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permite pensar que ele igualmente teve alguma actividade no

146 Seria,

segundo

sugestão de F. J. Sousa Loureiro, director da Academia de Belas-Artes, aceite

pelo

conde A.

Raczynski (Les

Arts en

Portugal

, Paris, 1845.

p. 345), a

imagem

do

Evangelista

"sentado em uma

pedra

cum tinteiro e pena na

mão escrevendo em um

pergaminho

desenrolado" no mosteiro

Jerónimo

de S.

Marcos perto de Coimbra, de onde desapareceu com as invasões francesas. Essa estátua foi louvada desde o século XVII

pela

tradição cronística como obra

prodigiosa,

feita

pelo

próprio S. Marcos, e a descrição coincide com o "S.

Marcos" de Sansovino na

igreja

de S. Maria delle Carceri.

147 O relevo era madeira da colecção

Altemps

catalogado como "A Batalha de

Arzila" por A.

Nibby

(Giornale arcadico , XC1II, p. 357),

comprado

pelo

joalheiro

Castellani e vendido por este ao rei D. Fernando -

hoje

exposto no Palácio da Pena em Sintra -. é uma obra arnaneirada de finais do século XVI na

opinião

de

Salmi (C. Girolami. ob.cit., p. 201).

sentido de modernizar o

país pela "actualização tecnológica,

em

particular

nos sectores de

equipamento militar,

técnicas de

fundação

e

aplicações

utilitárias da

arquitectura

e da

mecânica"

como

escrevíamos em 1983

14S. É

ao

longo

desses dois

planos

que

procuraremos, tomando um caminho

inverso

ao até agora

seguido.

traçar as linhas

gerais

de uma actividade

plausível

no panorama dos

últimos anos do reinado de D. João II e

primeiros do

de D.

Manuel,

na

qual

possam ser

enquadrados

com a mínima margem de erro todos

os elementos conhecidos.

Embora sem

especificar

em que consistiria

(

caso raro num instrumento

jurídico

dessa índole ). o contrato de

1492

refere-se bem claramente a uma certa

quodlibet

opus in arte scultura et scultorum

a determinar

pelo

rei

português,

da

qual

sem dúvida o artista

estava

previamente informado

paj_a

poder

fixar-lhe o prazo de

execução

em

8

meses.

Seria obra

volumosa, para necessitar de tanto

tempo

de trabalho contínuo e

exigir

a presença do artista e um colaborador no

local,

em vez de

despachar

as peças

prontas desmontadas, como era

prática

corrente. Não

podemos

deixar de ver

favoravelmente

a

hipótese

de 3attelli l4° de traíar-se do túmulo

monumental para o

Príncipe

D.

Afonso, cujo

ataúde foi deixado na

capela

de

Nossa

Senhora do Pranto ou da Piedade no cruzeiro do

Mosteiro da

Batalha,

onde também D. João II

quis

ficar

15°.

mas sem

dúvida destinando-se ao

panteão

dos avós na rotunda duartina. Esse

túmulo nunca

chegou

a ser feito - na verdade, só o seria noutro local

:4S R. Moreira, in cat. Os Descobrimentos cit.. p. 309.

:4q G. Battelli, "Tra i

disegni degli

Uffizi. II Mausoleo dei Sansovino per il

Príncipe

Reaie di

Portogallo",

Illustrazione Toscana , Abril 1933.

150 Garcia de Resende, Crónica cit.. cap. 134 e p. 295

e exactos

400

anos

depois,

por J. Ribeiro Cristino

(

cl

895

a

1901 )

na

Capela

do

Fundador,

estando até então os restos

mortais

de ambos

"provisoriamente" depositados

na Sala do

Capítulo

15: -, tanto

por

dificuldades de ordem estética como

pela compreensível

falta de

interesse do venturoso sucessor do

malogrado Príncipe.

