PARA O LEITOR LER DE/VAGAR

No documento herberto helder POESIA_TODA_1953-1989.pdf (páginas 88-108)

Volto minha existência derredor para. O leitor. As mãos espalmadas. As costas

das. Mãos. Leitor: eu sou lento.

Esta candeia que rodo amarela por fora, e ardentescura por dentro.

Candeia tão baixa-viva Sou lento numa luminosidade como em meio de ilusão.

Volto o que é um rosto ou

um esquecimento. Uma vida distribuída por solidão.

Sou fechado

como uma pedra pedríssima. Perdidíssima da boca transacta. Fechado

como uma. Pedra sem orelhas. Pedra una reduzida a. Pedra.

Pedra sem válvulas. Com a cor reduzida a. Um dia de louvor. Proferida lenta. Escutada lenta.

— Todo o leitor é de safira, é de. Turquesa.

E a vida executada. Devagar. Torna-se a infiltrada cor da. Pedra do leitor.

Volto para essa pedra absoluta. Relativa à minha pedra.

Minha pedra pensada com a forma de. Uma lenta vida elementar.

Leitor acentuado, redobrado leitor moroso. Que entende o relato sem poros,

o mês atroz dealbado sobre a pedra

sem orelhas, pedra sem boca. E que desce os dedos sobre. Meus dedos pelo ar. E toca e passa.

Pelas pálpebras paradas. Pelos cerrados lábios até às raízes.

E cai com seus dedos em meus dedos. E espera devagar.

Leitor que espera uma flor atravancada, balouçando baixa

sobre. Mergulhados filamentos no terror devagar.

Mas que espera. Doce. Contra o hermético movimento do mundo.

E que o mundo movimenta contra. As ondas de Deus auxiliado

auxiliar. E que Deus movimenta contra. Suas ondas muito lentas, amargas ondas muito.

Antigas, ignoradas, corridas. Sobre a primitiva face do poema. Leitor

que saberá o que sabe dentro. Do que sabe de mais selado. E esperará

dias e anos dobrado, leitor. Varrido pelo movimento dos dias.

Contra o movimento nocturno do. Poema devagar. E que espera.

E para quem volto. Muitas coisas sobre uma coisa. Volto

uma exaltante morte de Deus. Auxiliado auxiliar. O espírito, a pedra.

Do poema.

Leitor à minha frente. Vindo do mais difícil lado

das noites. Ainda tocado e molhado de suas flores aniquiladas.

Rodo. Para esse rosto difuso e vagaroso meu sono.

A fantasia minuciosa. A oblíqua inovação. A solidão. Trémula devagar.

Leitor: volto

para ti. Um livro que vai morrer depressa. Depressa antes. Que a onda venha, a onda alague: A noite caída em cima de teus dedos. De encontro à cor de encontro à. Paragem da cor. Este livro apertado nas estrelas da boca, estrelas.

Aderentes fechadas. Por fora leves às vezes, presas.

Para eu batê-las durante o tempo.

Eterno, o tempo. De uma onda maior que o nosso tempo. O tempo leitor de um. Autor.

Ou um livro e um Deus com ondas de um mar mais pacientes. —

LUGAR I

Uma noite encontrei uma pedra oh pedra pedra!

verde ou azul, de lado, como se estivesse morta. Encontrei a noite como uma pedra inclinada sobre o meu corpo

puro, profundo como um sino.

Vi que havia em mim um pensamento inocente, uma pedra

quando se entra na noite pelo lado onde há menos gente.

Ou era um sino de um futuro maior silêncio, tão

grande silêncio para se habitar só em gestos. Aí eu poderia erguer-me na ponta

dos pés e ficar para sempre: chama que a noite viesse alimentar com sua própria matéria que se queima. Noite — — lenha para nossa leveza humana. Encontrei uma coisa caída, talvez madura, um pouco metida pela terra dentro.

