2. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
4.4 Papel do professor
Um ponto relacionado à experiência de ensinar que precisa ser ressaltado é o papel do professor. Como o professor vê sua função no ensino da língua estrangeira e, mais especificamente, na implementação projeto nos revela muito sobre o processo de ensino- aprendizagem da LE e sua “ cultura de ensino” (RICHARDS; LOCKHART ,1996 apud KUDIESS, 2005, p. 41).
A princípio, por meio da evidência da detenção de turno mencionado anteriormente bem como decisões de planejamento incubidas exclusivamente a professora (verificada nas observações não participantes), considero que a docente entende sua função como sendo a provedora de informação.
No decorrer do primeiro ciclo, ao se deparar com a exigência de orientar sobre a seleção e análise de informações para o desenvolvimento do projeto, na divisão de tarefas entre os grupos, produção de textos e na decisão do produto final, em compatibilidade com a definição apresentada por Prado (2005), a professora se torna a facilitadora que auxilia o aluno a refletir sobre o conteúdo. Portanto, reconhece que não é a única detentora do conhecimento uma vez que não é a única a ter acesso ao conteúdo a ser trabalhado.
[42]P: A questão de você eh delegar funções não tira a tua a tua a a importância que você tem porque, o professor, ele é detentor do conhecimento, mas ele não é o único. PQ: É
P: Né? N esse processo. Os meninos têm muito a oferecer PQ: É claro.Você vê.
P: Você vê, o Josué22? Ah! Olha! Eu tô encantada! (Sessão de planejamento-
29/08/14 – ciclo 1)
Além disso, por ser um trabalho que exige a participação do aluno, concebe a possibilidade de delegar funções. Assim, a docente vê o resultado final do projeto como esforço dos alunos.
[43] Os alunos foram construtores desse projeto, o produto final passou na opinião e sugestão de cada aluno por isso eu percebi engajamento tão crescente neste projeto (QE - ciclo 1)
Como pode ser observado nos excertos 44 e 45, a professora reconhece que sua participação é fundamental, mas valoriza o aluno e seu saber:
[44]P: Eu não deixo de ter a minha importância, mas eu passo a valorizar o que o aluno tem a me oferecer, né? Eu passo a valorizar. Eu passo a dividir (...)As responsabilidades nesse processo de ensino-aprendizagem onde você também chama o aluno, né? A dar significado a aquilo que ele tenha aprendido. Eh, você passa a. Eu, no meu caso, eu redescobri. Eu redescobri coisas (...) (Sessão de planejamento e reflexão-09/10/14 – ciclo 1)
[45] Foi o que eu falei pra você, Isabel, eh quando a gente entender que nós, a nossa presença ela é importante. Mas a gente tem que lembrar que aquele espaço ali não é só meu é do aluno então a produção precisa ser de. Precisa ser assim equilibrada a produção. Então o aluno precisa perceber isso. “Puxa! Eu tô falando inglês. Eu tô produzindo. É resultado do meu trabalho entendeu? ” (Sessão de planejamento e reflexão-29/08/14 – ciclo 1)
No segundo ciclo pelo caráter investigativo do projeto, a docente constata a afirmação de Hernández (1998) de que professor e alunos aprendem um com o outro:
[46] Hoje um aluno me mandou lá falando sobre a Inglaterra e tudo e eu não sabia que na Inglaterra era costume nas casas (...) [Eles] Podem, eh, produzir a própria cerveja. Eu não sabia. E com isso aprendi outro verbo que é o brew. Que é produzir. Eu não sabia. (Sessão de planejamento e reflexão-14/11/14 – ciclo 2)
Há aqui um compartilhamento do saber sem hierarquização da relação. Ao não manter uma postura dominante, ela ressignifica o seu papel uma vez que sua atual atribuição é a de tornar o aluno autônomo por meio da construção guiada na qual os alunos elaborem textos significativos tanto para eles quanto para o público e representativos de seu conhecimento atual da língua:
