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CAPÍTULO I DELIMITAÇÃO DOS PRESSUPOSTOS EPISTEMOLÓGICOS E

CAPÍTULO 1 ESTRATÉGIA E AÇÃO DOS IMPÉRIOS ALIMENTARES

2.1 PERDA DE ESPÉCIES, HABITATS E ECOSSISTEMAS

É notório que as práticas agrícolas relacionadas à agricultura empresarial e

capitalista se tornaram hegemônicas em grande parte dos países desenvolvidos e

em desenvolvimento. Essa homogeneização da agricultura, entretanto, em razão de

seus métodos (alicerçados nos moldes implantados pela Revolução Agrícola

Moderna, pela Revolução Verde e agora pela Revolução Biotecnológica), têm

ocasionado graves consequências ao meio ambiente, a exemplo da destruição dos

habitats, da redução das espécies e do desequilíbrio nos ecossistemas.

A utilização maciça de fertilizantes e agroquímicos em lavouras de

monoculturas, a mecanização no preparo e colheita e a utilização de variedades

geneticamente modificadas transformam os campos em ambientes cada vez mais

artificializados e controlados, fato que ocasiona a migração e/ou extinção local de

espécies selvagens que não encontram nesses locais ambientes que se aproximem

de seus habitats originários ou se constituam enquanto ecossistemas aptos a

sustentar os ciclos de vida dessas espécies.

No cenário da Revolução Biotecnológica, que se caracteriza pela utilização

de variedades geneticamente modificadas vários fatores podem afetar a

biodiversidade, a exemplo da possibilidade de escape gênico em algumas

variedades, o aumento da competitividade em condições naturais (wedness),

endotoxinas que impactam organismos não-alvo, desenvolvimento de resistência em

populações-alvo, erosão genética, entre outros, todos esses fatores que

impulsionam a perda de espécies, habitats e ecossistemas (GASPARINI, 2009).

Acerca da questão da influência da intervenção humana em ambientes

naturais por meio das práticas agrícolas, Tscharntke et al (2005) afirmam que esta

prática, irrefutavelmente, é a principal causa das mudanças nos habitats e perda da

diversidade. Entretanto, salientam que o uso menos intensivo da terra pode trazer

importantes elementos a programas de conservação em larga escala. Isso significa

que as práticas agrícolas podem ocasionar efeitos positivos ou negativos para a

conservação da biodiversidade, dependendo da intensidade de tais práticas (se de

alta ou baixa intensidade), ou seja, trata-se de uma questão de modelo e de escala.

De qualquer maneira, segundo Wilson (1997, p. 18), a importância de cada

componente da biodiversidade é fundamental. Nesse sentido o autor destaca que:

”[...] cada espécie é única e intrinsecamente valiosa”. Já Guaray e Dias (2001)

destacam que a diversidade Biológica é uma das propriedades fundamentais do

meio ambiente, sendo importante para a qualidade ambiental, já que sua perda, em

qualquer nível, representa perda de qualidade ambiental.

De modo contrário, alguns autores, como Jonsson (2003), que realizou uma

revisão da literatura sobre o assunto, questionam a necessidade ou não de evitar-se

a extinção de espécies e consequentemente, a redução da diversidade biológica.

Para o autor, apesar da incredulidade de alguns, é evidente que a exploração da

natureza pelo homem ocasiona consequências prejudiciais à biodiversidade

do planeta. Jonsson ressalta que a ciência conhece quase 2 milhões de espécies,

de um total que pode variar de 10 a 30 milhões e que a extinção sempre existiu e

está ocorrendo todos os dias. Assim, em razão deste volume de espécies,

levanta-se a questão levanta-se a perda de algumas espécies poderiam realmente fazer falta ou

não, visto que a substituição das funções ecossistêmicas de cada espécie extinta

ocorre naturalmente

Ressalta, entretanto, que o maior problema atualmente é a velocidade

acelerada das perdas, que são da ordem de 100 a 1.000 vezes mais rápidas do que

em épocas anteriores, pois, para cada 10.000 (dez mil) espécies que se extinguem,

somente uma é reposta pela natureza pelo processo evolutivo. O autor conclui que:

“[...] até hoje, os estudos têm demonstrado que a biodiversidade é importante para a

velocidade dos processos do ecossistema e para o funcionamento do ecossistema,

pelo menos em escalas espaciais relativamente pequenas e por curtos períodos de

tempo” (JONSSON, 2003, s.p.).

