• Nenhum resultado encontrado

Quando assume a direção do Institut für Sozialforschung, Horkheimer tem uma porção de desafios para enfrentar. Há os desafios de ordem prática, que dizem respeito tanto à organização administrativa do IfS, o estabelecimento e fortalecimento de contatos e parcerias intelectuais, e o gerenciamento dos pesquisadores e do grupo de pesquisa, quanto àqueles de ordem política, que se referem à instabilidade econômica e política do que viriam a ser os últimos anos da já cambaleante República de Weimar. Sobre os desafios teóricos, procurei mostrar brevemente no capítulo anterior alguns dos principais debates nas ciências sociais alemãs com que Horkheimer teve de lidar na direção de um instituto de pesquisa: as deficiências e limitações do marxismo “ortodoxo” e do revisionismo reformista, que perdem a dimensão filosófica da obra de Marx; a ascensão de uma teoria social da dimensão de Max Weber, que consegue demonstrar sem os idealismos conservadores as limitações do materialismo histórico em compreender a dimensão subjetiva da ação; e os debates do marxistas a respeito da psicanálise, numa discussão para saber até que ponto a teoria de Freud é, em primeiro lugar, compatível com o materialismo — isto é, se não haveria premissas idealistas que impediriam de saída uma integração —, e, em segundo, caso seja, de que forma essa compatibilidade pode ser realizada1.

1 Não podemos deixar de mencionar que a direção anterior, de Carl Grünberg, também se posicionava diante dos debates. Entretanto, sua linha de pesquisa arriscava menos no ponto de vista marxista, e se concentrava sobretudo em estudar a história dos movimentos operários da Alemanha, mostrando seus ganhos e suas limitações. Martin Jay, por exemplo, descreve Grünberg baseado nas diretrizes da revista que editava — revista que “se dedicou primordialmente a estudos históricos e empíricos, em geral baseados em um marxismo mecanicista e não dialético na tradição de Engels-Kautsky” (Jay, A

Horkheimer, no entanto, passa a adotar uma diretriz teórica menos convencional dentro da tradição do marxismo e do materialismo histórico. É tal diretriz que virá a ser chamada de materialismo interdisciplinar, e que dará início à tradição teórica que se conhece como “Escola de Frankfurt”2. Basicamente, esta diretriz traz a proposta de

integrar os ganhos teóricos e diagnósticos fornecidos pelas assim chamadas “ciências burguesas”, mas interpretando-as de maneira que sejam capazes de refletir a si mesmas em seu tempo histórico e em conexão com as condições materiais do próprio pensamento científico — questões que a pretensão de universalidade da ciência costuma minimizar e mesmo excluir de sua reflexão. Enfim, a pretensão de Horkheimer é a de estabelecer um fundamento teórico para um quadro colaborativo entre as disciplinas científicas, o que caracteriza a interdisciplinaridade do projeto. No caso, este fundamento teórico é o materialismo, a matriz filosófica capaz de exercer a autocompreensão da ciência enquanto atividade humana histórica.

Das ciências que Horkheimer inclui no materialismo interdisciplinar, a psicologia exerce um papel muito importante. Em “História e Psicologia” (1932), Horkheimer escreve a seguinte frase que caracteriza o papel da psicologia em seu projeto teórico: a psicologia é uma “certamente indispensável ciência auxiliar da história [freilich

do movimento operário, fundamentado em um “marxismo pouco imaginativo” (Jay, 49.) Nesse sentido, Horkheimer aparece como um marco que inicia uma nova era no IfS.

2 Sobre o termo “Escola de Frankfurt” gostaria de fazer algumas considerações. É possível reconhecer o mérito deste termo no sentido em que trouxe publicidade para um grupo de pensadores exilados nos Estados Unidos e na referência ao vínculo que eles tiveram com o Institut für Sozialforschung de Frankfurt. No entanto, este rótulo é por vários motivos bastante redutor. Primeiro, porque a ideia de uma “escola” pode dar a entender que há uma unidade de pensamento entre os autores vinculados a ela — o que não se aplica neste caso, basta observar a animosidade dos debates internos do Institut durante a década de 1930. Pode também trazer uma ideia de que haveria uma espécie de mestre e um conjunto de discípulos que desenvolvem aspectos desta teoria — o que também certamente não se aplica. Se na maior parte das vezes “Escola de Frankfurt” é correspondente a primeira geração da Teoria Crítica, por outro lado, há também os que falam em uma segunda e uma terceira geração da “Escola de Frankfurt”, criando uma espécie de “linha sucessória” no IfS que começa com Horkheimer e Adorno, vai para Habermas e termina em Honneth. Neste caso, embora o IfS seja indiscutivelmente crucial na história da Teoria Crítica, creio que o termo “Escola de Frankfurt” dá ênfase demais ao local em que a atividade intelectual se desenvolve e menos ao teor dela. É verdade que todo rótulo de uma tradição intelectual abre espaço para espantalhos e generalizações grosseiras. E também não quero subestimar as pesquisadoras e pesquisadores que utilizam este termo, afinal creio que muito de seus estudos são interessantes e serão utilizados aqui. No entanto, creio que designar esta tradição como “Teoria Crítica”, além de ser um termo desenvolvido em termos de conceito por Horkheimer, dá ênfase maior para a maneira de fazer teoria e evita os equívocos a que o termo “Escola de Frankfurt” pode levar. Para uma reflexão no mesmo sentido ver Marcos Nobre, A Teoria Crítica, 3o ed, Coleção Filosofia Passo-a-Passo 47 (2004; repr., Rio de Janeiro: Zahar, 2011).

