146 Seria,
segundo
sugestão de F. J. Sousa Loureiro, director da Academia de Belas-Artes, aceitepelo
conde A.Raczynski (Les
Arts enPortugal
, Paris, 1845.p. 345), a
imagem
doEvangelista
"sentado em umapedra
cum tinteiro e pena namão escrevendo em um
pergaminho
desenrolado" no mosteiroJerónimo
de S.Marcos perto de Coimbra, de onde desapareceu com as invasões francesas. Essa estátua foi louvada desde o século XVII
pela
tradição cronística como obraprodigiosa,
feitapelo
próprio S. Marcos, e a descrição coincide com o "S.Marcos" de Sansovino na
igreja
de S. Maria delle Carceri.147 O relevo era madeira da colecção
Altemps
catalogado como "A Batalha deArzila" por A.
Nibby
(Giornale arcadico , XC1II, p. 357),comprado
pelojoalheiro
Castellani e vendido por este ao rei D. Fernando -
hoje
exposto no Palácio da Pena em Sintra -. é uma obra arnaneirada de finais do século XVI naopinião
deSalmi (C. Girolami. ob.cit., p. 201).
sentido de modernizar o
país pela "actualização tecnológica,
emparticular
nos sectores deequipamento militar,
técnicas defundação
e
aplicações
utilitárias daarquitectura
e damecânica"
comojá
escrevíamos em 1983
14S. É
aolongo
desses doisplanos
queprocuraremos, tomando um caminho
inverso
ao até agoraseguido.
traçar as linhas
gerais
de uma actividadeplausível
no panorama dosúltimos anos do reinado de D. João II e
primeiros do
de D.Manuel,
naqual
possam serenquadrados
com a mínima margem de erro todosos elementos conhecidos.
Embora sem
especificar
em que consistiria(
caso raro num instrumentojurídico
dessa índole ). o contrato de1492
refere-se bem claramente a uma certaquodlibet
opus in arte scultura et scultoruma determinar
pelo
reiportuguês,
daqual
sem dúvida o artistajá
estava
previamente informado
paj_apoder
fixar-lhe o prazo deexecução
em8
meses.Seria obra
volumosa, para necessitar de tantotempo
de trabalho contínuo eexigir
a presença do artista e um colaborador nolocal,
em vez dedespachar
as peçasjá
prontas desmontadas, como eraprática
corrente. Nãopodemos
deixar de verfavoravelmente
ahipótese
de 3attelli l4° de traíar-se do túmulomonumental para o
Príncipe
D.Afonso, cujo
ataúde foi deixado nacapela
deNossa
Senhora do Pranto ou da Piedade no cruzeiro doMosteiro da
Batalha,
onde também D. João IIquis
ficar15°.
mas semdúvida destinando-se ao
panteão
dos avós na rotunda duartina. Essetúmulo nunca
chegou
a ser feito - na verdade, só o seria noutro local:4S R. Moreira, in cat. Os Descobrimentos cit.. p. 309.
:4q G. Battelli, "Tra i
disegni degli
Uffizi. II Mausoleo dei Sansovino per ilPríncipe
Reaie diPortogallo",
Illustrazione Toscana , Abril 1933.150 Garcia de Resende, Crónica cit.. cap. 134 e p. 295
e exactos
400
anosdepois,
por J. Ribeiro Cristino(
cl895
a1901 )
naCapela
doFundador,
estando até então os restosmortais
de ambos"provisoriamente" depositados
na Sala doCapítulo
15: -, tantopor
dificuldades de ordem estética como
pela compreensível
falta deinteresse do venturoso sucessor do
malogrado Príncipe.
Podemosimaginar
queSansovino. chegado
a Lisboa eapós
aentrevista
com oRei.
se tenhadirigido
à Batalha e aídeparado
com a animosidade dorecem-renomeado
mestre das obras domosteiro,
MateusFernandes,
de
formação
econcepções
diametralmenteopostas
às suas. Dessapolémica
e dashesitações
que se lheseguiram
até ao abandono doprojecto
dá conta adeterminação
do testamento de D. Manuel(1517) que
a dita obra se acabassenaquela
maneira que milhor parjcerque
sejaconforme
á outra obra152,
assim denunciando que o critério da"conformidade" às estruturas
góticas preexistentes
- por outraspalavras,
oantagonismo
a umaintervenção
degosto renascentista
-foi a razão essencial para o arrastar das obras e a
rejeição
final dotúmulo
projectado
porSansovino.
