O arcabouço institucional do regime monárquico estava expresso na Constituição de 1824, que vigorou até o final do Império (1889) com pequenas modificações. O sistema político era monárquico, hereditário e constitucional. Havia uma nobreza, mas não uma aristocracia: os títulos concedidos pelo Imperador não eram hereditários, não havendo, assim, uma aristocracia de sangue no Brasil. A religião católica era a oficial, permitido o culto particular de outras religiões. Escravos e mulheres não possuíam direitos políticos, sendo que os escravos estavam excluídos dos demais dispositivos constitucionais. Uma curiosidade: até 1882 admitia-se o voto de analfabetos, nas condições censitárias abaixo discriminadas. Formalmente, a Constituição de 1824 organizava os poderes constituídos, definia atribuições, assegurava os direitos individuais, a igualdade perante a lei, a liberdade de pensamento e de manifestação. Estruturalmente uma sociedade de tradição autoritária, entretanto, no Brasil a aplicação de tais direitos era (como é) relativa, pois a população livre das áreas urbanas, a chamada elite letrada dependia dos grandes proprietários rurais.
No parlamentarismo monárquico que funcionou no Segundo Reinado, durante quase cinqüenta anos, em regime bicameral, era escolhido, por voto indireto e censitário (votavam os cidadãos brasileiros que possuíam renda anual de pelo menos cem mil réis, os votantes), em eleições primárias, um corpo eleitoral (composto de brasileiros que possuíssem renda de duzentos mil réis anuais e não fossem libertos, os eleitores). Esse corpo eleitoral elegia os deputados (compunham a Câmara), que além das exigências feitas aos eleitores e aos votantes, deveriam possuir renda anual de quatrocentos mil réis e professar a religião católica. Pelo mesmo processo eram eleitos os Senadores. A diferença substancial entre as duas casas legislativas estava no fato de que a eleição para
a Câmara era temporária e, para o Senado, vitalícia. Para o Senado, cada província elegia, pelo sistema eleitoral em que o poder econômico decidia explicitamente o resultado das eleições, uma lista tríplice que era encaminhada ao Imperador, para a escolha de um dos três indicados. Na prática, o Senado vitalício era a caixa de ressonância, no Poder Legislativo, da vontade interventora do Rei (detentor também do Poder Moderador – instituição inspirada nas idéias de Benjamin Constant, escritor francês que previa a separação entre o Poder Executivo, a ser exercido pelos ministros do Rei e o poder propriamente Imperial, neutro ou moderador; no Brasil, tais idéias não foram seguidas à risca...):
(...) Uma das maneiras de intervir, que lhe era outorgada pela constituição, era no momento da escolha de um nome, dos apresentados em lista tríplice, para a renovação do Senado. D. Pedro II procedia, assim, ao preenchimento das vagas que a mortalidade abria e tirava os seus favoritos, presenteando-os com um cargo vitalício, seguro, cômodo, onde deviam corrigir qualquer excesso da gente mais moça, que na Câmara eletiva não podia ter a mesma unidade de vistas, desde que, para a sua constituição, concorriam elementos bem heterogêneos. (...)94
Havia, ainda, a figura institucional do Conselho de Estado, cujos conselheiros vitalícios, nomeados pelo Imperador dentre os brasileiros com idade mínima de quarenta anos (então considerada uma idade avançada para a época), renda não inferior a oitocentos mil réis anuais, que fossem pessoas de saber, capacidade e virtude. Tal Conselho era ouvido em momentos de crise e de tomadas de decisões importantes, pelo Imperador, como declarações de guerra, negociações diplomáticas, ajustes de pagamento etc. Ou seja, nos momentos em que o “Imperador se propusesse exercer atribuições próprias do Poder Moderador”.95
94Nelson Werneck SODRÉ, “A sucessão dos gabinetes”, in: Panorama do Segundo Império,
São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre : Companhia Editora Nacional, 1939, Brasiliana (Biblioteca Pedagógica Brasileira), série 5ª, vol. 170, p. 91.
95
Boris FAUSTO, “O Brasil Monárquico (1822-1889)”, in: História Concisa do Brasil, São Paulo, Imprensa Oficial/Edusp, 2001, p. 81.
