3 AS POLÍTICAS PÚBLICAS EDUCACIONAIS E A AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO SUPERIOR
3.1 POLÍTICAS PÚBLICAS EDUCACIONAIS E EDUCAÇÃO SUPERIOR
3.1.1 Políticas neoliberais e contextos globais/locais
O neoliberalismo pode ser compreendido como uma doutrina política e econômica nascida após a II Guerra Mundial, caracterizada por manter o Estado forte no controle e na regulação, todavia fraco nos gastos sociais e intervenções econômicas (ANDERSON, 1995). Dentre as características da doutrina ocorre a busca por estabilidade monetária como meta suprema dos governos, criação exércitos de reserva dos trabalhadores, resultando em altas taxas de desemprego. Também há redução de impostos especialmente para rendimentos mais vultuosos, bem como, privatizações, entre outras características que acentuam a desigualdade social (ANDERSON, 1995).
Segundo o referido autor, a doutrina neoliberal se desenvolveu em governos como o Margareth Thatcher e Ronald Reagan, na Inglaterra e Estados Unidos, respectivamente. Na década de 1980 e na América Latina o seu precursor foi Pinochet, que instalou um regime ditatorial no Chile nos anos 70 (ANDERSON, 1995).
Compreendemos também o neoliberalismo a partir de Frigotto (2001), que o explica como o retorno a concepções conservadoras do liberalismo sobrepondo liberdade de mercado às políticas sociais. O autor faz uma crítica ao neoliberalismo e afirma, a partir de Mészáros (2009) que o capital vive uma crise estrutural, com isso, o trabalho é preconizado. Em consequência, o mundo vive os problemas da desigualdade social, miséria, fome, desemprego, exploração exagerada do meio ambiente, como efeitos da manutenção do sistema capitalista, sendo a desigualdade, constituída a partir das relações de poder, permeada pela luta de classes, uma das características fortes para manter este sistema em funcionamento.
No Brasil, assim como em outros países da América Latina, foi na década de 90 que o neoliberalismo assumiu suas características principais, já era prometido o avanço neoliberal no governo de Fernando Color, que renunciou em 1992 após processo de impeachment. Neste período a economia estava caótica e a inflação astronômica, iniciou a organização do País para o lançamento do plano Real, procurando recuperar a economia. Em 1994, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, foi eleito presidente em dois mandatos consecutivos de 1994 a 1998 e de 1998 a 2001, propondo o Plano Real, que g i i i i ―[...] enquanto a economia se recupera, o social piora [...]‖ OLIVEIRA,1995, p. 26).
Na década de 1990, o papel do governo na política educacional começa a se transformar, não é que o Estado passa a ser mais ou menos importante, mas o seu papel muda. Por conseguinte, Anderson (1995), Torres (2016) e Del Brutto (2009) procuram situar os anos 1990 na América Latina como um momento em que se viu desenvolver as políticas neoliberais, atreladas a globalização. Caraterísticas que estão presentes nestas análises e destacam a Nova Gestão Pública, a eficiência, a eficácia na qual a avaliação seria uma das ferramentas.
Torres (2016) enfatiza a globalização do capitalismo como um elemento central para compreender o neoliberalismo, isso implica em compreender também as suas contradições. O autor aponta, como uma das contradições do pensamento ideológico neoliberal, a promoção da autonomia individual (individualismo
possessivo) e, ao mesmo tempo, sugere que todo o cidadão tem responsabilidades ú i TORRES 2016 g i h ― pela educação7‖. Dessa forma, são contradições que se estendem ao plano econômico segundo o ator, visto que, este bem comum vai em sentido muitas vezes antagônico a supremacia do mercado. Assim, o neoliberalismo afeta a nossa vida, como trabalhamos e como vivemos a universidade:
[...] la globalización neoliberal, predicada sobre la dominancia del Mercado sobre el Estado y modelos desreguladores de gobierno, afectó la U i i x ‗ i i é i ‘. L f resultantes han avanzado la competitividad internacional, afectando las universidades públicas en cuatro áreas principales, eficiencia y accountability, acreditación y universalización, competitividad, internacional y privatización (TORRES, 2016, p. 26).