numepisódio
para oqual
nãofaltam
paralelos
históricos (como o de Bernini no Louvre. porexemplo). Ignoramos
tudo sobre essa obra; mas não devia serdiferente da que
projectou
mais tarde para o mesmolugar
e para opróprio
D.João II.
de que se conserva o desenho na Galeria dos Uffizi.Este deve remontar à estadia do escultor em
Portugal, pois
ai cenas151 Frei Luís de Sousa. História de S. Domingos , 1623. Parte l, Livro 6, cap. 18 (4á ed., Lello, Porto, 1977. I, p. 648-9); e L. S. Mousinho de
Albuquerque.
Memória Inédita acerca do
Edifício
Monumental da Batalha , Leiria, 1854 (3- ed..1983, p. 4).
152 Cito por M. C. Mendes Atanázio (A Arte do Manuelino . Lisboa, 1984, p.
158),
que intuiu a lição do modo sar.sovmeseo de esculpir a
pedra
noportal
dasCapelas Imperfeitas
(embora vendo ensino directo no que será antes uma assimilação por reacção).realistas de batalha que se tem feito derivar de cartão de Leonardo
(
a"Batalha
deAnghiari".
de1505
)podem
bemprovir
dumprotótipo
comum, operdido
modelo da estátuaequestre
de FrancescoSforza
com unbasamento pieno
dibattaglie
que,segundo Vasari, fez
António dei Pollaiuoloquando
Sansovino era seuaprendiz i53.
A
renovação
do contrato, queexpirava
aos15
deAgosto
de1493.
mostra que o
interesse
de D. João II em assegurar a continuidade da presença dojovem
artista era mais vasto evisava
umaacção
delongo
termo : é natural que fossealargado
a um prazo de 4 anosrenovável por outro de
igual duração,
assim secumprindo
os 9 anosque
aqui
acabou por permanecer. Domeio
de abastados mercadores luso-florentinos Sansovino facilmentepassaria
afrequentar
o círculorestrito da mais alta nobreza italianizante da corte, como os
Marqueses
deVila
Real ( onde erapreceptor
Cataldo Sículo ) ou os Condes de Abrantes, entretendo-se com os estudos deengenharia
hidráulica que iriam dar frutos em Itália, ao mesmo tempo que se dedicava a obras menores de escultura para a
família
real e para o bastardo D.Jorge,
mestre das ordens deSantiago
e de Avis. Dessaacção
defundo,
em que tentoupenetrar
o sistemagótico
para osubverter
impondo-lhe
as regras doclassicismo,
na tentativa - talvez meihorsucedida
do quehoje
possamos pensar - defazer prevalecer
ogosto
renascentista,
dão testemunho quer os desenhos vistos porVasari,
queralguns fragmentos
escultóricos de extraordináriaqualidade
que nãopodem
ser senão da sua mão ou da dodesconhecido Bartolomeo d'Ilario Simone.
153 R. Moreira, cat. Os Descobrimentos cit., n- 394. Essa
relação
foijá
vista por G. H.Huntley,
ob. cit., p. 7.São
elas : apedra
de ara oualtar portátil
de Viana doAlentejo 154.
numa zona
predilecta pela
corte em1494-95,
delicadamente lavradaem mármore da
região
com uma cercadura de enrolamentos de acantos, compuni
e urnas no melhor estilo do AltarCorbinelli.
contrastando com a presença ao centro de 5 cruzes de Cristo
flor-de-lisadascujas pontas
sãogordas espigas
à maneiramanuelina;
omagnífico
tondoproveniente
dooratório
da Rainha D. Leonor emXabregas, representando
a"Virgem
com o Menino" entre doispuni
que sustentam uma
grinalda,
no queconstitui
umaresposta
directa ã"Madonna delia
Scala" (1490-92)
deMiguel Angelo
associada amotivos donateilianos
155:
e a série, recentemente revelada156.
