• Nenhum resultado encontrado

2 ALIENAÇÃO PARENTAL E SUA PRECISÃO CONCEITUAL

2.3 PESSOAS ENVOLVIDAS: ALIENANTE, ALIENADO E ACUSADO

Vale observar que a legislação demonstra que os atos de Alienação Parental não ocorrem somente entre ex-cônjuges, mas com qualquer pessoa que tenha a autoridade sobre a criança e utiliza esta autoridade com práticas abusivas, podendo, inclusive, ser praticada por vizinhos, professores ou qualquer membro da família

extensa. No entanto, a ocorrência da prática da alienação torna-se mais comum entre os genitores separados, visto que nem sempre conseguem concretizar a separação emocional e continuam vivendo desiludidos com a ruptura conjugal de maneira a afetar a vida do filho (MONTEZUMA, 2019).

Assim, quando da dissolução, a custódia física dos filhos deverá ser exercida por quem apresentar maior aptidão para cuidar do filho. O mais importante é que seja mantida uma relação saudável entre o casal visando o bem-estar dos filhos. A guarda poderá ser exercida também por um dos avós, constatando-se que a alienação parental ocorre não somente do âmbito dos genitores.

Contudo, a Alienação Parental segue, em regra, envolvendo três sujeitos: o genitor alienador ou alienante, a criança ou adolescente e o genitor alienado, também chamado de genitor alvo. Frise-se que não envolve somente os genitores, como já demonstrado anteriormente.

O alienador é quem implanta na criança ou adolescente os sentimentos negativos, as informações falsas, objetivando o repúdio ao genitor alvo, visando também destruir o convívio entre eles até então estabelecido, criando uma situação de desafeto entre os dois – criança/adolescente e genitor alvo.

O alienador, em regra, se coloca em posição de superioridade em relação ao genitor não guardião, em especial porque conta com o apoio moral de familiares, amigos e profissionais envolvidos, uma vez que possui um relato sedutor e alega de forma bastante convincente a proteção da prole, da defesa da criança (SCHAEFER, 2014).

Vale dizer que alienador é aquela pessoa que coloca em prática os atos de desmoralização e destruição do outro genitor e do relacionamento do outro genitor com os filhos. Assim, o genitor alienante pode ser tanto o pai, quanto a mãe, mas geralmente é o genitor que detém a guarda dos filhos.

Para Adriana Araújo Mantovani (2018), o comportamento do alienador é incalculável e suas estratégias para coibir o contato da criança com o genitor alvo ultrapassa qualquer bom senso. O alienador tem como objetivo desfazer a relação entre o infante e o genitor alvo, assumindo o controle perante o filho.

Para Karina Elias Carvalhar (2018), dentre as características do genitor alienador, pode-se destacar a personalidade narcisista, paranoica e antissocial, demonstrando ser pessoa totalmente insensível, manipuladora, onipotente e que despreza condutas legais.

Os alienadores geralmente são superprotetores, acham que ninguém cuidará dos filhos como eles e não costumam respeitar as sentenças judiciais, descumprindo-as sem visar as consequências. São indivíduos normalmente controladores que acabam vivendo em um mundo de ilusões e alienando os próprios filhos da realidade, chegando inclusive fazer falsas acusações.

Schaefer (2014, p.79) diz ser difícil estabelecer um rol de características que identifique o perfil de um alienador, mas alguns comportamentos e traços de personalidade são bastante comuns, quais sejam: dependência, baixa autoestima, reiterado descumprimento de regras, litigância como meio de vida e como forma de manter aceso o conflito familiar, manipulação, sedução, típico comportamento de vítima e repleto de queixas, histórias de desamparo, falso interesse pelo tratamento e resistência ou recusa ao tratamento.

O alienador possui condutas clássicas, como apresentar o novo cônjuge como sendo o novo pai ou a nova mãe, interceptar telefones, recados ou presentes destinados aos filhos, desvalorizar o outro genitor perante terceiros e perante os filhos, não repassar informações acerca das atividades dos filhos (por exemplo, as atividades festivas da escola), impedir a visitação, tomar decisões importantes sobre o filho sem consultar o outro responsável legal, recordar à criança motivos ou fatos ocorridos pelos quais deverá ficar aborrecida com o outro genitor, entre outras condutas.

A criança é o sujeito maior prejudicado na relação em virtude de sua condição de pessoa em desenvolvimento. O filho influenciado ou alienado, pode apresentar sentimentos constantes de raiva, tristeza, mágoa, ódio, contra o outro genitor e sua família; se recusar a ter qualquer comunicação com o outro genitor e com seus familiares; pode guardar sentimentos negativos, exagerados ou não verdadeiros com relação ao outro genitor, inclusive apresentando distúrbios de natureza psicológica, tais como depressão, falta de atenção, ansiedade, pânico; usar de drogas e álcool;

apresentar baixa autoestima; e inclusive encontrar dificuldades de relacionamento com pessoas a sua volta, prejudicando o regular desenvolvimento e comprometendo sua fase adulta (CORRÊA, 2015).

