3 EDUCAÇÃO SEXUAL NAS ESCOLAS E PROJETO SAÚDE E
3.2 A educação sexual e o SPE entre as malhas do biopoder
3.2.1 As faces do biopoder e a educação da sexualidade no projeto Saúde e
3.2.1.1 O poder disciplinar no controle dos corpos: aproximações com o SPE
De acordo com Foucault (2010a), o corpo sempre foi um objeto dos exercícios de poder ao longo da história, mas há novidades nos esquemas de docilidade (docilidade enquanto algo que une o corpo analisável ao manipulável) dos séculos XVII e XVIII. A escala do controle modifica-se, uma vez que o corpo não é cuidado em massa, mas sim de forma infinitesimal, detalhada. O objeto do controle não são os comportamentos, mas sim as forças do corpo, enquanto a modalidade do controle caracteriza-se por uma coerção constante.). “Esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade, são o que podemos chamar as ‘disciplinas’.” (FOUCAULT, 2010a, p.133).
É preciso pensar até que ponto a educação sexual proposta pelo SPE põe a funcionar mecanismos característicos do poder disciplinar. Certamente pode-se dizer que a educação sexual proposta pelo projeto, por mais que não reprima a sexualidade no sentido de
proibir a prática sexual, seja ela qual for (heterossexual, homossexual, oral, anal, vaginal, masturbação, etc.), busca docilizar os corpos e os sujeitos, além de torná-los úteis.
Docilização da sexualidade, pois, por mais que se possa praticar sexo, este deve ser feito de uma determinada forma: a forma saudável. “Todos devem estar comprometidos e batalhando juntos para se construir uma cultura de sexualidade saudável, livre e protegida.” (BRASIL, 2010e, p. 19). Transformação da sexualidade em algo útil, pois o sexo não é um empecilho social, mas a gravidez precoce, as DST e a Aids são inúteis à sociedade. “Criado em 2003, o SPE visa reduzir a vulnerabilidade dos adolescentes e jovens às doenças sexualmente transmissíveis, à infecção pelo HIV e à gravidez [...]” (BRASIL, 2010a, p. 67). Talvez seja possível afirmar que se permite que o sexo aconteça, mas ele é inserido em mecanismos de docilidade e utilidade.
Ainda sobre a disciplina, esta aumenta a aptidão do corpo e estabelece uma dominação. Ela é uma anatomia política, que deve ser entendida como uma multiplicidade de processos que possui diversas origens, localizações e intensidades, ou seja, ela funciona através de uma diversidade de técnicas próprias. Foucault (2010a) identifica algumas das técnicas disciplinares que se generalizam mais facilmente.
Uma delas é a arte da distribuição, que consiste na distribuição de indivíduos no espaço através de alguns mecanismos: o uso de cercas nos diversos espaços; o quadriculamento, onde se determina um lugar para cada indivíduo e um indivíduo para cada lugar; as localizações funcionais, onde se atribui utilidades para todos os espaços; a fila, onde se faz a organização do espaço serial.
Outra técnica disciplinar é o controle da atividade, que também funciona através de algumas outras técnicas: o horário, onde se divide rigidamente o tempo das atividades; a elaboração temporal do ato, onde se estabelecem as etapas e as formas de realizar cada ato; donde o corpo e o gesto postos em correlação, que significa que a boa organização do corpo leva ao bom gesto; a articulação corpo-objeto, que consiste no estabelecimento das relações que o corpo deve engajar com o objeto que manipula; a utilização exaustiva, onde se intensifica cada fração do tempo.
Nos materiais do projeto Saúde e Prevenção nas Escolas, é possível perceber que as oficinas a serem realizadas com os alunos parecem colocar em funcionamento certo controle da atividade, uma vez que apresenta algumas características desta técnica disciplinar, como o controle do horário e a elaboração temporal do ato. “O curso está estruturado em seqüências de oficinas que podem ser agrupadas em 16 blocos de quatro horas de duração,
prevendo-se um intervalo de 20 minutos em cada período.” (BRASIL, 2010a, p.10), “Cada oficina descreve, minuciosamente, o passo a passo da proposta [...]” (BRASIL, 2010b, p. 11).
Foucault (2010a) também cita a organização das gênesis, técnica disciplinar que capitaliza o tempo através de quatro processos: decompondo o tempo em segmentos distintos com objetivos próprios, organizando as sequências a partir de um esquema analítico, estabelecendo um marco de finalização desses segmentos temporais e estabelecendo séries temporais.
Foucault (2010a) menciona ainda a técnica de composição das forças, através da qual a disciplina combina peças individuais, que juntas compõem um aparelho eficiente. Isso se traduz da seguinte maneira: o que define um corpo é o lugar de elemento que ele ocupa no conjunto, assim como a sua função, pois o corpo é uma peça de uma máquina; as diversas séries de tempo que a disciplina combina para formar um tempo composto são também peças de uma máquina; e toda atividade do individuo é provocada imediatamente por uma ordem clara e breve, sem necessidade de explicações.
Em resumo, pode-se dizer que a disciplina produz, a partir dos corpos que controla, quatro tipos de individualidade, ou antes uma individualidade dotada de quatro características: é celular (pelo jogo de repartição espacial), é orgânica (pala codificação das atividades), é genética (pela acumulação do tempo), é combinatória (pela composição das forças). (FOUCAULT, 2010a, p. 161).