de3
relevosrectangulares
com 8 medalhões cada um - de moldurasidênticas às da
pedra
de Viana - contendoiconografia profética inspirada
numa dasportas
doBaptistério
deFlorença,
tratada nomelhor estilo do
Quattrocento
florentinoporém
incluindo esferasarmilares e uma pouco usual insistência na
pomba
doEspírito
Santo.Este
conjunto,
que formaria um frisoarquitectónico
oupredela
emalguma capela
daregião
da Arrábida (possivelmente
n.aigreja
deS. Simão ou no convento dominicano da Piedade, em Azeitão ) era
154 T. Espanca. Inventário Artístico de Portugal. Distrito de
Évora
. I. Lisboa.1978, p. 411. P. Dias. A importação de esculturas cit., pp. 74-76,
jolyu-a
defabrico italiano. Não conseguimos ver esta peça, que estava exposta na
Farmácia da Misericórdia de Viana (fund. 1516) e este
hoje dí-positada.
segundo Dias, numa instituição bancária de Évora.155 Cfr. J. M. Santos Simóes, "Os "Delia Robbia" do Museu de j\rte
Antiga"
in JoãoCouto. In Memoriam . Lisboa, 1971. pp. 171-189. O medalha.' marmóreo 'sem a
moldura robbiana) foi atribuído a Sansovino por A. Venturi (Storia delTArte Italiana, X.
1911) seguido
por A. deBosque,
Artistes itoliens enEspagne
du XI Vesiêcle aux Róis
Catholiques
Paris, i965, p. 397. A atribuição a V. Danti rio final do século XVI foi recentemente proposta por H. Wohl. "TwoCinquecento puzzles"
(noprelo).
'^6 R, de Faria Moreira, "Três baixos-relevos maneiristas de Azeitão", Beias-Artes , 31. Lisboa. 1977. pp. 83-100.
suficientemente
tido por obra de mestre para merecer sercopiado
por um bom escultor em meados do século XVI
157.
e apresenta sinaisda
mão deSansovino
que só o tabu que tempesado
sobre o assuntoimpediu
até agorade
ver.De igual modo,
as dúvidas levantadas comrespeito
ao tondo da Madre de Deus parecem cairpela
base aoverificarmos,
no medalhão desenhado ao centro doprojecto
tumularde D. João
II,
a mesmaposição
do Menino depé
entre osjoelhos
daVirgem
que caracteriza a "Madonna deBruges" ( 1503-6)
deMiguel Angelo,
assim mostrando até queponto
estaé,
de facto, umaproblemática
de alcance internacional.Talvez
quando
for feito o estudocomparativo aprofundado
destasvárias
obras,
emface
da arte italiana e dentro doquadro histórico português,
sem ideiaspreconcebidas
nem estreitas, venha a ser dadarazão a Guido
Battelli quando
escrevia :X/T
aiSansovino dunque
chespetta la
gloria
di avereintrodotta
laRinascenza
inPortogallo
, esenza
Tesempio
di lui non sapremmospiegarci
lafioritura
successivadi opere ispirati
alia schiettatradizione
italiana158.
Mas é na área da
modernização tecnológica,
em que osespecialistas
italianos tiveram desde o meado desse séculopapel
tãoimportante (embora
muito maisnegligenciado)
do que na literaturaos seus
compatriotas humanistas,
quepodemos
documentar aactividade do escultor florentino. Podemos
suspeitar
da suaparticipação
nasexperiências
com tiro rasante nobojo
de caravelasreaiizadas ao
largo
de Setúbal em1494, cuja invenção
Garcia de157 R. Moreira, "Um relevo
quinhentista
com Profetas em Enxara dos Cavaleiros(concelho de Mafra)", Sintrui , III (no preloi.
158 G. Battelli, "II Sansovino in
Portogallo.
Nel Quarto Centenário delia Morte dei Sansovino (1460 - 1529)", Btblos ."V,
Coimbra, 1929, pp. 364-370.Resende
atribui aopróprio
D. João II mas aque
nãofaltam paralelos
na obra teórica de Leonardo da
Vinci;
ou naelaboração
doprojecto
defensivo para a barra
do Tejo,
com oestabelecimento
de novastipologias fortifi
cativasinspiradas
na últimatratadística
toscana(
Francesco diGiorgio Martini )
que se ensaiaram nas torres deCascais
e da
Caparica.
Esta
hipótese
tentadoraganha
consistência diante da recentedescoberta
documental
de 2misteriosas missões diplomáticas
enviadas por D.