Podemos

imaginar

que

Sansovino. chegado

a Lisboa e

após

a

entrevista

com o

Rei.

se tenha

dirigido

à Batalha e

deparado

com a animosidade do

recem-renomeado

mestre das obras do

mosteiro,

Mateus

Fernandes,

de

formação

e

concepções

diametralmente

opostas

às suas. Dessa

polémica

e das

hesitações

que se lhe

seguiram

até ao abandono do

projecto

conta a

determinação

do testamento de D. Manuel

(1517) que

a dita obra se acabasse

naquela

maneira que milhor parjcer

que

seja

conforme

á outra obra

152,

assim denunciando que o critério da

"conformidade" às estruturas

góticas preexistentes

- por outras

palavras,

o

antagonismo

a uma

intervenção

de

gosto renascentista

-foi a razão essencial para o arrastar das obras e a

rejeição

final do

túmulo

projectado

por

Sansovino.

num

episódio

para o

qual

não

faltam

paralelos

históricos (como o de Bernini no Louvre. por

exemplo). Ignoramos

tudo sobre essa obra; mas não devia ser

diferente da que

projectou

mais tarde para o mesmo

lugar

e para o

próprio

D.

João II.

de que se conserva o desenho na Galeria dos Uffizi.

Este deve remontar à estadia do escultor em

Portugal, pois

ai cenas

151 Frei Luís de Sousa. História de S. Domingos , 1623. Parte l, Livro 6, cap. 18 (4á ed., Lello, Porto, 1977. I, p. 648-9); e L. S. Mousinho de

Albuquerque.

Memória Inédita acerca do

Edifício

Monumental da Batalha , Leiria, 1854 (3- ed..

1983, p. 4).

152 Cito por M. C. Mendes Atanázio (A Arte do Manuelino . Lisboa, 1984, p.

158),

que intuiu a lição do modo sar.sovmeseo de esculpir a

pedra

no

portal

das

Capelas Imperfeitas

(embora vendo ensino directo no que será antes uma assimilação por reacção).

realistas de batalha que se tem feito derivar de cartão de Leonardo

(

a

"Batalha

de

Anghiari".

de

1505

)

podem

bem

provir

dum

protótipo

comum, o

perdido

modelo da estátua

equestre

de Francesco

Sforza

com un

basamento pieno

di

battaglie

que,

segundo Vasari, fez

António dei Pollaiuolo

quando

Sansovino era seu

aprendiz i53.

A

renovação

do contrato, que

expirava

aos

15

de

Agosto

de

1493.

mostra que o

interesse

de D. João II em assegurar a continuidade da presença do

jovem

artista era mais vasto e

visava

uma

acção

de

longo

termo : é natural que fosse

alargado

a um prazo de 4 anos

renovável por outro de

igual duração,

assim se

cumprindo

os 9 anos

que

aqui

acabou por permanecer. Do

meio

de abastados mercadores luso-florentinos Sansovino facilmente

passaria

a

frequentar

o círculo

restrito da mais alta nobreza italianizante da corte, como os

Marqueses

de

Vila

Real ( onde era

preceptor

Cataldo Sículo ) ou os Condes de Abrantes, entretendo-se com os estudos de

engenharia

hidráulica que iriam dar frutos em Itália, ao mesmo tempo que se dedicava a obras menores de escultura para a

família

real e para o bastardo D.

Jorge,

mestre das ordens de

Santiago

e de Avis. Dessa

acção

de

fundo,

em que tentou

penetrar

o sistema

gótico

para o

subverter

impondo-lhe

as regras do

classicismo,

na tentativa - talvez meihor

sucedida

do que

hoje

possamos pensar - de

fazer prevalecer

o

gosto

renascentista,

dão testemunho quer os desenhos vistos por

Vasari,

quer

alguns fragmentos

escultóricos de extraordinária

qualidade

que não

podem

ser senão da sua mão ou da do

desconhecido Bartolomeo d'Ilario Simone.

