CAPITULO II – A EXPRESSÃO FACIAL DA EMOÇÃO
2.4. O reconhecimento da expressão facial da emoção
2.4.1. Processos cerebrais subjacentes
2.4.1.1. Perceção e reconhecimento
No âmbito das investigações que têm vindo a ser realizadas nas últimas décadas, os termos “perceção” e “reconhecimento” são considerados distintos, conceitos introduzidos pela primeira vez de forma separada por Lissauer (1890, cit. in Adolphs, 2002) nas suas observações clínicas.
A perceção refere-se a um processo que ocorre relativamente cedo no tempo mas é posterior ao início do estímulo e permite processar as características da imagem visual e a sua configuração. A perceção é responsável por tarefas que requerem exclusivamente um julgamento sobre as propriedades geométricas e visuais dos
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estímulos e por discriminar diferenças entre duas faces que são apresentadas simultaneamente. O processamento cortical da face inicia-se no córtex occipital que realiza o processamento percetual das características individuais de um estímulo e relaciona a estrutura e configuração desse estímulo com outro, distinguindo-o da figura fundo. Pela sua peculiaridade, o processamento das características faciais recorre a estratégias cerebrais específicas que não são utilizadas noutras classes de estímulos visuais. Neste tipo de processamento visual, o cérebro precisa de ser capaz de discriminar rapidamente uma face entre outras estruturalmente muito similares. Tal como referido anteriormente, Adolphs (2002) considera o processamento percetual suficiente para categorizar faces como sendo um estímulo distinto de outros objetos visuais e que ocorre em regiões do córtex occipito-temporal, incluindo o giro fusiforme. Estudos de neuroimagem e de lesão cerebral têm demonstrado a importância desta região no processamento das propriedades percetivas de faces (Van Rullen & Thorpe, 2001). O processamento percetivo posterior, tal como o reconhecimento da identidade facial, dependem do córtex temporal anterior (Tranel, Damásio & Damásio, 1997).
Experiências efetuadas com macacos têm permitido perceber melhor o funcionamento das regiões cerebrais corticais temporais durante a perceção de faces. Os neurónios localizados no córtex temporal inferior mostram uma variedade de propriedades de resposta e são seletivos para faces. Estes modulam a sua resposta perante informação específica como a identidade, o estatuto social ou a expressão emocional. Também existem evidências de que os neurónios no córtex temporal são anatomicamente segregados em função do tipo de informação que codificam. Enquanto os neurónios localizados no sulco temporal superior codificam informação sobre a expressão facial da emoção, aqueles situados numa zona mais ventral do córtex temporal inferior codificam principalmente a informação sobre a identidade da face (Hasselmo, Rolls & Baylis, 1989).
Contrariamente à perceção, o reconhecimento exige conhecimentos adicionais e não pode ser conseguido somente através da análise visual dos estímulos. Este processo exige conhecimento sobre a própria expressão e outros estímulos do mundo com ela
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associados de forma direta ou indireta. O reconhecimento emocional de faces envolve processos cognitivos, como a atenção e a memória e um conjunto de estruturas cerebrais que associa as representações percetivas da face ao conhecimento anterior, sinalizando um conjunto complexo de mecanismos que utilizam múltiplas estratégias (Anderson et al., cit. in Aguiar 2008).
Com base nos modelos de Bruce e Young (1986, cit. in Adolphs, 2002) e Haxby e colaboradores (2000, cit. in Adolphs, 2002), Adolphs (2002) desenvolveu uma teorética sobre o reconhecimento emocional. Assim, segundo este autor, a perceção inicial da face é modulada pela atividade de estruturas subcorticais e do córtex visual. As estruturas subcorticais implicadas neste processo incluem o colículo superior e o tálamo pulvinar que, provavelmente estão especializadas no processamento rápido, dinâmico e automático de estímulos. As informações provenientes do tálamo pulvinar irão ser processadas pela amígdala. Durante o reconhecimento de emoções faciais, a amígdala e o córtex orbito-frontal permitem a ligação de representações percetivas ao conhecimento conceptual. Diversas investigações têm também verificado que o córtex pré-frontal e temporal apresentam uma ligação recíproca necessária ao normal processamento dos estímulos visuais e dos conhecimentos previamente associados com os mesmos (Kawasaki, Adolphs, Kaufman, Damásio, Damásio, Granner et al., 2001).