João
II a Itália para a compra de armamento e para tratar de "certasquestões nossas",
sem dúvida relacionadas comaspectos
militares da segurança externa do reino: a docapelão
Fernando
Lopes
por volta de1485
aGénova
e ao Ducado de Milão-onde,
convém notar, desde1483
eraengenheiro
Leonardo da Vinci, e a de dois
jovens
emissáriosrégios
para contactos em Veneza em1492-93.
É
nacorrespondência
de Cataldo. essa fonteinesgotável
derevelações
sobre o nossopré-Renascimento,
que surge um lote decartas por ele
redigidas
em latim enviadaspelo
Re: aosrespectivos
senhorios e
correspondentes
confidenciais 159 , sendo de salientarque
logo
na carta deapresentação
este reconhece que as coisas deque
mais
necessita nesse momento 'de nenhum ou»rolugar podemos
obtê-las senão de Itália"
(
non aliunde nisi ex Itália);
enquanto noutra,dirigida
a um Luís de Veneza ou "LudovicoVeneto",
agradece-lhe
o"Livro
sobre instrumentos deguerra" (librum
159 M. Mendonça de Matos Fernandes,
"Alguns
aspectos das relações entre Portugal e asrepúblicas
italianas no últimoquartel
do Século XV", PortugaliaeHistórica , 2- s.. I, Lisboa, Í991, pp. 41-65. As 8 cartas encontram-se em Cataldo Sículo,
Epistolae
et Orationes , ed. facs.. intr. A. Costa Ramalho, Coimbra, 1988. Ee Giii-iv.
bellicorum
instrumentorum)
que ele lhe mandara poraqueles portadores. Devia
tratar-se dumacópia actualizada
do Bellicorum Instrumentorum Liber da autoria doengenheiro
véneto GiovanniFontana,
onde se ilustram uma estranha variedade deinvenções
deguerra tais como torres construídas dentro da
água
e naviosequipados
com artilharia 16° : o que mostra que D.João II reunia asmelhores
informações possíveis
sobre osproblemas
de ordemprática
que o preocupavam, como a
defesa
dabarra
doTejo
e aadaptação da
mais moderna
tecnologia
militar aopoderio
navalportuguês. É
natural,
portanto,
que tendo ao seuserviço
umgrande
artista ( e apalavra possuía
naépoca
umapolivalência hoje
difícil de avaliar) proveniente
domeio
mais rico em cultura e técnica daItália.
procurasse
obter dele omáximo
de conhecimentos que lhe interessassem, para além dosimples
trabalho em escultura.É
odesenho a que atrás aludimos,
já
referido por vários autores(do
século XVIII aTafuri)
sem nunca ter sido estudado, que nos dá a certeza disto.Ele não só confirma que Andrea
Sansovino
trabalhou realmenteem
Portugal,
comoindica
quetipo
deactividade aqui
terádesenvolvido. Trata-se da
cópia
dumoriginal
seu. que procurareproduzir
fielmente ecuja legenda parafraseia
(odice
dainscrição
no desenho refere-se a esse
protótipo,
não adeclaração
oral do autorcomo
pode parecer);
e tem o cuidado deprevenir
que não ocopiou
160 E. Battisti, Le macchine cifrate di Giovanni Fontana. Milão, 1984, publica o
exemplar
da Bibl. deMunique:
"un álbum da offrire a unsignore.
in bella copia" (p. 55) a que fcijunto
o tratado deengenharia
militar do "Anónimo das Guerras Hussitas" (1492). Refere um jovem "Lodovico Veneto" (p. 39), para quem Fontanaredigiu
em 1440-54 uma Novacompositio horologii,
que podebem ser o que viria a trabalhar para D João II.
inteiramente a contento : non
istá bene.
anota em desabafo aopé
dapágina.
Essailustração,
por nósexaminada
em1985.
fazparte
de um livro de desenhos que seguarda
na Biblioteca Nacional de S. Marcosem Veneza
(Cod.
Ital.5363) intitulado originalmente Relazioni
diMulini & Rari
Invenzioni
como diz ainscrição
coeva na lombada daencadernação
empergaminho,
ouLibro
dimachine, muiini, oriuoli,
tirari,
alzari,
ecc.segundo anotação posterior.