153 R. Moreira, cat. Os Descobrimentos cit., n- 394. Essa

relação

foi

vista por G. H.

Huntley,

ob. cit., p. 7.

São

elas : a

pedra

de ara ou

altar portátil

de Viana do

Alentejo 154.

numa zona

predilecta pela

corte em

1494-95,

delicadamente lavrada

em mármore da

região

com uma cercadura de enrolamentos de acantos, com

puni

e urnas no melhor estilo do Altar

Corbinelli.

contrastando com a presença ao centro de 5 cruzes de Cristo

flor-de-lisadas

cujas pontas

são

gordas espigas

à maneira

manuelina;

o

magnífico

tondo

proveniente

do

oratório

da Rainha D. Leonor em

Xabregas, representando

a

"Virgem

com o Menino" entre dois

puni

que sustentam uma

grinalda,

no que

constitui

uma

resposta

directa ã

"Madonna delia

Scala" (1490-92)

de

Miguel Angelo

associada a

motivos donateilianos

155:

e a série, recentemente revelada

156.

de

3

relevos

rectangulares

com 8 medalhões cada um - de molduras

idênticas às da

pedra

de Viana - contendo

iconografia profética inspirada

numa das

portas

do

Baptistério

de

Florença,

tratada no

melhor estilo do

Quattrocento

florentino

porém

incluindo esferas

armilares e uma pouco usual insistência na

pomba

do

Espírito

Santo.

Este

conjunto,

que formaria um friso

arquitectónico

ou

predela

em

alguma capela

da

região

da Arrábida (

possivelmente

n.a

igreja

de

S. Simão ou no convento dominicano da Piedade, em Azeitão ) era

154 T. Espanca. Inventário Artístico de Portugal. Distrito de

Évora

. I. Lisboa.

1978, p. 411. P. Dias. A importação de esculturas cit., pp. 74-76,

jolyu-a

de

fabrico italiano. Não conseguimos ver esta peça, que estava exposta na

Farmácia da Misericórdia de Viana (fund. 1516) e este

hoje dí-positada.

segundo Dias, numa instituição bancária de Évora.

155 Cfr. J. M. Santos Simóes, "Os "Delia Robbia" do Museu de j\rte

Antiga"

in João

Couto. In Memoriam . Lisboa, 1971. pp. 171-189. O medalha.' marmóreo 'sem a

moldura robbiana) foi atribuído a Sansovino por A. Venturi (Storia delTArte Italiana, X.

1911) seguido

por A. de

Bosque,

Artistes itoliens en

Espagne

du XI Ve

siêcle aux Róis

Catholiques

Paris, i965, p. 397. A atribuição a V. Danti rio final do século XVI foi recentemente proposta por H. Wohl. "Two

Cinquecento puzzles"

(no

prelo).

'^6 R, de Faria Moreira, "Três baixos-relevos maneiristas de Azeitão", Beias-Artes , 31. Lisboa. 1977. pp. 83-100.

suficientemente

tido por obra de mestre para merecer ser

copiado

por um bom escultor em meados do século XVI

157.

e apresenta sinais

da

mão de

Sansovino

queo tabu que tem

pesado

sobre o assunto

impediu

até agora

de

ver.

De igual modo,

as dúvidas levantadas com

respeito

ao tondo da Madre de Deus parecem cair

pela

base ao

verificarmos,

no medalhão desenhado ao centro do

projecto

tumular

de D. João

II,

a mesma

posição

do Menino de

entre os

joelhos

da

Virgem

que caracteriza a "Madonna de

Bruges" ( 1503-6)

de

Miguel Angelo,

assim mostrando até que

ponto

esta

é,

de facto, uma

problemática

de alcance internacional.

