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Política, ambiente e comunidade: interfaces entre mundialização e Psicologia Social

No documento Estado, Ambiente e Movimentos Sociais (páginas 105-129)

Marco Antonio Sampaio Malagodi Luis Guilherme Galeão-Silva

Gustavo Martineli Massola

Introdução

As questões ambientais tornaram-se, nos últimos 30 anos, centrais para a compreensão da dinâmica social global. A análise dos fenômenos socioambientais não pode prescindir, porém, de uma rigorosa compre- ensão dos processos psicossociais que se relacionam, direta ou indireta- mente, com tais fenômenos. Em sua acepção mais ampla, essas questões implicam uma crise civilizatória de amplas proporções, cujas consequ- ências espraiam-se para um questionamento dos próprios fundamentos da civilização ocidental, pautados por uma cisão entre natureza e cultura que está posta como problema fundamental por toda a tradição filosófica da antiguidade (Guba, 1990). A concepção da natureza como um outro frente à cultura e o esforço milenar para dominá-la tornam-se um grave problema quando se demonstra, pelo uso dos próprios meios técnicos de- senvolvidos para realizá-lo, que tal esforço poderia redundar, caso fosse bem-sucedido, na aniquilação da própria cultura. Neste sentido, a crise ambiental é maior que o esgotamento dos recursos naturais disponíveis para a reprodução da existência humana (Gerhardt & Almeida, 2005).

A eleição da preocupação com este esgotamento pode, em outro sentido, ser lida como uma ação estratégica para privar a percepção desta crise de seus elementos potencialmente mais transformadores.

Assim, a crítica radical à sociedade de consumo e suas consequên- cias, presente na origem do ambientalismo como movimento social e po- lítico, tem sido enfraquecida pela adoção hegemônica de estratégias de

educação ambiental alienantes que responsabilizam o indivíduo, na sua condição de consumidor final, pelas mais graves consequências da referi- da crise. Entendemos que a Psicologia Social deve posicionar-se no centro de tal debate, e neste aspecto, sua ausência neste campo de discussões não implica apenas a perda de uma oportunidade histórica para fazer va- ler seu papel nas Ciências Sociais. O próprio debate torna-se incompleto e fragmentário ao desconsiderar a instância psicossocial como uma das mediações logicamente necessárias para que se possa compreender a origem e a possível superação desta crise. A crise ambiental é, então, ao mesmo tempo um fenômeno econômico, político e psicossocial, gerador de tensões sociais de diversos tipos e fomentador de ações de resistência organizada que, se constitui um fenômeno social de grande importância, não deixa de relacionar-se intrinsecamente com fenômenos de caráter psicossocial.

É assim que alternativas de apropriação material e simbólica da natureza, territorialidades alternativas, resistem e surgem em diversos lugares, impulsionando a emergência de inúmeros conflitos socioambientais e criando redes de sociabilidade mundiais organizadas em torno da tentativa de resistir a este processo e criar caminhos e condições para a expressão de alternativas identitárias, constituindo o fenômeno que, por oposição à globalização hegemônica, tem recebido o nome de “mundialização” (Agrikoliansky, Sommier, Cardon, & Lévêque, 2005). A mundialização implica o reconhecimento da globalização em seu caráter hegemônico, contraditório e produtor de desigualdades. Reconhe- ce também que uma de suas principais consequências é a destruição dos modos de vida baseados na solidariedade e sua substituição por relações mediadas pelo capital. Por outro lado, não entende este processo como inevitável ou inescapável e propõe que a luta contra a opressão e a desi- gualdade se dê em inúmeras frentes.

Buscamos destacar aqui algumas destas formas de resistência. Es- pecificamente, aquelas que se expressam na interface entre fenômenos comunitários e identitários e suas relações com o território (algumas das quais consideraremos como territorialidades em disputa). São discutidas então duas perspectivas analíticas sobre tais formas de resistência: por um lado, a perspectiva da identidade psicossocial e sua relação com o am- biente; por outro, a perspectiva dos conflitos ambientais.