Forma um códice empapel
de 96 folhas(medindo
14 por21 centímetros)
datado de1520-24
e quase todo da mão dorelojoeiro
eengenheiro florentino
Benvenuto delia
Volpaia ( 1486-1533 ),
tendodepois pertencido
aBernardo
Buontalenti, passado
àFrança
no século XVII e acabado nacolecção Nani,
de ondeingressou
emfinais
doseguinte
na BibliotecaMarciana. Aí foi
copiado
em1951
por Pedretti. que estudou os seus desenhos deorigem
leonardesca. e estevepatente
na XVI-Exposição
do Conselho da
Europa,
no núcleo da Biblioteca Medicea Laurenziana.em
1980
161.Uma
inscrição
na folha de rosto esclarece a sua autoria:Questo
libro era di Benvenuto di
Lorenzo
di Benvenuto delaGolpaia
composto et
disegnato
di sua mano con molte belistmi invenzioni coni loro veri
fondamenti
. Desde o séculoXV.
os DeliaVolpaia
constituíam uma
importante
família de mecânicos deFlorença
activosaté o
XVII,
quase todos excelentes desenhadores. Emboraalguns
membros mais novos se
dedicassem
também ao estudoarquitectónico,
como Bernardodelia Volpaia,
que colaborou na oficina161 C. Pedretti. "II códice di Benvenuto di Lorenzo delia
Goipaja",
Studi Vinciani.Documenti, analisi e inediti leonardeschi , Genebra. 1957, pp. 23-42; e cai.
Firenze e la Toscana dei Mediei - La rinascita delia Scienza, Florença.1980, pp.
163-4.
dos Sangallo
emRoma,
eles eram sobretudoespecialistas
na arteda relojoaria,
desde opatriarca Lorenzo.
quefez
em1484
ofamoso
"oroiogio dei pianetti"
no Palazzo Vecchío. O seufilho Benvenuto,
aquem Vasari
chama buon
maestrod'criuoli
equadranti,
eboníssimo astrólogo,
ma sopra tutto eccelentissimo maestro dilevar piante
,muito
ligado
aosMédicis,
celebrizou-sepela maqueta
empasta
deaçúcar
que realizou em1529 juntamente
comTríbolo (
umdiscípulo
de Andrea
Sansovino ) representando
toda a cidade deFlorença
earredores.
Como
muitos livros
técnicos da mesmaépoca,
este era um "libro dibottega", caderno
deoficina
paracirculação restrita,
ciosamenteguardado
e transmitido degeração
emgeração.
Tal como outros doiscódices da mesma
família, compõe-se
de desenhos eexplicações
demáquinas
einstrumentos
váriosinventados
porLorenzo,
seus filhos e outros artistas activos emFlorença
nosfinais
do século XV eprimeira
década
doXVI,
tais como Leonardo(de
quemreproduz
4 inventos de1503-5),
o quepermite
situar por estes anos -isto
é.logo após
oregresso de
Portugal
- odesenho
de Andrea.Organizado
semsequência lógica,
o livroinicia-se
com ohoróscopo
do autor,traçado pelo pai;
a que se seguemoperações matemáticas,
uma tábua de coordenadasgeográficas
tiradade Afonso
oSábio, descrições
decompassos e vários
tipos
derelógios (
como os queBenvenuto
fez emFlorença
em1516
e 1522).
misturados comprojectos
para bombearágua
e receitas paraoxigenar
os cabelos ou estucarmadeira (
estafornecida
porJacopo
Sansovino).
Vemdepois
uma série deinstrumentos
para cortarpedras preciosas
e estudos sobre rodas105
dentadas, terminando com vários
tipos
demoinhos
deágua
eaparelhos
defiar
e tecer.É
a meio dasecção
sobre instrumentos de corte e moagem, entreuma serra
de ourives (fl. 49 v)
e uma roda dentadapara
moer carvãoe
salitre,
feita em 1524 na fortaleza de Pisa(fl. 50 v),
que surge o desenho para nós de crucial interesse : a serramecânica
queMestre
AndreaSansovino
"fez emPortugal" (fl. 50). O
texto que aacompanha
diz em poucas linhas:
La sega che
dicie
maestro Andrea dalMonte
a Sansovinofecie
inPortogallo
per segare unoquadro
didiaspro
perfarne
una colonette. Una ruotache
nel medesirno stile deliaruota
delVaqqua
dentata in testa e suadenti
a uso tonde.grosse e
forti
e unaltra ruota voltadaquesta
dentatanel
medesirno
modo
e im medesirno numero didenti;
e ciascuna delle 2 mote con treperni
che tirino una in qua elV altra inlà la sega, cioe il
telaio,
emediate
che una a lasciaio el tirare in qua elV altrapigiia
e lira in là. E dicie maestroAndrea che 3 schiavi non
sopperivano
apestare
tantosmeriglio quanto
e consumeva, e che spesse volte si serrava la sega che 10 uomini non Varebbano tirata.( "Serra que
diz
Andrea do Monte Sansovino quefez
emPortugal
para serrar um
quadrado
dejaspe
parafazer
um colunelo : Umaroda que
gira
da mesmaforma
que a roda deágua,
dentada no alio eseus dentes como é costume,
redondos,
grossos efortes:
e outra rodamovida por esta, dentada do mesmo modo e com o mesmo número de
dentes;
ecada
uma das 2 rodas com3
pernos que. umapara
cá e aoutra para
lá,
puxam a serra, istoé,
agrade, pelos quais
assim queuma deixa de puxar para cá a outra
prende
e puxa para lá.Diz
mestreAndrea que 3 escravos não bastavam para
pisar
o esmeril que consumia, e que muitas vezes ela serrava o que comIO homens
não se teriapuxado
.)