unentbehrlichen Hilfswissenschaft der Geschichte]”3, expressão que servirá de guia

para este capítulo. Por isso, a fim de organizar a nossa exposição, vale a pena notar três elementos desta citação. Em primeiro lugar, a citação reforça o interesse de Horkheimer na história, que aparece na frase como o objeto da ciência. Não por acaso, o primeiro terço do ensaio contrapõe a teoria da história hegeliana, segundo a qual, à teoria da história liberal, e, em seguida, mostra as vantagens teóricas que uma perspectiva materialista oferece em relação a ambas. Em segundo lugar, a passagem ressalta que a psicologia se estabelece no quadro disciplinar na pesquisa histórica como uma Hilfswissenschaft, uma ciência auxiliar. O que significa, portanto, que ela não possui centralidade no quadro teórico: ela não é, por assim dizer, uma “Hauptwissenschaft”. Mas sua caracterização como ciência auxiliar, em terceiro lugar, não diminui a sua importância no quadro: afinal ela é “indispensável”, de maneira que uma investigação da história ficaria incompleta, ou pelo menos mais difícil, sem a ajuda da psicologia.

A partir dessas considerações surgem outras questões que ajudam a aprofundar a compreensão da expressão acima quanto o estofo teórico do materialismo interdisciplinar. Por exemplo: qual é a concepção de história que Horkheimer desenvolve? Trata-se, em suma, como Horkheimer escreve no mesmo ensaio, de uma concepção de matriz hegeliana, que recupera fundamentos da filosofia de Hegel contra a versão liberal da história, mas excluindo seus elementos idealistas, isto é, reelaborando o conceito de história na versão materialista de Marx. Sendo assim, compreender o materialismo interdisciplinar passa por compreender qual é a concepção de materialismo que Horkheimer possui. Mas disso surge uma segunda questão: por que seria indispensável para o materialismo uma ciência auxiliar, como

3 Max Horkheimer, “Geschichte und Psychologie”, in Gesammelte Schriften Band 3: Schriften 1931-

1936 (Frankfurt am Main: Fischer Verlag, 1988), 57. A tradução desta expressão é difícil pelo número

de complementos que soa pouco natural para a língua portuguesa. A edição em português opta por uma tradução de freilich num sentido adversativo: “ciência auxiliar, embora indispensável, da história” (Max Horkheimer, “História e Psicologia”, in Teoria Crítica I, trad. Hilde Cohn, 1o ed (São Paulo: Perspectiva, 2008), 19.); em espanhol, o termo “por cierto” parece abarcar melhor a semântico do termo

freilich: “ciencia auxiliar, por cierto indispensable, de la historia” (Max Horkheimer, “Historia y

Psicología”, in Teoría Crítica: Max Horkheimer, trad. Edgardo Albizu e Carlos Luis (Buenos Aires: Amorrortu, 2003), 19.); já a tradução para o inglês simplesmente omitiu o advérbio freilich: “an indispensable auxiliary science for history” (Max Horkheimer, “History and Psychology”, in Between

Philosophy and Social Science: Selected Early Writings, trad. G. Frederick Hunter, Matthew S. Kramer,

é a psicologia? Isto é, por que e como o materialismo integra e se apropria de outras ciências para compreender a história e a sociedade? E, por fim, outra questão: a que psicologia Horkheimer se refere? Trata-se de uma época em que, embora a psicanálise ainda esteja em processo de estabelecimento, ela já conta com subdivisões, bem como sofre com sérias desconfianças por boa de setores acadêmicos.

mudanças estruturais da vida econômica, mediante conformação psíquica, (…) se convertem em mudanças em suas expressões da vida”4

Enfim, se bem respondidas, estas questões não apenas permitem uma compreensão do que significa o modelo crítico do materialismo interdisciplinar formulado por Horkheimer, mas também oferece o quadro teórico geral que permite uma melhor compreensão da posição da psicologia na Teoria Crítica nos anos 1930.