A primeira é derivadados estudos oriundos da Psicologia Ambiental Crítica que encontram na noção de enraizamento de Simone Weil (1996) inspiração e fundamento. A partir desta perspectiva, crise ambiental e glo- balização são entendidas como fenômenos cuja compreensão exige a in- vestigação sobre a relação entre a constituição da identidade psicossocial e o lugar, em sentido físico e também social, ou, sob outra designação ter- minológica, entre identidade e território. A crise ambiental representa ao mesmo tempo uma crise na relação entre identidade e lugar, relação que, nas sociedades tradicionais e mesmo durante boa parte do século XX, po- dia ser tomada como necessária, mas que o dinamismo das sociedades do pós-Guerra levou muitos pensadores a questionarem. As sociedades em que se desenvolveu a crise ambiental são as mesmas sociedades em que o indivíduo se encontra, em grau elevado, “livre” de suas amarras ge- ográficas. Procuraremos mostrar que tal coincidência pode ser entendida tendo como mediação os fenômenos estudados pela Psicologia Social. Es- ses fenômenos implicam formas organizadas de reação que estabelecem situações específicas de conflito e luta.

A segunda perspectiva enfatiza a (re)ação de sujeitos sociais no terreno, historicamente vulnerabilizados, que acionam situações carac- terizadas como conflitos ambientais, quando estão sob a ameaça de des- territorialização por outras práticas sociais de agentes sociais mais pode- rosos (representados por empresas de celulose, hidrelétricas, obras de infraestrutura do Estado, indústrias, resorts, agricultura e pesca industrial, etc), associados à operacionalização de uma lógica econômica desenvolvi- mentista, hegemônica1. Na abordagem dos conflitos ambientais (Acselrad,

2004a), vemos que os modos de apropriação (práticas sociais) da base material da sociedade devem ser compreendidos tanto em sua dimensão política (material, de poder) quanto cultural (simbólica, discursiva, ima- ginária), quando novas identidades se (re)criam, em meio à emergência e vivência de tais conflitos sociais, gerando, nas últimas décadas, novas formas de resistência.

Se, na primeira perspectiva, o trabalho problematiza a relação entre fenômenos socioambientais e psicossociais, defendendo o valor heurísti- co da Psicologia Social para a compreensão desses fenômenos e sua re-

1 Resgatam-se aqui as reflexões já realizadas anteriormente em outros trabalhos (Malagodi &

levância para o estudo das possibilidades e características da resistência coletiva à globalização na contemporaneidade, na segunda perspectiva, os próprios conflitos originados deste quadro serão o objeto de discussão, apresentando-se algumas de suas características e algumas das formas pelas quais se mostram, além de se apresentar algumas reflexões sobre sua gênese específica.

Por fim, fazemos um balanço de tais contribuições colocadas como desafio ao campo da Psicologia Social, e mais amplamente, para o avanço de novas solidariedades na produção de saberes interdisciplinares, neste momento de transição paradigmática.

Crise ambiental, identidade e enraizamento: o campo da Psicologia Social

De acordo com Tassara e Ardans (2004), podemos chamar de Polí- tica Ambiental a construção intencional e compartilhada do futuro e po- demos chamar de ambiente a organização humana no espaço total, que compreende os seus fragmentos territoriais. Neste sentido, ambiente é a organização humana no sistema-mundo e a Política Ambiental confunde- se com a própria política em geral, como a práxis humana voltada para a consecução do bem comum. Se o ambiente, assim, é uma construção humana, podemos chamar de crise ambiental este fenômeno amplo e complexo pelo qual o ambiente é construído de forma subjugadora e não participativa, e pelo qual, em decorrência, os indivíduos sentem-se alie- nados dos próprios espaços que habitam e constroem. A crise ambiental não se refere apenas à degradação dos recursos naturais, mas à própria possibilidade de problematizar esta degradação (Gerhardt & Almeida, 2005), aproximando-a de modelos distópicos de futuro, ou seja, opostos aos padrões de desejabilidade esperados de uma humanidade emancipa- da, quer dizer, livre da dominação.