Alguma coisa dessas coisas da imobilidade, objecto executado pelo sono,

onde eu passava os dedos apavorados e doces. Som ou degrau que eu beijaria,

elevando-se da terra, não como uma árvore ou uma mulher

desenvolvida em sua atmosfera de doçura e dolorosa exaltação. Alguma coisa

subida de raízes mais milagrosas, que se não exprimia com a brevidade

subtil de folhas, ou a quente agudeza de dedos espalhados. Algo não levantado inteiramente da obscuridade

de uma vida sepulta,

e não jacente por sobre o qual milhares de estrelas rolassem as asas de gelo.

Uma coisa numa existência demorada entre o êxtase e a força sombria

das estações.

Nem era a boca materna aberta debaixo dos rios lisos.

Uma coisa para se encostar a cabeça, oh não para morrer. Para alguém subir

e de onde não era possível gritar. Uma pedra sem folhas, um sino

sem pensamento. Encontrei algo que não andava pelos montes nem seria atravessado

por uma flecha. E não sangrava.

Que não se ouvia se cantava. Talvez fosse fria ou vivesse abrasada sobre a ilusão.

Era verde na noite quando se vem de longe, ou azul, ou verde pelo milagre

que não existe. Ou então

era clara de certas flores que se dobram. Ou então era alta, ou esmagada, ou degolada, no meio de um silêncio global.

Encontrei em mim essa clareira desarrumada na seiva, como se um poço distante ressoasse,

ou como

se os dias se fossem aproximando da minha idade triunfante.

e eu me calasse e movesse o rosto aberto pela luz para a abstracta violência

da solidão.

Encontrei

um animai adormecido, uma flor hipnotizada, uma viola ferozmente taciturna.

Era amarela só se eu levantasse a cabeça, ou era tão escura na infância grande.

Encontrei uma verde pedra cravada no mundo das pessoas, à entrada da candura,

tão admirável pelo azul da terra dentro. Uma coisa incompreendida no instante de morrer para a frente.

Encontrei ondas e ondas contra mim, como se eu fosse um homem morto entre palavras.

Campos de cevada inspirados no fogo que batiam nas costas das minhas mãos,

aldeias inteiras cantando sua pureza quase louca. Encontrei depois o lugar

onde deitar a cabeça e não ser mais ninguém que se saiba. Uma pedra

Com as raízes de quem divaga.

Uma pedra sem som como quem se move sobre os alimentos.

Encontrei como quem arrasta para a noite um símbolo pesado e ardente.

Ou a ideia da morte mais leve que o coração sem nada do amor.

Se me perguntam, digo: encontrei a lua, o sol.

Somente o meu silêncio pensa.

II

Há sempre uma noite terrível para quem se despede do esquecimento. Para quem sai,

ainda louco de sono, do meio de silêncio. Uma noite

ingénua para quem canta.

Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou que varre as pedras da cabeça.

Que mexe na língua a cinza desprendida. E alguém me pede: canta.

Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio: canta até te mudares em azul,

ou estrela electrocutada, ou em homem nocturno. Eu penso

também que cantaria para além das portas até raízes de chuva onde peixes

cor de vinho se alimentam de raios, raios límpidos. Até à manhã orçando

pedúnculos e gotas ou teias que balançam contra o hálito.

Até à noite que retumba sobre as pedreiras. Canta — dizem em mim — até ficares como um dia órfão contornado por todos os estremecimentos.

E eu cantarei transformando-me em campo de cinza transtornada.

Em dedicatória sangrenta.

Há em cada instante uma noite sacrificada ao pavor e à alegria.

Embatente com suas morosas trevas. Desde o princípio, uma onda que se abre no corpo, degraus e degraus de uma onda. E alaga as mãos que brilham e brilham. Digo que amaria o interior da minha canção, seus tubos de som quente e soturno.

Há uma roda de dedos no ar. A língua flamejante.

Noite, uma inextinguível inexprimível

noite. Uma noite máxima pelo pensamento. Pela voz entre as águas tão verdes no sono. Antiguidade que se transfigura, ladeada por gestos ocupados no lume.

Pedem tanto a quem ama: pedem o amor. Ainda pedem

a solidão e a loucura.

Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria. E eles querem dizer: tu darás a tua existência ardida, a pura mortalidade.

Às mulheres amadas darei as pedras voantes, uma a uma, os pára-

-raios altíssimos da voz.

