MAANEN; SCHEIN 1979; INKSON, 2007). Considerando os ambientes de interação social e incluindo o setor público, Van Maanen e Schein (1979) destacam alguns posicionamentos dos indivíduos em relação ao papel: custodial, inovação no conteúdo do papel e inovação de papel.

O posicionamento custodial indica que não ocorrem indagações em relação ao conhecimento, às estratégias e às missões associados ao exercício do papel. São aprendidas as exigências substantivas do trabalho, as estratégias habituais para atender as exigências e as normas que circundam o papel. Tal posicionamento revela a aceitação do papel e o zelo pelo seu cumprimento.

O posicionamento da inovação no conteúdo do papel indica que o indivíduo pode se sentir desconfortável, sobre a base de conhecimentos exigidos para um determinado papel. As pessoas partem para um posicionamento que revela iniciativas para ajustes, para melhorias, ou mudanças nesta base de conhecimentos requeridos. Tais melhorias são feitas para tornar mais eficientes as ações pelas quais os objetivos são coletivamente procurados, mas sem que ocorram alterações em elementos constitutivos centrais dos papéis, tais como missão e objetivos. Geralmente são melhorias no como fazer, para uma maior racionalização das tarefas vigentes e na direção das metas a serem alcançadas.

O posicionamento da inovação de papel indica que um indivíduo pode procurar redefini-lo, procurando alterar a missão, os objetivos, e a maioria dos componentes centrais que o compõem. É evidenciada a rejeição da maioria das normas que governam a conduta e o desempenho esperados para o papel. Iniciativas do seu titular se direcionam para a redefinição dos objetivos para os quais esse mesmo papel funciona, o questionamento de suposições e as convenções estabelecidas, que podem também resultar em discordâncias com indivíduos mais experientes no exercício deste papel.

O ambiente de trabalho para o servidor público não tem sido marcado na contemporaneidade pela prevalência da estabilidade e previsibilidade. Isso possui repercussões para o papel a ser desempenhado, por vezes, conduzindo a dúvidas e indefinições sobre as funções que ele deve realizar e aprender. Essas incertezas, de um lado, podem representar uma série de desafios culturais e intelectuais para a compreensão e o desempenho do papel. De outro, podem favorecer a redefinição dos próprios papéis relacionados aos servidores públicos (PETERS, 2009). Pesquisa desenvolvida por Christensen (1991) com servidores públicos civis na Noruega apontou que de diferentes maneiras, estes indivíduos aprendem a conviver com as demandas conflitantes no trabalho e com a ambiguidade de papel.

Papéis variados são identificados entre e para eles, tais como o de administrador, ou o de gerente, o de assessor e o de negociador (PETERS, 2009; BOURGAULT; DORPE, 2013), sendo este último, relevante para o servidor público na

contemporaneidade, diante dos múltiplos desafios em suas atividades laborais, e que evidenciam a limitação do seu papel como somente um implementador de leis (PETERS, 2009). Assim servidores públicos podem assumir e desempenhar funções gerenciais.

Como afirma Chanlat (2000) o gestor se apresenta como figura de destaque em diversos tipos organizações, e com desafios a superar diante da complexidade das funções que dele são demandadas. Assim, pode ser considerada sua importância como agente de mudanças, em outras palavras, no papel de transformador da realidade que o circunda.

Além do papel como componente da carreira, são apresentadas na literatura, diferentes formulações sobre ela e sua dinâmica. Nesse sentido, contribuições serão apresentadas nas demais seções deste capítulo.

No documento Carreira e aprendizagem: um estudo com gestores públicos federais egressos da Escola Nacional de Administração Pública (páginas 34-38)