4. APRESENTANDO O OBJETO DE ESTUDO
4.1 Percurso histórico
Na década de 1950 a imprensa brasileira tinha como uma de suas características a difusão de conteúdo além da notícia, apresentando alto teor de opinião e posicionamento do veículo diante do fato e/ou notícia apresentados. Essa característica, expressada sobretudo nas matérias que diziam respeito a questões políticas, conferiu à imprensa um caráter partidário, fazendo com que esta fosse conhecida como “imprensa de opinião”. Contudo, é somente no final dessa década que o jornalismo brasileiro começa a adquirir um outro comportamento, deixando de lado a opinião política partidária e afirmando-se como “imparcial” e, por consequência, apresentando mudanças em relação às notícias dadas, que passaram ser mais objetivas diante do fato exposto (PADOVANI, 2016).
É nesse período que surge o jornalismo empresarial, no qual os jornais impressos da época assumem comportamento de empresas, sendo a notícia o produto vendido e, por isso deveria ser ofertado com o mínimo de subjetividade possível. Ainda em relação a esse período, Padovani (2016) referenciando Lattman-Weltman (1996) explica que essas mudanças sofridas pelo jornalismo brasileiro na década de 1950 – o que por sua vez causou o surgimento de novas características do jornalismo da época – foram ocasionadas pelo desenvolvimento que o país passava na época em diversas esferas, tais como a política, econômica, industrial, urbana, entre outros (LATTMAN-WELTMAN, 1996, p. 161, apud PADOVANI, 2016, p. 18).
Contudo, Padovani (2016) ainda explica que, apesar do surgimento do jornalismo empresarial, trazendo o aspecto de subjetividade ao conteúdo jornalístico produzido, muitas dessas novas empresas ainda assumiram o papel de representantes dos interesses dos grupos que as financiavam (PADOVANI, 2016). É nesse contexto que surge o jornal Tribuna do
Norte. Consolidado hoje como o principal jornal do Rio Grande do Norte, a TN surgiu, como explica Silva (2015), com uma proposta político-partidária.
Fundado em 24 de março de 1950 o jornal Tribuna do Norte nasce, de acordo com Oliveira (2013) parafraseando Fernandes (2006), da “necessidade que o então deputado Aluízio Alves tinha de defender suas bandeiras” (FERNANDES, 2006, p. 8, apud OLIVEIRA, 2013, p. 47). Na época deputado potiguar, e também jornalista, Aluízio Alves contava com experiência como redator chefe da Tribuna da Imprensa, jornal carioca fundado por Carlos Lacerda, membro da então União Democrática Nacional (UDN), partido político opositor ao governo de Getúlio Vargas (31 de janeiro de 1951 a 24 de agosto de 1954).
Silva (2015) explica que a fundação do jornal Tribuna do Norte acontece estritamente ligada a criação da Editora Tribuna do Norte, composta por um grupo de acionistas cujo presidente era Dinarte Mariz, um dos tutores políticos de Aluízio e liderança da UDN no estado potiguar.
Se a Tribuna do Norte nasceu com essa proposta político-partidária, uma vez que o seu fundador era um deputado federal e jovem jornalista, no decorrer do tempo, outros espaço de sociabilidade e novos sujeitos, até então ausentes da palavra impressa, puderam ganhar publicidade (SILVA, 2015, p. 51).
É nesse sentido que, apesar de nascer no contexto do jornalismo empresarial e contar com características deste, o funcionamento do jornal Tribuna do Norte estava interligado aos interesses de seu fundador, cuja carreira política fora “construída com o auxílio do jornal desde o ano de sua fundação em 1950” (NASCIMENTO, 2017, p. 42).
Esse forte viés político assumido pelo jornal em seus primórdios é perceptível, por exemplo, na própria forma como o periódico se mostrava para o seu público: “Um jornal a serviço do Rio Grande do Norte”, se colocando como porta-voz dos interesses do povo potiguar. Nesse sentido, Aluízio Alves “vê o jornal como um campo fértil para implantação de sua ideologia no seio do eleitorado leitores da Tribuna do Norte” (NASCIMENTO, 2017, p. 42).
Sobre isso, o autor ainda conclui que a projeção da imagem de Aluízio Alves feita pelo referido jornal foi um fator fundamental para sua vitória como governador do estado, em 1960 (NASCIMENTO, 2017).
