2 GRAMÁTICA DAS CONSTRUÇÕES E SEMÂNTICA DE
2.5 ABORDAGENS CONSTRUCIONISTAS DA MORFOLOGIA
2.5.2 Pelo estatuto construcional do morfema (RHODES, 1992)
De maneira geral, a proposta de Rhodes (1992, p. 409-423) consiste em encontrar uma resposta bem sucedida, de uma perspectiva construcionista, à questão “O que é um morfema?”. Para tanto, o autor precisa desconstruir um ponto de vista dominante dentro do estudo da morfologia de que morfemas não existiriam e o que existiriam, na verdade, seriam Regras de Formação de Palavras, proposto primariamente por Aronoff (1976).
A postulação de Aronoff tem base nos problemas relacionados à chamada abordagem do signo mínimo (relacionada à posição de Saussure de que o morfema seria a unidade mínima de significação) e se ampara na seguinte tríade de argumentos de base semântica: (1) morfemas de uma única ocorrência só podem ser determinados por circularidade; (2) usos idiomáticos de morfemas não podem ter um
sentido único determinado; e (3) haveria um grupo de morfemas na Língua Inglesa aos quais seria impossível atribuir-lhes sentido.
Aos dois primeiros argumentos, por decorrerem de uma visão radical de composicionalidade (Hipótese Forte da Composicionalidade), o autor endereça trabalhos que compõem a base da visão sociocognitivista da linguagem e que desconstroem a composicionalidade estrita, como Reddy (1979), Lakoff e Johnson (1980) e Lakoff (1987). Em vista disso, o seu foco principal é uma réplica ao argumento (3).
Para sustentar a falibilidade desse argumento, Rhodes (1992) afirma (i) que é possível, sim, atribuir sentido para as raízes e prefixos listados por Aronoff que supostamente não possuiriam um sentido plausível e (ii) que tais partículas agregam outras propriedades consistentes, que extrapolam os aspectos que uma análise morfológica tradicional lhes atribuiria, quais sejam, uma contraparte fonológica e outra semântica.
Como forma de estabelecer (i), isto é, que os morfemas [-fer] (“refer”, “prefer”, etc.), [-mit] (“demit”, submit”, etc.), [-sume] (“resume”, “assume”, etc.), [-ceive] (“receive”, “perceive”, etc.) e [-duce] (“reduce”, “conduce”, etc.) possuem sentidos, remete-se ao trabalho de Sweetser (1987), em que, ao menos em termos históricos,
é razoável atribuir a [-fer] o sentido de “sustentar, transportar”; a [-mit], “enviar”; a [-ceive], “fazer”.
De modo a firmar (ii), o autor propõe uma definição do morfema a partir de mais dois níveis, além dos níveis fonológico e semântico: sintaxe interna e sintaxe externa. Com isso, as propriedades reunidas pelo morfema seriam anotadas nos quatro níveis a seguir:
(a) Fonologia: material fonológico.
(b) Semântica: semântica e/ou pragmática.
(c) Sintaxe interna: considerações de como (o morfema) se encaixa na construção de uma palavra inteira.
(d) Sintaxe externa: considerações de como a presença do morfema afeta a classe de palavras inteiras que o contêm.
light -en
contraparte fonológica: layt ǝn
contraparte semântica: ‘leve (de peso)’ ‘(causativo-)incoativo’ sintaxe interna: base adjetiva sufixo de bases adjetivas
sintaxe externa: adjetivo, frame: paciente verbo, frame: agente
Ao atribuir tais características aos morfemas, Rhodes aproxima tais elementos da definição de construção (cf. seção 2.2), constituindo, por isso, uma abordagem construcionista para o estudo do léxico que sustenta uma morfologia baseada em morfemas. É com esse modelo que nos identificamos, conforme já anunciado, assumindo-o para a análise das construções de quantificação mórfica investigadas nesta tese.
A perspectiva assumida por Rhodes (1992) encontra lastro na Hipótese da Arquitetura Paralela de Jackendoff (2002), que entende o léxico como “o componente de interface do específico linguístico e o espaço de armazenamento, na Memória de Longo Termo (MLT), de todo conhecimento linguístico” (SANTOS, 2005, p. 50). Logo, itens lexicais são unidades maiores ou menores que uma palavra (padrão fônico com determinado status gramatical), podendo ser, portanto, afixos, expressões idiomáticas, fórmulas interacionais ou marcadores discursivos. Isso reforça, então, o continuum que se estabelece entre gramática e léxico sugerido pela GCC (cf. introdução da seção 2.2) bem como o tratamento igualitário que os modelos construcionistas buscam dar a objetos de diferentes níveis de análise linguística.
