• Nenhum resultado encontrado

Por uma identidade negra carnavalesca bageense

Tendo em vista a apresentação de territórios negros em uma cida- de do interior do Rio Grande do Sul, que possibilita um olhar que dê visibilidade aos sujeitos negros e negras presentes em solo gaúcho, bem como a descrição das práticas ligadas ao Carnaval local que formam redes e espaços de sociabilidade negra, acredito na importância que o período momesco bageense tem na formação de uma identidade negra local. É através dessa perspectiva que o Carnaval de rua de Bagé se apresenta enquanto um importante fator de construção de identidade, que histo- ricamente foram forjados e pensados por negros e negras enquanto espa- ços associativos. No período do pós-abolição, blocos, cordões e ranchos foram importantes marcadores culturais da população negra bageense (SILVA, 2018). As experiencias associativas dos sujeitos negros e negras colocou Bagé no cenário de protagonismo negro que se forjava nacional- mente. Silva (2018) aponta a importância da imprensa negra e dos clubes sociais enquanto a busca de visibilidade em uma sociedade marcada pelo

racismo. Periódicos como O Teimoso (1928), O Palmeira (1922, 1927, 1949, 1952), A Liberdade (1920), O Rio Branco (1913), por exemplo, foram apresentados pelo autor enquanto ferramentas associativas e de organização dos negros de Bagé. Esses periódicos noticiavam tanto a si- tuação do negro local como atividades culturais e recreativas.

Cordões e blocos carnavalescos negros também são apontados por Silva (2018) enquanto espaços associativos, que através dos corsos cria- vam espaços de visibilidade para os negros de Bagé. Assim como os cor- dões e blocos carnavalescos, Silva (2018) atenta para a importância dos Clubes Sociais Negros enquanto espaços associativos e de positivação racial para o negro bageense. Com isso, tanto a imprensa negra como os blocos e os clubes sociais são descritos por Silva (2018) enquanto práticas de resistência, de enfrentamento e racialização dos espaços. A discussão acerca da importância do protagonismo negro no pós-abolição em Bagé apresenta um caráter de busca por identidades ligadas à população negra local desde o início do século XX. Essas práticas estão diretamente liga- das à identidade que fora construída no período carnavalesco e que se apresenta na contemporaneidade.

Cabe destacar neste trabalho a importância de estudos de pesqui- sadores e pesquisadoras negros e negras sul-rio-grandenses acerca do pro- tagonismo negro gaúcho, como, por exemplo, Escobar (2017), que trará importantes discussões sobre a formação de espaços de sociabilidade negra na cidade de Santa Maria através do Clube Ferroviário Treze de Maio. A intelectual negra Fernanda Oliveira realizará importantes debates acerca do associativismo negro na cidade de Pelotas, apresentando a importância da construção de uma identidade negra positiva e coletiva na cidade da região sul do estado (SILVA, 2011). Nos estudos de Rosa (2008) a respeito do Carnaval negro de Porto Alegre nas décadas de 1930 e 1940, o autor apresenta as diferentes representações e sentidos atribuídos pelos sujeitos negros no Carnaval da capital gaúcha, num período marcado por fortes discursos de brasilidade, no qual o autor aponta como os sujeitos negros e negras dialogavam e atribuíam seus sentidos para a festa. Outra contri- buição que considero importante para os estudos acerca do associativismo negro gaúcho foi realizada por Gomes (2008), que investigou a construção de uma identidade étnica negra na cidade de Caxias do Sul através do clu- be de futebol Sport Club Gaúcho. A pesquisa de Gomes (2008), além de abordar questões importantes a para construção de uma identidade negra

caxiense, é de suma importância para “quebrarmos” com os estereótipos ligados ao estado do Rio Grande do Sul, tendo em vista que a cidade de Caxias está localizada na Serra Gaúcha, região de visitação turística.

Tendo em vista a importância de pesquisas vinculadas a intelectuais negros e negras sul-rio-grandenses e que tem em seus trabalhos o protago- nismo negro gaúcho, entende-se que a construção e uma identidade negra ligada ao Carnaval de Bagé perpassa por esses debates, sendo crucial para que busquemos um entendimento do campo do pós-abolição enquanto um período marcado por lutas, enfrentamentos e por um amplo associa- tivismo negro. Levando em consideração a importância dos espaços asso- ciativos forjados por sujeitos negros e negras no início do século XX, per- cebe-se que o Carnaval de rua de Bagé guarda inúmeros resquícios dessas práticas, ou seja, o é uma festa negra, protagonizada pelos negros e negras presentes nos inúmeros territórios negros da cidade.

