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O PODER LOCAL NÃO É O PODER DO LOCAL

Descontextualização, diferenciação de significados espacio-temporais e particularismos nas relações sociais constituem as dimensões institucionais da modernidade que recompõem, num local “novo”, o velho local conhecido, que procura preservar um modo de vida, um património, uma paisagem ou uma tradição. A expressão mais forte desta recomposição, ao mesmo tempo cultural, política, económica e social, manifesta-se na descoincidência do local municipal, e do poder governativo que lhe está associado, face a um “outro” local onde imperam aquelas dimensões.

Durante várias décadas, o municipalismo português foi “positivista”: por um lado, fazia corresponder a gestão e a acção política autárquicas com a satisfação imediata das necessidades de base e interesses das populações e, por outro lado, aceitava o equilíbrio entre a obediência a regras social e politicamente legitimadas através dos resultados eleitorais e dos mecanismos legais de acção e a procura de afirmação autónoma do seu poder face ao centralismo do Estado. Dir-se-ia que o poder local, das Câmaras Municipais, coincidia com o poder do local.

Nos últimos anos, sobretudo a partir da década de 90, aquele equilíbrio foi-se desfazendo, obrigando à ultrapassagem do modelo positivista. As razões desta mudança têm a ver com a globalização das dimensões institucionais da modernidade a que se referia Giddens.

De facto, a reestruturação das relações económicas locais, a renovação de processos produtivos e do tecido industrial, a multidimensionalidade das trocas comerciais, a volatilidade dos mercados de produção de bens e serviços, a crise e declínio de actividades económicas tradicionais e as clivagens entre os diferentes grupos económicos, descontextualizaram a matriz onde se inscreviam as estratégias autárquicas. Como consequência, assiste-se à transferência de poder das antigas elites económicas (pequenos proprietários e empresariado industrial familiar) em benefício de novos protagonistas surgidos nas áreas de elevado potencial económico, emergem novas formas de poder ligadas à posse e utilização de conhecimentos e tecnologias de ponta, aumenta o peso político e social dos quadros técnicos, médios e superiores, e dos meios universitários. À perda de importância económica, administrativa e demográfica de alguns municípios corresponde hoje o crescimento dessa importância noutros.

Também o crescimento de uma distribuição industrial difusa, definindo novas áreas urbanas e novos factores de desenvolvimento que escapam à coordenação autárquica, contribuiu para aquela transferência de poder (REIS, 1992).

Da análise que Mozzicafreddo (1991) e outros realizaram sobre a evolução dos modelos de gestão e de legitimidade do sistema político local, pode-se concluir que a acção política municipal, em particular dos presidentes das câmaras municipais, é hoje caracterizada, sobretudo, por um défice de poder associado aos vários circunstancialismos que, interna e externamente, ditam uma diminuição da capacidade dos municípios tomarem decisões congruentes e planeadas.

Por um lado, enquanto que anteriormente havia, ao nível de cada município, uma correspondência biunívoca entre a vida económica e social e a vida política das comunidades locais, ambas com obrigações de respeito mútuo acerca de direitos e deveres, agora essa correspondência quase não existe, sobretudo por efeito do modo como as comunidades e os indivíduos se posicionam, ou são posicionados, relativamente à economia global e ao desenvolvimento local: “ (...) As diversas formas de legitimidade que estão

presentes no sistema político local, não têm todas o mesmo peso e significado. Assim, se a componente carismático-pessoal está frequentemente presente, tanto nas diversas fases da política municipal como inscritas nas outras formas de reconhecimento, a componente participativa pelo contrário, mesmo nos aspectos mais neutros politicamente – consulta informação, etc. – está na realidade, o mais das vezes, ausente. E isto não apenas nas orientações e acções dos executivos, mas também por parte dos munícipes, na sua peculiar forma de relacionamento com a Câmara – exprimindo interesses sobretudo limitados aos seus âmbitos específicos (...) ” (MOZZICAFREDDO, 1993: 93).

Ou seja, no contexto da hegemonia do económico sobre o político, a democracia tende a identificar-se já não com os direitos de participação e representação de cada um nas decisões sobre o bem comum, em particular sobre o bem comum local, mas com a “livre” escolha do “bem individual” e com as respectivas práticas de consumo. Ao poder local, ou ao poder das câmaras municipais e das juntas de freguesia, exercido em nome da vontade colectiva das comunidades locais, contrapõe-se o poder do local exercido por, e em

nome de, lideranças e segmentos variáveis da nova comunidade local e das suas elites.

Assim se poderá compreender a tendencial substituição dos serviços camarários polivalentes pelos serviços especializados particulares e pelo mercado de iniciativa privada.

Por outro lado, como já referimos no ponto anterior, os espaços de poder deixados vazios, quer pelo retraimento do Estado central, quer pelos governos locais, são gradualmente ocupados pelos actores emergentes: desde a concessão de facilidades legais e financeiras para a instalação de empresas, até à subsidiação directa para fixação de novas populações, passando pela generalização da privatização de bens e serviços de interesse público, muitos são os exemplos que podiam ser dados acerca da desesperada luta contra a perda de influência directa das autarquias no desenvolvimento local6. E esta intervenção é tanto mais enfraquecida quanto maior for a distância entre os eleitos locais e os seus eleitores, entre os projectos municipais e os projectos dos grupos de pressão, entre a capacidade financeira das câmaras e a capacidade financeira das empresas e instituições que se instalam nos seus territórios.

Tudo se passa como se as estruturas camarárias, submetidas às pressões contraditórias da lógica das necessidades e da lógica da negociação, oscilassem entre a busca duma legitimidade interventiva, que lhes é periodicamente conferida pelo voto, para realizar o que prometeram, e a defesa de uma posição “recuada”, de mero regulador e mediador das negociações entre si e os actores privados ou entre estes e o Estado7.

Em suma, poder-se-á considerar que a modernidade, ao conjugar a perda de influência e de poder decisório com a substituição das lideranças e das lógicas hegemónicas, impôs às autarquias a descoincidência entre o seu

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Nos primeiros anos do novo milénio, generalizaram-se as mobilizações locais, das Câmaras e dos munícipes, em torno de encerramento de serviços públicos (escolas do 1º ciclo, serviços hospitalares, de apoio à maternidade, etc.), mais como forma de resistência à fuga de quadros e ao despovoamento acentuado do que como exigência de um outro tipo de desenvolvimento local.

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Um exemplo muito significativo desta oscilação pendular na intervenção autárquica é o processo de negociação de um grande grupo económico espanhol com as Câmaras Municipais do Porto e de V. N. de Gaia sobre a localização de uma grande área comercial. Para além disso, o processo foi também revelador das descoincidências, quer entre os “bens comuns” de duas concentrações populacionais urbanisticamente ligadas, quer entre os “poderes dos locais” e os “poderes locais” de cada uma delas.

poder e o poder do local que querem continuar a administrar. Tal conclusão terá reflexos significativos ao nível educativo, como veremos nos pontos seguintes.

CAPÍTULO II

O «LOCAL» E A EDUCAÇÃO:

UMA