4. O SEGUNDO PNE
4.2. Planejamento educacional nos primeiros anos da nova república: o Programa
Entre os anos de 1986 a 1989 esteve em vigência o I Plano Nacional de
Desenvolvimento da Nova República379, que incluía o Programa Educação Para
Todos, definido por ele mesmo como “um conjunto de ações prioritárias do governo,
voltadas para a universalização do ingresso e a permanência da criança de 7 a 14
anos na escola de 1º grau”380. Esse programa foi seguido por alguns outros: o de
melhoria do ensino de 2º grau, o de ensino supletivo, o de educação especial, o da nova universidade, o do desporto e da cidadania, e o de novas tecnologias
educacionais, além do programa de descentralização e participação.381
O Programa Educação para todos tinha boas metas, mas sofreu de um
problema de gestão comum ao planejamento da época: privilegiou uma estratégia de
378 SAVIANI, Dermeval. História das ideias pedagógicas, p.429-430.
379 Cf. BRASIL, Lei n.7.486, de 6 de junho de 1986. Aprova as diretrizes do Primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) da Nova República, para o período de 1886 a 1989, e dá outras providências. Diário Oficial da União – 12 jun. 1986, p.8473. Disponível em: ˂http://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1980-1987/lei-7486-6-junho-1986-368175-publicacaooriginal-1-pl.html˃. Acesso em 17 nov. 2017.
380 BRASIL, Lei n.7.486, de 6 de junho de 1986. Acesso em 17 nov. 2017. 381 BRASIL, Lei n.7.486, de 6 de junho de 1986. Acesso em 17 nov. 2017.
repasse de recursos aos Estados e Municípios, com objetivos clientelistas, o que fez com que suas metas fossem quase que completamente desconsideradas. No início da Nova República:
...de uma fase tecnocrática de formulação de Planos passou-se à pulverização dos recursos travestida de descentralização. Neste esquema, em nome da municipalização foram estabelecidas relações diretas entre a União e os Municípios, desconsiderando a política nacional e passando por sobre a Unidade federada, com seus planos e prioridades específicas. O MEC, de instância articuladora da política nacional de educação, transformou-se em mera agência repassadora de recursos, a partir da análise de projetos, através de critérios nem sempre transparentes e defensáveis. Os recursos para as Unidades federadas e Entidades supervisionadas passaram a ser repassados da mesma forma; o “bolo” é dividido segundo índices que as classificam a partir de alguns critérios, independentemente da consideração de seus planos, programas, necessidades, de sua capacidade de investimento, dos retornos prováveis e da articulação
com a política nacional.382
Uma espécie de releitura do Programa Educação para todos foi feita pelo MEC
no ano de 1993. Tendo como alvo a maior participação da sociedade civil, o Ministério lançou:
...uma agenda de propostas estratégicas de desenvolvimento educacional a debate, num espaço social ampliado, que se iniciou com a Semana Nacional de Educação (junho de 1993) para Todos com as administrações estaduais e locais e com várias entidades representativas da sociedade civil e que se espraiou pelos mais
diversos segmentos desta última nos meses seguintes.383
A partir desse debate, o MEC editou o Plano Decenal de Educação para todos,
que se distinguia dos planos anteriores por tratar exclusivamente da educação fundamental, ao invés da educação como um todo. A importância deste Plano se
382 KUENZER, Acacia Zeneida. Política educacional e planejamento no Brasil: os descaminhos da transição. CALAZANS, Maria Julieta Costa; GARCIA, Walter; KUENZER, Acacia Zeneida.
Planejamento e educação no Brasil. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1990, p.57 (Coleção Polêmicas do nosso tempo, v.37).
383 GUSSO, Divonzir Arthur. Plano Decenal de Educação para todos: para uma nova matriz de políticas públicas de educação. p.13. Segundo o texto do Plano publicado pelo MEC a semana teria acontecido não em junho, mas em maio de 1993, entre os dias 10 a 14 (Cf. BRASIL [MEC] Plano Decenal de Educação para Todos, 1993-2003, Brasília: Secretaria de Educação Fundamental do MEC, 1994. p.85).
encontra no fato de que ele firmou “solenes compromissos pautados em metas
consensuais dentro de uma agenda mínima”384. Como vários outros, porém, ele não
teve grande eficácia pragmática. A razão, é que, se o Programa Educação para Todos
tinha compromissos políticos internos que funcionavam como empecilho para sua
efetiva implementação, o Plano Decenal Educação para Todos estava
demasiadamente preso a acordos e interesses internacionais, e menos afinado com as reais condições e necessidades da educação nacional. De acordo com Saviani, o Plano Decenal teria “tomado como referência a ‘Declaração Mundial sobre Educação para Todos’ proclamada na reunião realizada de 5 a 9 de março de 1990 em Jomtien,
na Tailândia”385 e teria sido:
“...ao que parece, formulado mais em conformidade com o objetivo pragmático de atender a condições internacionais de obtenção de financiamento para a educação, em especial aquele de algum modo
ligado ao Banco Mundial”.386
O Plano Decenal de Educação para todos seria muito importante para a
elaboração do PNE2001. Primeiramente, por que sua forma de elaboração, um pouco mais democrática, antecipava, em certa medida, a forma como o PNE2001 seria, posteriormente, elaborado. E depois, por que, ao deflagrar o processo de elaboração
do PNE2001, no ano de 1997, o Ministério da Educação apresentaria o Plano Decenal
de Educação como subsídio ou documento base. É o que mostra o documento
intitulado Subsídios para a elaboração do Plano Nacional de Educação,assinado pelo
Ministro Paulo Renato Souza:
No que diz respeito à educação infantil e ao ensino fundamental, já existe um documento básico, resultado de um longo e amplo processo de consultas: trata-se do Plano Decenal de Educação para Todos, o qual decorreu da reunião realizada pela UNESCO em Jomtien, Tailândia, em 1993, e corresponde a compromissos internacionais firmados pelo Brasil. Além do mais, resultou de amplo consenso nacional. Para estes níveis de ensino, portanto, trata-se apenas de
atualizar o referido Plano.387
384 CURY, Carlos Roberto Jamil. O plano nacional de educação: duas formulações. p.168.
385 SAVIANI, Dermeval. Sistemas de ensino e planos de educação: O âmbito dos municípios.
Educação e Sociedade, Campinas/Unicamp: ano XX, n.69, dez/1999, p.129. 386 Ibid., p.129.
387 BRASIL. Subsídios para a elaboração do Plano Nacional de Educação - Região Sudeste.
Se o Plano Decenal de Educação para todos elaborado em 1993 serviu como subsidio para o PNE2001, sua fundamentação legal foi encontrada em dois outros documentos: a Constituição Federal de 1988, e a LDB de 1996. A relação entre esses documentos e a ideia de um PNE é o que consideraremos a seguir.