Tal crise deve ser pensada tendo como pano de fundo o fenôme- no da globalização. Podemos entender a globalização como a expansão mundial das instituições que surgiram na modernidade europeia e que carregam consigo uma forma civilizatória. Esta globalização relaciona-se dialeticamente com fenômenos tecnológicos e culturais, e as reverbera- ções em um campo produzem reverberações em todos os outros cam-

pos ou esferas sociais ao mesmo tempo (Castells, 2007, p. 43). Também produzem reverberações no âmbito psicossocial, pois marcam as identi- dades individuais como colonizadas e subjugadas e impedem o surgimen- to de alternativas culturais e identitárias. Tassara e Ardans (2006, p. 16) afirmam: “Todas as formas de alienação identificadas podem ser consi- deradas como formas de alienação política geradas pela exclusão e pelo domínio subjugador no transcorrer da socialização e da constituição da identidade”. Isso ocorre, pois, simultaneamente, a globalização hegemô- nica cria modelos de desejabilidade inquestionáveis e subsume todas as formas culturais no processo de criação e compartilhamento de informa- ções, recusando a existência de processos culturais mais antigos, como os rituais, as instituições e as formas de narrativa (Benjamin, 1975).

A identidade psicossocial, em seu nível individual, pode ser apreen- dida através das representações de si em resposta à pergunta “quem és” (Jacques, 2002). A identidade, que historicamente se relaciona com as ex- pressões do eu, tem sido objeto de atenção variável ao longo da história, em conformidade com a valorização ou desvalorização do indivíduo e da individualidade (Fromm, 1983; Jacques, 2002, p. 159). De maneira geral, podemos definir identidade como a forma pela qual os indivíduos perce- bem a si mesmos e aos outros, discorrem sobre suas experiências, comu- nicam e avaliam sua situação em novos ambientes, expressam pontos de vista e visões de mundo, e interpretam e raciocinam acerca de suas vidas cotidianas em novas situações (Martel, 2006).

Devemos à Psicologia Ambiental o estudo de um componente da identidade que é fundamental para a presente discussão: a identidade de lugar. A psicologia ambiental, como muitas áreas da Psicologia, é ao mes- mo tempo uma área científica relativamente nova e antiga. Como campo de pesquisa, dirige sua atenção não “para o indivíduo singular, mas sim para as relações pessoa-ambiente” (Kruse, 2004, p. 134). Definida assim sucintamente, de acordo com Tassara (2004, p. 5), a psicologia ambiental, em sua origem, “conota-se com o comportamentalismo de Watson”, ten- do, ao longo do século XX, sofrido a influência de outras escolas, como a gestaltista. Como subdisciplina da psicologia, a Psicologia Ambiental apre- senta atualmente uma estrutura institucional, composta por organizações de ensino e pesquisa; organizacional, composta por associações profissio- nais; e de publicações, bem delimitada, o que não permite mais entendê-

-la como simples enfoque dentro de outras subdisciplinas psicológicas (Günther, 2004). Mas, frente à crise ambiental mencionada anteriormen- te, a Psicologia Ambiental tem um objeto, segundo Tassara (2004), que se mimetiza, inter-relaciona e confunde com a própria crise ambiental, exigindo uma compreensão complexa e ampla do conceito de ambiente que incorpore a dimensão da subjetividade e que requer que se entenda o ambiente como algo produzido pelo homem mediante decisões tomadas coletivamente no âmbito das políticas públicas.

Tal entendimento leva necessariamente à crítica do processo de for- mulação dessas políticas públicas e exige a participação dos indivíduos, participação que apresenta como condição essencial a elaboração das re- sistências individuais ao trabalho participativo. A elaboração de tais resis- tências exige a crítica aos pressupostos trazidos por esses indivíduos nas situações de interação por eles vivenciadas, ou seja, a uma atitude refle- xiva em relação aos pressupostos das crenças partilhadas pelos referidos indivíduos. Num processo político democrático, esta é a tarefa da Psicolo- gia Social, e, assim, conforme Tassara e Ardans (2007), “a Psicologia Social é esse processo de desconstrução crítica e o conhecimento dele derivado sobre a vida social como um todo”. Assim, a Psicologia Ambiental que as- sume criticamente a crise ambiental como objeto de reflexão e a remete a uma crise política da razão – e, por este motivo, podemos chamá-la de “psicologia ambiental crítica” – se insere nos esforços da Psicologia Social pela construção de uma sociedade mais democrática. Por isso, é possível afirmar que a psicologia ambiental crítica é uma “psicologia social voltada para subsidiar, pelo conhecimento e pela ação, o enfrentamento da crise ambiental” (Tassara, 2004).