Talvez

quando

for feito o estudo

comparativo aprofundado

destas

várias

obras,

em

face

da arte italiana e dentro do

quadro histórico português,

sem ideias

preconcebidas

nem estreitas, venha a ser dada

razão a Guido

Battelli quando

escrevia :

X/T

ai

Sansovino dunque

che

spetta la

gloria

di avere

introdotta

la

Rinascenza

in

Portogallo

, e

senza

Tesempio

di lui non sapremmo

spiegarci

la

fioritura

successiva

di opere ispirati

alia schietta

tradizione

italiana

158.

Mas é na área da

modernização tecnológica,

em que os

especialistas

italianos tiveram desde o meado desse século

papel

tão

importante (embora

muito mais

negligenciado)

do que na literatura

os seus

compatriotas humanistas,

que

podemos

documentar a

actividade do escultor florentino. Podemos

suspeitar

da sua

participação

nas

experiências

com tiro rasante no

bojo

de caravelas

reaiizadas ao

largo

de Setúbal em

1494, cuja invenção

Garcia de

157 R. Moreira, "Um relevo

quinhentista

com Profetas em Enxara dos Cavaleiros

(concelho de Mafra)", Sintrui , III (no preloi.

158 G. Battelli, "II Sansovino in

Portogallo.

Nel Quarto Centenário delia Morte dei Sansovino (1460 - 1529)", Btblos .

"V,

Coimbra, 1929, pp. 364-370.

Resende

atribui ao

próprio

D. João II mas a

que

não

faltam paralelos

na obra teórica de Leonardo da

Vinci;

ou na

elaboração

do

projecto

defensivo para a barra

do Tejo,

com o

estabelecimento

de novas

tipologias fortifi

cativas

inspiradas

na última

tratadística

toscana

(

Francesco di

Giorgio Martini )

que se ensaiaram nas torres de

Cascais

e da

Caparica.

Esta

hipótese

tentadora

ganha

consistência diante da recente

descoberta

documental

de 2

misteriosas missões diplomáticas

enviadas por D.

João

II a Itália para a compra de armamento e para tratar de "certas

questões nossas",

sem dúvida relacionadas com

aspectos

militares da segurança externa do reino: a do

capelão

Fernando

Lopes

por volta de

1485

a

Génova

e ao Ducado de Milão

-onde,

convém notar, desde

1483

era

engenheiro

Leonardo da Vinci

, e a de dois

jovens

emissários

régios

para contactos em Veneza em

1492-93.

É

na

correspondência

de Cataldo. essa fonte

inesgotável

de

revelações

sobre o nosso

pré-Renascimento,

que surge um lote de

cartas por ele

redigidas

em latim enviadas

pelo

Re: aos

respectivos

senhorios e

correspondentes

confidenciais 159 , sendo de salientar

que

logo

na carta de

apresentação

este reconhece que as coisas de

que

mais

necessita nesse momento 'de nenhum ou»ro

lugar podemos

obtê-las senão de Itália"

(

non aliunde nisi ex Itália

);

enquanto noutra,

dirigida

a um Luís de Veneza ou "Ludovico

Veneto",

agradece-lhe

o

"Livro

sobre instrumentos de

guerra" (librum

159 M. Mendonça de Matos Fernandes,

"Alguns

aspectos das relações entre Portugal e as

repúblicas

italianas no último

quartel

do Século XV", Portugaliae

Histórica , 2- s.. I, Lisboa, Í991, pp. 41-65. As 8 cartas encontram-se em Cataldo Sículo,

Epistolae

et Orationes , ed. facs.. intr. A. Costa Ramalho, Coimbra, 1988. E

e Giii-iv.

bellicorum

instrumentorum

)

que ele lhe mandara por

aqueles portadores. Devia

tratar-se duma

cópia actualizada

do Bellicorum Instrumentorum Liber da autoria do

engenheiro

véneto Giovanni

Fontana,

onde se ilustram uma estranha variedade de

invenções

de

guerra tais como torres construídas dentro da

água

e navios

equipados

com artilharia 16° : o que mostra que D.João II reunia as

melhores

informações possíveis

sobre os

problemas

de ordem

prática

que o preocupavam, como a

defesa

da

barra

do

Tejo

e a

adaptação da

mais moderna

tecnologia

militar ao

poderio

naval

português. É

natural,

portanto,

que tendo ao seu

serviço

um

grande

artista ( e a

palavra possuía

na

época

uma

polivalência hoje

difícil de avaliar

) proveniente

do

meio

mais rico em cultura e técnica da

Itália.

procurasse

obter dele o

máximo

de conhecimentos que lhe interessassem, para além do

simples

trabalho em escultura.