Dada essa aproximação no tratamento de objetos de natureza distinta, a proposta de Rhodes (1992) contempla uma adaptação do formalismo utilizado pela Berkeley Construction Grammar (FILLMORE E KAY, 1993; KAY E FILLMORE, 1999; dentre outros) para a formalização de construções sintáticas a objetos morfológicos. Tais formalizações tomam por base as matrizes de atributo-valor, utilizadas também, em uma versão atualizada, pela Sign-Based Construction Grammar, que é o modelo que embasa o FrameNet Constructicon, assumido por nós nesta pesquisa (cf. seção 2.3).
A SBCG é uma versão mais recente do modelo de Gramática das Construções proposto pioneiramente por Fillmore e Kay, nomeado Berkeley Construction Grammar. Tal modelo, além das acepções básicas do arquétipo que lhe dá origem, assumem pressupostos da Head-driven Phrase Structure Grammar
(HPSG), desenvolvida por Ivan Sag. A expressão que o nomeia, ‘sign-based’, remete à busca do modelo em cobrir todos os signos (pares de forma/função, portanto, construções) de uma língua.
De acordo com Sag (2011, 2012), os traços que compõem um signo são FONOLOGIA, FORMA, ESTRUTURA ARGUMENTAL, SINTAXE, SEMÂNTICA e CONTEXTO, aos quais estão associados valores específicos. O valor do traço FONOLOGIA é um sintagma fonológico; do traço FORMA, uma sequência de objetos morfológicos (que podem estar vazias se o foco for a sintaxe); de ESTRUTURA ARGUMENTAL, o potencial combinatório de uma expressão lexical, listando os argumentos sintático-semântico potenciais de tal expressão (para o verbo “dar”, e.g., tem-se a lista ‘SN, SN, SPrep’, uma vez que tal verbo demanda 3 complementos). O traço SINTAXE desdobra-se em outros dois traços: Categoria e Valência. O primeiro diz respeito às diferentes classes de signos, tais como nomes, adjetivos, verbos, dentre outras, que por sua vez vão se desdobrar em outros valores a depender da categoria (um nome, por exemplo, vai envolver o valor CASO, mas não FORMA VERBAL); já o outro, Valência, remete às diferentes possibilidades de tal signo se combinar com outros. O traço SEMÂNTICA também é dado por dois traços: INDEX e FRAME. O INDEX individualiza o referente de uma expressão: para um SN, uma variável atribuída a um indivíduo; para um SV ou uma oração, uma situação. Já FRAME especifica as predicações que juntas determinam o sentido de um signo (para o verbo “rir”, por exemplo, temos os valores ‘ator’ e ‘situação’). Por fim, CONTEXTO revela as particularidades do uso de determinado signo. Seus valores, no entanto, não foram desenvolvidos, ainda.
Sampaio (2010, p. 36) ilustra o uso de tal formalismo para representar um nome, no caso “Bruno”:
Figura 3 – Matriz para o Lexema ‘Bruno’
Fonte: Sampaio (2010, p. 36)
No nível mais alto, a figura mostra a contraparte fonológica da construção lexical em questão e, em seguida, o elemento mórfico que a compõe (haja vista que é composta apenas por um radical). A seguir, é indicada a categoria a que tal construção se vincula e, como não demanda complementos, sua valência está vazia. Acerca de sua semântica, por se tratar de um nome, é identificado, no INDEX, como um indivíduo (i). Frame, por sua vez, registra que tal construção nomeia um indivíduo.
O caminho percorrido ao longo deste capítulo mostra serem a GCC e SF perspectivas que avultam o caráter holístico da linguagem (premissa básica ao cognitivismo linguístico) e são teorias robustas (capazes de dar sustentação a mais rica análise que venhamos a ser capazes de realizar), cujas lacunas são totalmente contornáveis. Da mesma forma, uma morfologia baseada em morfemas se mostra pertinente dada a sua relevância para a formação de palavras, através da complexa rede de informações que congrega.
Finda a reflexão acerca dos modelos teórico-analíticos que embasam este trabalho, passamos, no próximo capítulo, a uma apresentação dos trabalhos analíticos que se dedicaram à descrição de formações sufixais quantificadoras do Português.
FON | brunu |
FORMA ( Bruno )
ARG-EST ( )
SYN CAT nome
VAL ( )
INDEX i
SEM
fr-nome FRAME NOME Bruno
NOMEADO i
3 BREVE PANORAMA SOBRE OS ESTUDOS DAS FORMAÇÕES SUFIXAIS DE