Conforme Foucault (2010a), a função primordial do poder disciplinar é o adestramento. Esse tipo de poder não busca reprimir as forças, mas sim segregá-las, classificá-las e torná-las úteis. Os indivíduos são os seus objetos e instrumentos, concomitantemente. Ele possui procedimentos silenciosos, mas constantes, que invadem os grandes aparelhos de Estado e as outras forças maiores. Segundo Foucault (2010a), tais procedimentos são: o olhar hierárquico, a sanção normalizadora e o exame.
A vigilância hierárquica funciona como o dispositivo da disciplina que permite que as técnicas de visibilidade levem a efeitos de poder, ao mesmo tempo em que tornam visíveis os indivíduos alvos dessas técnicas. Na época Clássica, a arquitetura passa a funcionar de modo a permitir a visibilidade e controle dos indivíduos que se encontram no interior dos prédios. O ideal para um aparelho disciplinar é que haja um ponto no centro de tudo, de onde se possa ver tudo sem ser visto. Essa maquinaria de controle que as instituições disciplinares produzem torna-se um microscópio dos comportamentos, objetivando-os e quadriculando-os.
O procedimento da sanção normalizadora implica o fato de que todo sistema disciplinar possui um mecanismo penal próprio, onde é estabelecida uma “infrapenalidade”. Assim, na oficina, na escola e no exército, por exemplo, há micropenalidades do tempo, da atividade, da maneira de ser, dos discursos, do corpo, da sexualidade, através de punições sutis. A penalidade disciplinar se ocupa dos desvios à regra (regra esta que é sempre, ao mesmo tempo, artificial, pois é imposta por um regulamento, e natural, pois é observável). A punição disciplinar busca corrigir através do exercício e, neste processo de correção, opera-se um sistema duplo: gratificação-sanção. Este sistema permite a classificação dos comportamentos em bons e maus, a quantificação dos bons e maus desempenhos e a hierarquização dos indivíduos a partir desse cálculo.
Há ainda o procedimento do exame, que vigia, como o olhar hierárquico, e normaliza, como a sanção normalizadora. Mas a relação entre saber e poder é particularmente visível no exame, pois nele as relações de poder permitem a constituição de saber. O investimento político se faz no nível daquilo que torna possível um saber. O exame possui um mecanismo que conecta uma formação de saber a um exercício de poder. Foucault (2010a) dá o exemplo do exame nas escolas, que era contínuo e permitia comparações e sanção, enquanto era uma troca de saberes, onde o mestre transmitia o seu saber e obtia um saber sobre seus alunos.
Devido ao exame, há uma inversão na visibilidade do exercício de poder. Tradicionalmente, o poder é manifesto e os indivíduos são esquecidos. Mas, no poder disciplinar, o poder é que se torna velado e os indivíduos são sempre vistos. “E o exame é a técnica pela qual o poder, ao invés de emitir os sinais de seu poderio, ao invés de impor sua marca a seus súditos, capta-os num mecanismo de objetivação.” (FOUCAULT, 2010a, p. 179).
Talvez seja possível pensar que no SPE pretende-se realizar certo exame dos alunos, tanto em relação aos seus conhecimentos sobre os assuntos relacionados à sexualidade, quanto em relação às suas vivências. Isto é posto em marcha pelas oficinas do SPE e pelos questionários, onde os alunos têm os seus conhecimentos sobre prevenção, saúde sexual, vulnerabilidade, entre outros assuntos, testados e também aprendem novas informações. Assim, talvez seja possível pensar que está presente algo da ordem de um exame disciplinar no SPE, pois, ao mesmo tempo em que se vigia a sexualidade dos alunos ao questionar sobre suas sexualidades, se normaliza, ao indicar informações sobre como a sexualidade deve ser vivida.
Além disso, de acordo com Foucault (2010a), o exame faz com que sejam sempre produzidos documentos sobre os indivíduos que estão sempre sendo vistos. A organização desses documentos permite fixar normas, categorias, médias. Esse registro documental permite a criação de um sistema comparativo entre indivíduos e grupos. No SPE também há uma produção de documentos pela parte dos facilitadores das ações de educação sexual.
É importante que os facilitadores e os demais participantes do grupo mantenham registros sistemáticos de todas as etapas do trabalho, com vistas a qualificar os processos de avaliação do curso e das aprendizagens. As anotações poderão ser úteis, igualmente, para o planejamento e realização de ações pedagógicas futuras. (BRASIL, 2006b, p. 11).
A formação da sociedade disciplinar na Era Clássica levou à ocorrência de alguns processos, descritos por Foucault (2010a). Houve a inversão funcional das disciplinas, pois antes a função consistia em reprimir os perigos das aglomerações e depois passa a consistir em aumentar a utilidade dos indivíduos. Houve também a ramificação dos mecanismos disciplinares, pois estes não ficaram mais restritos apenas às instituições, passando a circular na sociedade. Houve ainda a estatização dos mecanismos de disciplina, pois a polícia passou a utilizar mecanismos disciplinares no século XVIII, o que levou as disciplinas a alcançar as dimensões do Estado.
Foucault (1999b) afirma então que essa tecnologia disciplinar, própria dos séculos XVII e XVIII, já na segunda metade do século XVIII começa a ser integrada, modificada, embutida e utilizada por uma nova tecnologia de poder: a biopolítica.