É

o

desenho a que atrás aludimos,

referido por vários autores

(do

século XVIII a

Tafuri)

sem nunca ter sido estudado, que nosa certeza disto.

Ele não só confirma que Andrea

Sansovino

trabalhou realmente

em

Portugal,

como

indica

que

tipo

de

actividade aqui

terá

desenvolvido. Trata-se da

cópia

dum

original

seu. que procura

reproduzir

fielmente e

cuja legenda parafraseia

(o

dice

da

inscrição

no desenho refere-se a esse

protótipo,

não a

declaração

oral do autor

como

pode parecer);

e tem o cuidado de

prevenir

que não o

copiou

160 E. Battisti, Le macchine cifrate di Giovanni Fontana. Milão, 1984, publica o

exemplar

da Bibl. de

Munique:

"un álbum da offrire a un

signore.

in bella copia" (p. 55) a que fci

junto

o tratado de

engenharia

militar do "Anónimo das Guerras Hussitas" (1492). Refere um jovem "Lodovico Veneto" (p. 39), para quem Fontana

redigiu

em 1440-54 uma Nova

compositio horologii,

que pode

bem ser o que viria a trabalhar para D João II.

inteiramente a contento : non

istá bene.

anota em desabafo ao

da

página.

Essa

ilustração,

por nós

examinada

em

1985.

faz

parte

de um livro de desenhos que se

guarda

na Biblioteca Nacional de S. Marcos

em Veneza

(Cod.

Ital.

5363) intitulado originalmente Relazioni

di

Mulini & Rari

Invenzioni

como diz a

inscrição

coeva na lombada da

encadernação

em

pergaminho,

ou

Libro

di

machine, muiini, oriuoli,

tirari,

alzari,

ecc.

segundo anotação posterior.

Forma um códice em

papel

de 96 folhas

(medindo

14 por

21 centímetros)

datado de

1520-24

e quase todo da mão do

relojoeiro

e

engenheiro florentino

Benvenuto delia

Volpaia ( 1486-1533 ),

tendo

depois pertencido

a

Bernardo

Buontalenti, passado

à

França

no século XVII e acabado na

colecção Nani,

de onde

ingressou

em

finais

do

seguinte

na Biblioteca

Marciana. Aí foi

copiado

em

1951

por Pedretti. que estudou os seus desenhos de

origem

leonardesca. e esteve

patente

na XVI-

Exposição

do Conselho da

Europa,

no núcleo da Biblioteca Medicea Laurenziana.

em

1980

161.

Uma

inscrição

na folha de rosto esclarece a sua autoria:

Questo

libro era di Benvenuto di

Lorenzo

di Benvenuto dela

Golpaia

composto et

disegnato

di sua mano con molte belistmi invenzioni con

i loro veri

fondamenti

. Desde o século

XV.

os Delia

Volpaia

constituíam uma

importante

família de mecânicos de

Florença

activos

até o

XVII,

quase todos excelentes desenhadores. Embora

alguns

membros mais novos se

dedicassem

também ao estudo

arquitectónico,

como Bernardo

delia Volpaia,

que colaborou na oficina

161 C. Pedretti. "II códice di Benvenuto di Lorenzo delia

Goipaja",

Studi Vinciani.

Documenti, analisi e inediti leonardeschi , Genebra. 1957, pp. 23-42; e cai.

Firenze e la Toscana dei Mediei - La rinascita delia Scienza, Florença.1980, pp.