A aparente estabilidade do Império, principalmente no Segundo Reinado, além de ser desmentida por diversos momentos de crise institucional originada por sucessivas quedas de gabinetes ministeriais (foram trinta e quatro os gabinetes ministeriais no período de 1840 a 1889), eleições decididas pela força do poder local e falta de caracterizações política e ideológica claras dos partidos políticos (Conservador e Liberal), era prejudicada pela excessiva centralização administrativa, que ditava remodelações gerais na máquina governamental a cada mudança de partido no poder. Se algo houve de estável e vivo politicamente, esse algo foi o exercício do poder imperial, aparentemente ausente:
(...) Na paisagem política do tempo, debilitados os partidos, restava a intervenção do Imperador, o poder pessoal, exercido com habilidade, de forma a parecer ausente. Porque, se os partidos bem estruturados representam elemento indispensável ao funcionamento do regime parlamentar, outro elemento essencial está na autenticidade da representação eleitoral. E as eleições, no Império, não passavam de farsas. (...)96
Sobre a composição social e a ambigüidade e inconsistência das posições políticas e ideológicas dos partidos imperiais (Liberal, cujos militantes eram apelidados de luzias – numa referência à Vila Santa Luzia, em Minas Gerais, onde os liberais sofreram sua maior derrota, na Revolução de 1842; Conservador, cujos membros eram chamados de saquaremas, com referência ao município fluminense de Saquarema, onde os principais chefes do partido possuíam terras e notoriamente exerciam desmandos eleitorais), principalmente durante o segundo reinado do Império, assim se manifestou José Murilo de Carvalho:
96
Nelson Werneck SODRÉ, “Retrato do Império - O parlamentarismo fraudulento”, in: A
As ambigüidades de liberais e conservadores refletiam-se no comportamento dos dois partidos. O Partido Liberal compunha-se de um setor urbano, formado sobretudo de profissionais liberais, e de um setor rural centrado na agricultura de mercado interno. O setor urbano entendia liberalismo como defesa das liberdades públicas, o setor rural o via como defesa dos interesses oligárquicos. A divisão paralisava o partido: as reformas propostas pelo setor urbano eram sabotadas pelo setor rural. Algo semelhante se dava no Partido Conservador, cuja composição social incluía, grosso modo, um setor burocrático e um setor ligado à agricultura de exportação. As tentativas de reforma que levassem à redução do poder dos grandes proprietários, como as referentes à abolição da escravidão, eram vetadas pelo setor rural do partido. Por ser mais disciplinado, o Partido Conservador foi mais eficaz em implementar reformas, sobretudo às referentes à abolição da escravidão. Mas, ao fazê-lo, dividia-se internamente e se enfraquecia. Liberais importantes e conservadores divididos acabavam contribuindo para e erosão da legitimidade do sistema como um todo.97
Se, no plano da política externa, as atenções estavam voltadas para a Questão Christie (1861-1865), o conflito com o Uruguai (1864-1865) e, principalmente, a Guerra do Paraguai (1864-1870), no plano da política interna, a predominância de cinco a seis anos de hegemonia liberal na Câmara e nos Ministérios imperiais exasperava o Partido Conservador. Caxias (Luis Alves de Lima e Silva, político conservador que presidira o gabinete de seu partido entre março de 1861 e maio de 1862, militar e aristocrata), havia sido nomeado, em outubro de 1866 - por pressão dos oposicionistas do Partido Conservador, que culpava os Liberais pelas incertezas da Guerra, para comandar as tropas brasileiras no Paraguai, pelo gabinete liberal de Zacarias Góes de Vasconcelos.
O acirramento da Guerra reflete-se na política interna, pois a proximidade de uma vitória de Caxias no front poderia trazer prejuízos políticos para a situação política (Liberal) e, mesmo entre os membros da oposição (Partido Conservador), é causa de receios o aumento do prestígio de um militar como Caxias e o que ele representava
97
José Murilo de CARVALHO, “Federalismo e centralização no Império brasileiro: história e argumento”, in: Pontos e bordados: escritos de história e política, Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998, pp. 155 a 188 (especialmente pp. 180 e 181).
frente à oficialidade e às tropas, principalmente do Exército, que combatiam em situação de extremas dificuldades materiais.
Zacarias Góes de Vasconcelos, apresentado por uns como um orgulhoso, autoritário, intransigente e inacessível, vivendo apenas para seu partido, alimentando ressentimentos com velhos desafetos (Torres Homem, entre eles), e, por outros, como estadista comparável ao Imperador D. Pedro II98, ao longo da crise que se desenrola e chega ao ápice no ano de 1868, procura submeter Caxias à sua vontade. Temperamentais, nenhum dos dois cede em suas posições. O conflito se estabelece, atiçado pela pena dos folhetinistas e articulistas dos jornais da oposição conservadora, José de Alencar e França Júnior (Correio Mercantil) e Ferreira Viana (Diário do Rio) 99. A questão do impasse entre o chefe militar e o chefe político de seu governo chega ao Imperador, que consulta o Conselho de Estado. Resolve optar pelo mal menor: em julho, cai o ministério Zacarias e sobem ao poder os conservadores. O 16 de julho de 1868 marca o fim da hegemonia liberal e dá início a um período de dez anos de Gabinetes Conservadores.
