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3. A PERFORMANCE PAQUERA

3.4 PAQUERA DESFOCADA

A paquera iniciava no olhar. O primeiro ritual da fase interacional do ato de paquerar era a fixação do olhar em alguém: na certeza de estar sendo olhado ou na reciprocidade de olhares é que se instaurava uma situação de paquera. O olhar materializava no corpo o desejo. Como sinal de paquera, o olhar era repleto de peculiaridades onde não somente o desejo ou a atração eram condicionantes, mas, fundamentalmente, a racionalização, por isso não era uma atividade meramente espontânea e do campo do erótico: era também da ordem da ritualização.

65 Significa energia, vontade, bom estado de espírito, alegria, desejo ou emoções boas de acordo com os

No jogo de olhares da paquera – “primeiro sinal de comunicação” – “o cálculo já está contido”. Na prática da deriva, os dois polos “desejo e interesse, acaso e cálculo” estão presentes e se tornam indissociáveis (PERLONGHER, 1987, p. 161). No caso da paquera homossexual, o autor particulariza esses dois grandes blocos constitutivos:

De um lado, um desejo sexual aberto, profuso, que remete à ordem do acaso. De outro lado, esse desejo não é indiscriminado, mas agência, para se consumar, um complexo sistema de cálculo dos valores que se atribuem aquele que é captado pelo olhar desejante, incluindo tanto expectativas sexuais quanto riscos de periculosidade (Ibid., p. 161).

Perlongher (1987) destacou uma afirmação quase universal, nos seus termos, entre os homossexuais ou homens que paqueram outros: o reconhecimento de um homossexual por outro através da troca de olhares. “Esse olhar carregado de desejo não é apenas sedutor, mas também paranoico” (Ibid., p. 160). Os rituais performatizados confirmavam uma situação de paquera, mas era o olhar emitido e capturado em sua conotação de desejo – o elemento consensualmente entendido como a prova mais significativa da paquera ou da possibilidade de que a mesma fosse bem-sucedida: “o olhar é um olhar de desejo, o de paquera [...]. Um olhar que não seja de paquera é um olhar por olhar. Olhou e pronto. O de paquera não, você fixa o olhar e aí você vai, tipo, é, observando, cada movimento da pessoa” (Aurélio, 2016).

A “desatenção civil” é um ritual de identificação da presença dos indivíduos entre si através do olhar nos olhos (GOFFMAN, 2010, p.108). As infrações a esse tipo de ritual – olhar repetido ou o olhar mútuo prolongado para alguém – permitiam o reconhecimento inicial de uma situação de paquera. No geral, “o olho a olho comunica um pedido para iniciar um encontro e tem relação com outras práticas comunicativas” (Op. Cit.). O olhar recíproco poderia ou não expressar aos outros “aberturas” para alguém se engajar em investidas de paquera. Diferentemente do olhar regular – sem “segundas intenções” –, o de paquera:

O olhar faz o convite. A pessoa tipo assim [...]. Você fica olhando ali para aquela pessoa. O olhar é o que vai conectar você a outra pessoa. Porque como você está na mesma festa, tipo assim, ‘ah pode entrar ninguém e tal’ e pronto. Aí eu quero ficar com alguém, mas tipo assim, você não olha para ninguém. Não tem como. O olhar para, é a primeira coisa. É fundamental (Jorge, 2016).

Entretanto, nem todo olhar recíproco representava autorização para iniciar a paquera. Esse tipo de olhar com intencionalidade amorosa e/ou sexual precisava ser confirmado por outros rituais:

O olhar é o primeiro sinal. E aí depois, como eu disse, vem gesticulações tipo, oferece, mesmo de longe, um drinque, levantando o copo, tipo oferecendo. Ou então, fazendo gestos com o dedo, de chamar ou, de dizer que quer conversar [...]. Enfim, essas articulações, elas ajudam bastante até a pessoa chegar diretamente a você (Hugo, 2016).

Frequentemente, o olhar recíproco era confundido como operador da paquera, principalmente em “regiões abertas” – festas, bares, lugares públicos ou um perfil público de uma rede social – que autorizavam os indivíduos a formarem “engajamentos de face”. Essa confusão ocorria por conta da existência da cortesia mútua de desatenção civil que encerrava o mais frequente ritual interpessoal na copresença: troca de olhares de forma amigável (GOFFMAN, 2010). Os rituais da paquera serviam justamente para assegurar que os indivíduos estivessem no mesmo processo ou, pelo menos, um deles fosse reconhecido como paquerador.

Na fase desfocada da paquera, os paqueradores observavam ou esquadrinhavam os contextos culturais em que participavam, tentando demarcar os possíveis alvos de futuros investimentos. As ações que ocorriam nessa fase poderiam ser descritas com a expressão êmica “atirar para todos os lados” (Romeu, 2013). Entretanto, esse “tiro” sem direção, às vezes, tinha sentido pejorativo e identificava frequentadores que não possuíam nenhum critério de busca e, por isso, queriam “pegar todo mundo”. Geralmente, esses indivíduos eram denominados de “galinha” ou “vassoura” (Luís, 2016).

