Ao longo deste capítulo vamos, então, abordar as perspectivas dos actores acerca dos temas em estudo. Os temas fulcrais do estudo em questão são: a mobilidade social, os valores e a identidade. É, portanto, acerca destes que nos vamos pronunciar de seguida, dividindo este capítulo em três partes de maneira a abordar cada um deles por sua vez e de forma mais pormenorizada.
Passo a apresentar um quadro com um panorama geral das pessoas que foram entrevistadas. Esta é uma forma de sistematizar e apresentar toda a informação organizada para o leitor.
Quadro 6 – Sistematização de toda a informação Países de
emigração
Nomes Pessoas entrevistadas Tempo Total de emigração Género
Feminino
Género Masculino
França Armanda X 34 anos
França Beatriz X 36 anos
França Carlota X 40 anos
França Dinis X 21 anos
França Ernesto X 14 anos
Suécia Francisca X 16 anos
Luxemburgo Guilhermina X 14 anos
Espanha Hélder X 16 anos
Suíça Ivo X 21 anos
Suíça João X 6 anos
10 Pessoas entrevistadas
Apenas tenho a referir que todos estes nomes são fictícios, para não cometer qualquer indiscrição para com as pessoas que se dispuseram gentilmente a serem entrevistadas.
1 – Análise de conteúdos e discursos
1.1 - Percepções sobre mobilidade social
No que concerne à mobilidade social, começaremos por abordar a razão pela qual os entrevistados emigraram e que nos remete para a primeira pergunta do guião de entrevista.
Para grande parte dos inquiridos o motivo pelo qual emigraram foi a tentativa de melhorarem as condições económicas de vida que tinham em Portugal, como o comprovam alguns dos testemunhos:
“Fomos à procura de melhores condições de vida. Aqui não tínhamos nenhumas
perspectivas de vida. Nós cá éramos muito pobres, não tínhamos meios quase nenhuns”
(Beatriz, França, 51anos).
“Emigrei com a intenção de renovar a minha vida. Para ter uma vida melhor.
Estava a sentir dificuldades aqui em Portugal e, por isso decidi emigrar quando me fizeram uma proposta de trabalho. Lá compensa em termos de ordenado, de estadia, em termos de condições…enfim, de tudo” (Hélder, Espanha, 37 anos).
“Emigrei para ter melhoras na minha vida. Emigrei para equilibrar a nossa vida.
Porque se não fosse para equilibrar a minha vida não saía do meu país” (Ernesto,
França, 62 anos).
A ambição de adquirir bens essenciais ao bem-estar, mais propriedades, ou um terreno para a construção de uma casa e amealhar dinheiro, no fundo, aumentar o seu património, é transversal a todos estes testemunhos. Com a expressão enfática percebemos claramente que estão dispostos e pretendem ascender a outro status na sociedade. É de crer que sendo proprietários de mais terras, de casa ou outros bens materiais, poderiam aceder a um estatuto social mais valorizado e assegurar um futuro mais seguro. O que é coerente com a ideia que permanece no nosso inconsciente relativamente à emigração desta época (segunda metade do século XX).
Outros, ainda, apontam diferentes razões para justificar a emigração. Como por exemplo, dar um melhor futuro aos filhos.
“Emigrei no intuito de dar um futuro melhor aos meus filhos e, também para
conseguir um melhor nível de vida. Naquela altura era muito complicado conseguir ter um empréstimo e, então tentei a emigração” (João, Suíça, 48 anos).
E, ainda, há quem aponte outras razões, por exemplo, por amor ou para conhecer outros costumes e culturas, conforme nos relatam:
“Eu não emigrei por motivos económicos mas por amor. O meu marido resolveu ir
para a Suécia à aventura. Conhecemo-nos cá e casamos por procuração, nem demos tempo que ele cá viesse e eu fui lá ter. Foi uma paixão „assolapada‟” (Francisca, Suécia,
60 anos)
“Emigrei porque casei e o meu marido já estava na França a trabalhar. Posso
dizer que foi por amor, para construir um casamento, uma família, uma vida a dois”
(Armanda, França, 59 anos).
“Emigrei, não foi por falta de trabalho, foi a vontade de conhecer outro país,
outras culturas e costumes. E, principalmente a construção de uma casa. O que era impossível construir em Portugal na altura. Ganhar dinheiro e construir uma casa”
(Guilhermina, Luxemburgo, 50 anos).