Falando de política e costumes nessa conjuntura, nos folhetins publicados no jornal Correio Mercantil, dos quais Raimundo Magalhães Júnior nos apresenta 45 deles (29 de abril de 1867 a 26 de julho de 1868)100, França Júnior revela, além de sua face de analista social, o caráter conservador do comentarista político que desenvolve intensa
98 ver Raimundo de MENESES - “O Escritor-Ministro”, in: José de Alencar: literato e político, 2ª
edição., Rio de Janeiro : Livros Técnicos e Científicos, 1977, pp. 225 a 231; ver, também, Pandiá CALÓGERA - Formação Histórica do Brasil, 2ª edição, São Paulo : Companhia Editora Nacional, Brasiliana, Biblioteca Pedagógica Brasileira, Série V, Vol. XLII, 1935, p. 297.
99 ver Raimundo de MENESES, op. cit., p. 225.
100 FRANÇA JÚNIOR - Política e Costumes: Folhetins Esquecidos (1867-1868), organização,
introdução e notas de Raimundo Magalhães Júnior, Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia : Editora Civilização Brasileira, Coleção Vera Cruz (Literatura Brasileira), Volume 6, 1957.
campanha pela volta do Partido Conservador ao poder, depois de quase 6 anos de hegemonia liberal nos Gabinetes do Império (1862 a 1868).
O Correio Mercantil (jornal de idéias liberais no período de 1853 a 1865, quando foi dirigido por Francisco Otaviano) já tinha, no passado, publicado os folhetins de José de Alencar (03 de setembro de 1854 a 8 de julho de 1855), que levavam a epígrafe Ao Correr da Pena. Manuel Antônio de Macedo publicara, na seção Pacotilha, no período de 1852 a 1853, o seu Memórias de um Sargento de Milícias e Machado de Assis trabalhara no jornal, no período de 1858 a 1860, como revisor. Francisco Otaviano, jornalista e deputado, casara-se em 1854 com Eponina Barreto, graciosa filha do proprietário do jornal e na residência do casal, na rua Evaristo da Veiga (São Cristóvão), saraus e serões eram freqüentados por José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, Tavares Bastos, Machado de Assis, Bernardo Guimarães, Joaquim Nabuco, Joaquim Serra, José Bonifácio e França Júnior, entre outros.101
Escrevendo no período mais acirrado da Guerra do Paraguai (1864-1870), nos dois anos (1867-1868) em que atacou o 3º Gabinete Liberal de Zacarias Góes de Vasconcelos (que durou de 1866 a 1868; os dois primeiros duraram uma semana, de 24 a 31 de maio de 1862 e sete meses, de 15 de janeiro a 31 de agosto de 1864), França Júnior usou de metáforas, nomeação direta de seus adversários, comparações, anedotas e ditos espirituosos para ridicularizar a situação liberal de várias maneiras. A crítica ou comentário político eram recheados de tiradas filosóficas, máximas literárias, alusões às campanhas de Napoleão na Europa do início do século XIX, citações em latim, mencionando várias vezes o autor Alphonse Karr como sua principal inspiração
satírica102. O alvo predileto e quase exclusivo de seus folhetins era o Ministério (Gabinete) e os políticos da situação liberal.
Chama atenção, também, a utilização do pseudônimo Osiris com que assinava os folhetins dessa época. Uma forma de preservar a figura pública do autor, bacharel e magistrado - que seria afetada por sua produção de páginas de amenidades nos jornais, disfarçando-se sob a máscara do deus egípcio; uma maneira de dar liberdade ao escritor para atacar os adversários liberais, ou um simples expediente para valorizar seu texto? Qualquer destas possibilidades podia ser verdadeira. Era comum escrever-se sob pseudônimos ou apenas por iniciais:
(...) O que quebrava a austeridade das graves folhas do Império eram as amenidades que todas elas queriam oferecer aos leitores: folhetins que eram escritos por um José de Alencar ou traduzidos por um Machado de Assis; poesias dos grandes vates da época, divulgadas em primeira mão, e os artiguetes, crônicas, comentários jocosos ou satíricos, apresentados todos os dias sob os mais extravagantes pseudônimos. (...) Era o pandemônio dos pseudônimos, sob os quais se perdeu muita coisa que hoje é impossível atribuir aos verdadeiros donos. Quem não os usava, então? Dava o pseudônimo – característico dessa fase da imprensa brasileira como de nenhuma outra – não irresponsabilidade, mas desembaraço de comentário e o direito de ser frívolo, superficial, ligeiro, sem comprometer um nome já feito nas letras, na política ou noutras atividades. 103
Torres Homem foi “Timandro”. Justiniano José da Rocha, o primeiro crítico teatral brasileiro, jornalista político a serviço do Partido Conservador, publicou A
102 Outra influência literária sobre França Júnior, citada por R. Magalhães Júnior (FRANÇA
JÚNIOR – op. Cit., 1957, p. XIII), e que nos causou surpresa, tratando-se de um escritor conservador, como França Júnior, foi a de Henrich Heine, que era considerado por Karl Marx seu escritor preferido. Pelo estilo, satírico, e pela ironia mordaz, no entanto, compreendemos tal influência, pelo menos no campo literário... Ver o prefácio de Marcelo Backes para a edição do fragmento (ou novela) Das Memórias do Senhor de Schnabelewopski, de Henrich Heine, São Paulo : Boitempo Editorial, maio de 2001, pp. 7 a 15.