Muitos estudos em Psicologia Ambiental destacam a existência de vínculos identitários específicos com o ambiente vivido. Uma das expres- sões cunhadas para entender esta relação é a de apego ao lugar, “um vín- culo afetivo que as pessoas estabelecem com áreas específicas onde pre- ferem permanecer e onde se sentem seguras e confortáveis” (Hernández, Carmen Hidalgo, Salazar-Laplace, & Hess, 2007). Outra é a de identidade de lugar, isto é, aquelas dimensões do eu, como a mistura de sentimen- tos a respeito de contextos físicos específicos e conexões simbólicas com os lugares, que definem quem nós somos (Raymond, Brown, & Weber, 2010). As tentativas de conceituar tais noções, compreender suas causas

e consequências e, fundamentalmente, medi-las, produziram milhares de pesquisas nos últimos 20 anos. A importância deste tema pode ser lida por vários prismas, sendo um deles a recente percepção de que os luga- res, considerados como um local específico que em sua expressão concre- ta não se iguala a qualquer outro lugar (Devine-Wright & Clayton, 2010), perdem crescentemente o papel que possuíam nos processos de sociali- zação e na dinâmica social (Castells, 2007). É amplamente aceito que os lugares marcavam a vida social dos grupos humanos pré-modernos de tal forma que, de maneira geral, não se podia separar a dinâmica e a estrutu- ra social de tais grupos dos lugares por eles ocupados. O desenvolvimento das instituições modernas levou o Ocidente a uma situação oposta, que se acentua contemporaneamente. Pode-se falar no caráter fantasmagórico dos lugares (Giddens, 1991), na existência de processos de desterritoriali- zação (Ianni, 1997) ou na crescente dependência das regiões frente a ou- tras regiões do globo (Santos, 1997) - de qualquer forma, o problema aqui considerado diz respeito à crescente interdependência econômica e social que marca nossa época em escopo global e parece tornar os lugares es- pecíficos intercambiáveis e pouco importantes por eles mesmos. Os efei- tos deste fenômeno em nível individual podem ser muito variáveis, indo desde uma atitude blasé e indiferente face aos lugares habitados até um sentimento de alienação e perdimento que, segundo Ianni (1997), marca a psicologia do homem contemporâneo. Outros autores, ao contrário, en- tendem que a globalização e a mercantilização dos ambientes tornaram os lugares mais, e não menos, importantes em uma era dominada pela ameaça do aquecimento global. Por esta razão, pesquisas sobre a relação eu (self)-ambiente continuam a ser fundamentais para a pesquisa em Psi- cologia Ambiental (Devine-Wright & Clayton, 2010).

Apego ao lugar, identidade de lugar, senso de lugar, enraizamen- to, identidade ambiental e conectividade com a natureza são algumas das expressões cunhadas pela Psicologia Ambiental para se referir a esta relação entre eu (self) e ambiente ou lugar (Devine-Wright & Clayton, 2010). De modo geral, as diferenças entre os fenômenos indicados por tais expressões não são claras e há um longo caminho a ser percorrido para que essas noções ganhem rigor suficiente para permitirem análises precisas sobre a relação à qual se referem. Mas inúmeros estudos têm sido publicados com a intenção de investigar algumas das causas e con- sequências de tal relação. Ente as consequências que mais atenção têm

atraído, está a relação da força do vínculo com o lugar e a participação em atividades coletivas voltadas ao bem comum. Uma das razões para sua importância vem da relação entre participação e defesa do ambien- te, no sentido da oposição à degradação ambiental e do combate à crise ambiental entendida de forma mais ortodoxa (Lewicka, 2010). Mas no sentido em que aqui se utiliza, a relação entre vínculo com o lugar e par- ticipação ganha relevância por outro motivo.

Podemos partir do princípio de que o enfrentamento das condições geradas pela globalização hegemônica exige formas de ação coletivas, em decorrência da impossibilidade, no presente contexto histórico e so- cial, de o indivíduo fazer frente às determinações estruturais que susten- tam este modo de subjugação (Adorno, 1995). A discussão a respeito das formas pelas quais os indivíduos resistem à globalização hegemônica ou enfrentam suas conseqüências exige, assim, que se estudem as formas de associação voltadas ao enfrentamento dessas condições e, enfim, que se estudem as formas de associação civil em geral.

