As pesquisas quantitativas com delineamento experimental apresentam estudos envolvendo questões relacionadas à percepção da música e da linguagem e como esses processos se correlacionam em vários aspectos: semânticos,
sintáticos, propriedades sonoras (altura), performance musical e linguística, processamento auditivo e consciência fonológica. As ciências cognitivas, a psicologia, a fonoaudiologia e as ciências do cérebro foram algumas das áreas citadas no qualesses estudos foram publicados. Os recursos utilizados para os experimentos, de acordo com cada estudo, foram: discriminação de altura, acordes modificados, canções, pseudopalavras, palavras com violação sintática, segmentos sonoros, testes de inteligência não verbal, avaliações fonológicas e questionários.
No estudo, realizado por Hille e outros (2011), os pesquisadores afirmam que os meninos participantes de uma amostra não selecionada, de uma escola primária de terceiro ano e que tocam um instrumento, apresentaram um quo- ciente de inteligência (QI) não verbal mais alto e foram melhores em um teste de ortografia formal se comparados aos meninos que não tocam um instrumento. O efeito sobre a ortografia foi independente da influência do QI não verbal. Uma análise mais detalhada da distribuição do desempenho ortográfico mos- trou que apenas os alunos do quartil mais baixo diferem dos demais em relação à execução de um instrumento. A suposta ligação entre habilidades musicais e de linguagem é vista na discriminação de eventos auditivos rápidos. (JAKOBSON et al., 2003; TALLAL; GAAB, 2006) A partir dos dados expostos, os autores pro- põem que há tanto uma associação do treinamento musical com as habilidades gerais, bem como em habilidades específicas de ortografia.
O objetivo do estudo realizado por Mendonça, Lemos e França (2011), foi investigar as relações entre experiência musical, habilidades de processamento auditivo e de consciência fonológica de crianças de 5 anos de idade com e sem experiência musical. Depois do experimento, foi observada uma diferença entre os resultados obtidos nos testes de memória sequencial verbal e de memória sequencial não verbal com quatro instrumentos, tarefas de identificação de rimas, síntese e exclusão fonêmica. A análise de regressão logística múltipla19 realizada
pelos pesquisadores demonstrou que, com exceção do teste de memória sequen- cial para sons verbais com quatro sílabas, a diferença de desempenho observada nos testes e tarefas teve relação com a experiência musical dos sujeitos. Segundo
19 A regressão logística é uma técnica estatística que tem como objetivo produzir, a partir de um conjunto de observações, um modelo que permita a predição de valores tomados por uma variável categórica, frequentemente binária, a partir de uma série de variáveis explicativas con- tínuas e/ou binárias.
os pesquisadores, os achados desse estudo representam uma das muitas possibi- lidades de trabalho em conjunto e parceria entre as áreas de Educação Musical e Fonoaudiologia, a fim de avançar na pesquisa científica multidisciplinar. A expe- riência musical foi o fator que determinou as diferenças observadas em relação às habilidades de processamento auditivo e de consciência fonológica entre grupos de crianças de 5 anos com e sem experiência musical. Para as autoras, a prática musical, além de seu papel cultural, também promove o aprimora- mento de habilidades auditivas e metalinguísticas de crianças de 5 anos.
No estudo realizado por Hausen e colaboradores (2013), foi encontrada uma associação entre a percepção da música e da prosódia na fala, mais espe- cificamente no acento forte da palavra. Segundo os autores, esta descoberta dá suporte à hipótese de que os processamentos da música e da fala estão, de certa forma, baseados em recursos neurais compartilhados.
No estudo realizado por Bidelman, Hutka e Moreno (2013), os autores afirmam que, ao analisar a percepção auditiva básica, bem como a percepção musical complexa da língua cantonesa, músicos e ouvintes não músicos demonstraram que a capacidade expert de reconhecer a altura (pitch expertise), proveniente da linguagem tonal ou da música, está associada ao processamento auditivo de menor ordem – sensibilidade à discriminação tonal, velocidade de processamento – e de maior ordem – memória tonal, discriminação melódica –, necessários para a percepção musical consistente. Essa forte correspondência entre a performance perceptual e a extensão do ouvinte em falar uma língua tonal, ou uma formação musical, sugere que os benefícios para o processamento de música podem ser dirigidos pelo grau de plasticidade adquirido através da exposição a longo prazo a cada uma dessas atividades auditivas.