Em suma, o projecto emigratório pode ser encarado como um passo para lhes proporcionar uma mobilidade social ascendente. Isto porque é uma forma de ultrapassar as condições de vida desfavoráveis e limitadas que se lhes apresentavam na altura e é um processo mais rápido e exequível de conseguir o fim de melhorar o nível e qualidade de vida. E, como tal, o facto de terem um emprego real e sólido, confere-lhes também um estatuto definido e susceptível de criar outras aspirações.
Ter tomado esta decisão de emigrar, permitiu-lhes sonhar e acalentar aspirações relacionadas com um melhor viver. Para a maioria dos nossos entrevistados foi um período de intenso trabalho, desgaste, poupanças e de tornar os seus projectos de emigração realidade: construção de casa, compra de carro, melhoria da condição económica familiar e melhores perspectivas de futuro para os filhos, como nos indicam alguns dados das entrevistas.
Outro ponto a ser esmiuçado, neste momento, é o do trajecto e realização profissionais dos nossos entrevistados.
Todos eles se consideram pessoas realizadas profissionalmente e valorizam o seu trajecto profissional, quer tenham desempenhado funções inferiores aos seus diplomas nos países de emigração ou funções de ordem similar às que desempenhavam em Portugal. Todos dizem que foram experiências gratificantes e enriquecedoras no seu percurso profissional, como nos revelam os depoimentos dos nossos interlocutores.
“Sempre me senti realizada profissionalmente. Quando fui para o Luxemburgo fui
para um trabalho inferior ao meu em termos de estudos, não inferior em termos de dignidade. Eu sabia para o que ia, portanto, adaptei-me e sempre me senti realizada. Tentei aproveitar os meus conhecimentos e aplicá-los no que estava a fazer lá. Eu sabia que o meu ordenado no Luxemburgo era muito melhor, e tinha um pensamento que era „eu tenho de vencer na vida‟” (Guilhermina, Luxemburgo, 50 anos).
“Sempre me senti realizada porque fiz o que gostava, dava aulas de Língua e
Cultura Portuguesa. Infelizmente a nossa Língua no mercado não tinha grande valor. É muito triste ver que a nossa Língua não está muito implementada. Mas eu atribuo isso à falta de estruturas portuguesas, à falta de apoio do nosso governo. Os nossos jovens chegavam a uma certa altura, no sistema de ensino, que não tinham o seguimento da língua portuguesa. Depois só encontravam a Língua Portuguesa na Universidade (…). Os meninos iam às aulas do português, e eram muito assíduos, não faltavam. Portanto, a comunidade fazia a sua parte o governo é que não apoiava. Não foi pela comunidade portuguesa, porque não são ouvidos. Os deputados pela emigração não devem ter grande força, nem interesse, porque não fazem nada para isso. O governo Português não investiu, não souberam aproveitar a riqueza que tiveram em França, dos portugueses que estiveram lá. Acho que estão agora a dar os primeiros passos nesse sentido” (Armanda,
França, 59 anos).
“Enquanto estava na França tinha uma boa vida e sentia-me realizado.
Depois, vim para cá e montei o meu negócio, onde me sinto plenamente realizado. Tudo correu bem mas, com muito trabalho. O meu trabalho é ligado à noite, é muito diferente de muitos trabalhos, é de muita responsabilidade” (Dinis, França, 60 anos).
“Na Suécia tornei-me a mulher dos sete ofícios. Aqui trabalhava em seguros, uma
menina que estava habituada a estar num escritório, que não fazia mais nada do que estar numa secretária (…). A minha experiência profissional na Suécia foi o mais enriquecedor possível. Preparou-me para outro tipo de coisas. A nível profissional foi muito enriquecedor. Aqui em Portugal, tenho uma casa de molduras, e que me realiza totalmente, porque posso dar asas à minha imaginação” (Francisca, Suécia, 60 anos).
“Após ter emigrado sinto-me muito realizado a nível profissional porque fiz
sempre o que gostei de fazer. Trabalhei na pedra. Depois de voltar a Portugal dediquei- me à Viticultura, que é outra das minhas paixões. E, a mim realiza-me muito.” (João,
Suíça, 48 anos).
“Sinto-me uma pessoa mais realizada profissionalmente, lá os moldes de trabalho
são os melhores, usam-se técnicas mais evoluídas. Eu sou estucador, profissão que já exercia cá em Portugal” (Hélder, Espanha, 37 anos).