Figura 1 – Capa do jornal Tribuna do Norte na década de 1960.
Fonte: Laboratório de Imagens (LABIM) da UFRN. Tribuna do Norte, 23 jul. 1960, p. 1.
No que tange às características do jornal Tribuna do Norte nessa época, além do fator político, o periódico também assumia um forte caráter popular. Por mais que representasse interesses políticos de seu fundador, o jornal entendia que o leitor era um interlocutor fundamental, e essa impressão era demonstrada no conteúdo que o jornal ofertava, que apresentava-se cada vez mais diversificado e popular, dispondo de pensamento e humor, quadrinhas, horóscopos, fases da lua, entre outros (SILVA, 2015).
Localizado na Avenida Tavares de Lima Lira, 101, no bairro da Ribeira, em Natal, o jornal Tribuna do Norte foi classificado como um diário matutino, constituindo-se por uma equipe dirigente essencialmente masculina: Aluízio Alves (como diretor), Milton Ribeiro Dantas (diretor comercial), Odorico Ferreira de Souza (redator chefe), Rivaldo Pinheiro (secretário), e Alcebíades Fernandes e Silva (gerente).
Em 1950 os exemplares da TN eram ofertados por assinatura anual, ao preço de Cr$ 150,00 (cento e cinquenta cruzeiros), semestral Cr$ 80,00 (oitenta cruzeiros) e Cr$ 0,80 (oitenta centavos de cruzeiros) o periódico individual. Somente sete anos depois o valor das assinaturas é elevado: a anual passa a ser vendida ao preço de Cr$ 400,00 (quatrocentos cruzeiros) e o periódico individual é vendido a Cr$ 2,00 (dois cruzeiros).
Silva (2015) explica que o nome do jornal é cunhado sob influência do carioca Tribuna da Imprensa, que inspirou também outras características da Tribuna do Norte da década de 1950 como, por exemplo, a coluna “Acontece todo dia”, a qual possuía a sua versão na
Tribuna da Imprensa onde, nos dois casos, tanto o jornal carioca quanto o potiguar, eram veiculadas notícias sobre ocorrências policiais. Sobre esse fato, Silva (2015) comenta que:
No jornal norte-rio-grandense essas colunas não tinham nomes fixos, isto é, sofriam substituições e, às vezes, retornavam e depois desapareciam. Os conteúdos permaneciam em transformações históricas, a exemplo das notícias (SILVA, 2015, p. 49).
Além do nome do jornal e da coluna acima citada, o logotipo da Tribuna do Norte também recebe influências de seu correspondente carioca. Ao ser criado, o jornal potiguar apresentou como logotipo um horizonte, em referência ao Norte, do qual emanava raios de sol, sugerindo a ação de iluminar. O uso do termo Tribuna, por sua vez, é aplicado em alusão ao ambiente “elevado onde discursam os oradores e auditores” (SILVA, 2015, p. 50). Para o autor, esses detalhes técnicos despercebidos por muitos, expressavam as posições políticas de seu fundador.
No que refere-se a edição jornal, naquela época a TN já não circulava nas segundas- feiras, condição que permanece até hoje. Além disso seu modelo de edição, explica Silva (2015), correspondia aos modelos norte-americanos, com uma série de notícias agrupadas em colunas em uma mesma página. Na primeira lauda do jornal eram veiculadas notícias sobre a política nacional e matérias sobre assuntos internacionais.
Havia uma profusão de notas informativas distribuídas entre as sete colunas. Os títulos das notícias figuravam em letras garrafais e, em algumas delas, as fontes ficavam em negrito. A fotografia, ou seja, o texto-imagético na primeira página, ainda era rarefeita nos início dos anos 1950 (SILVA, 2015, p. 52).
A segunda página do jornal era preenchida pelo caderno “Notícias da Cidade”, o qual era ocupado pelo expediente do jornal, a coluna “Revista de Cidade”, os espaço “Instantâneos” (no qual eram publicadas as últimas notícias) “Tribuna Social” (espaço corresponde às colunas sociais), “Indicador Tribuna” (no qual eram dispostos telefones úteis para população, como serviços públicos de saúde, transporte, entre outros), “Vida Religiosa” (conteúdo voltado às práticas cristãs católicas) e, por último, vinham as propagandas comerciais (TRIBUNA DO NORTE, 2 jul. 1950, p. 2, apud SILVA, 2015, p. 54).
