• Nenhum resultado encontrado

2.3 A MODA COMO DISCURSO DOMINANTE

2.3.1 O papel da mulher

Pela visão de Crane (2013), as roupas são utilizadas para exprimir mensagens sociais, dentre elas maneiras pelas quais mulheres e homens exibem seus papéis de gênero. No século XIX, as roupas da moda traduziam o pensamento dominante e bastante restritivo do papel feminino, portanto dispunham elementos de controle social, ilustrando os papéis submissos e passivos que as mulheres deveriam exercer.

Na época, a ideologia dominante baseava-se na crença de identidades de gênero fixas e de diferenças essenciais entre homens e mulheres. Com a industrialização, as mulheres de classe média e alta foram retiradas da participação ativa na economia.

Na aristocracia dedicavam-se exclusivamente a atividades apropriadas para mulheres casadas. Eram frequentemente rotuladas de acordo com suas roupas e apelidadas de anáguas pelas charges políticas e sátiras da época. As vestimentas, restringiam o corpo e dificultavam os movimentos, com ornamentos elaborados e complicados.

Seus guardas roupas necessitavam mudanças constantes visto que cada ocasião

demandava um vestido específico. Isso exemplificava a exclusão das mulheres de ocupações predominantemente masculinas e sua dependência financeira dos maridos ou parentes do sexo masculino.

Segundo Braga (2004), os homens passaram a ficar cada vez mais com uma aparência séria e conservadora, mostrando o poderio financeiro da figura masculina.

Os contrastes visuais entre os dois gêneros eram alarmantes, sejam em volumes, cores, tecidos e ornamentos, o homem escondia quase todos os enfeites, à exceção de por exemplo, a corrente de seu relógio de bolso, que ficava aparente sobre sua roupa.

Portanto segundo Braga (2004), um complemento masculino que entrou em uso e se diferenciou-se passando a ser usado durante o século XIX foi a cartola, e simbolizava o forte poder econômico. Já moda feminina resgatou referências passadas. Os homens estavam trabalhavam e as mulheres relembravam o tradicional e exibiam o poderio dessa burguesia.

Sobre o século XX e a chegada da Primeira Guerra, Braga (2004) afirma que a ausência da figura masculina no trabalho, uma vez estando no campo de batalha fez a mulher atuar em diversos setores. As mulheres tomaram espaços predominantemente masculinos da área de saúde, transportes, agricultura e indústria, sendo está inclusive a bélica. Foi o início da emancipação feminina que durante a guerra foi uma obrigação, e depois um hábito.

Com os homens no campo de batalha, as mulheres tiveram que arregaçar as mangas e ir para o mercado de trabalho, libertando-se finalmente dos espartilhos e encurtando as saias até a altura das canelas. Começa aí todo um processo de emancipação feminina que pareceu não ter fim durante o restante da centúria. (BRAGA, 2015, p.

80)

Na conjuntura em que se inscreve o discurso de Crane (2013) percebeu-se que os ideais fixos de identidade de gênero e intolerância à ambiguidade de gênero foram lentamente desvanecendo no final do século XX. Contudo, os princípios hegemônicos para cada um dos gêneros de comportamento e aparência permaneciam bastante distintos. O princípio central para compreender o conceito de hegemonia é a percepção de que as definições hegemônicas de normas e padrões da sociedade parecem naturais e irrefutáveis. Se a mulher visualiza sua fisionomia e identidade pessoais como um projeto em construção, suas opções de compra misturam-se em

normas hegemônicas conflitantes, evidenciando a influência opressiva das mercadorias de moda e identidades pré-fabricadas, disseminadas através de imagens da mídia e seu próprio entendimento das diferenças de gênero.