O neoliberalismo é global, mas nos afeta localmente de diferentes modos, gerando pressões contraditórias, tratando a educação como gasto, ao mesmo tempo que exige resultado [eficiência e eficácia], a ser comprovado pela qualidade, atestada nas provas, nos índices, nos standards. De modo que a globalização neoliberal ―[...] por um lado, dificulta a capitalização de recursos públicos para a educação, mas por outro lado, exige aos Estados intervir em uma educação de qualidade como a que fomenta a competitividade econômica‖ (BONAL; TARABINI; VERGER, 2013, p. 89).
As influências do contexto global, na política nacional são, gradativamente, traduzidas nos textos legais que, desde a Constituição Federal, vão incorporando as características do Estado regulador. Marcadamente na política desenvolvida em meados dos anos 1990, caracterizando a modificação do Estado, que se tornou:
[...] competitivo e organizou-se competitivamente, e colocou escolas, por exemplo, e outras coisas, em competição entre si. Isto representa um grande golpe do capital; ele cessa seu trabalho em oposição ao Estado e passa a trabalhar através do Estado. Esta é a grande diferença: ele trabalha através do Estado e o Estado tem muito menos meios de inibir este processo (DALE; GANDIN, 2014, p. 7).
Em relação à oferta e regulação da educação, podemos relacionar ao termo governança, caracterizada pela combinação de atividades que envolvem
7 ―T ‖ é i f 2006 B i ê
conquistar a melhoria da qualidade na Educação Básica. O mesmo é mantido por fundações como a Fundação Lemann, Itaú Social, grupo Gerdau e outras. Disponível em: <https://www.todospelaeducacao.org.br/>. Acesso em: 20 out. 2016.
financiamento, fornecimento ou oferta, propriedade e regulação; este conjunto de atividades ou práticas pode ser desempenhado, ou não, pelo Estado (DALE, 2010). No caso da Educação Superior brasileira, o financiamento e a oferta são parte pública, parte privada e a regulação é exercida pelo Estado, a partir do aparato de regulamentações, leis, que normatizam o funcionamento das Instituições de Educação Superior (IES) e dos cursos de graduação e pós-graduação.
Podemos observar as dimensões da Educação Superior no Brasil para melhor compreender a amplitude do trabalho de avaliação, regulação e supervisão levado a cabo neste sistema, comparando os dados da Sinopse Estatística da Educação Superior de 2015 e 2017, disponível na Tabela 1:
Tabela 1 – Dimensões da Educação Superior no Brasil
Instituições e número de matrículas 2015 2017
Instituições de educação superior 2.407 2.448
Instituições de educação superior privadas 2.111 2.152 Instituições de educação superior públicas 296 296 Número total de matrículas (presencial e a distância) 8.048.701 8.286.663 Matrícula em cursos de Licenciatura (presencial e a distância) 1.471.930 1.589.440 Matrícula em cursos de Licenciatura públicas (presencial e a distância) 578.997 601.839 Matrícula em cursos de Licenciatura privadas (presencial e a distância) 892.933 987.601 Fonte: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (2016, 2018a).
A característica de sistema diversificado como o da Educação Superior no Brasil, remete a política de avaliação um sentido de guardiã das condições de qualidade. Isso está relacionado com o contexto da influência e fica visível na produção de textos, configurando, assim, a avaliação como necessária, demarcando o Estado Avaliador:
[...] o Estado vem adotando um ethos competitivo, neodarwinista, passando a admitir a lógica do mercado, através da importação para o domínio público de modelos de gestão privada, com ênfase nos resultados ou produtos dos sistemas educativos (AFONSO, 2009, p. 49).
Justifica-se, o investimento, a sofisticação e o aprimoramento dos sistemas avaliativos, atrelado a ideia de que a qualidade é responsabilidade de todos e alcançada a partir de esforços individuais, na consecução de objetivos estabelecidos. Atualizando e complementado a ideia de Estado Avaliador, o autor, caracteriza o Estado — competidor num período que poderia ser denominado de
pós — Estado — avaliador como uma fase atual de ressurgimento e radicalização da competição, e, também, do mercantilismo em processos de avaliações educacionais8.