Podemos salientar que todo o esforço é justificado enquanto o objecto de ascensão social for, de certa forma, atingível. Enquanto houver hipóteses de atingir os objectivos para os quais se propuseram, aquando da decisão de emigrar, mesmo que haja perdas ou ganhos. Se os emigrantes considerarem que ainda podem atingir esses objectivos, esses serão determinantes nos seus comportamentos para se ajustarem às diversas situações.
Embora, em alguns casos, desempenhem funções de menor prestígio social, certamente tiveram um reconhecimento social por parte da sociedade de acolhimento. Há no geral um sentimento de ganho e de enriquecimento a nível pessoal com o desempenho das suas funções. Mesmo os nossos entrevistados que regressaram ainda em idade activa se sentem realizados na profissão que desempenham após a emigração.
Aludindo agora à formação escolar dos emigrantes e, principalmente dos seus filhos, todos valorizam a formação escolar dos filhos em detrimento do amealhar de dinheiro ao longo da vida:
“Eu estudei até ao troisiéme em França, que corresponde ao 10º ano de escolaridade. Em
Portugal nunca tirei formação nenhuma, porque não tive qualquer interesse. Em França tiraria uma formação, aqui em Portugal não me dá vontade (…).
Empreendi mais ao longo da minha vida na formação escolar dos meus filhos porque é mais importante do que o amealhar de dinheiro. O dinheiro gasta-se (o dinheiro vai e vai) e a formação escolar fica sempre com as pessoas. Se existir algum azar na vida o dinheiro é o primeiro a desaparecer e a formação pode ajudar-nos a erguer novamente. Eles continuam a estudar e darei sempre o que eles precisarem e quiserem nesse sentido” (Beatriz, França, 51
anos).
“Sim, em Espanha frequentei uma formação de 90 dias. Tenho o diploma de Gessista de
Espanha. Se formos a ver empreendi nas duas coisas. Mas, mais na minha família. Aos meus filhos, o que eles me pedirem, em termos de formação escolar, eu dou-lhe. Já me pediram para
entrar no Karaté, para tirar cursos de inglês, e mais coisas, … já andaram na piscina e na ginástica.” (Hélder, Espanha, 37 anos).
“Eu empreendi mais na formação escolar dos meus filhos mas, também, estava a tentar
amealhar dinheiro. Tanto empreendi na formação escolar dos meus filhos que os levava para a escola de ensino da Língua Portuguesa, que decorria ao sábado. Isto além de frequentarem o sistema de ensino francês (…). E, cá continuei a investir na formação escolar deles. E, não continuaram a estudar porque não quiseram” (Ernesto, França, 62 anos).
“Na Suíça não tirei nenhuma formação porque o patrão atribuiu-me logo o escalão
máximo, devido à minha experiência (…). Depois fiz uma formação de Poda, a seguir uma formação de Fitofármacos (…). Já tirei, também, um curso de Horticultura. E, também tirei o curso de Protecção Integrada. Inscrevi-me nos avisos agrários, que nos avisa de todas as alterações, de todos os males que existem, e outras coisas interessantes. Já tentei tirar o 9ºano de escolaridade no Centro de Novas Oportunidades, mas não gostei, nem concordo com o sistema de funcionamento. Por isso, desisti (…). A formação escolar dos meus filhos foi sempre muito mais importante ao longo da minha vida. Sempre me esforcei para lhes dar o que eles precisavam” (João, Suíça, 48 anos).
“Na Suécia pensei seguir Direito, não segui porque quando podia não tinha bases
suficientes da Língua Suéca para ir para uma Faculdade de Direito, porque aí teria de dominar perfeitamente a língua. Depois mais tarde quando já dominava a língua (…). Eu ainda frequentei um curso para Intérprete Social e, era à noite. Mas tive de desistir porque o meu marido trabalhava por turnos (…). Acabei por desistir. Tive pena mas fiquei por aí. Após ter vindo não tirei curso nenhum cá. Eu empreendi mais na educação dos meus filhos, em relação à formação escolar, infelizmente, não foi aquela que eu lhes quis dar porque eles não quiseram aceitar. Era aquilo que eu mais lhes queria dar, mas eles não quiseram. O juntar de dinheiro nunca foi uma prioridade nossa, é evidente que não esbanjamos, fizemos o que podemos para ter a vida que temos hoje! Foi na educação dos filhos, não propriamente na formação escolar porque eles não quiseram prosseguir os estudos universitários, com muita pena minha”
(Francisca, Suécia, 60 anos).
