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O pensamento e a obra de Basil Bernstein

CAPÍTULO 3 – O MODELO PROPOSTO POR BASIL BERNSTEIN

3.1 O pensamento e a obra de Basil Bernstein

Basil Bernstein (1924-2000) foi um importante sociólogo inglês, professor emérito do Instituto de Educação da Universidade de Londres, e destacou-se como um dos mais influentes sociólogos do século XX, deixando um importante legado para a Sociologia da Educação e para o campo das Políticas Educacionais. Iniciou sua carreira acadêmica na década de 60, ocupou a cátedra Karl Mannheim e foi chefe do Departamento de Sociologia da Educação por muitos anos, até se aposentar.

Bernstein costuma ser incluído entre os autores das Teorias Críticas do Currículo como Althusser, Bourdieu, Apple, Young, entre outros. Fez parte, juntamente com Young, do movimento chamado de Nova Sociologia da Educação (NSE), que inaugurou um posicionamento de renovação do pensamento sociológico britânico. Mainardes e Stremel (2010, p. 3) explicam que, de maneira geral, a NSE problematizava o papel do conhecimento, “postulando que a sua construção envolve relações de poder, favorecendo a manutenção de grupos dominantes, ou seja, apontava as conexões entre currículo e poder, organização do conhecimento e distribuição do poder”, aspectos que ficam evidentes na obra de Bernstein.

O pensamento de Bernstein desenvolveu-se e tornou-se mais elaborado com o passar do tempo. Bernstein começou a publicar em 1958 e continuou escrevendo até a sua morte, em 2000. Os principais conceitos de sua teoria estão organizados nos cinco volumes de Class, codes and control, conforme descritos a seguir:

 Classe, códigos e controle: Estudos teóricos da Sociologia da Linguagem (1971);

 Classe, códigos e controle: Estudos aplicados à Sociologia da Linguagem (1973);

 Classe, códigos e controle: em direção a uma teoria das transmissões educacionais (1975);

 Classe, códigos e controle: A estruturação do Discurso Pedagógico (1990)33;  Pedagogia, controle simbólico e identidade: teoria, pesquisa, crítica34 (1996a).

Durante esses anos, Bernstein se manteve fiel aos conceitos de sua teoria, embora tenha recebido críticas quanto ao nível de abstração e complexidade de sua obra. O que ele fez foi revisitar e apurar seus escritos no decorrer dos anos, tornando-os mais sofisticados e refinados. Seus textos sofreram, de forma recorrente, constantes revisões e atualizações, sendo que alguns deles são versões revistas dos anteriores, o que mostra a sua preocupação em manter sua obra viva e sujeita à autocrítica (MORAIS e NEVES, 2007; SILVA, 2007; SANTOS, 2003).

Os estudos iniciais de Bernstein (1971, 1973) estavam ligados ao campo da Sociolinguística, quando desenvolveu os conceitos de código restrito e código elaborado35 e teceu considerações sobre as diferenças dos códigos adquiridos pelas crianças das camadas populares e pelas crianças provenientes das classes médias, bem como as implicações disto quanto ao sucesso e fracasso escolar. No entanto, esta ligação com a Linguística também apareceu em seus últimos trabalhos, especialmente os que abordam o conhecimento vertical e horizontal (BERNSTEIN, 1999).

A ideia central por trás dos escritos de Bernstein concentra-se, porém, em explicar as formas pelas quais o poder e o controle são desigualmente distribuídos nas relações sociais. A teoria de Bernstein é uma teoria do campo do Currículo, mas o foco de sua preocupação não está nos conteúdos do currículo, e sim nas relações entre os diferentes tipos de conhecimento que compõem o currículo36. Ou seja, Bernstein procurou explicar e analisar a estrutura e o processo de produção e distribuição dos conhecimentos, que ocorrem por meio de três sistemas de mensagem: o currículo (conhecimento válido), a pedagogia (transmissão válida) e a avaliação (realização válida) (SILVA, 2007).

A teoria bernsteiniana recebeu críticas, pois, de algum modo, apresentou um caráter determinista das estruturas macrossociológicas. No entanto, o próprio Bernstein rebateu essas críticas enfatizando, ao contrário, o caráter dialético da sua

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Neste capítulo, iremos utilizar a tradução para o português feita por T. T. Silva (1996).

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A segunda edição ampliada foi publicada em 2000.

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Retomamos o conceito e trazemos a definição de código de Bernstein, mais adiante neste capítulo.

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Bernstein (1988, p. 151) define currículo como “sistema de mensagens que constituem aquilo que conta como conhecimento válido a ser transmitido”.

teoria, ao afirmar que o modelo teórico que apresenta tem elementos explicativos tanto dos processos deterministas de reprodução social quanto dos processos de mudança. Explica que “ordenamento e desordenamento, arranjo e rearranjo, reprodução e transformação, a voz dos outros e a nossa própria voz ‘ainda a ser vocalizada’, são todas possibilidades intrínsecas à socialização”, e que “a ‘mensagem’ pode levar a uma mudança da ‘voz’”, apontando para as chances de mudança na estrutura educacional defendidas em sua teoria a partir da alteração nas formas de comunicação do que é legítimo (BERNSTEIN, 1996, p. 182). Argumentando sobre este aspecto da teoria de Bernstein, Santos (2003, p. 25) salienta que

Ao descrever os processos de comunicação pedagógica, ele mostra como a escola trabalha e, dessa forma, explicita como as diferenças que ocorrem no desempenho dos alunos não estão apenas relacionadas à estrutura social, mas também com a própria forma como estas hierarquias se inscrevem ou são elementos constituintes do aparelho pedagógico. Sua teoria não contém uma proposta de mudança ou alternativas para a transformação da educação. Contudo, ao buscar desvendar elementos intrínsecos ao aparelho escolar, que condicionam a produção e recepção diferenciada de mensagens ou de discursos, o autor abre caminho para o entendimento mais profundo de como as desigualdades educacionais são produzidas e justificadas. A partir desse entendimento, abre-se a possibilidade de se repensar a educação (SANTOS, 2003, p. 25).

Ou seja, ao analisar elementos estruturais que regulam a produção e a distribuição do conhecimento, Bernstein ofereceu um referencial teórico utilizado pelas Ciências Humanas e Sociais para problematizar os processos pelos quais as desigualdades são produzidas, reproduzidas e justificadas nos discursos oficiais (SANTOS, 2003).

Na sequência, destacamos alguns conceitos deste referencial teórico construído ao longo dos anos por Bernstein. Evidentemente, o texto que se segue é fruto de escolhas de nossa parte entre os inúmeros construtos desenvolvidos pelo autor, cuja ênfase que damos a determinados aspectos da teoria, em detrimento de outros, constituem-se em um tipo de “recontextualização” de seus escritos, a partir e de acordo com nossas leituras, compreensões e interpretações daquilo que julgamos relevante apontar neste capítulo. Cabe mencionar que, como parte deste processo de escolhas, nos concentramos no livro Classe, código e controle: a estruturação do discurso pedagógico (BERNSTEIN, 1996), uma vez que nesta obra o autor revisita vários conceitos indicados em textos anteriores e pelo realce dado à

estrutura do Dispositivo Pedagógico, categoria teórica que detalhamos posteriormente.