3.2 A GROUNDED THEORY – UMA INTRODUÇÃO
3.2.4 Perspectivas Diversas no Desenvolvimento da Grounded Theory
Depois da fase inicial da descoberta e do estabelecimento clássico da Grounded Theory, a aplicação da metodologia se diversificou devido ao trabalho de diferentes pesquisadores.
Glaser e Strauss definitivamente se distanciaram em duas vertentes distintas, especialmente a partir de 1990, quando Strauss publicou, juntamente com Juliet Corbin20, o livro Basics of Qualitative Research – Techniques and Procedures for Developing Grounded Theory21, o qual foi apontado por Glaser como o responsável por distorcer completamente e até mesmo destruir a concepção original da metodologia (GLASER, 1992).
O nível da polêmica pode ser percebido pela própria epígrafe incluída por Strauss e Corbin na referida obra, posta em contraste com a apresentação que a editora Sociology Press
20 Juliet Corbin foi aluna e orientanda de Strauss.
21 A segunda edição, de 1998, foi traduzida para a língua portuguesa e publicada no Brasil somente em 2008
publicou em sua página web a respeito da obra em que Glaser desenvolveu sua contestação, conforme seguem, respectivamente:
Se o artista não aperfeiçoa uma nova visão em seu processo de criação, ele age mecanicamente e repete alguns velhos modelos fixados como uma fotocópia em sua mente. – John Dewey, Art as Experience, 1934, p. 50 (STRAUSS; CORBIN, 2008). Dr. Glaser publicou este livro como uma correção clara e convincente das muitas ideias enganosas em Basics of Qualitative Research, por Anselm Strauss e Juliet Corbin (1990) Sage Publications. Sua visão corrigida da lógica subjacente da teoria fundamentada permitirá aos pesquisadores continuar com suas pesquisas e manter sua produtividade22 (SOCIOLOGY PRESS, 2015, não paginado – tradução nossa).
Em síntese, a reação crítica de Glaser àquilo que ele qualificou como uma erosão da Grounded Theory, segundo Tarozzi (2011, p. 46-48), deu-se basicamente nas questões subsequentes:
1) Ênfase excessiva de Strauss e Corbin nos aspectos técnicos do método, com detalhamento das várias fases da codificação. Na opinião de Glaser, tratava-se de um tecnicismo inibidor da liberdade e da flexibilidade de comparação dos conceitos, dos quais deveriam emergir, por meio da ação do pesquisador, intuições das categorias e propriedades; entretanto, esse detalhamento técnico presente na obra de Strauss e Corbin fora muito bem recebido pela comunidade acadêmica e tornara-se uma das causas do sucesso do livro, que em poucos anos chegou a três edições e tradução em várias línguas, sendo considerado hoje como um best seller da área;
2) Glaser também considerou que Strauss e Corbin deslocaram perigosamente o eixo da Grounded Theory desde o princípio da descoberta de modelos constantes para a verificação de hipóteses, perdendo, dessa forma, o sentido da emergência das teorias;
3) Por fim, a principal crítica que Glaser apontou contra Strauss e Corbin foi a de que por causa do apego excessivo aos aspectos técnicos e introdução de algumas inovações técnicas na metodologia, eles estavam forçando (forcing) os dados com a indução de categorias preconcebidas, perdendo o princípio da livre emergência da teoria fundamentada nos dados; essa crítica está presente já no próprio título do livro de Glaser, Basics of Grounded Theory Analysis – Emergence vs. Forcing.
Mais tarde, Glaser também publicou um trabalho no qual esclareceu melhor os procedimentos empregados por ele na metodologia clássica, a qual ele continuou a defender e
22 Dr. Glaser published this book as a clear and cogent correction of the many misleading ideas in Basics of
Qualitative Research, by Anselm Strauss and Juliet Corbin (1990) Sage Publications. Its corrected view of the underlying logic of grounded theory will enable researchers to get on with their research and keep up their productivity.
aplicar (GLASER, 1998). A partir da obra Doing Grounded Theory: issues and discussions, as técnicas utilizadas por ele ficaram detalhadas de um modo mais claro.
Assim, as três principais vertentes ou perspectivas metodológicas da Grounded Theory, que se estabeleceram e se firmaram no cenário das pesquisas, foram:
1) perspectiva original de Glaser e Strauss assumida de forma permanente por Glaser – hoje também conhecida como perspectiva clássica, ortodoxa ou escola glaseriana;
2) perspectiva de Strauss e Corbin – considerada a principal reformulação sofrida pela Grounded Theory nos anos 1980/1990, hoje também conhecida como escola straussiana ou full conceptual description;
3) perspectiva construtivista – representada sobretudo por Kathy Charmaz, que fora discípula iniciada por Glaser23, mas que ganhou autonomia e se distanciou gradativamente da perspectiva glaseriana clássica, principalmente do modelo onto-epistemológico e de alguns detalhes dos métodos empregados nas pesquisas, assumindo também diferenciações com a perspectiva straussiana.