Os resultados das investigações de Fusar-Poli e colaboradores (2009) sobre o processamento de faces emocionais em indivíduos saudáveis, permitem averiguar que este processo está associado ao aumento da ativação das áreas visuais (giro fusiforme, giro occipital medial e inferior e giro lingual), límbica (amígdala, giro para-hipocampal e o cingulado posterior), temporoparietal (lóbulo parietal, giro temporal médio, ínsula), pré-frontal (giro frontal medial), subcorticais (putámen) e do cerebelo. Comparativamente com a face neutra, os investigadores verificaram que o processamento de faces felizes está associado com a ativação neural da amígdala bilateral, com o giro fusiforme esquerdo e com o córtex cingulado anterior direito. As faces tristes ativam a amígdala direita e o giro lingual esquerdo. O medo está relacionado com a ativação da amígdala bilateral e os giros fusiforme e frontal medial.
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O processamento de faces zangadas implica o aumento da resposta neural na ínsula esquerda e no giro occipital inferior direito. A cólera encontra-se associada com a ativação neural da ínsula bilateral, o tálamo direito e o giro fusiforme esquerdo.
A amígdala desempenha um papel importante no tratamento da informação facial emocional, essencialmente na emoção de medo e comportamento social, estando envolvida no rápido processamento percetual de expressões faciais (Aggleton, 2000). Esta estrutura cerebral tem também capacidades para modular a atenção, a memória, a tomada de decisão e a resposta emocional. A investigação comprova que a amígdala é umas das estruturas primordiais no processamento emocional, visto ser o primeiro contacto e reagente, transmitindo informações a outras áreas para que a reação emocional possa ser adequada. As lesões bilaterais na amígdala provocam alterações no reconhecimento de emoções faciais, sobretudo associadas à emoção do medo e outras emoções negativas. Investigações efetuadas permitiram perceber que, visualizar expressões faciais ativa automaticamente a amígdala em indivíduos neurotípicos e que a ativação anormal da amígdala pode ser encontrada em certas populações com Perturbações Psiquiátricas relacionadas com a emoção (Aggleton, 2000). O córtex orbitofrontal encontra-se estreitamente ligado à amígdala no processamento da emoção. A amígdala tem também ligação com o córtex cingulado anterior e com o córtex orbital, os quais dizem respeito ao circuito da memória. Com base nestes dados, alguns investigadores suportam a ideia de que a amígdala participa também na modulação da memória e na incorporação de informações emocionais e cognitivas, configurando-lhes carga emocional (Amaral, Price, Pitkanen & Carmichael, 1992).
Diversas evidências científicas comprovam o envolvimento diferenciado de ambos os hemisférios cerebrais no processamento de faces. Os hemisférios cerebrais humanos têm tarefas distintas: o esquerdo desempenha as tarefas da linguagem e o direito tarefas cognitivas de análise prática do comportamento não verbal, no qual se incluem a identificação e o reconhecimento da expressão facial da emoção (Bowers, Bauer, & Heilman, 1993). Estudos anteriores revelam que uma lesão no hemisfério direito pode prejudicar a discriminação, reconhecimento e nomeação de faces
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emocionais ou cenas. As investigações efetuadas encontraram uma ligação entre os défices no reconhecimento facial da emoção e danos nos córtex parietal e medial occipital direitos. A existência de lesões no opérculo frontal ou no lobo temporal direito pode afetar o reconhecimento de emoções faciais. Lesões nos gânglios da base nos dois hemisférios podem, também, prejudicar o reconhecimento emocional (Aguiar, 2008). Segundo De Haan, Nelson, Gunnar e Tout (1998), a emoção é processada preferencialmente pelo hemisfério direito já aos 5 anos de idade, ao passo que o hemisfério esquerdo é especialista em discriminar expressões faciais distintas. Outra descoberta que salienta a hipótese de que o hemisfério cerebral direito é dominante, é o facto de a hemiface esquerda se encontrar mais envolvida e pronunciada do que a hemiface direita na expressão facial da emoção. Keenan, McCutcheon, Freund, Gallup, Sanders e Pascual-Leone (1999) revelam que os indivíduos reconhecem as suas próprias faces mais rapidamente com o hemisfério direito do que com o esquerdo.
Apesar do consenso de que o hemisfério direito desempenha um papel crucial no processamento da emoção, os detalhes estão ainda por decifrar. Existem duas teorias que têm sido debatidas, uma que defende que o hemisfério direito participa no processamento de todas as emoções (a "hipótese do hemisfério direito") e outra que sustenta a hipótese de que o hemisfério direito é relativamente especializado no processamento de emoções negativas, enquanto que, o hemisfério esquerdo processa as emoções positivas (a "hipótese da valência") (Borod, Obler, Erhan, Grunwald, Cicero, Welkowitz et al., 1998). A identificação e reconhecimento de emoções negativas como o medo e a tristeza ativam mais as estruturas do hemisfério direito, sendo que, os sinais produzidos serão recebidos e processados pelo hemisfério oposto (Freitas-Magalhães, 2011).