Na moda feminina, uma silhueta mais simples às vezes pode ser relacionada a uma revolução social, guerra ou emancipação. Depois que a extravagância de Maria Antonieta foi guilhotinada na Revolução Francesa, convinha às mulheres usar o vestido império, que remetia às roupas largas dos tempos antigos. (COX et al., 2013, p.56)

Na Inglaterra em 1951, um homem conhecido como Mr. Bloomer chegou para tentar induzir as mulheres a vestir um corpete simples sob um tipo de túnica, com calças presas no tornozelo por cima de saias que iam até a altura do joelho. Logo após deste acontecimento, as mulheres reivindicaram o uso de calças, porém, naquele período considerava-se afrontoso, um abuso ao papel masculino. Apesar de algumas mulheres utilizarem, essa tendência não foi utilizada por todas. Com isso, a calça feminina só entrou em voga pela prática de ciclismo, por volta de 1901, e mesmo assim assemelhava-se mais às saias com costuras. (SCOZ et al., 2019)

Vestidos com quadris largos significaram fecundidade, decotes fundos e cinturas bem definidas marcaram feminilidade e sensualidade, de maneira que o lugar feminino não deveria ocupar o masculino, visto que essas pertenciam ao lar e por isso não vestiriam calças. (SCOZ et al., 2019) Poderia ser um tempo de ruptura, mas as concepções que desejavam romper foram somente quebradas após o século XX.

Pollini (2009) expõe que por volta de 1881 existiu o movimento traje racional, este pretendia alertar para o uso do espartilho, uma vez que este adulterava o corpo e sustentava uma moda insignificante. Formas amplas, soltas e sem o uso de anquinhas e espartilho, esse movimento ganhou força a partir do momento em que as mulheres começaram uma vida movimentada, visto que os espartilhos rígidos também caíram em desuso.

Ainda de acordo com Pollini (2009), a ideia extraída das vestes masculinas do século XIX, era a de que o homem exibia seriedade, das quais suas obrigações ultrapassavam a ‘’futilidade’’ da moda. Entre diversas causas, tal indício na distinção entre o masculino e feminino se devia ao crescimento da burguesia e seus costumes e também a regra das Leis de Imitação. Destinado ao labor, o homem mostraria princípios ‘’racionais’’ e ‘’sóbrio’’ em sua vestimenta e utilizaria sua esposa para

exibição. Logo, se analisarmos a moda feminina desta época, observaremos que ela se tornou complexa, pouco prática, dificultando a movimentação da mulher.

Exemplificando um enfeite, uma boneca perfeita que representa na sociedade o sucesso de seu marido e do lugar que comparece.

A democratização da moda caminhou junto com a desunificação da aparência feminina: esta tornou-se muito mais proteiforme, menos homogênea: pôde atuar sobre mais registros, da mulher voluptuosa à mulher descontraída, da school boy à mulher profissional, da mulher esportiva à mulher sexy. A desqualificação dos signos faustosos fez o feminino entrar no ciclo do jogo das metamorfoses completas, da coabitação de suas imagens díspares, por vezes antagônicas. (LIPOVETSKY, 1987, p. 87-88)

Durante a década de 1920 um evento social e econômico abalou a moda: a crise da Bolsa de Nova York, em 1929. Os chamados ‘’Anos Loucos’’ terminaram bruscamente. A moda e o humor se tornaram mais sérios, visto que o dinheiro sumiu do mercado. Em momentos de instabilidade, a tendência é acolher padrões rígidos e conservadores. Portanto, se a moda dos anos 20 colocava as mulheres como crianças, pela silhueta extinta, agora em tempos de depressão a sociedade necessitava homens e mulheres fortes, preparados para lidar com as desavenças. Por isso, os contornos femininos foram alterados inteiramente: a cintura voltou a posição original e sues ombros destacados. (POLLINI, 2009)

Conforme Cox et al., (2013) entre as duas guerras e seus diversos conflitos, a moda refletiu a transformação do papel feminino, que se juntaram ao trabalho. O resultado disso foi a masculinização da silhueta feminina, com seios achatados e vestido de cintura desabada. Os chapéus, firmados com grampos, agregavam os cabelos curtos com permanente.