[47] Pra mim foi o ressignificado do meu papel dentro de sala de aula. Eu percebi que eu não deixo de ter a minha importância. Mas eu passo a ajudar o aluno. É aquilo que a gente vem conversando. Pra ele ser autônomo, eu preciso ajudá-lo a chegar até essa autonomia. Então, todas as vezes que eu sentei com os meninos eu perguntei assim. Você acha que isso vai? Como é que que você vai expressar isso? Porque eu falei pra você se comunicar é preciso que a pessoa entenda o que você tá falando. Você tá entendendo? Como é que a gente poderia escrever isso aqui de uma forma diferente? Você quer falar... Mas usando agora o seu vocabulário. Dentro daquilo que você se sente seguro, vamo fazer isso? Então muitos meninos conseguiram chegar a esse. (Sessão de planejamento e reflexão-14/11/14 – ciclo 2)
No terceiro ciclo, manifesta-se um amadurecimento da visão da sua função como docente em não almejar detenção do controle e oferecer orientação adequada. Ela se apercebe da imprescindibilidade do equilíbrio entre ter uma postura firme, mas ceder quando necessário corroborando, assim, a opinião de Stoller (2005) sobre o papel do professor no projeto:
[48] Eu senti que eu tinha que ter uma postura firme, Mas eu precisava ceder. Porque senão eu iria ficar tolhindo. (Sessão de planejamento e reflexão 10/07/15 – ciclo 3)
Sua atividade gera em torno de chamar atenção para o tempo, o público, a relação entre quantidade e qualidade da informação sem desprezar o conteúdo trazido pelos alunos. A professora apresenta uma postura mais maleável de não prover o conhecimento, mas auxiliar no processo de construção do mesmo:
[49] Durante aqui nos projetos. Eu os chamei à reflexão. Igual eu falei em nenhum momento está errado, não é pertinente, mas eu falei assim eh isso aconteceu muito com o grupo do Roberto, esse aluno eu te falei que comprou o banjo e tudo. Eu falei assim: “ Roberto, você tem muitas informações muitas informações boas e tudo, mas você tem que analisar o tempo que você vai ter. a clientela que você vai receber, se não é muita informação pra aquele momento. Então, eu fui assim eu fui lançando as informações, mas em nenhum momento eu disse assim: ”Olha isso aqui não é bom”. E aí depois disso, dessa reflexão, ele falou assim: ”Professora eu reestruturei junto com o grupo e agora eu queria a senhora reavaliasse essa nova, esse novo texto”. (Sessão de planejamento-15/06/15 - ciclo 3)
[50] Acredito que o meu papel pode ajudar a refletir a informação coletada, O que é pertinente ao tema, reconstruir parágrafos usando ideias próprias. (QE -ciclo 3)
Entretanto, sabe que seu papel (mesmo que aparentemente secundário) é essencial porque os alunos viram sua “seriedade”, seu acompanhamento e sua presença. Este comportamento da docente se revelou vital para que os alunos se comprometessem com a realização do projeto como estipulam Nogueira (2005) e Behrens (2013):
[51]Eles perceberam muita seriedade da minha parte. Então isso faz com que eles levem de forma séria o trabalho...Eles viam que eu estava corrigindo acompanhando.... Eles perceberam que eu estava presente, mesmo não estando em sala de aula com eles. (Sessão de planejamento-10/07/15 – ciclo 3)
Enfim, admite seu crescimento profissional com essa nova postura:
[52] Sim, eu cresci bastante profissionalmente. Aprendi que sou importante no aprendizado do aluno, porém ele também precisa se sentir importante necessário, parte desse processo de ensino aprendizagem. Valorizar o que o aluno tem a oferecer. É claro, de forma pertinente. (QE - ciclo3)
Toda essa nova forma de se posicionar com os alunos por meio da implementação de projetos, a “ permitiu revisitar sua história” e ressignificar seu papel como professora:
[53] Você me permitiu que revisitar a minha história. A minha história como professora. Você vê eu tô colocando muito o prefixo re-. Porque. Não. Eu não estou desconsiderando o que eu construí até agora, mas eu estou revisitado e tentando
fazer melhor daqui pra frente. Então eu tô revisitando a minha história. (Sessão de planejamento-10/07/15- ciclo 3)
Distingue-se, então, o novo percurso decorrido pela professora participante de abrir mão de uma performance em que predominavam suas determinações para estabelecer uma conduta democrática e inclusiva na qual o aluno é valorizado. Verifico uma potencial consolidação de sua competência profissional como apontado por Almeida Filho (2014) refletida na autovalorização de seu trabalho e de seu aprimoramento profissional.