103 MAGALHÃES JÚNIOR, R.
– Artur Azevedo e sua época, 4ª edição, São Paulo: LISA (Livros Irradiantes S. A. – ), 1971, p. 20.
política brasileira na República Oriental do Uruguai, assinando apenas “Um Brasileiro”104.
Joaquim Serra, que como poucos e de maneira quase surrealista se encaixa na categoria dos escritores que faziam tudo105, dirigia o jornal A Reforma. Poeta, jornalista e precursor do Teatro de Revista no Brasil, usou, em seu próprio jornal, ironicamente, o pseudônimo de “Ignotus”.
(...) Pretendendo-se fazer ler por partidários de todas as facções então existentes, o Diário de Notícias tomara a liberdade de franquear uma
coluna a cada um dos três partidos do Império: - o Conservador, o Liberal e o Republicano. Às vezes, sucedia que apenas duas das facções enviavam o artigo, mas como o Diário de Notícias não queria se
apresentar aos leitores numa situação de desprestígio, desdenhado por um dos partidos, cabia a Joaquim Serra, chamado às pressas do
Londres, do Café da Imprensa ou do Café do Cascata, assumir o matiz do
grupo faltoso, defendendo, intrigando, atacando, espalhando malícia e provocando revide dos outros. Não raro, porém, faltavam os três artigos; e Joaquim Serra, com o mesmo ardor, escrevia os três, liberal numa coluna, conservador na outra e republicano na terceira!(...) 106
Artur Azevedo foi “Dopante”, personagem de Molière no jornal Diário do Rio
de Janeiro, “Elóy, o herói”, no Diário de Notícias; “Gavroche”, “Frivolino”, “Cósimo”,
“Cratchit”, “Petrônio”, “X.Y.Z.” e “Juvenal”, no jornal O País. Machado de Assis foi “Dr. Semana”, “João das Regras”, “Lélio”, “Malvólio”, “Eleazar” ou “Job”. Joaquim Nabuco, autor do clássico Um Estadista do Império, foi “Garrison” e “Freischütz” e José do Patrocínio, político e jornalista combativo, paladino da Abolição, foi “Justino
104 MAGALHÃES JÚNIOR, R. – Três Panfletários do Segundo Reinado, São Paulo :
Companhia Editora Nacional, Série 5ª - Brasiliana – Vol. 286, Biblioteca Pedagógica Brasileira, 1956 p. 143; sobre a atividade de crítico teatral de Justiniano José da Rocha, ver, também Décio de Almeida PRADO – O Advento do Romantismo, in: Teatro de Anchieta a Alencar, São Paulo: Editora Perspectiva S. A., 1993, pp. 121 a 140, e João Roberto de FARIA – O
Romantismo, Ensaios sobre a Tragédia e Excertos Críticos, in: Idéias teatrais: o século XIX no Brasil, São Paulo : Ed. Perspectiva / FAPESP, 2001, coleção Textos : 15, pp. 20 a 30, 268 a
316 e 317 a 323.
105 Ver Nelson Werneck SODRÉ, História da Literatura Brasileira, Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 1999, p. 212.