As raízes afogadas no nascimento. Darei o sono onde um copo fala

fusiforme

batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro. Dá-nos tua ardente e sombria transformação.

E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes, lentamente uma sobre a outra.

Quando se esclarecem as portas que rodam para o lugar da noite. Noite

de uma voz

humana. De uma acumulação atrasada e sufocante.

Há sempre sempre uma ilusão abismada

numa noite, numa vida. Uma ilusão sobre o sono debaixo do cruzamento do fogo.

Prodígio para as vozes de uma vida repentina.

E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama sentam-se e dizem:

ama-nos. E ele ama-as.

Desaperta uma veia, começa a delirar, vê

dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado pela vida quimérica das pedras.

Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas. Ele arranca os dedos armados pelo fogo

e oferece-os à noite fabulosa. Ilumina de tantos dedos

a cândida variedade das mulheres amadas. E se ele acorda, então dizem-lhe

que durma e sonhe.

E ele morre e passa de um dia para outro. Inspira os dias, leva os dias

para o meio da eternidade, e Deus ajuda a amarga beleza desses dias.

Até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza.

Porque não haverá paz para aquele que ama. Seu ofício é incendiar povoações, roubar e matar,

e alegrar o mundo, e aterrorizar,

e queimar os lugares reticentes deste mundo. Deve apagar todas as luzes da terra e, no meio da noite aparecente,

votar a vida à interna fonte dos povos. Deve instaurar o corpo e subi-lo, lanço a lanço,

cantando leve e profundo. Com as feridas.

Com todas as flores hipnotizadas. Deve ser aéreo e implacável. Sobre o sono envolvida pelas gotas

abaladas, no meio de espinhos, arrastando as primitivas pedras. Sobre o interior

da respiração com sua massa

de apagadas estrelas. Noite alargada e terrível terrível noite para uma voz se libertar. Para uma voz dura,

uma voz somente. Uma vida expansiva e refluída. Se pedem: canta, ele deve transformar-se no som. E se as mulheres colocam os dedos sobre

a sua boca e dizem que seja como um violino penetrante, ele não deve ser como o maior violino.

Ele será o único único violino.

Porque nele começará a música dos violinos gerais e acabará a inovação cantada.

Porque aquele que ama nasce e morre. Vive nele o fim espalhado da terra.

III

As mulheres têm uma assombrada roseira fria espalhada no ventre.

Uma quente roseira às vezes, uma planta de treva.

Ela sobe dos pés e atravessa a carne quebrada.

Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus — e mistura-se nas águas,

no sonho da cabeça.

As mulheres pensam como uma impensada roseira que pensa rosas.

Pensam de espinho para espinho, param de nó em nó.

As mulheres dão folhas, recebem um orvalho inocente.

Depois sua boca abre-se.

Verão, outono, a onda dolorosa e ardente das semanas,

passam por cima. As mulheres cantam na sua alegria terrena.

Que coisa verdadeira cantam? Elas cantam.

São fechadas e doces, mudam

de cor, anunciam a felicidade no meio da noite, os dias rutilantes, a graça.

Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas e uma suavidade amarga —

as mulheres tornam impura e magnífica nossa límpida, estéril

vida masculina.

Porque as mulheres não pensam: abrem rosas tenebrosas,

alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual. São altas essas roseiras de mulheres,

inclinadas como sinos, como violinos, dentro do som.

Dentro da sua seiva de cinza brilhante. O pão de aveia, as maçãs no cesto, o vinho frio,

ou a candeia sobre o silêncio. Ou a minha tarefa sobre o tempo. Ou o meu espírito sobre Deus.

as mulheres dos campos, os seres fundamentais

que cantam de encontro aos sinistros muros de Deus.

As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram a boca e o ânus

e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.

Espero que o amor enleve a minha melancolia. E flores sazonadas estalem e apodreçam docemente no ar.

E a suavidade e a loucura parem em mim, e depois o mundo tenha cidades antigas que ardam na treva sua inocência lenta e sangrenta.

Espero tirar de mim o mais veloz

apaixonamento e a inteligência mais pura. — Porque as mulheres pensarão folhas e folhas no campo.

