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PARTE III RESULTADOS

5.2 A opção pela docência

5.2.1 Pedagogia: acessibilidade/facilidade do curso

Parte dos professores iniciantes apontou como motivos norteadores da escolha pela docência a facilidade e acessibilidade para cursar Pedagogia. Eles consideram que este curso é tido como ‘mais fácil’ não apenas no tocante ao ingresso nas faculdades como também em relação ao curso em si que é considerado ‘fraco’. A estrutura curricular distante das necessidades do professor e da profissão (distância entre teoria e prática), a insuficiência de conteúdo em algumas disciplinas (falta de aprofundamento nos temas/assuntos) e a qualidade precária da formação de alguns formadores, especialmente no tocante ao domínio de conhecimento relacionados às teorias da educação foram argumentos que justificaram a fragilidade do curso. Em alguns discursos parece existir uma confissão de fracasso retratada no reconhecimento da impossibilidade intelectual, o que impediu alguns participantes de optarem por outro curso. Por isso, a Pedagogia, com habilitação para o trabalho como professor apareceu como única opção viável:

Por que Pedagogia? Eu achei que tava no meu nível. Eu achei que era o curso que eu tinha capacidade pra fazer. Que seria uma profissão que eu teria capacidade pra dar conta. Pra alcançar os objetivos. Eu acho que na minha idade com o conhecimento que eu tenho, eu acho que eu não seria capaz de fazer, por exemplo, um direito da vida, medicina da vida, eu não teria condições físicas nem cabeça. E eu acho que o curso de Pedagogia seria o mais fácil dentro das minhas capacidades, dentro do que eu acho que eu sou capaz. (Professor “C”)

Eu acabei escolhendo Pedagogia pela facilidade que eu poderia ter pra passar no vestibular e por ser um curso que não tinha muita concorrência. Então, foi devido a oportunidade pra passar e por ser a profissão possível pra mim ter o nível superior. Não adianta entrar pra fazer um curso que você nem sabe se vai conseguir terminar. A Pedagogia eu sabia que conseguiria que tava dentro da minha possibilidade. (Professor “E”)

A imagem do curso de Pedagogia como sendo ‘fraco’, ‘medíocre’ parece ser condizente com a imagem que alguns participantes têm de si mesmos, ou seja, de como eles se sentem intelectualmente. Isso talvez se justifique pela trajetória escolar difícil e

sofrida que a maioria dos participantes relatou ter vivido. Há depoimentos de insucesso e fracasso escolar tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio. Parte significativa dos professores iniciantes terminou o ensino médio já adulto, casado e com filhos. Alguns mencionaram ter retornado aos estudos, depois de muitos anos afastados, para ingressar na faculdade. Somente dois participantes concluíram a educação básica na idade prevista tendo ingressado na faculdade mais cedo em relação aos demais. Um destes participantes teve o curso de Pedagogia como sua segunda graduação.

A história de vida da maior parte dos professores iniciantes mostra que eles não tinham muitas perspectivas em relação à continuidade dos estudos, tampouco na escolha de uma profissão. Dos discursos emerge também a concepção da docência como sendo socialmente inferior a outras profissões e, por isso mesmo sendo a profissão possível:

‘Eu sou do interior não tem tanta oportunidade assim de escolher profissão. A gente tem que aproveitar pra fazer o que dá né? Foi por isso que eu fui fazer Pedagogia e ser professor’. A compreensão deste participante retrata a imagem que foi construída

historicamente e socialmente sobre a profissão docente e que ainda persiste no imaginário social. A ideia da docência como semiprofissão e profissão feminina também aparece em alguns discursos. Esta concepção está entre os aspectos que ainda incide, sobremaneira, na profissionalização e profissionalidade da atividade docente.

Eu fiz vestibular a primeira só pra ver como era porque tinha tempo que eu não estudava. Eu nem pensava em voltar a estudar pra te falar a verdade muito menos em estudar para ser professor. Aí passei em Pedagogia e já fui fazer. Eu não podia me dá o luxo de escolher outro curso e ficar tentando passar. Então, ser professor era o que dava pra ser. (Professor “B”)

Eu acho que a pessoa tem que ter jeito pra ser professor. tem que ter perfil, sabe? Tem que saber lidar com criança e tem que gostar acima de tudo. Na minha opinião a pessoa pra fazer Pedagogia tem que ter essas características. Nós mulheres temos mais jeito, sabe? (Professor “H”)

Assim, na fala dos participantes a Pedagogia aparece como sendo um curso possível e/ou adequado para pessoas já com certa idade, afastadas dos estudos há muitos anos, com pouca capacidade intelectual e, quase nenhuma disponibilidade para um curso presencial. Entre os oito participantes desse estudo somente dois realizaram o curso de Pedagogia na modalidade presencial enquanto os demais o fizeram à distância. Essa opção se deu, sobretudo, pela aparente facilidade associada aos cursos na modalidade à distância. O fato de não ter que frequentar a universidade/faculdade todos

os dias foi tido como aspecto facilitador por não alterar a rotina dos participantes. Assim, no contexto desse estudo, a opção pela Pedagogia em cursos à distância apareceu nos depoimentos como sendo opção de curso ‘ideal’, especialmente para as mulheres, tendo em vista a possibilidade de conciliar o estudo e a vida doméstica:

Eu queria me formar. Eu sempre fui muito pé no chão. Quem é mais jovem hoje tem mais oportunidade do que quem ta mais velho. Então assim eu sou uma pessoa pé no chão, que deixei os estudos faz muitos anos com uma certa idade. Por isso eu fui buscar ter um curso superior e escolhi o que desse pra mim, o que não atrapalharia minha vida nem trouxesse problema com o marido que sempre foi contra eu voltar a estudar. (Professor “C”)

Eu pensei que seria a melhor opção pra mim porque eu já não tinha mais idade pra começar uma carreira como a de advogado ou médico. Como eu poderia fazer o curso à distância eu pensei que seria melhor pra mim porque eu não teria que deixar a casa, o cuidado com as minhas filhas. Eu poderia estudar quando já tivesse com tudo feito dentro de casa. (Professor “E”)

A ênfase da maioria dos participantes na opção pelo curso de Pedagogia devido à aparente facilidade deste revela a existência de preconceito (ausência de conhecimento sobre os propósitos e/ou objetivos deste curso e, consequentemente, da profissão docente) e a desvalorização e/ou demérito do curso de Pedagogia na/pela sociedade que no intuito de universalizar a Educação Básica ainda dá margem para que muitos cursos de formação inicial precários, aligeirados e de baixo custo funcionem pelo país e continuem habilitando sem formação adequada/suficiente diversas pessoas para o trabalho como professor. Se a percepção da Pedagogia como curso fácil era anterior ao ingresso na faculdade no decorrer do curso ela não foi descontruída, haja vista a maneira como ainda é vista por alguns participantes, como mostra o depoimento a seguir:

O meu marido já está desempregado há muitos anos. Hoje em dia é muito mais difícil de conseguir um emprego ainda mais com estabilidade, né? Eu já convenci ele a voltar estudar pra terminar o Ensino Médio e fazer vestibular porque a minha intenção é ele fazer Pedagogia e se tornar professor como eu. Eu tenho certeza que esse é um curso que ele consegue fazer. Tanta gente consegue. Eu não consegui? (Professor “A”)