Para Scherer-Warren (2002), associações civis são “formas orga- nizadas de ações coletivas, empiricamente localizáveis e delimitadas, criadas pelos sujeitos sociais em torno de identificações e propostas comuns” (Scherer-Warren, 2002, p. 42). Trata-se, na forma como estão aqui definidas, de organizações formais, originadas, muitas vezes, de in- teresses específicos de seus integrantes.

Conforme a autora, o associativismo indica a participação dos su- jeitos na esfera pública: através da criação dessas organizações, os indi- víduos podem gradualmente constituir uma identidade coletiva que lhes permite, por hipótese, formular reivindicações coletivas e criar novos va- lores e normas para a vida em sociedade. Tais associações formam a base para os movimentos sociais, que surgem como “síntese dessas múltiplas experiências referenciadas a um campo simbólico” (Scherer-Warren, 2002, p. 45). Uma das dimensões fundamentais do associativismo é a da espacialidade. Com isso, a autora entende a relação específica entre as tecnologias da informação e as demandas territoriais, que faz com que tais demandas sejam continuamente redimensionadas, na medida em que o âmbito da localidade passa a ser invadido por problemas globais e, inversamente, problemas locais podem projetar-se, a partir das no- vas tecnologias, em escala global (Scherer-Warren, 2002, p. 53). Dessas

questões, surge a necessidade de discutirmos o problema do território ou do “lugar”.

O problema da espacialização desses fenômenos grupais pode nos sugerir um recorte para seu estudo. Na medida em que o que interessa ao presente trabalho são os grupos que se formam a partir de demandas fortemente vinculadas ao território, podemos, assumindo o sentido terri- torial deste termo, utilizar para tais organizações a expressão associação comunitária. Assim, as associações comunitárias são organizações formais cuja origem grupal e cujo princípio de dinamismo psicossocial estão rela- cionados a demandas fortemente vinculadas ao território ocupado pelos seus participantes.

O problema coloca-se, neste nível, sob o signo da sociabilidade. Scherer-Warren (Scherer-Warren, 2002, pp. 52-54) sugere que a noção de “rede” pode ser proveitosa para compreender os processos de sociabili- dade dos movimentos sociais. Para a autora, formam-se redes sociais do cotidiano, que se originam das redes sociais primárias tradicionais, atra- vessadas por redes virtuais (ligadas às tecnologias da informação), proces- so este que é responsável pela formação de novas identidades na era da informação. Tais redes são expressão das tradições e das raízes históricas locais da comunidade, e podem cruzar-se com redes sociais construídas no tecido social associativista. Estas últimas são portadoras de utopias de transformação e apresentam caráter propositivo. O movimento social, sob este ponto de vista, estrutura-se a partir do encontro das redes sociais do cotidiano, que apresentam intensas relações de solidariedade, com as redes sociais associativistas, que apresentam caráter estratégico. Uma as- sociação de bairro ou uma ONG tende a aparecer no entrecruzamento destas duas formas de redes sociais.

Ao psicólogo social, porém, é importante compreender se as de- mandas originárias dos grupos primários apresentam marcas significa- tivas de sua territorialidade; se essas marcas indicam a possibilidade de sobrevivência de identidades individuais e coletivas enraizadas numa sociedade crescentemente marcada pelo espaço de fluxos; se tais mar- cas permanecem durante a aproximação frente às redes associativistas; e se há a possibilidade de permanência quando da aproximação entre esses grupos e os aparelhos de Estado. Em suma, o problema é se a mo- tivação para a constituição de grupos populares que surge de demandas

locais permite aos mencionados grupos que se articulem de uma manei- ra mais permanente e autônoma, e até mesmo resistente ao processo de globalização, podendo conduzir à proposição de alternativas à globa- lização hegemônica, que, neste específico sentido reportado, poderiam ser consideradas altermundialistas (Agrikoliansky et al., 2005). Este ob- jetivo, de relevância teórica para uma psicologia social dos fenômenos da globalização, geraria um conhecimento sobre relações entre grupos geneticamente vinculados a fortes demandas territoriais e o crescimen- to de uma originalidade nas manifestações de sua potência de ação frente à globalização hegemônica, apontando a existência de formas de enraizamento, ou territorialização da identidade, que indicariam, por

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