O filho, seja criança ou adolescente, pode acabar entrando num jogo psicológico, vivendo uma contradição de sentimentos. Muitas vezes começa a realmente acreditar no que ouve e a contribuir com o genitor alienante. Isto acontece por que as habilidades e experiências perceptivas das crianças ainda são limitadas e

grandemente influenciadas pela percepção dos adultos ao redor, principalmente aqueles que cuidam e ficam a maior parte do tempo com eles.

Para Márcia Montezuma (2019), as crianças formam sua personalidade devido a três fatores: carga genética, ambiente e ela mesma. A maior carga refere-se à carga do ambiente, pois é nele que podem refere-ser concretizados, visualizados os principais atos e as maneiras com que as pessoas agem em determinadas situações. Assim, tudo aquilo que os pais ensinaram, mesmo que de forma não intencional, vai agregando à personalidade do filho.

Com a situação tensa e de conflito da família é que geralmente ocorrem os atos de alienação parental, pois, em uma separação mal resolvida, conflituosa, em que não se consegue distinguir de maneira clara a relação do casal com a relação com os filhos, o genitor alienador visa desmoralizar a imagem do outro genitor diante da criança, fazendo com que esta, de alguma forma, venha a desprezar o genitor alienado, para afastar o convívio entre ambos. Nesses casos, a criança é utilizada pelos cônjuges para chantagear o outro como uma arma, a fim de atingir o cônjuge alienado (MONTEZUMA, 2019, p. 124).

O menor alienado também apresenta condutas típicas. A criança denigre o genitor alvo com linguajar impróprio, utilizando-se de argumentos do genitor alienante e não dela própria. O infante declara que ele mesmo teve a ideia de denegrir o genitor alvo, ocorre o fenômeno do “pensador independente” e acontece quando a criança garante que ninguém disso a ela, nega que alguém tenha induzido a se manifestar daquela forma, afirmando que seus sentimentos e verbalizações são únicos e autênticos (SCHAEFER, 2014).

Montezuma (2019) afirma que ainda que alguns pais acreditem que seus exemplos e atitudes não afetariam a vida dos filhos, estudos da área de psicologia comprovaram que a maioria dos filhos seguem e imitam a atitude dos seus pais por eles serem a principal referencia que elas possuem, desde o início das suas vidas.

Observa-se que existe um pacto de lealdade entre o filho e o genitor alienante em função da dependência emocional, demonstrando medo em desagradar ou opor-se a ele. Os danos causados à criança em decorrência da alienação, muitas vezes são irreversíveis, afetando de maneira direta na sua formação.

Gardner lista oito sintomas principais que são definidos e classificados em graduação nos níveis leve, moderado e severo, sendo: manifestações sintomáticas primárias, campanha de desmoralização, justificativas fúteis, fracas ou absurdas para a depreciação, ausência de ambivalência, fenômeno de independência, apoio

deliberado ao alienador no conflito parental, ausência de culpa, generalização à família do alienado (FBV, 2015, p. 97).

As consequências podem ser devastadoras, podendo afastar a criança do núcleo familiar do genitor alvo fazendo com que perdas afetivas significativas ocorrem e referencias importantes na construção da personalidade sejam banidas.

Márcia Montezuma (IDBFAM, 2019, p. 133) ainda cita outros sintomas que os infantes podem apresentar, tais como: doenças psicossomáticas, ansiedade, depressão, nervosismo e, principalmente, a possibilidade de tornar-se uma pessoa agressiva, possuindo grandes chances de envolvimento com drogas, entorpecentes e álcool.

Por fim, temos o alienado, também definido como genitor alvo, o qual não tem a guarda da criança ou adolescente. É quem sofre os ataques do genitor alienador, passando pelo repúdio do filho.

Os quesitos para reconhecer a existência da Alienação Parental são demonstrados no decorrer da Lei 12.318 de 2010, contudo, ainda há uma insegurança e um freio, por parte dos juízes, de aplicar a lei de maneira rigorosa, no que tange ao tema abordado. No entanto, não há ninguém melhor que os próprios pais para resolverem este conflito, pois eles podem perceber o grande impacto que o conflito acarreta na vida da criança e do adolescente.

O Poder Judiciário muitas vezes fica engessado pois não pode agir sozinho.

Precisa que seja de fato identificada a prática dos atos de Alienação Parental, isso por meio de exames de corpo de delito – quando visualizadas agressões; entrevistas com psicólogos – tanto as crianças como os pais; e uma análise rigorosa da convivência familiar e da realidade do seu cotidiano.

Contudo, quando identificados os quesitos elencados acima, a intervenção do Judiciário deve ser de maneira imediata, para que o papel do Estado, na tutela das crianças e dos adolescentes possa ser efetivamente concretizado, visando evitar o perpetuamento de danos à integridade psicológica dos infantes.