O
inventoexperimentado
emPortugal
porSansovino destinava-se, pois.
muitoprosaicamente,
a serrarmármores,
uma actividade emque
vir-lhe-ia
a ser reconhecidacompetência
como a poucos outros escultores. Antes de suaprimeira
encomenda romana, passou o Inverno de1505-6
em Carrara a tratarpessoalmente
da escolha ecorte dos blocos de
pedra
para os túmulos deS.
Maria deiPopolo.
aivoltando para os do Loreto. Só a quem
desconheça
a íntimaligação
que existente na
época
entre arte etécnica poderá surpreender
aimportância
que o florentino concedia a esse aspectoprático.
aparecendo-nos
emplena actividade
de oficina mecânica. E era esteinteresse,
defacto,
o motivo que levou Benvenuto deliaVolpaia
ainserir o seu
experimento "português"
entre outrosexemplos
deserras
hidráulicas,
e a descrever tão bem o funcionamento do seumecanismo que não seria difícil
hoje reproduzi-lo.
O
engenho
era accionado por uma roda de azenha,cujo
movimentocircular contínuo transforma-se por um
jogo
de rodas dentadas emmovimento horizontal
alternado, produzindo golpes
bruscos devai-e-vem ao
longo
da linha de corte com o fim de tirar o melhorpartido possível
dafricção
do esmeril sobre apedra
: uma ideiasimples,
eque parece ter sido eficaz. Como se
pode depreender
do desenho, essa107
estrutura - que nada
permite duvidar que tenha de
facto sidoconstruída
- assentava sobre umaarmação sólida, provavelmente
em
pedra
e cal para evitar asvibrações
emergulhada
naágua
(ofino
traço irregular
que corre à suavolta). Por
umcompartimento
mais estreito passa a corrente de
água que faz
mover aspás
da roda.enquanto
em outromaior giram
dois rodíziosdentados
assentesnuma
viga perpendicular
à mesaporta-bloco
: um colocado no eixoprincipal
e o outro, na suaengrenagem, girando
emsentido
inverso.Se estas duas rodas são a peça
essencial
damáquina,
a suaoriginalidade
parece residir em3 pínulas
ou pernos inseridos nas faces de cada uma delas, osquais
empurramalternadamente,
ora para um lado ora para outro, osbraços
verticais,suportados por
chumaceiras a fim dediminuir
o atrito, dagrade
ou tela( telaio )
onde trabalha a lâmina de fioliso
em aço. Assimimprime-se
a esta omovimento de
fricção
que. com oauxílio
de umduro abrasivo
- opó
de esmeril moído
por
escravos - e da regagem contínua comágua.
rapidamente
ia seccionando o bloco depedra.
A dureza
extraordinária
desta era encarecida por Sansovino nalegenda
do desenhooriginal
ao dizer que10 operários
não teriamforça
suficientepara
fazer mover a serra na linhade
corte, e que esta consumiamais esmeril
do que 3 escravosconseguiam
moer aomesmo
tempo.
O que mostra que oproblema essencial
que sepretendia
resolver não era o aumento do rendimento do trabalhonem a
redução
dos custos ou da mão deobra.
e sim aimpossibilidade
técnica de cortar esse
material, já
que éimpraticável
uma serramanual