Pensarão na noite molhada, no dia luzente cheio de raios.

Vejo que a morte se inspira na carne que a luz martela de leve.

Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura veemente da ilusão,

nelas — envoltas pela sua roseira em brasa — vejo os meses que respiram.

Os meses fortes e pacientes.

Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens. Vejo meu pensamento morrendo na escarpada treva das mulheres.

E digo: elas cantam a minha vida.

Essas mulheres estranguladas por uma beleza incomparável.

Cantam a alegria de tudo, minha alegria

por dentro da grande dor masculina. Essas mulheres tornam feliz e extensa a morte da terra.

Elas cantam a eternidade.

IV

Há cidades cor de pérola onde as mulheres existem velozmente. Onde

às vezes param e são morosas por dentro. Há cidades absolutas

trabalhadas interiormente pelo pensamento das mulheres.

Lugares límpidos e depois nocturnos, vistos ao alto como um fogo antigo, ou como um fogo juvenil.

Vistos fixamente abaixados nas águas celestes.

Há lugares de um esplendor virgem, com mulheres puras cujas mãos estremecem. Mulheres que imaginam num supremo silêncio, elevando-se sobre as pancadas da minha arte interior. Há cidades esquecidas pelas semanas fora. Emoções onde vivo sem orelhas

nem dedos. Onde

uma paixão bárbara, um amor. Zona

que se refere aos meus dons desconhecidos. Há fervorosas e leves cidades sob os arcos pensadores. Para que algumas mulheres sejam cândidas. Para que alguém

bata em mim no alto da noite e me diga o terror de semanas desaparecidas. Eu durmo no ar dessas cidades femininas cujos espinhos e sangues me inspiram o fundo da vida.

Nelas queimo o mês que me pertence. Olho minha loucura, escada

sobre escada.

Mulheres que eu amo com um desespero fulminante, a quem beijo os pés

supostos entre pensamento e movimento. Cujo nome belo e sufocante digo com terror, com alegria. Em quem toco levemente levemente a boca brutal.

Há mulheres que colocam cidades doces e formidáveis no espaço, dentro

e criam uma insondável ilusão. Dentro da minha idade, desde a treva, de crime em crime — espero a felicidade de loucas delicadas mulheres.

Uma cidade voltada para dentro do génio, aberta como uma boca em cima do som.

Com estrelas secas. Parada.

Subo as mulheres aos degraus. Seus pedregulhos perante Deus. É a vida futura tocando o sangue de um amargo delírio.

Olho de cima a beleza genial das suas cabeças

ardentes: — E as altas cidades desenvolvem-se no meu pensamento quente.

V

Explico uma cidade quando as luzes evoluem. Quando é assaltada pelos gestos devotados. Explico um espaço solene e unido

por virtude do fogo infantil. Com a boca sobre um casulo de som, uma criança

é sempre livre e encerrada. Explico uma cidade através

de brilhos interiores. De pedras raras viradas na palma da mão.

Cidades são janelas em brasa com cortinas puras, praças com a forma da chuva. Quartos. Jarras.

Rostos como girando sobre gonzos.

E por dentro de tudo a morte ou a loucura. Estátuas encarnadas cheias

de sangue. E o silêncio

dobrado para a frente na força da luz.

Cidades existem entre as mães que contemplam as flores e as folhas

do sono. A criança branca

e prolongada para dentro como no fundo de uma estampada idade do ouro.

Cidades são aposentos fixos quer na cabeça, entre brasas, quer no gosto, na audição.

Barulho de passos, profundidade, devotamento misterioso.

É o girassol do talento materno

amando o movimento por cima brilhante. Ao longo de sons sempre passaram mulheres apaixonadas,

separando os pés sobre frígidas gotas. Mulheres partindo, chegando, voltando o corpo na luz suspensa

e inteligente. Mulheres cheias de uma atenta suspeita.

Vergadas para o fundo de uma existência dura e pura.

as mulheres batem seus dedos cândidos. Sua sinistra fantasia.

Tiradas dos limbos segundo um ardente princípio de ilusão.

Amadas por Deus e entrando na corrupção de Deus.