163-4.

dos Sangallo

em

Roma,

eles eram sobretudo

especialistas

na arte

da relojoaria,

desde o

patriarca Lorenzo.

que

fez

em

1484

o

famoso

"oroiogio dei pianetti"

no Palazzo Vecchío. O seu

filho Benvenuto,

a

quem Vasari

chama buon

maestro

d'criuoli

e

quadranti,

e

boníssimo astrólogo,

ma sopra tutto eccelentissimo maestro di

levar piante

,

muito

ligado

aos

Médicis,

celebrizou-se

pela maqueta

em

pasta

de

açúcar

que realizou em

1529 juntamente

com

Tríbolo (

um

discípulo

de Andrea

Sansovino ) representando

toda a cidade de

Florença

e

arredores.

Como

muitos livros

técnicos da mesma

época,

este era um "libro di

bottega", caderno

de

oficina

para

circulação restrita,

ciosamente

guardado

e transmitido de

geração

em

geração.

Tal como outros dois

códices da mesma

família, compõe-se

de desenhos e

explicações

de

máquinas

e

instrumentos

vários

inventados

por

Lorenzo,

seus filhos e outros artistas activos em

Florença

nos

finais

do século XV e

primeira

década

do

XVI,

tais como Leonardo

(de

quem

reproduz

4 inventos de

1503-5),

o que

permite

situar por estes anos -

isto

é.

logo após

o

regresso de

Portugal

- o

desenho

de Andrea.

Organizado

sem

sequência lógica,

o livro

inicia-se

com o

horóscopo

do autor,

traçado pelo pai;

a que se seguem

operações matemáticas,

uma tábua de coordenadas

geográficas

tirada

de Afonso

o

Sábio, descrições

de

compassos e vários

tipos

de

relógios (

como os que

Benvenuto

fez em

Florença

em

1516

e 1522

).

misturados com

projectos

para bombear

água

e receitas para

oxigenar

os cabelos ou estucar

madeira (

esta

fornecida

por

Jacopo

Sansovino

).

Vem

depois

uma série de

instrumentos

para cortar

pedras preciosas

e estudos sobre rodas

105

dentadas, terminando com vários

tipos

de

moinhos

de

água

e

aparelhos

de

fiar

e tecer.

É

a meio da

secção

sobre instrumentos de corte e moagem, entre

uma serra

de ourives (fl. 49 v)

e uma roda dentada

para

moer carvão

e

salitre,

feita em 1524 na fortaleza de Pisa

(fl. 50 v),

que surge o desenho para nós de crucial interesse : a serra

mecânica

que

Mestre

Andrea

Sansovino

"fez em

Portugal" (fl. 50). O

texto que a

acompanha

diz em poucas linhas:

La sega che

dicie

maestro Andrea dal

Monte

a Sansovino

fecie

in

Portogallo

per segare uno

quadro

di

diaspro

per

farne

una colonette. Una ruota

che

nel medesirno stile delia

ruota

delVaqqua

dentata in testa e sua

denti

a uso tonde.

grosse e

forti

e unaltra ruota volta

daquesta

dentata

nel

medesirno

modo

e im medesirno numero di

denti;

e ciascuna delle 2 mote con tre

perni

che tirino una in qua elV altra in

là la sega, cioe il

telaio,

e

mediate

che una a lasciaio el tirare in qua elV altra

pigiia

e lira in là. E dicie maestro

Andrea che 3 schiavi non

sopperivano

a

pestare

tanto

smeriglio quanto

e consumeva, e che spesse volte si serrava la sega che 10 uomini non Varebbano tirata.

( "Serra que

diz

Andrea do Monte Sansovino que

fez

em

Portugal

para serrar um

quadrado

de

jaspe

para

fazer

um colunelo : Uma

roda que

gira

da mesma

forma

que a roda de

água,

dentada no alio e

seus dentes como é costume,

redondos,

grossos e

fortes:

e outra roda

movida por esta, dentada do mesmo modo e com o mesmo número de

dentes;

e

cada

uma das 2 rodas com

3

pernos que. uma

para

e a

outra para

lá,

puxam a serra, isto

é,

a

grade, pelos quais

assim que

uma deixa de puxar para cá a outra

prende

e puxa para lá.