106 R. MAGALHÃES JÚNIOR - Artur Azevedo e sua época, 4ª edição, São Paulo : LISA (Livros
Monteiro” em A Notícia e “Proudhome” na Gazeta de Notícias.107 E até D. Pedro II,
polemizando com José de Alencar - “Ig”, para defender Gonçalves de Magalhães dos ataques que o escritor proferiu contra o poema A Confederação dos Tamoios, foi aos jornais como Outro Amigo do Poeta, em 1856108. Não por acaso, durante a ditadura militar (1964 a 1985), no período mais agudo de censura aos jornais e meios de comunicação, alguns jornalistas e escritores também escreveram sob pseudônimos e até cantores (como Chico Buarque) gravaram músicas sob nomes fictícios. Foi nesse período, também, que um jornal de São Paulo publicou um suplemento chamado “Folhetim”.
França Júnior – Osiris revela-se, nos folhetins do período acima citado, um crítico contundente e, por vezes, até violento. No que a violência pode se manifestar em forma de sátira. Ou seja, as armas das metáforas, da ambigüidade, das anedotas e do sarcasmo foram postas em uso, no combate político intelectual.
No folhetim de 26 de maio de 1867, França Júnior utiliza a pintura como metáfora para sua crítica ao Gabinete liberal de Zacarias Góes de Vasconcelos. Após descrever o quadro A miséria de uma família, do pintor Rafael, o folhetinista afia sua arma (o lápis...) e ataca:
(...)Aparei o lápis e resolvi esboçar, não o quadro da miséria de uma família, mas o croquis da desgraça de um povo. Tracei no primeiro plano sete figuras
sinistras (alusão ao Gabinete Ministerial, composto de 7 pastas ministeriais) e
comecei a obra. Em uma pintei a vaidade ataviada de galas, abrangendo o vasto horizonte com um olhar pretencioso de águia. Em outra a barriga dominando a cabeça. Pintei no mesmo plano a niilidade agaloada. E em cada uma das outras
107 R. MAGALHÃES JÚNIOR - Artur Azevedo e sua época, 4ª edição, São Paulo : LISA (Livros
Irradiantes S. A. – ), 1971, p. 20.
108 Ver Raimundo de MENEZES
– “Primeira Rusga com o Imperador”, in: José de Alencar:
literato e político, 2ª edição, Rio de Janeiro – São Paulo: Livros Científicos e Técnicos, 1977, p. 91
figuras fui entornando um mundo de paixões desencontradas. Mais algumas pinceladas e o quadro estava completo. Ai de mim! A minha pobre palheta esbarrou diante do primeiro personagem do plano! Fazer ressaltar de um rosto imberbe milhares de pequenos sentimentos; dar-lhe um riso de amabilidade nos lábios, e ao mesmo tempo estampar nessa fisionomia o cunho da arrogância e do poder, era um impossível!109
A crítica do folhetinista não perdoa nem a indumentária dos Ministros:
(...) Com sete casacas e uma situação progressista, qualquer, hoje, levanta um ministro em dez minutos. (...) O progresso a cada dia obra uma maravilha. Outrora os homens subiam ao poder pelas tradições de serviços reais. Hoje até os colarinhos são títulos de merecimento! Vede, por exemplo, um ministro da agricultura, atual (alude ao Deputado Manoel Pinto de Sousa Dantas). É um
colarinho e nada mais. (...) No colarinho está a solução dos problemas sociais os mais importantes, que hão de aparecer no futuro. Ele cheira à progresso desde o primeiro posponto até o último. Questão de crédito, finanças, bem estar do país, desenvolvimento das indústrias, artes, ciências, tudo parece querer sair- lhe das pontas, graças a inspiração do céu. E o Brasil se não colhe já tantos benefícios, dirá entretanto um dia, cheio de reconhecimento: Tive um par de colarinhos por ministro; a ele devo minha salvação.110
As casacas a que se refere a metáfora de França Júnior eram as pastas do ministério, na época: Império, Justiça, Estrangeiros, Fazenda, Marinha, Guerra, e Agricultura, Comércio e Obras Públicas. A metáfora é uma constante nos diversos folhetins políticos escritos pelo autor, que recorre à comparação dos sete ministros e do Gabinete Ministerial com objetos, partes do corpo humano, aposentos de uma casa etc. Como neste texto, em que França Júnior compara o ministério a um gabinete (aposento):
O gabinete é um canto isolado do domicílio, onde o homem medita e resolve as mais altas questões de interesse privado e social. (...) Foi entre quatro paredes de seu modesto aposento, que Molière daguerreotipou a sociedade de seu tempo. (...) Onde se desenvolveu o gênio de Shakespeare? No gabinete. Não era no gabinete que Maquiavel, inspirado por Satã, traçava o plano dessa política perigosa, de que tanto têm abusado os tartufos de todas as épocas?(...) Sirvam estas idéias de prólogo ao que tenho de dizer hoje. Venho falar de um gabinete. Não pensem os leitores que se trata de uma sala, quarto ou aposento que já está