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Patenteamento de conhecimentos tradicionais

No documento Harley Ferreira de Cerqueira (páginas 131-135)

CAPÍTULO III PATENTEAMENTO DE ELEMENTOS DO PATRIMÔNIO

3.3 Patenteamento de elementos do patrimônio genético

3.3.2 Exposição concreta da aplicação do patenteamento de

3.3.2.2 Patenteamento de conhecimentos tradicionais

De pronto é necessário alertar que os conhecimentos tradicionais associados ao patrimônio genético das comunidades indígenas e locais, mantidos e desenvolvidos dentro do contexto das suas próprias comunidades, não são considerados uma invenção pela Lei de Propriedade Industrial. Portanto não são passíveis de patenteamento.

Todavia é comum ouvir notícias de que tais conhecimentos foram patenteados, por países estrangeiros, à revelia das comunidades detentoras do conhecimento tradicional ou dos países de origem. Na verdade, o que é passível de patenteamento são as invenções criadas com base nas informações desses conhecimentos tradicionais associados ao patrimônio genético.

A proteção que recai sobre os conhecimentos tradicionais é de outra ordem. Para esses bens, tanto a Convenção sobre Diversidade Biológica como a MP n.º 2186-16/01, como citado no Capítulo I, reconhecem a autonomia e o direito das comunidades indígenas e das comunidades locais157 de decidirem se autorizam o acesso de terceiros aos seus conhecimentos tradicionais, para fins de pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico ou bioprospecção.

Vale dizer que o Estado passou a reconhecer a “propriedade”158 das comunidades indígenas e locais sobre seus conhecimentos tradicionais e o direito de decidir sobre quem pode utilizá-los (§ 9.º do art. 16 Medida Provisória n.º 2186-16/01).

157 Para efeito dessa Medida Provisória, qualquer conhecimento tradicional associado ao patrimônio genético poderá ser de titularidade da comunidade, isto é, ao grupo humano, incluindo remanescentes de comunidades de quilombos, distinto por suas condições culturais, que se organiza, tradicionalmente, por gerações sucessivas e costumes próprios, e que conserva suas instituições sociais e econômicas ainda, mesmo que apenas um indivíduo, membro dessa comunidade, detenha esse conhecimento.

158 Medida Provisória 2186-16/01 prescreve que:

Art. 8.º Fica protegido por esta Medida Provisória o conhecimento tradicional das comunidades indígenas e das comunidades locais, associado ao patrimônio genético, contra a utilização e exploração ilícita e outras ações lesivas ou não autorizadas pelo Conselho de Gestão de que trata o art. 10, ou por instituição credenciada.

§ 1.º O Estado reconhece o direito das comunidades indígenas e das comunidades locais para decidir sobre o uso de seus conhecimentos tradicionais associados ao patrimônio genético do País, nos termos desta Medida Provisória e do seu regulamento.

§ 2.º O conhecimento tradicional associado ao patrimônio genético de que trata esta Medida Provisória integra o patrimônio cultural brasileiro e poderá ser objeto de cadastro, conforme dispuser o Conselho de Gestão ou legislação específica.

Para tanto, é legado aos titulares desses conhecimentos tradicionais o direito de impedir que terceiros não autorizados venham a utilizar, realizar testes, pesquisas, enfim, a explorar, divulgar, transmitir ou retransmitir dados ou informações sobre esse conhecimento tradicional. As Resoluções 5 e 6 do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético, inclusive, facultam as comunidades indígenas e locais a negarem o acesso aos seus conhecimentos tradicionais.

Assim, é garantido às comunidades tradicionais o direito de perceberem os benefícios decorrentes da exploração econômica (direta ou indiretamente), bem como de ter indicada a origem do acesso em todas as publicações, utilizações, explorações e divulgações (§ 9..º do art. 16 Medida Provisória nº 2186-16/01159).

A própria Medida Provisória n.º 2186-16/01, no seu art. 25 lançou, exemplificativamente, algumas maneiras de repartição dos benefícios derivados da exploração, que não se restrinja apenas à recompensa financeira, tais como: a capacitação de recursos humanos, a recuperação ambiental de áreas degradadas ou o apoio para a formulação de projetos.

159 Art. 9.º À comunidade indígena e à comunidade local que criam, desenvolvem, detêm ou conservam conhecimento tradicional associado ao patrimônio genético, é garantido o direito de: I - ter indicada a origem do acesso ao conhecimento tradicional em todas as publicações, utilizações, explorações e divulgações;

II - impedir terceiros não autorizados de:

a) utilizar, realizar testes, pesquisas ou exploração, relacionados ao conhecimento tradicional associado;

b) divulgar, transmitir ou retransmitir dados ou informações que integram ou constituem conhecimento tradicional associado;

III - perceber benefícios pela exploração econômica por terceiros, direta ou indiretamente, de conhecimento tradicional associado, cujos direitos são de sua titularidade, nos termos desta Medida Provisória.

Parágrafo único. Para efeito desta Medida Provisória, qualquer conhecimento tradicional associado ao patrimônio genético poderá ser de titularidade da comunidade, ainda que apenas um indivíduo, membro dessa comunidade, detenha esse conhecimento.

Verifica-se, então, que o acesso ao conhecimento tradicional associado ao patrimônio genético, para quaisquer fins, só poderá ocorrer mediante autorização (consentimento prévio fundamentado), o qual se opera por meio do Contrato de Repartição de Benefícios entre a comunidade e a instituição que deseja acessar e usar o conhecimento tradicional (ex.: empresas, universidades, instituições de pesquisa, ONGs, governo etc.) e sob a condição de se repartir justa e eqüitativamente os benefícios derivados da exploração.

Igualmente com o que ocorre com os componentes da biodiversidade, a Resolução n.º 134/07 do INPI exige ao solicitante do registro de patentes, obtidas por meio de conhecimento tradicional, a declaração de que cumpriu as determinações da Medida Provisória n.º 2186-16/01.

No plano internacional, no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), especificamente no Conselho do TRIPS e na Organização Mundial da Propriedade Intelectual (IGC), encontra-se em debate a criação de regras para tornar compatíveis o sistema de propriedade intelectual e a Convenção da Diversidade Biológica. Tem-se discutido muito a possibilidade de se criar instrumento de proteção aos conhecimentos tradicionais associados ao patrimônio genético, tais como: "a inversão do ônus da prova em favor das comunidades tradicionais em demandas judiciais que envolvam a anulação de patentes; a previsão de não-patenteabilidade dos conhecimentos tradicionais, a obrigatoriedade legal de obter o consentimento prévio das comunidades para ter acesso aos recursos genéticos presentes em seus territórios e aos conhecimentos associados; a necessidade de repartição dos benefícios oriundos

da exploração econômica; e a imprescritibilidade, inalienabilidade e impenhorabilidade dos direitos intelectuais."160

No documento Harley Ferreira de Cerqueira (páginas 131-135)