Diz

mestre

Andrea que 3 escravos não bastavam para

pisar

o esmeril que consumia, e que muitas vezes ela serrava o que com

IO homens

não se teria

puxado

.

)

O

invento

experimentado

em

Portugal

por

Sansovino destinava-se, pois.

muito

prosaicamente,

a serrar

mármores,

uma actividade em

que

vir-lhe-ia

a ser reconhecida

competência

como a poucos outros escultores. Antes de sua

primeira

encomenda romana, passou o Inverno de

1505-6

em Carrara a tratar

pessoalmente

da escolha e

corte dos blocos de

pedra

para os túmulos de

S.

Maria dei

Popolo.

ai

voltando para os do Loreto. Só a quem

desconheça

a íntima

ligação

que existente na

época

entre arte e

técnica poderá surpreender

a

importância

que o florentino concedia a esse aspecto

prático.

aparecendo-nos

em

plena actividade

de oficina mecânica. E era este

interesse,

de

facto,

o motivo que levou Benvenuto delia

Volpaia

a

inserir o seu

experimento "português"

entre outros

exemplos

de

serras

hidráulicas,

e a descrever tão bem o funcionamento do seu

mecanismo que não seria difícil

hoje reproduzi-lo.

O

engenho

era accionado por uma roda de azenha,

cujo

movimento

circular contínuo transforma-se por um

jogo

de rodas dentadas em

movimento horizontal

alternado, produzindo golpes

bruscos de

vai-e-vem ao

longo

da linha de corte com o fim de tirar o melhor

partido possível

da

fricção

do esmeril sobre a

pedra

: uma ideia

simples,

e

que parece ter sido eficaz. Como se

pode depreender

do desenho, essa

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estrutura - que nada

permite duvidar que tenha de

facto sido

construída

- assentava sobre uma

armação sólida, provavelmente

em

pedra

e cal para evitar as

vibrações

e

mergulhada

na

água

(o

fino

traço irregular

que corre à sua

volta). Por

um

compartimento

mais estreito passa a corrente de

água que faz

mover as

pás

da roda.

enquanto

em outro

maior giram

dois rodízios

dentados

assentes

numa

viga perpendicular

à mesa

porta-bloco

: um colocado no eixo

principal

e o outro, na sua

engrenagem, girando

em

sentido

inverso.

Se estas duas rodas são a peça

essencial

da

máquina,

a sua

originalidade

parece residir em

3 pínulas

ou pernos inseridos nas faces de cada uma delas, os

quais

empurram

alternadamente,

ora para um lado ora para outro, os

braços

verticais,

suportados por

chumaceiras a fim de

diminuir

o atrito, da

grade

ou tela

( telaio )

onde trabalha a lâmina de fio

liso

em aço. Assim

imprime-se

a esta o

movimento de

fricção

que. com o

auxílio

de um

duro abrasivo

- o

de esmeril moído

por

escravos - e da regagem contínua com

água.

rapidamente

ia seccionando o bloco de

pedra.

A dureza

extraordinária

desta era encarecida por Sansovino na

legenda

do desenho

original

ao dizer que

10 operários

não teriam

força

suficiente

para

fazer mover a serra na linha

de

corte, e que esta consumia

mais esmeril

do que 3 escravos

conseguiam

moer ao

mesmo

tempo.

O que mostra que o

problema essencial

que se

pretendia

resolver não era o aumento do rendimento do trabalho

nem a

redução

dos custos ou da mão de

obra.

e sim a

impossibilidade

técnica de cortar esse

material, já

que é

impraticável

uma serra

manual

puxada

por 5 homens de cada lado.