“Vim para Portugal por causa da formação escolar dos meus filhos para aproveitarem a
escolaridade portuguesa, para não atrasarem ano nenhum.. Portanto, valorizei mais a formação escolar dos meus filhos do que o amealhar de dinheiro (…). Orientamos a nossa vida em função da formação escolar dos nossos filhos” (Dinis, França, 60 anos).
“Eu quando fui para França tinha a frequência do Magistério. Depois lá, tirei a
o meu ordenado. Agora, aqui em Portugal, ainda não tirei formação nenhuma. Gostaria era de fazer alguma coisa porque me sinto ainda muito capaz, penso que podia dar muito de mim.
Empreendi mais, ao longo da minha vida, na formação escolar dos meus filhos, no bem- estar deles e, no dia – a - dia deles para que eles estivessem bem (…). A prioridade sempre foi os meus filhos, a formação escolar deles, e por isso os deixei em Portugal, pensando eu que não os ia prejudicar, caso eu viesse para Portugal, enviada pelo governo Português” (Armanda,
França, 59 anos).
Há, nos discursos em análise, uma orientação especial para a valorização escolar dos filhos. Esta valorização escolar é, muitas vezes, com o intuito de eles acederem a melhores empregos e, como tal, a uma mobilidade social ascendente. Importa salientar que os projectos familiares migratórios são, frequentes vezes, orientados em função do grupo familiar com particular incidência para o futuro dos filhos.
Podemos referenciar que associado ao sucesso escolar dos filhos dos emigrantes está a mobilidade social ascendente. Os pais podem aceder a um estatuto social por efeito da ascensão social dos seus filhos, por isso, empreenderam tanto na formação escolar dos filhos ao longo das suas vidas. Embora em alguns casos não lhes foi possível porque os filhos não quiseram prosseguir os estudos.
Abordando, agora, a estabilidade económica dos emigrantes, verificamos que todos eles se dizem com uma maior estabilidade económica após ter terminado o projecto emigratório:
“Após ter emigrado para a Suíça sinto que tenho uma maior estabilidade económica. Se calhar não a teria se não tivesse ido. Sinto-me mais tranquilo. Tenho casa própria que consegui com o dinheiro que adquiri pela emigração” (Ivo, Suíça, 57 anos).
“Nós apenas regressamos porque tínhamos estabilidade económica. E essa estabilidade permanece. E foi a emigração para o Luxemburgo que nos deu essa estabilidade económica. Tenho casa própria e que a obtive através da emigração” (Guilhermina, Luxemburgo, 50 anos).
“Tenho uma estabilidade económica graças à França, senão não tinha o que tenho hoje,
e tudo o que consegui empreender. Tenho casa própria que adquiri por ter estado 20 anos em França” (Dinis, França, 60 anos).
“Após ter emigrado sinto que tenho uma maior estabilidade económica. Foi a emigração
própria que comprei por ter emigrado, porque se não emigrasse não a compraria de certeza”
(Beatriz, França, 51 anos).
O facto de as pessoas terem conseguido uma maior estabilidade económica, terem casa própria (que é uma das marcas do emigrante) significa que a emigração teve um aspecto positivo. Em situação migratória, o alcance de uma casa e de uma estabilidade económica constitui um elemento que ajuda a manter vivo o projecto do regresso e é, por vezes, o principal elo de ligação e de porto seguro com o país de origem.
Desta forma conseguiram alcançar uma ascensão social ascendente, de que não tinham perspectivas antes de terem iniciado o seu projecto de emigração, salvo um caso, porque já tinha origens na classe média alta.
Podemos dizer que relativamente a todos os nossos entrevistados que, sob o ponto de vista económico, tudo lhes correu de feição: têm todos estabilidade económica. Todos consideram que a situação económica do presente se deve ao facto de ter emigrado, como tal, ao ganho obtido aquando da estadia num outro país.
Resumindo, é invocada a independência, a autonomia e a liberdade económica conquistada por todos eles.
1.2 - Valores e mudança cultural
Vamos de imediato, aportar no tema dos valores, acerca do qual abordaremos alguns pormenores interessantes.
