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CAPÍTULO 3 A EVOLUÇÃO DA RESPONSABILIDADE CIVIL DO FORNECEDOR

3.3 TEORIA DA QUALIDADE

3.3.2 Periculosidade adquirida

Se de um lado verificam-se perigos que são próprios da coisa e, consequentemente, são normais e previsíveis ao consumidor (perigos inerentes)270,

269 Nesse sentido: EBERLIN, Fernando Buscher Von Teschenhausen. Responsabilidade dos fornecedores pelos danos decorrentes dos riscos do desenvolvimento, p. 24;

NUNES, Luiz Antonio Rizzatto. Curso de Direito do Consumidor, p. 142-143; PUSCHEL, Flávia Portella. A Responsabilidade por Fato do Produto no CDC, p. 106.

270 Tratados na subseção 3.3.1.

existem outros que não apresentam essa característica de normalidade e previsibilidade, denominados de perigos adquiridos.

Os perigos adquiridos são decorrência direta das inexoráveis falhas do sistema de produção em série. Por mais que o fornecedor queira, não consegue evitá-los, pois os seres humanos, e até mesmo as máquinas, não estão imunes a erros.

A característica principal da periculosidade adquirida é exatamente a sua imprevisibilidade para o consumidor. Dita imprevisibilidade deve estabelecer-se com relação ao que o consumidor (na visão de homem-médio) pode legitimamente esperar (expectativa legítima)271.

É senso comum que, nenhum consumidor, ao adquirir um aparelho de televisão espera que esse venha a explodir. A explosão de um televisor é algo imprevisível, não esperado pelo consumidor, anormal. Se o perigo não é esperado pelo consumidor e, muito menos é próprio da coisa, vez que perfeitamente possível à inserção no mercado de uma televisão que não estoure (na realidade essa é a regra), não se pode afirmar que esse risco é inerente ao bem, nos moldes do descrito no tópico antecedente, tratando-se, contrariamente, de um perigo adquirido.

Igualmente, não se encontra dentro da expectativa legítima do consumidor a aquisição de um veículo com falha no sistema de freios. O que o consumidor espera é que os freios funcionem perfeitamente. Essa é a sua expectativa e é legítima (razoável), pois perfeitamente possível a sua realização, ao contrário do que ocorre com a fabricação de uma faca que não possa ferir (perigo inerente).

Assim, tem-se que “os produtos de periculosidade adquirida tornam-se perigosos em decorrência de um defeito que, por qualquer razão, apresentam. São produtos que, ausente o defeito, não acarretam risco superior àquele legitimamente esperado pelo consumidor. A característica dos produtos de periculosidade adquirida é justamente a sua imprevisibilidade para o consumidor”272.

271 Tradução livre: “Su característica es la imprevisibilidad para el consumidor. Dicha imprevisibilidad debe establecerse con relación a lo que el consumidor puede legítimamente esperar (expectativa legítima).” (SOZZO, Gonzalo. Daños derivados del acto de consumo, p. 26).

272 ROCHA, Silvio Luís Ferreira da. Responsabilidade Civil do Fornecedor pelo Fato do Produto no Direito Brasileiro, p. 98.

Considerando que os perigos adquiridos são imprevisíveis ao consumidor, atingindo a sua expectativa legítima quanto à qualidade do produto, a sua verificação caracteriza afronta ao dever qualidade instituído pelo Código de Defesa do Consumidor (item 3.3). Transgredido o dever de qualidade, o fornecedor deverá ser responsabilizado e a forma dessa responsabilização (vício de qualidade por insegurança ou inadequação) será tratada nos capítulos que se seguem.

Pode-se concluir, então, que, via de regra, somente os perigos adquiridos conduzem a responsabilização do fornecedor, pois exclusivamente nesses casos há ofensa a expectativa legítima do consumidor. Nos casos de periculosidade inerente273 (devidamente informada pelo fornecedor), apesar de se poder verificar a ocorrência de um acidente, está-se diante de um evento previsível, normal, cujo risco foi assumido pelo consumidor.

No tocante a periculosidade adquirida, que implica na responsabilização do fornecedor, ela pode se verificar mediante três modalidades: (i) defeitos de fabricação; (ii) defeitos de concepção; e (iii) defeitos de comercialização.

Por vício/defeito de concepção têm-se aqueles decorrentes de projeto mal sucedido, seja no que diz respeito à escolha dos materiais, seja no tocante a técnicas de fabricação.

Os defeitos de concepção andam muito em voga, notadamente na indústria de brinquedos. Nos últimos anos vários brinquedos foram retirados do mercado, seja pela utilização de material tóxico, seja pela facilidade de desprendimento de peças pequenas, que poderiam conduzir ao afogamento de crianças.

Ora, não restam dúvidas que o projeto de um brinquedo que utiliza material tóxico ou tem a possibilidade de desprendimento de pequenas peças é manifestamente defeituoso, pois expõe os pequenos consumidores a perigos imprevisíveis, inaceitáveis.

Observe-se, ainda, que como o defeito encontra-se no projeto, não importa quantas unidades sejam fabricadas, todas contarão com esse mesmo defeito. A

273 Analisados na subseção 3.3.1.

idealização do produto é que é defeituosa. Seguido o projeto, todas as unidades também o serão274.

Por sua vez, o vício/defeito de fabricação, como o próprio nome sugere, ocorre durante a fase de fabricação do produto, em decorrência de falha mecânica ou humana.

Aqui não existe defeito no projeto, esse é adequado, pelo que se fosse observado conduziria a produtos de qualidade. Entretanto, em decorrência de uma falha no processo produtivo (estatisticamente previsível em um sistema de produção em série e relativamente inevitável, porque escapa ao mais elevado controle de qualidade), alguns exemplares apresentam-se defeituosos275.

