Seguindo a proposta de expandir a análise do plano discursivo para gêneros com outras tipologias textuais, Haido (1996) analisou a codificação linguística de entrevistas jornalísticas através do confronto entre as versões oral e editada, descrevendo os cortes recorrentes no processo de edição influenciados por fatores de ordem pragmático-discursiva. Os resultados obtidos pela pesquisa apontam que a distinção figura/fundo em textos
argumentativos se dá considerando que a “figura é o plano onde as ideias básicas são defendidas e o fundo é o elemento integrador dessas ideias aos argumentos que as sustentam” (HAIDO, 1996, p. 98).
Na pesquisa empreendida, Haido (1996, p. 98) postula que na figura estão “as cláusulas que codificam as idéias básicas defendidas pelo entrevistado, a partir do tópico da pergunta e que referenciam iconicamente as exigências propostas por estas”, enquanto o fundo refere-se às “cláusulas que servem de apoio às ideias defendidas em figura”. Cumpre acrescentar que tal estudo foi desenvolvido considerando as especificidades do gênero investigado, qual seja, entrevista jornalística. Nesse ínterim, a autora propõe um continuum para os tipos de fundo visando a sugerir uma tendência facilitadora de cortes (nas transcrições das entrevistas).
De acordo com a pesquisadora (1996, p. 99), no fundo de justificativa estão codificadas orações que introduzem uma justificativa para a ideia defendida, servindo de suporte imediato para esta. As orações desse tipo de fundo são marcadas formalmente por operadores argumentativos como porque, por isso etc. Como exemplo desse tipo de fundo, a autora apresenta o seguinte fragmento: “porque é … as pessoas precisam sentir que o país avança … que há progressos … que há problema que estão na pauta já há bastante tempo que vão sendo resolvidos…” (HAIDO, 1996, p. 99)13.
Para a mesma autora, no fundo de exemplificação ou testemunho, estão as cláusulas que servem de suporte intermediário à ideia defendida em figura e constituem-se de dados armazenados pelo falante para reforçar a defesa de suas ideias. Esse tipo de fundo pode emergir ou não e funciona como um reforço marcado por ilustrações presentes na argumentação. É marcado “formalmente ou por ilustrações inseridas na argumentação através da locução ‘por exemplo’ ou por inserção de julgamentos de outras pessoas como prova em favor da idéia defendida” (HAIDO, 1996, p. 99). Exemplo desse fundo são os fragmentos seguintes, que apresentam, respectivamente, uma ilustração e um julgamento de outrem: a) “você pensa por exemplo o sujeito tinha um jornal com um fusca com preço em URV se tem um sujeito que tem um fusca é muito mais fácil pra ele colocar em URV ou colocar em cruzeiro todos os dias com a lei faculta”; b) “como aliás foi dito na época pelo presidente Sarney pelo ministro Maílson da Nóbrega e foi repetido sucessivamente dali por diante” (HAIDO, 1996, p. 99-100).
13 Por se tratar de revisão bibliográfica, os dados apresentados correspondem aos encontrados na fonte, embora entenda-se que os trechos são curtos e, em certa medida, insuficientes para que o leitor tenha clareza do tipo de fundo ilustrado. É possível, no entanto, verificar o trabalho na íntegra acessando https://pantheon.ufrj.br/handle/11422/1654.
O fundo de reiteração, por sua vez, visa à introdução de esclarecimentos acerca do que já foi dito antes na tentativa de esclarecer, ratificar ou desenvolver melhor uma ideia já mencionada no texto. Também é marcado formalmente por operadores argumentativos como quer dizer, ou seja, isto é etc. Exemplo desse tipo de fundo é “ou seja … tá certo … a gente pode até não ter conseguido chegar no máximo dentro da ( ) social a ponto de ter a roda perfeita mas parte da roda perfeita … mas parte da roda já estava inventada a gente já tinha quebrado a cabeça … já tinha aprendido como trabalhar com os meninos né … então tudo isso é desperdiçado quer dizer …”
O fundo de redundância, por outro lado, apresenta cláusulas em que o falante apenas repete o que já foi dito quase que literalmente. Por exemplo, “mas eles eram simplesmente agressivos de acordo com o que eles recebiam de resposta social né a agressividade deles era exatamente proporcional a agressividade que eles recebem socialmente desde que nasceram” (HAIDO, 1996, p. 100). De modo geral, o fundo de redundância atua como um reforço, repetindo a informação já enunciada. Possivelmente, essa atitude em relação ao próprio enunciado objetiva tornar o discurso mais claro, expressivo, em detrimento de sua concisão.