Iniciaremos por falar acerca de como os nossos entrevistados se sentem após terem emigrado: o que alterou na sua vida e modo de ver a vida, qual a mudança ao nível dos seus valores. Vejamos os seguintes depoimentos:
“Se calhar se tivesse ficado em Portugal não seria uma pessoa tão atenta às necessidades dos outros. O facto de poder ajudar, consegui pôr em prática os valores que eu já tinha comigo porque acredito que esses valores nascem connosco (…). Penso que nesse sentido me sinto uma pessoa diferente após a emigração. Sinto-me mais rica, sinto que cresci como ser humano. Além da língua que aperfeiçoei e a cultura diferente com que convivi(…). E, outro pormenor a ter em conta, na minha opinião, quem emigra um dia fica com uma mentalidade mais aberta, tornam-se pessoas mais pró activas. Desde que estejamos abertos à outra cultura com que convivemos podemos interiorizar em nós coisas diferentes e mais ricas. A mentalidade de quem fica sempre em Portugal é muito diferente da mentalidade de quem emigra um dia. Penso que expandi os meus valores” (Guilhermina, Luxemburgo, 50 anos).
“Sinto que mudei em todos os sentidos. Francamente, foi muito enriquecedor para mim.
Se tivesse continuado em Portugal hoje em dia seria uma pequena burguesa. Teria que ter „mulher-a-dias‟, iria ao cabeleireiro todas as semanas, era, talvez, menos humana, mais superficial e mais materialista. E, o facto de ter vivido noutro país, levou-me muitas vezes a pensar: “Porque é que eles reagem assim?”. Eu hoje, se calhar, entendo a situação das outras pessoas, não faço um juízo logo à primeira impressão da outra pessoa, tem é de haver motivo para que a pessoa seja julgada dessa forma (…).
Sou muito melhor Pessoa hoje do que se tivesse vivido toda a vida em Portugal. Eu teria ficado dentro da minha „concha‟ (…). Acredito que qualquer pessoa depois de emigrar se torne uma pessoa diferente. (…) Eu tentei assimilar o que mais me interessava da cultura sueca. (…) Assistia aos debates parlamentares na televisão, com o Olof Palme, e adorava aquilo e aprendi muito naquilo.” (Francisca, Suécia, 60 anos).
“Eu aprendi muito! Tenho outros horizontes que não teria se tivesse ficado em Portugal.
Aliás, eu vejo o mundo de outra maneira do que as pessoas daqui vêem. Porque em França é um mundo aberto, é outra cultura, realmente é outro mundo, são pessoas muito mais abertas, são pessoas desinibidas, não há títulos, somos todos iguais. Sinto-me uma pessoa diferente após a emigração. Eu não me consigo integrar com esta mentalidade daqui da aldeia.
No sentido de eu ser uma pessoa que acha que a liberdade é importante para todos os seres humanos. E aqui na aldeia as pessoas sufocam-me, querem saber tudo, seguem os nossos passos. Eu sou uma pessoa muito frontal, e aqui não aceitam a frontalidade. Sempre me habituei a dizer aquilo que sentia, aquilo que penso, e aqui não se pode. Aqui não aceitam. Não sei lidar com esta gente. Quando dizemos alguma coisa de verdade, as pessoas não aceitam. Mesmo a nível político, não se pode dizer o que se pensa, às vezes penso que até estamos numa ditadura.
Eu sinto que onde eu estava, eu podia dizer o que sentia e pensava.
Sempre dizia, eu não quero ser francesa, não quero ser como os franceses, mas, no fundo, à força de lá vivermos começamos a ganhar hábitos como eles. Há coisas que adquirimos aquando da convivência com outras culturas, com outras pessoas.
Foi uma convivência mesmo pluricultural, isto foi muito enriquecedor. Há hábitos que adquirimos aquando da convivência com outras culturas” (Armanda, França, 59 anos).
“Como fui para um país onde a forma de encarar a vida é diferente daqui, fui de certa
forma influenciado. Sinto que mudei depois de ter emigrado. Sinto que adquiri outros valores, que não tinha até ter emigrado.
Sinto que há um “desembocar de ideias”, o facto de ter saído de Portugal. Sinto que me abri um pouco ao mundo (…)” (João, Suíça, 48 anos).
“Tornei-me uma pessoa diferente. Tornei-me mais atento às pessoas. O facto de sair de
Tornei-me uma pessoa diferente em muitos aspectos. Acho que adquiri outros valores, outros hábitos, outra postura na vida” (Ernesto, França, 62 anos).
Quando no decurso da nossa entrevista é abordada esta questão, as intervenções dos entrevistados vão todas no sentido de alteração de valores, de abertura de horizontes,