As características da oferta de Educação Superior no Brasil preveem a coexistência de instituições públicas e privadas de acordo com a LDB, Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (BRASIL, 1996a, Art. 45). Com diversificação de organizações acadêmicas, as Instituições de Educação Superior (IES) podem se caracterizar como: Universidades, Centros Universitários, Faculdades, Institutos Nacionais de Educação Ciência e Tecnologia, variando suas funções e autonomia no Sistema Federal. As Universidades têm como prerrogativa a indissociabilidade entre o tripé ensino, pesquisa e extensão. Além disso, são instituições autônomas para criar cursos, ampliar ou reduzir vagas e outras atribuições definidas no Art. 53 da LDB (BRASIL, 1996a).
De acordo com a organização administrativa, ainda, as IES públicas podem ser Federais, Estaduais ou Municipais, e as privadas com ou sem fins lucrativos. As privadas sem fins lucrativos podem ser filantrópicas, comunitárias ou particulares, em sentido estrito, IES que visam lucro.
Neste sistema, é papel da União: ―[...] assegurar o processo nacional de avaliação das instituições de Educação Superior, com a cooperação dos sistemas que tiverem responsabilidade sobre este nível de ensino‖ (BRASIL, 1996a, Art. 8º, inciso VIII, grifo nosso).
Assim, três expressões mencionam o papel regulador do Estado, exercido pela avaliação, presente no interdiscurso, nas Leis e no contexto de influência: são elas assegurar, garantir, e ser guardiã da qualidade, este é o papel do Estado. É por isso que dos anos 1990 em diante acontece uma explosão de programas e propostas de avaliação, um seguido do outro, para a Educação Básica e Superior.
8
Afonso, em entrevista para Schneider (2012), trata de três versões do Estado Avaliador, sem necessariamente uma sequência fixa temporal em todos os Países. A primeira versão, nos anos 80, centrada num dispositivo interno de controle do Estado e sem grande ênfase nas avaliações internacionais, mas com a presença de rankings e publicação de resultados. A segunda, nos anos 90, com grande influência de organismos como a OCDE, OMC, atrelando fortemente as avaliações nacionais aos organismos multilaterais. Como hipótese de trabalho, sugere a terceira versão como o pós-Estado Avaliador e o Estado Competitivo, com o enfraquecimento de inciativas estatais anteriores no campo da Avaliação e o novo protagonismo das agências como OCDE e OMC. Coadunando com tal afirmação, vimos na Ata da 147ª Reunião Ordinária da Conaes em 19 de junho de 2018 (BRASIL, 2018a), o momento em que apresenta a OCDE como realizadora de uma meta-avaliação do Sinaes, ação prevista para o aprimoramento do sistema avaliativo.
Na Educação Básica exemplificamos o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), criado em 1990, reestruturado em 2005, que conta com Avaliações em larga escala, de formatos censitários e amostrais, sendo a mais conhecida a Prova Brasil, aplicada nas escolas públicas, no 5º e 9º ano do Ensino Fundamental9. Ao final do Ensino Médio o aluno ainda é mais uma vez avaliado pelo Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), exame criado para avaliar o desempenho escolar ao final do Ensino Médio, que posteriormente passou a ser utilizado como forma de seleção tanto em ingresso em IES públicas, como para participação de programas de bolsas para custear os estudos em IES privadas, como o Programa Universidade para Todos (Prouni).10
Enfim, o estudante é avaliado por processos de larga escala ao longo de toda sua vida escolar. Na Educação Superior vamos nos deter a analisar, com brevidade os programas que antecederam o Sinaes, criado como Sistema em 2004. Em si, o discurso de Sistema pode remeter a organização, a um sistema fechado, definido pelas características que o compõem, ou, para Costa (2016, p. 16), referindo-se ao Sistema Nacional de Educação. Conforme o autor, o sistema é ―[...] produzido na coexistência de negociações de sentidos, e tais negociações estão em disputa, conflito e aliança na trama discursi [...].‖ O Sinaes também foi [é] produzido na disputa de negociações, como um sistema de avaliação.