São quentes e frias, colocadas sobre moventes comoções antigas.

Metidas pelo espanto dentro, enterradas até ao livre espírito e ao terror.

Fábulas de comércio.

Imagens delicadas de uma suave indústria.

Cidades dotadas de uma inteira falta de intenção. Abertas a ligeiras canções tenebrosas e,

sobre as graves canções, fechadas como pedras frias.

Na noite impressa nos dois lados e, pelo mais escuro lado antigo,

a revelação. Cada cidade é uma vingança anterior onde a beleza passa

vestida de mulher.

Beleza lembrada e relembrada em seu circuito ardente.

Escoada, esquecida. E logo ressurrecta. Tão próxima.

Cidades vazias de cócoras contra a noite, ao lado de uma enorme ressurreição. E os arquitectos deslocam-se, unindo nos dedos a pedra encurvada.

Ouvindo o som contra o som. Imaginando uma paixão espantosa no sono.

E agarrando-se às vozes, como as vozes brilhantes se agarram à língua para fora.

Arquitectos fechados sobre as mãos com instrumentos que se voltam no ar. Principiando

a queimar-se.

Isolando concepções geladas

que entram na terrível purificação universal. E então levanta-se o exemplo dos violinos. E eis o que se ama: o som.

em louvor das fêmeas.

As cordas, as chaves, a caixa soante dos vivos e dos mortos.

Lírica antropologia.

VI

Às vezes penso: o lugar é tremendo. É sobre os mortos, além da linguagem.

Lugar que se transforma rodando contra a boca. Em certos dias, habitado por crianças

de uma infelicidade obscura, sobre o verão. Por duros e belos

peixes entre as mãos perfurando o sono de Deus.

E eu trago uma criança com um ombro mergulhado no sangue, e o outro ombro metido no sono triste.

Que pensa sempre, dentro de suas águas, e é ameaçada por uma intraduzível beleza. Muitas crianças caminham para o silêncio de uma semana ambígua, quando

o verão anda de um lado para outro e se desarruma por dentro.

O verão começa pelas partes mortas. Ao longe, nas fronteiras da ilusão. Crianças básicas fazem de mim uma rosa iracunda, e atiram-na

contra a boca de Deus.

Para diante, através das águas estivais. Não queiram viver em mim, quando entram como espelhos as vozes virgens.

Ou morrer, se as colinas se aproximam tão perto do rosto, e estremecendo com muitas vozes.

Tão respirando, as colinas que se toldam como povos embriagados.

Eu digo: não desejem amar-me, morrer de mim. Porque destruo com a boca o beijo transformado.

Morro em todas as pessoas que a delicadeza consome. Digam-me devagar quais os vocábulos alarmantes. Uma história de crianças com folhas

dispersas é sempre

uma história de morte. Embora a doçura levede sua alma cega, crianças, eis como digo: são uma musa devoradora.

Estão ligadas a toda a grande idade, à terrífica fantasia do tempo.

Porque falam no esgotamento e, enquanto dormem, sonham com seu ombro fendendo o sangue,

entrando no poder de Deus.

Tenho uma criança profunda em todos os lugares. Desabitai-me a beleza que bati na pedra,

abaixado e louco.

E que a mulher se desabite da solidão que tive, enquanto falei ao alto, inspirado

pelo assassínio do amor.

Desabitai-me da minha fome e da neve onde fui brilhante brilhante.

Brilhante como o trigo escorrido nos dedos. Como os pés sugeridos em volta da cinza. A tristeza do verão é um modo de saber. Ou ser puro. Ou estar afastado.

É preciso abandonar-se no meio da tarefa, enquanto o crime é o autor, embebido. Conheço crianças esgotantes pelo sono onde acordam.

É preciso que Deus se liberte dos meus dons. Que se não perca em minha fabulosa

ironia.

Também vi crianças empurradas nos meses. Pela leveza da luz, empurradas

crianças supremas. Vi-as da mais subtil matéria, com cerejas, com mãos.

Porque Deus é tão leve como a água atravessada.

Água que iracundos peixes rompem em todos os lugares.

No documento herberto helder POESIA_TODA_1953-1989.pdf (páginas 88-108)