Se a proteção contra o frio, sol e chuva fosse o único propósito dos chapéus, eles seriam bem simples e sem graça, com abas largas. Ao longo da história, as mulheres muitas vezes usaram chapéu para preservar sua virtude, mas também se aproveitaram de formas e tamanhos extraordinários para firmar posição na hierarquia social (COX et al., 2013, p.116)

No final dos anos 30, a palavra em voga era recessão. A silhueta feminina foi masculinizada em estilo militar e durou até o final dos conflitos. A Segunda Guerra inspirou a moda e o modo feminino em atitudes e referências de masculinização.

(SILVA, 2009)

Em 1940, com a invenção do ‘’New Look’’ por Dior, certos grupos culparam Dior de impulsionar um retrocesso: tirar das mulheres o avanço realizado durante os anos anteriores, 20, 30 e 40, influenciando com que estas usassem anáguas, luvas, cintas e barbatanas, itens característicos do século XIX, com sua misoginia e suas mulheres perfeitas. Na época, Chanel expos que Dior não vestia as mulheres e sim ‘’estofa-as’’.

(POLLINI, 2009) Com isso entende-se que Dior adicionava muito tecido, como se desejasse forrar um objeto.

Conforme descreve Silva (2009), nos anos 50 a mulher tinha uma vida mais em casa. Bebes nascidos após a guerra exigiam cuidados das mães. A mulher retornou ao lar e por isso garantiu o status de “Rainha do lar”, envolvida por seus utensílios domésticos e todas a comodidades que o mercado oferecia.

Já a partir dos anos 60, a minissaia entrou em voga, segundo Pollini (2009). Foi ela quem comunicou a revolução feminina, estética e dos hábitos... Para criar uma minissaia, é preciso, em média, 40 cm de tecido. Nunca antes tão pouco tecido produziu tanto, pois, se fosse preciso optar por um único símbolo de todas as revoluções, talvez foi a minissaia a que mais acumula prêmios para isto. Ela representou a revolução dos costumes, a revolução feminina, a revolução estética...

Um pequeno pedaço de tecido serviu como um divisor de ideias e costumes para a sociedade e a moda.

As mulheres batalhavam para se estabelecer em lugares exclusivamente masculinos na década de 70. Elas não desejavam apenas trabalhar, portanto tornaram-se executivas e vestiam-se de maneira similar a moda masculina, com saias e calças com blazers. Para um ar mais sério, podiam usar suspensórios e dinner jakets (espécie de paletó de smoking mais curto e aberto). (MOUTINHO E VALENÇA, 2007) Riqueza e autoridade viraram uma espécie de potentes afrodisíacos nos 80 e a moda espelhou atitude. Ombreiras enalteciam o corpo, transformando os tailleurs em uniformes de guerra, seu propósito: a ascensão feminina no campo profissional.

Portanto, expunha uma estética mais geométrica e cores mais ‘’sérias’’. (POLLINI, 2009) Seu objetivo era exibir ao mundo o sucesso feminino.

Logo, segundo Braga (2004), a sociedade e as tribos estabelecidas durantes as décadas, uma vez que não mais havia tanta diferença entre os discursos de moda por gênero, foi um reflexo que auxiliou o posicionamento feminino no mercado laboral.

Um dos ícones mais característicos dos anos 80 na moda feminina ter sido o intenso

uso de ombreiras e o tailleur, apropriação legítima da identidade masculina, deve-se ao reflexo dos movimentos sociais e dos movimentos de imposição feminina.

Finalmente, segundo Pollini (2009) em 1899, o economista norte-americano Thorstein Veblen publicou um dos principais ensaios sobre o assunto, o da Teoria da Classe Ociosa. Veblen reconhecia a moda como “expressão da cultura do dinheiro”.

Ressaltou o termo “desperdício ostensivo” em seu livro que exprime exatamente o lugar feminino no século XIX: um expositor que manifesta visualmente o triunfo financeiro de seu marido.

Documentos relacionados