Sobre o assunto, as observações de Hooper et al (2005), que

empreenderam uma ampla revisão sobre os efeitos da redução da biodiversidade

em relação às funções ecossistêmicas, chegou às seguintes conclusões:

características funcionais das espécies influenciam fortemente as propriedades dos

ecossistemas em vários contextos (dominância, espécies chave, engenharia

ecológica, interação de espécies); alterações da biota nos ecossistemas via invasão

e extinção de espécies causadas pelas atividades humanas alteram os serviços

prestados pelos ecossistemas, tipos de ecossistemas, potenciais mudanças no

processo evolutivo dos ecossistemas (note-se que as alterações descritas estão

documentadas em estudos de caso).

Por fim, os autores salientam que muitas propriedades dos ecossistemas

são alteradas com a perda intensiva de espécies e mais espécies são necessárias

para assegurar uma provisão estável de bens e serviços ecossistêmicos com

variabilidade espacial e temporal.

Por outro lado, Huston (1995) afirma que a diversidade está correlacionada

com distúrbios em diferentes escalas na natureza, podendo haver correlações

positivas e negativas. O autor cita alguns exemplos em que correlações positivas

ocorrem: os distúrbios de glaciação, em especial nas áreas invadidas por glaciares

periodicamente, redundam em grande alteração de tais áreas, ocasionando a morte

ou a redução de todos os organismos, além da alteração da superfície da paisagem,

fato que, entretanto, influencia fortemente a diversidade de espécies existentes

nestas áreas.

Em outra situação de correlação positiva apresentada, o autor afirma que

distúrbios menos severos são necessários para manter a biodiversidade em alguns

sistemas, a exemplo das zonas intertidais (também conhecidas como intermareais),

nas quais pedras são roladas e tombadas pelas ondas, o que mantém uma alta

diversidade de algas e outros organismos em comparação com pedras que não

sofrem este processo. No mesmo exemplo, verifica-se que a mortalidade causada

por predadores tem resultado em maior diversidade de espécies nestas zonas do

que naquelas onde os mesmos não estão presentes.

Entretanto, também existem situações onde distúrbios e predação resultam

na diminuição de diversidade, representando correlações negativas. Deste modo

distúrbios podem conduzir a incremento e decréscimo de diversidade de espécies.

Sendo assim, independentemente da ciência ainda não ter respostas

definitivas, a importância da preservação da biodiversidade para a manutenção dos

serviços ecossistêmicos e a continuidade da vida humana, ao menos no momento

atual do desenvolvimento científico-tecnológico, é inafastável. Portanto, resta

evidente que a redução da biodiversidade pode ocasionar inúmeras consequências

para a manutenção da vida no planeta, fato que exige uma mudança no pensamento

e nas atitudes da espécie humana em relação ao meio.

Deve ficar claro, entretanto, que tais mudanças se justificam, principalmente,

a partir de uma fundamentação antropocêntrica (a sobrevivência do próprio homem),

evidenciada a partir das experiências humanas pretéritas, que colocaram em dúvida

a própria continuidade da espécie humana. Segundo Diamond (2005), no passado

verificou-se o colapso de grandes civilizações. Dentre as diversas causas de tais

civilizações terem se extinguido, está a destruição inadvertida de seus recursos

ambientais, o que o autor chamou de suicídio ecológico (ecocídio).

Segundo o autor, os processos pelos quais estas civilizações minaram a si

mesmas, danificando o seu meio ambiente, se dividem em oito categorias, a saber:

desmatamento e destruição de habitats; problemas com solo; problemas com o

controle da água, sobrecaça, sobrepesca, efeitos da introdução de outras espécies

sobre espécies nativas e aumento per capita do impacto do crescimento

demográfico.

Ao observar-se tais categorias pode-se afirmar que, direta ou indiretamente,

implicaram em impactos que redundaram na perda de biodiversidade e na redução

das funções ecossistêmicas. O próprio autor cita os problemas do passado e que

hoje se repetem ”[...] os recursos naturais que estamos destruindo: habitats naturais,

fontes de alimento selvagem, diversidade biológica e solo” (DIAMOND, 2005, p.

582). Inobstante alguns dos efeitos relacionados à redução da biodiversidade

tenham sido anteriormente descritos nos parágrafos precedentes, um destes, o

funcionamento dos serviços ecossistêmicos, será explicitado a seguir, visto que de

suma importância para o desenvolvimento e implementação de práticas agrícolas

que congreguem a sustentabilidade econômica, social e ambiental.