O programa de medidas destinadas a aplicar o princípio do reconhecimento mútuo das decisões em matéria civil e comercial 1, tal como o actual programa de trabalho da Comissão, centrou-se prioritariamente, como o seu próprio nome indica, nas medidas para facilitar o reconhecimento e a execução num Estado-Membro das sentenças proferidas noutro Estado-Membro, e não na aproximação ou harmonização do direito processual. No entanto, o programa reconhece que, nalguns domínios, a supressão de medidas intermédias que ainda são necessárias para permitir o reconhecimento e a execução pode coincidir com a criação de um procedimento específico na Comunidade, quer se trate de um procedimento uniforme instituído por um regulamento, quer de um procedimento harmonizado estabelecido por cada Estado-Membro em conformidade com uma directiva.

Na linha das conclusões do Conselho Europeu de Tampere, o programa de reconhecimento mútuo apela expressamente ao estabelecimento dessas regras comuns

• para a instituição de um procedimento específico destinado à cobrança rápida e eficiente dos créditos não contestados (procedimento europeu de injunção de pagamento) e

• para a simplificação e aceleração das acções de pequeno montante.

Embora os procedimentos respeitantes às acções de pequeno montante e o procedimento de injunção de pagamento constituam duas áreas distintas do direito processual, as questões levantadas pela harmonização ou pela criação de um procedimento europeu uniforme são parcialmente idênticas ou sobrepõem-se. Trata-se, afinal, das primeiras iniciativas no domínio da cooperação judiciária em matéria civil que dizem directamente respeito às regras que regulam o procedimento destinado a obter uma decisão executória.

As duas principais questões no que diz respeito à abordagem geral da legislação europeia que estes dois domínios têm em comum (ainda que as soluções não tenham necessariamente de ser as mesmas) são as seguintes:

1.1. Aplicação de um instrumento europeu apenas a processos transfronteiras ou também a processos puramente nacionais

É concebível elaborar regras que se apliquem unicamente aos processos referentes a acções de pequeno montante ou a procedimentos de injunção de pagamento que envolvam duas partes domiciliadas em Estados-Membros diferentes e, portanto, prever uma injunção de pagamento europeia ou um procedimento respeitante a acções de pequeno montante unicamente aplicáveis aos processos transfronteiras. Por outro lado, a dimensão transfronteiras de um processo pode manifestar-se só depois de o credor avançar para a fase da execução e se dar conta de que essa execução se deve realizar noutro Estado-Membro, por o devedor ter entretanto mudado a sua residência para esse Estado-Membro ou porque só aí possui bens dignos de apreensão. Pode também ser considerado insatisfatório criar um procedimento específico europeu eficiente só para processos de dimensão internacional, enquanto os requerentes nos processos puramente internos se deverão contentar com um lento regime processual civil ordinário que não dá resposta às suas legítimas expectativas.

Independentemente das questões relativas à exequibilidade e à equidade, um desequilíbrio

1 JO C 12 de 15.01.2001, p.1.

manifesto em termos de eficiência dos meios processuais à disposição dos credores dos diferentes Estados-Membros para a cobrança dos seus créditos, sejam estes de pequeno montante ou incontestados, pode ter uma incidência directa no bom funcionamento do mercado interno. Tal incidência existiria se as partes em litígio não tiverem acesso na União Europeia a instrumentos de eficácia equivalente, na medida em que a igualdade dos cidadãos e dos parceiros comerciais num espaço integrado pressupõe a igualdade de acesso aos meios de defesa legais. É evidente que uma empresa que opere num Estado-Membro em que o sistema judicial prevê uma execução rápida e eficaz dos créditos tem uma vantagem competitiva significativa sobre uma empresa que desenvolva a sua actividade num ambiente judicial que não dispõe desses meios judiciais eficazes. Estas diferenças podem até ter como consequência que as empresas se sintam dissuadidas de exercerem os seus direitos de liberdade de estabelecimento noutros Estados-Membros ao abrigo do Tratado CE. Nesta perspectiva, poderá considerar-se também útil aplicar eventuais instrumentos relativos às injunções de pagamento e às acções de pequeno montante nos processos puramente internos.

Pergunta 1:

Os instrumentos europeus relativos às injunções de pagamento e às acções de pequeno montante só devem ser aplicados a processos transfronteiras ou também a processos puramente internos? Queiram pronunciar-se sobre as vantagens e desvantagens de um âmbito de aplicação reduzido ou alargado destes dois eventuais instrumentos.

1.2. A escolha do instrumento adequado para uma aproximação do direito processual

As repercussões da escolha do instrumento jurídico considerado adequado para uma aproximação do direito processual são significativas. Uma directiva poderia limitar-se aos princípios essenciais e deixar aos Estados-Membros uma certa margem de manobra para estruturar o procedimento consoante as suas necessidades próprias. Contudo, a obrigação de adaptar a sua legislação aos requisitos da directiva implicaria, inevitavelmente, a substituição do anterior sistema nacional. Por outro lado, um regulamento, sendo directamente aplicável, não deixa aos Estados-Membros qualquer margem de manobra, mesmo se a introdução de um procedimento europeu uniforme não substitui necessariamente a legislação nacional. Este novo procedimento europeu poderá também ser considerado como uma opção adicional que coexiste com o método nacional aplicável às acções de pequeno montante ou aos créditos não contestados.

Em conformidade com o princípio da subsidiariedade, qual o grau de uniformidade necessário para alcançar os pretendidos ganhos de eficiência e de facilidade de utilização? Que grau de liberdade e de flexibilidade poderá ser concedido aos Estados-Membros sem prejudicar o objectivo inicial de facilitar um acesso equitativo e igualmente eficiente à justiça?

É oportuno relembrar a este respeito que a linha de separação entre procedimento uniforme e procedimento harmonizado não é tão clara como poderia parecer. Mesmo no caso da adopção de um regulamento, todas as questões deliberadamente não abordadas nesse instrumento ficariam em aberto e requereriam regras nacionais complementares. Poder-se-ia imaginar, por exemplo, preferir um regulamento como instrumento adequado para garantir a plena uniformidade no que respeita aos princípios fundamentais de um procedimento europeu de injunção de pagamento, deixando em aberto a possibilidade de os pontos menos essenciais serem regulados por disposições, eventualmente divergentes, elaboradas pelos Estados-Membros segundo as suas necessidades próprias. Ao mesmo tempo, a directiva pode surgir como o instrumento legislativo mais adequado, tendo em conta os elementos

fundamentais de um procedimento respeitante às acções de pequeno montante. Em ambos os casos, será necessário determinar os aspectos processuais fulcrais que garantem a harmonização e que deverão ser contemplados num instrumento legislativo, independentemente de se tratar de um regulamento ou de uma directiva. A parte restante do presente documento é consagrada à identificação das questões fundamentais relativas, por um lado, ao procedimento de injunção de pagamento e, por outro, ao procedimento relativo às acções de pequeno montante.

Pergunta 2:

Qual o instrumento legislativo adequado para o procedimento de injunção de pagamento e o procedimento relativo às acções de pequeno montante, um regulamento ou uma directiva?

2. PARTE II: UM PROCEDIMENTO EUROPEU DE INJUNÇÃO DE

No documento CONSELHO DA UNIÃO EUROPEIA. Bruxelas, 13 de Janeiro de 2003 (14.01) (OR. fr) 5247/03 JUSTCIV 3 (páginas 7-10)