Igualmente ao que ocorre com o defeito de concepção, por estarem fora da expectativa legítima do consumidor, os produtos com defeito de fabricação não apresentam a qualidade exigida pelo consumidor e propugnada pela teoria da qualidade (item 3.3), pelo que surge o dever indenizatório por parte do fornecedor.

Contudo, há de se destacar, conforme observa Zelmo Denari276, que os fornecedores não estão proibidos de colocar no mercado de consumo produtos com pequenos defeitos de fabricação (com o correspondente abatimento do preço). Essa prática é muito comum, sobretudo no comércio varejista de eletrodomésticos e, desde que sejam prestadas informações corretas, claras e precisas sobre os defeitos (recomendando-se a sua anotação na respectiva nota fiscal), os fornecedores não estão sujeitos a qualquer sanção.

Ressalte-se, contudo, que se o defeito verificado pelo consumidor for diverso daquele indicado quando de sua aquisição, que permanece integro o direito

274 Nesse sentido: KHOURI, Paulo Roberto Roque Antonio. Direito do Consumidor, p. 170;

PUSCHEL, Flávia Portella. A Responsabilidade por Fato do Produto no CDC, p. 116;

ROCHA, Silvio Luis Ferreira da. A responsabilidade pelo fato do produto no Código de Defesa do Consumidor, p. 45; SANSEVERINO, Paulo de Tarso Vieira. Responsabilidade Civil no Código do Consumidor e a Defesa do Fornecedor, p. 135; SILVA, João Calvão da. Responsabilidade Civil do Produtor, p. 657.

275 Nesse sentido: KHOURI, Paulo Roberto Roque Antonio. Direito do Consumidor, p. 171;

PUSCHEL, Flávia Portella. A Responsabilidade por Fato do Produto no CDC, p. 116;

ROCHA, Silvio Luis Ferreira da. A responsabilidade pelo fato do produto no Código de Defesa do Consumidor, p. 45; SANSEVERINO, Paulo de Tarso Vieira. Responsabilidade Civil no Código do Consumidor e a Defesa do Fornecedor, p. 138; SILVA, João Calvão da. Responsabilidade Civil do Produtor, p. 658.

276 DENARI, Zelmo. Em GRINOVER, Ada Pellegrini. Código Brasileiro de Defesa do Consumidor, p. 182.

reparatório. Se o defeito apontado pelo comerciante foi um pequeno risco na pintura da geladeira, está completamente coberto o vício decorrente do não funcionamento do motor. Se o defeito aceito pelo consumidor foi uma pequena avaria na lata do alimento, não se afasta o dever de qualidade do alimento contido em seu interior.

O terceiro e último tipo de defeito/vício é o de comercialização. Aqui, apesar do produto não apresentar qualquer problema com a sua concepção ou fabricação, tornar-se defeituoso em decorrência da forma como é apresentado, de informações inadequadas ou insuficientes sobre sua utilização e riscos, ou, ainda, pela sua conservação inapropriada277.

Conforme elucida Eduardo Saad, “o caso típico dessa espécie de dano, ou melhor, de responsabilidade, é o produto farmacêutico cuja bula não adverte o consumidor de que ele não deve ser ingerido com bebida alcoólica ou que esta potencializa seus efeitos colaterais quando o consumidor for portador de certa enfermidade”278.

Desse modo, mesmo o produto não apresentando qualquer defeito em sua concepção e até mesmo na sua fabricação, provoca dano ao consumidor por falta de informação. Dano esse que não era esperado, previsível ao consumidor, ferindo, assim o dever de qualidade imposto pela legislação protetiva e, consequentemente, conduzindo a responsabilização do fornecedor.

Observe, então, que até mesmo um perigo inerente, quando não informado adequadamente pelo fornecedor, pode conduzir a um defeito de comercialização, pelo que um dano que inicialmente não era indenizável passa a sê-lo.

Assim, após a evidenciação de que o fornecedor tem o dever de inserir no mercado somente produtos com qualidade279 (teoria da qualidade – item 3.3),

277 Nesse sentido: ALVIM, Eduardo Arruda. Responsabilidade civil pelo fato do produto no Código de Defesa do Consumidor, p. 139; BENJAMIN, Antônio Herman V.. Manual de Direito do Consumidor, p. 126; EBERLIN, Fernando Buscher Von Teschenhausen.

Responsabilidade dos fornecedores pelos danos decorrentes dos riscos do desenvolvimento, p. 25; KHOURI, Paulo Roberto Roque Antonio. Direito do Consumidor, p. 171; MIRAGEM, Bruno. Direito do Consumidor, p. 271; ROCHA, Silvio Luis Ferreira da. A responsabilidade pelo fato do produto no Código de Defesa do Consumidor, p. 45;

SAAD, Eduardo Gabriel. Código de Defesa do Consumidor Comentado, p. 206-207;

SANSEVERINO, Paulo de Tarso Vieira. Responsabilidade Civil no Código do Consumidor e a Defesa do Fornecedor, p. 139; SILVA, João Calvão da. Responsabilidade Civil do Produtor, p. 659.

278 SAAD, Eduardo Gabriel. Obra Citada, p. 206-207.

respondendo quando apresentem qualquer forma de periculosidade adquirida, já se faz possível a análise quanto às formas dessa responsabilização, iniciando-se pela responsabilidade pelo vício de inadequação, para, então, adentrar na responsabilidade pelo vício de insegurança (Capítulo 5).

279 Qualidade essa que não é absoluta, vez que excluídos aqueles perigos inerentes ao produto (periculosidade latente ou inerente – item 3.3.1).

CAPÍTULO 4 RESPONSABILIDADE PELO VÍCIO DE QUALIDADE POR