No fundo de digressão14, estão as ideias mais distantes da ideia contida em figura e,
consequentemente, daquilo de que se fala. Exemplos desse fundo estão transcritos a seguir: a) “isso já vem sendo denunciado isso já vem sendo denunciado… em 90 nós fizemos um seminário chamado Rio cidade sequestrada… o JB deu até em primeira página… esse seminário era justamente para dizer isso…”; b) “foi um seminário que para mim foi muito rico… colocando empresários e intelectuais na mesma mesa… então eram debates … que eram pessoas opostas … opostas não mas com linhas de caminhos diferentes e colocamos nas mesas para discutir essa questão…” (HAIDO, 1996, p. 100-101). Nesses exemplos, os dois fundos representam digressão em relação à figura15.
No fundo de contextualização, estão as orações que contextualizam espacial e temporalmente o conteúdo enunciado, a exemplo de a) “que tá acontecendo agora…”; b) “hoje você pode até dizer que eles…”. Já no fundo de modalização encontram-se as orações em que o autor do texto indica, por meio do uso de elementos linguísticos, seu posicionamento em relação ao enunciado produzido. Exemplos desse fundo são a) “digamos
14 Haido (1996) não aponta marcas textuais na delimitação dos fundos de digressão, contextualização e modalização, de modo que a classificação desses fundos tem caráter mais semântico que formal. Uma vez que este estudo, para o tratamento dos tipos de fundo, baseia-se nos pressupostos advogados pela autora, não mencionamos, aqui, tais marcas.
15 No texto original do qual foram extraídas essas porções (cf. HAIDO, 1996), o tema discutido era “Menor de rua e a matança na Candelária”. Como figura, tem-se “que está havendo uma guerra civil, não declarada e já há muito tempo”.
assim…”; b) “o que eu digo é o seguinte… é óbvio… a explicação natural quando você tem uma inflação dessa ordem … o problema é da moeda…” (HAIDO, 1996, p. 101).
Conforme propõe Haido (1996), a escala de integração dos fundos à figura poderia ser expressa graficamente pela figura abaixo em que (1) é o fundo mais integrado à figura e (7) é o menos integrado, estando todos ligados, de alguma forma, ao que está expresso em figura.
Figura 2 – Integração dos fundos à figura
Fonte: adaptado de Haido (1996).
A respeito da distinção figura/fundo, ainda, cumpre acrescentar que, como já mencionado, em textos argumentativos, não é a função discursivo-comunicativa de marcar os fatos sequenciais ou centrais de um evento que dão conta da divisão figura/fundo. Essa noção somente se aplica aos textos narrativos nos quais a figura se associa à sequencialidade da ação descrita. Nos textos argumentativos, por outro lado, há predomínio de uma sequencialidade lógica conduzida pelas relações argumentativas construídas pelo falante (HAIDO, 1996).
Em virtude do caráter inovador dessa proposta, Araújo e Freitag (2012) analisaram o funcionamento do plano discursivo fundo não só em textos narrativos, mas também em textos opinativos com foco na categoria aspecto. Consideraram 32 produções textuais do Banco de Dados de Escrita – textos opinativos e narrativos da Universidade Federal de Sergipe. Os resultados demonstraram que a distinção entre figura e fundo no texto opinativo não é influenciada pelo traço aspectual e que não é possível estabelecer gradualidade nos tipos de fundo, como ocorre na narrativa.
Mais recentemente, na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, a partir de uma abordagem mais voltada ao ensino, Silva (2016) analisou produções textuais de alunos do 9º ano do ensino fundamental a partir da perspectiva dos planos figura/fundo em vinte textos, sendo dez do gênero carta argumentativa e dez do gênero crônica. Os resultados da pesquisa evidenciaram que a disposição das informações enunciadas nos textos, em alguns casos, está articulada de maneira precária, o que ocasiona prejuízos ao plano discursivo. O estudo constatou, ainda, na argumentação, incidências de muito relato, o que demonstra objeção em argumentar os temas propostos (SILVA, 2016).
FIGURA (1) Fundo de justificativa (2) Fundo de exemplificação ou testemunho (3) Fundo de
Diante da escassez de trabalhos que contemplam a categoria Plano Discursivo para textos argumentativos no viés teórico-metodológico aqui utilizado, esta pesquisa se inscreve nesse escopo na tentativa de responder às questões inicialmente propostas, além de sugerir um refinamento teórico que auxilie, nessa direção, investigações futuras. Além disso, este estudo busca apresentar uma proposta metodologicamente distinta das abordagens já realizadas no tocante aos planos figura e fundo, principalmente no que diz respeito à captura de um continuum de figuricidade/fundidade.
3 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS
Neste capítulo, apresentam-se dados obtidos a partir da investigação empreendida. De modo geral, inicia-se com a explanação de algumas análises realizadas no corpus, com foco, principalmente, nos pontos de vista alinhados às categorias figura e fundo. Na sequência, esta seção se divide em quatro subseções, com vistas a elucidar os resultados encontrados face aos objetivos propostos. Os textos analisados a seguir são, respectivamente, de Veja e de Carta Capital e correspondem aos de números 5 e 16.