Silva (2015) aponta o caráter político da Tribuna do Norte apresentado na terceira página do jornal, a qual era denominada de “Editorias”, dispondo da transcrição de um editorial de Carlos Lacerda, publicado diariamente na Tribuna da Imprensa. O diferencial é que nessa página a assinatura do autor – Carlos Lacerda – correspondia ao título da matéria, o
que revela a importância de Lacerda diante do conteúdo exposto (SILVA, 2015). Além disso, a fotografia do autor também fazia parte da matéria.
Na quarta página do jornal eram publicadas as “Notícias Diversas”. Tratavam-se de matérias sobre temas que correspondiam a diversos públicos como aqueles relacionados à política nos interiores do estado, “preocupações com os ‘ociosos’ (sujeitos que não produziam economicamente), notas sobre os serviços de sindicatos como, por exemplo, o dos contabilistas, além de propagandas comerciais” (SILVA, 2015, p. 54).
A quinta página do jornal era ocupada pelos cadernos de “Esportes e notícias diversas”, no qual eram publicadas, sobretudo, matérias sobre os os times de futebol, com ênfase, em 1950, à participação da seleção brasileira na Copa do Mundo. Intercalada com as notícias sobre esportes havia, nessa página, a coluna “Passatempos Tribuna”, onde eram publicados aos domingos conteúdos para descontração, como charadas em prosa e verso (SILVA, 2015).
A sexta página do jornal funcionava como uma continuação do caderno de “Notícias Diversas”, sendo publicadas matérias sobre temas variados. No entanto, Silva (2015) destaca que, nessa página do jornal, eram também veiculadas notícias alusivas às reivindicações da classe trabalhadora.
De acordo com os estudos realizados por Silva (2015) a respeito do jornal Tribuna do Norte, o autor aponta características que sugerem, já nesse período, o interesse do jornal em estabelecer canais de interatividade com o público leitor. No entanto, esse interesse era puramente político, uma vez que a TN “Alavancou a figura de Aluízio para que se tornasse conhecido do público leitor” (FREIRE, 2003, p. 34, apud SILVA, 2015, p. 56).
Observamos as formas de comunicação interativas pontuados por Silva (2015) como, por exemplo, no exemplar de 2 de julho de 1950 quando, na primeira página, o jornal apresenta uma nota direcionada imediatamente ao leitor.
Mesmo contemporizando com os grupos sociais da elite norte-rio-grandense e suas lideranças políticas, a Tribuna do Norte procurava se articular também com os diferentes grupos populares, isto é, das “classes” trabalhadoras. Houve, inclusive, matérias que deram vozes a essas pessoas reivindicando seus direitos, mormente, trabalhistas. De forma imperativa e se posicionando diretamente, o impresso enfatiza que o leitor deveria colaborar com ele. Nessa perspectiva, o leitor era o ‘melhor repórter’ e todos podiam enviar informações à redação, pelos correios ou por telefone (TRIBUNA DO NORTE, 2 jul. 1950, p. 1, apud SILVA, 2015, p. 53).
Além disso, o autor ainda afirma que o jornal atuava atento aos demais meios de comunicação, dispondo de correio e telefone os quais eram utilizados como meios para construção de um “jornalismo com participação social” (SILVA, 2015).
Ainda sobre a interação com o público a Tribuna do Norte da década de 1950 contava, em sua terceira página, com um editorial no qual constavam respostas de pedidos e questionamentos dos leitores. Além deste, ainda nessa página, havia “O voto ponderado”, crônica de Gustavo Coração considerada por Silva (2015) como “um exemplo dessa interação com o leitor” (SILVA, 2015, p. 54). Por assumir a classe popular como seu principal público, o jornal contava com pontos de distribuição em bairros importantes para o comércio na capital potiguar. Foram criados pontos de distribuição, por exemplo, no Alecrim na Cidade Alta – locais movimentados na cidade. Para Silva (2015), isso evidenciava a intenção do jornal em atingir o público popular.
Outra forma que o jornal utilizou para atingir a classe popular foi a ênfase dada às matérias sobre temas populares, como futebol ou crimes, com destaque para o uso de fotografias nas matérias. Em relação a esse último tema, a TN, na década de 1950, ainda não dava tanta prioridade às matérias relacionadas a temas policiais (SILVA, 2015).