A relevante pesquisa de Maia (2008) aponta a importância do ins- trumento sopapo8 enquanto formador de uma identidade ligada ao Carna-

val de rua de Pelotas, que também tem fortes ligações com o Carnaval de rua de Bagé. Instrumento de origem diaspórica, o sopapo foi amplamente utilizado nos carnavais de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre na década de 1940. Em Bagé, o sopapo aparece nas narrativas dos foliões mais antigos, como nas de um dos fundadores do Bloco Burlesco Brasa Viva, seu Alípio, que afirma que o primeiro sopapo da agremiação foi trazido por seu irmão da cidade de Pelotas. Tocado com as mãos e de maneira diferente dos tam- bores comuns, o sopapo aparece enquanto um instrumento que era tocado por negros no Carnaval de rua de Bagé, como recorda-se Alípio, ao citar os apelidos de alguns sopapeiros: escuro, nego e capoeira (SILVA, 2019, p. 124-5). Com o passar dos anos, porém, o sopapo foi deixando de ser usado nos desfiles das agremiações em Bagé, ao passo que os próprios tambores comuns, em algumas ocasiões, eram tocados com as mãos, não somente ressignificando o instrumento, como também trazendo a importância da

8 O sopapo, um gênero de tambor de grandes dimensões conhecido hoje nas cidades de Rio Grande, Pelotas e Porto Alegre, é cercado por incertezas quanto às suas origens e circulação. Produto da reconstrução diaspórica, atribuído aos escravos trabalhadores das Charqueadas em Pelotas e Rio Grande, no século XIX, o instrumento foi ampla- mente usado a partir da década de 1940 em escolas de samba nessas cidades, conferindo particularidades ao samba executado pelas baterias destas escolas (Maia, 2008, p. 13-4).

tradição percussiva do sopapo no Carnaval de rua bageense.

Mesmo que o sopapo não apareça no Carnaval de rua de Bagé enquanto instrumento, ou seja, no seu formato original, percebemos sua herança e ressignificação ao vermos tocadores de tambores executando suas batidas com as mãos, lembrando os antigos sopapeiros. Ao anali- sarmos a construção de identidades ligadas ao período diaspórico, como o próprio sopapo, cabe apontar aqui a contribuição do importante inte- lectual negro Stuart Hall, que versa sobre a importância de abrirmos o conceito de diáspora – este fundado na diferença – para que possamos perceber a identidade enquanto uma subversão dos modelos culturais tradicionais, onde esta seria confrontada com os modelos hegemônicos (HALL, 2003, p. 36). Tomando essa análise e relacionando-a com o Car- naval de rua de Bagé, os festejos de Momo estariam em contraste com as manifestações ligadas ao gauchismo.

Enquanto as manifestações gaúchas, como por exemplo, os desfiles do dia 20 de setembro – comemorativo ao dia do gaúcho –, são vistos como essenciais para a formação da identidade do estado, o Carnaval não recebe esse mesmo tratamento. Portanto, abordar aspectos acerca da construção de identidades que não estejam rela- cionados ao gauchismo e à visão – branca do estado é de extrema importância, pois assim conseguiremos visibilizar os sujeitos negros e suas manifestações culturais presentes no estado do Rio Grande do Sul. (SILVA, 2019, p. 128)

O antropólogo Munanga (2012) apresenta importantes contribui- ções no campo das construções identitárias acerca do sujeito negro. Partin- do de uma perspectiva de identidade enquanto uma categoria não fixada, o autor afirma que a identidade negra passa pela negritude enquanto uma categoria sócio-histórica, sendo a identidade negra uma definição do pró- prio grupo enquanto coletivo. Essas construções configuram-se de maneira contrastante perante outros grupos. Para Munanga (2012) há uma impor- tância em pensarmos a negritude enquanto solidariedade entre os sujeitos negros e negras e que essa negritude é uma ferramenta de luta que busca não só a visibilidade desses sujeitos, bem como o protagonismo na forma- ção identitária brasileira. Portanto, é através da solidariedade entre os su- jeitos negros e negras (MUNANGA, 2012) e na identificação, nos pontos de apego e nas demarcações de diferenças (HALL, 2000) que a identidade negra carnavalesca bageense é forjada.