Se “todo mundo” era objeto de paquera e/ou “pegação” para os “galinhas”, por conseguinte, os “rasgados” e/ou afeminados estavam incluídos nesses processos. Sem critérios hegemônicos de busca – os quais serão analisados nos próximos capítulos – os “galinhas” eram posicionados numa dupla estigmatização: pela quantidade excessiva de “ficas” e pelos enlaces com os “rasgados” e afeminados. Na ambiência de uma paquera efeminofóbica, a acusação de que os “vassouras” não possuíam critérios de seleção de seus parceiros estava vinculada às pegações com os indivíduos estigmatizados.

O instrumento utilizado no “atirar para todos os lados” ou ritual de esquadrinhamento era o olhar. Em situações de paquera, esse ritual era praticado concomitante ao ritual da “desatenção civil”. Através dessa cortesia, os paqueradores poderiam iniciar seus investimentos em alguém. No Facebook, através desse ritual os paqueras são selecionados:

Você seleciona. Eu seleciono, vejo o perfil como um todo, depois eu vou esmiuçando foto, o que a pessoa gosta, a questão das fotos, a questão que a pessoa escreve, que a pessoa é, entendeu? Quem a pessoa é, os amigos em comum [...]. Acontece também às vezes eu, tipo ser um misterioso, interesse em você ser misterioso. Aí eu tenho uma grande amiga minha que tem você no Facebook. Ah! Acontece demais. A pessoa, ‘ei

fulano’, pelo menos comigo, ‘ei fulano quem é sicrano hein? ’. Aí ela diz: aí amiga, é não sei o que, não sei o que e pronto. E são importantíssimos assim. Que você vai se cercar de uma pessoa que conhece a pessoa. De um amigo muito próximo seu. Que ele vai lhe dizer, dar a informação sobre aquela pessoa que está interessado. Isso aconteceu comigo várias vezes se eu me lembro (Jorge, 2016).

O ritual de esquadrinhamento tanto no Facebook quanto nas festas eletrônicas era de caráter performático. Além da seleção dos alvos de paquera balizados por definições de beleza física, os colaboradores avaliavam os perfis – corpos virtualizados – e os corpos nas festas a partir de atribuições de performance social, de gênero e sexual que presumiam que os sujeitos possuíssem. Por meio desse ritual, o gênero, a sexualidade e o comportamento social eram idealizados pelas práticas que poderiam ser identificadas com base nos movimentos dos corpos durante a festa e pelas características do perfil, bem como sua manipulação – páginas curtidas, eventos frequentados, postagens em geral e análise dos comentários e das fotos –, lugares e pessoas. O objetivo do esquadrinhamento era para “saber como a pessoa é” (Sócrates, 2016).

[...] A gente sempre olha, eu particularmente olho o cara que está ali bem vestido, que está com turma de amigos que estejam bem reservadamente, sem está com muita agitação, querendo se mostrar e dança para um lado e rebola para o outro e joga bebida para cima, é, os bons modos. Sempre tem uma, sabe quem é que tem bons modos e não tem. A gente ver ali, sabe quem quer se aparecer, não sei o que e tal. Entendeu agora? (Neto, 2015).

Lá [perfil] tem muita coisa assim que você pode mesmo, avaliar uma pessoa. E tem também o “sobre”.66. O “sobre” eu acho que ainda... ele é muito bom por e muito

importante porque há... O “sobre” é aquele que vai dizer assim, sobre a família, sobre, é, orientação sexual da pessoa. Orientação não sei se é o termo, não sei. Eu sei, opção... questão de gênero, tudo isso, as preferências da pessoa mesmo de fato. Isso é muito importante. Fotos [...] (Jorge, 2016).

O esquadrinhamento atravessava todos os rituais de paquera “offline” e “online”. Na paquera como um “continuum” articulado entre contextos, esse ritual se utilizava da análise das informações/percepções dos dois contextos culturais. No “online”, esse ritual poderia ser realizado sem o conhecimento dos paquerados. No Facebook, as solicitações de amizade ou o aceite dessas solicitações, especialmente em contextos de paquera, não ocorriam sem a realização desse ritual anterior, de acordo com os colaboradores.

Numa festa gay, se um homem fosse observado fixamente por algum participante, poderia ser indício de paquera, embora o observador, ao ser descoberto, pudesse desviar o

66O “Sobre” do facebook é uma seção do perfil que traz as seguintes informações gerais sob o título de: trabalho

e formação; locais onde moraste; informações básicas e de contato – e-mail, data de nascimento, gênero, idiomas, crenças religiosas, ideologias e interesses gerais; família e relacionamentos; detalhes sobre ti e eventos da vida.

olhar ou fingir “desatenção civil”. Os próximos momentos confirmavam o flerte. Todavia, nem sempre o ato de “encarar” pode ser visto como início de uma paquera. Ele pode ser “um meio de sanção negativa, controlando socialmente todos os tipos de conduta imprópria” em determinados contextos sociais (GOFFMAN, 2010, p. 100).