Assim se expressa Charmaz a respeito da sua posição construtivista, comparativamente à postura clássica e a straussina:
A teoria fundamentada serve como um modo de aprendizagem sobre os mundos que estudamos e como um método para elaboração de teorias para compreendê-los. Nos trabalhos clássicos da teoria fundamentada, Glaser e Strauss falam sobre a descoberta da teoria como algo que surge dos dados, isolado do observador científico. Diferentemente da postura deles, compreendo que nem os dados nem as teorias são descobertas. Ao contrário, somos parte do mundo o qual estudamos e dos dados aos quais coletamos. Nós construímos as nossas teorias fundamentadas por meio de nossos envolvimentos e das nossas interações com as pessoas, as perspectivas e as práticas de pesquisa, tanto passados como presentes.
Minha abordagem admite, de modo explícito que qualquer versão teórica oferece um retrato interpretativo do mundo estudado, e não um quadro fiel [e definitivo] dele [...] (CHARMAZ, 2009. p. 24-25).
Sem considerar outros detalhes, tampouco o debate em torno da polêmica ocorrida entre Glaser e Strauss ou os pormenores do distanciamento de Kathy Charmaz e Glaser, nos interessa apresentar, a seguir, uma rápida comparação entre as três perspectivas, considerando vários aspectos que envolveram o desenvolvimento da Grounded Theory, segundo cada perspectiva. Para isso, as informações da Tabela 5 foram adaptadas de quadros oferecidos por Tarozzi (2011) e Arias (2012), complementada com outras informações obtidas em Glaser (2004), Strauss e Corbin (2008) e Charmaz (2009).
Tabela 5 – Comparação entre as perspectivas da Grounded Theory GT Perspectiva clássica
(glaseriana)
Perspectiva full conceptual
description (straussiana) Perspectiva construtivista
Modelo onto-
epistemológico Pós-positivista
Naturalista-interpretativa e
Fenomenologia Construtivista
Corrente
teórica Realismo crítico
Pragmatismo e
Interacionismo Simbólico Construtivismo Social
Natureza da realidade Objetiva e exterior ao pesquisador Subjetiva Co-construída entre pesquisador e fontes Relação entre pesquisador e objeto
Distante Interação com a realidade
Subjetividades Inter-relacionada
Interesse do pesquisador
Descobrir e explicar comportamento dos atores sociais, resolvendo uma determinada questão
Compreensão e
interpretação da realidade com a que interage
Co-construção de significados sobre os eventos experimentados, vividos pelos atores sociais
Pergunta de pesquisa
Aberta, como “o que está acontecendo aqui?” Não é possível fazer uma afirmação /pergunta definitiva que identifica o problema, sem antes ir ao campo e iniciar a abordagem de modo aberta, apenas a partir de uma área de pesquisa.
É uma afirmação que identifica claramente o problema a ser estudado. Consente restringir e gerenciar a área de pesquisa.
Não existe propriamente uma pergunta. Os conceitos sensibilizantes (Blumer), interesses pessoais e disciplinares do pesquisador é que iniciam a pesquisa. Perguntas serão construídas na medida em que os dados são coletados e analisados.
Tipo de dados Tudo são dados (All is data)
Indiferente. Podem ser documentos escritos, imagens, arquivos de áudio ou vídeo, entrevistas e, sobretudo, observação de campo.
Entrevistas semiestruturadas intensivas e outras técnicas; análise textual de
documentos. Dados são co- construídos entre o
pesquisador e os participantes
Procedimentos
coleta-análise Comparação constante
24 Comparação constante Comparação constante
24 Coleta e análise dos dados são atividades simultâneas na Grounded Theory, independente da perspectiva. Esse
procedimento é chamado de “método da comparação constante” e é o que garante a densidade das categorias que darão origem à teoria substantiva, assegurando a saturação das informações (ARIAS, 2012, não paginado).
GT Perspectiva clássica (glaseriana)
Perspectiva full conceptual
description (straussiana) Perspectiva construtivista
Tipos de codificação
Duas etapas: aberta25;
seletiva teórica26.
Três etapas: inicial ou aberta; axial27; e seletiva.
Duas etapas: inicial ou aberta; e focalizada ou seletiva teórica.
Fonte: Elaboração nossa. Glaser (2004), Strauss e Corbin (2008), Charmaz (2009), Tarozzi (2011) e
Arias (2012).