No estudo realizado por Hille e outros (2011), depois que os pesquisadores observaram o desempenho em três tarefas de controle do experimento, afir- maram que a relação persistente entre a habilidade dos participantes de discri- minar as diferenças da linguagem (frase, prosódia) e afinação musical (melodias) é consistente com a hipótese de que os mecanismos cognitivos para o proces- samento de altura na linguagem e na música são compartilhados, não depen- dendo somente dos caminhos gerais de memória de trabalho e atenção. Existe uma relação significativa e forte entre as habilidades de processamento de altura dos indivíduos na música e na linguagem. Para os pesquisadores, tal relaciona- mento permanece mesmo depois de se controlar o desempenho dos indivíduos
em uma série de tarefas de controle destinadas a dar conta da acuidade sen- sorial não linguística e não musical básica para a afinação, bem como fatores mnemônicos, de atenção e motivacionais gerais do domínio que influenciam os testes laboratoriais de percepção. Destacam, ainda, que essa relação de ordem superior entre o processamento linguístico e a altura musical foi observada em participantes da população em geral, e não em uma amostra selecionada espe- cificamente com conhecimento musical ou déficit neurológico que afeta a fala ou a música.
O estudo realizado por Perruchet e Poulin-Charronnat (2013) teve como objetivo explorar os caminhos semânticos ao invés dos caminhos sintáticos dos procedimentos realizados por Slevc, Rosenberg e Patel (2009). O experimento replicou esse procedimento de Slevc, Rosenberg e Patel (2009), exceto os cami- nhos sintáticos, que foram substituídos por caminhos semânticos. Os pesqui- sadores observaram o mesmo padrão interativo de resultados. Estes resultados sugerem que o elemento subjacente às interações é a configuração do caminho, em vez da implicação de um suposto módulo sintático. Sugerem, ainda, que uma quantidade diferente de recursos de atenção, sejam levantados para pro- cessar cada tipo de manipulação linguística, modulando assim os recursos dis- poníveis para o processamento da música e, consequentemente, os efeitos das violações musicais.
No estudo realizado por Bella, Białuńska e Sowiński (2013), os autores afirmam que a música tem uma tendência generalizada de engajar ritmica- mente nosso corpo. Em contraste, a sincronização com a fala é rara. A superiori- dade da música sobre a fala na condução do movimento provavelmente resulta da isocronia20 dos batimentos musicais, em oposição aos estresses irregulares da
fala. Além disso, a presença de padrões regulares de periodicidade incorporada (isto é, o metro) pode ser crítica para tornar a música particularmente propícia ao movimento. Os autores investigaram essas possibilidades pedindo aos par- ticipantes que se sincronizassem com estímulos auditivos isócronos (modelo), enquanto os distratores de música e fala foram apresentados em uma das várias fases relacionadas ao alvo. No experimento 1, trechos musicais familiares e frag- mentos de poesia infantil foram usados como distratores. Os estímulos foram
20 Diz-se de movimento que se realiza em um tempo com igual duração de outro; que tem a mesma duração.
manipulados em termos de batidas isocrônicas em altura médias para alcançar a máxima comparabilidade. No experimento 2, os distratores da fala eram frag- mentos formados com 28 a 32 sílabas fortes de três trechos bem conhecidos da poesia infantil polonesa – “Pstryk”, “Lokomotywa” e “Na straganie”. “Pstryk” e “Na straganie” foram escritos em medida binária – isto é, cada segunda sílaba foi sub- linhada. “Lokomotywa” foi escrita numa medida ternária – isto é, cada terceira sílaba foi sublinhada. A música perturbou a sincronização com os estímulos do modelo mais do que fragmentos da fala. No entanto, a superioridade da música sobre a fala desapareceu quando os distratores compartilhavam a isocronia e o mesmo metro. Para os autores, a estrutura temporal peculiar e regular da música é provavelmente o principal fator que favorece o estreito acoplamento entre som e movimento.
O estudo realizado por Jung e colaboradores (2015) teve como objetivo exa- minar o processamento cognitivo simultâneo das expectativas musicais, lin- guísticas e rítmicas. Os resultados mostraram os principais efeitos da expecta- tiva rítmica e da expectativa de sintaxe linguística no tempo de leitura. Houve também um efeito do ritmo na interação entre a sintaxe musical e linguística: os efeitos das violações na sintaxe musical e linguística mostraram interação significativa somente durante os testes ritmicamente esperados.