Não tendo somente o contraste com as manifestações de cunho gau- chescas, bem como a apropriação de uma via importante da região central da cidade, é que o Carnaval de rua de Bagé se apresenta enquanto um período protagonizado por sujeitos negros e negras. Os desfiles dos blocos burlescos ressignificam os espaços centrais da cidade, dão novos sentidos a esses locais e os toques dos tambores e as evoluções das alegorias, estas oriundas das comunidades de Bagé, forjam uma identidade negra ligada ao Carnaval, ou seja, a identidade negra carnavalesca bageense.

Considerações finais

O Carnaval de rua de Bagé, através dos desfiles das escolas de samba, dos blocos carnavalescos e burlescos, tem um forte caráter popular, ou seja, está diretamente ligado às comunidades negras do município. A apresenta- ção e a descrição de territórios negros no interior do estado do Rio Grande do Sul são uma maneira de ajudar na construção de um novo olhar, que visa a acabar com o estereótipo que fora construído acerca da formação da identidade gaúcha, bem como o estado é visto pelo restante do Brasil. Foi através de uma etnografia em terreno familiar que pude apresentar não só os territórios negros existentes em uma cidade interiorana gaúcha, bem como apontar quais práticas são empreendidas dentro desses espaços.

A descrição dos blocos burlescos As Mimosas do Jacaré e os Gatões foi de extrema importância para pensarmos as manifestações culturais que são forjadas dentro dos territórios negros residenciais, como os en- saios das agremiações e a realização de atividades voltadas para o lazer dentro das comunidades. Os desfiles apresentam-se enquanto formado- res de espaços de sociabilidade negra, ao mesmo tempo que são forjados os territórios negros de ocupações interacionais, ou seja, o centro de Bagé se apresenta enquanto ponto de encontro para os sujeitos brincantes do Carnaval, que atribuem novos sentidos e realizam trocas, estas permeadas por códigos e identificações.

Por fim, tendo os territórios negros, sejam os territórios de ocupa- ções residenciais (sede da agremiação), sejam os de ocupações interacio- nais (centro da cidade no período momesco), redes de sociabilidade negra decorrem desses espaços, tendo como referência as inúmeras práticas que estão ligadas à população negra local, que forja através delas uma identi-

dade negra ligada ao Carnaval bageense. A identidade negra carnavalesca bageense só é possível em decorrência da existência dos territórios negros e das práticas carnavalescas que emanam desses territórios. Por uma identi- dade negra local nada mais é do que a reivindicação da presença de sujeitos negros e negras em solo gaúcho e do protagonismo assumido por esses sujeitos na formação da identidade sul-rio-grandense.

Referências bibliográficas

ANJOS, José Carlos Gomes. No território da linha cruzada: a cosmopolítica afro-brasilei- ra. Porto Alegre: Editora da UFRGS/Fundação Cultural Palmares, 2006.

BITTENCOURT Jr. Losvaldyr Carvalho. Territórios Negros. In: SANTOS, Irene (org.).

Negro em preto e branco: história fotográfca da população negra em Porto Alegre. Porto

Alegre: Do autor, 2005.

CLEMENTE, Claudelir Correa; SILVA, José Carlos Gomes. Dos quilombos à periferia: reflexões sobre territorialidades e sociabilidades negras urbanas na contemporaneidade.

Crítica e Sociedade: revista de cultura política. v. 4, n.1, Dossiê: Relações Raciais e Diver-

sidade Cultural, jul. 2014.

ESCOBAR, Giane Vargas. “‘Para encher os olhos’: identidades e representações culturais das rainhas e princesas do clube treze de maio de Santa Maria no jornal A Razão (1960- 1980)”. (Tese de Doutorado). Programa de Pós-Graduação em Comunicação. Universi- dade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, 2017.

GEERTZ, Clifford. Obras e vidas: o antropólogo como autor. 3 ed. Editora UFRJ, 2009. GOMES. Fabrício, Romani. “Sob a proteção da Princesa e São Benedito: identidade ét- nica, associativismo e projetos num clube negro em Caxias do Sul (1934-1988)”. Disser- tação. Programa de Pós-Graduação em História. Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), 2008.

GUTERRES, Liliane Stanisçuaski. “‘Sou imperador até morrer...’: um estudo sobre iden- tidade, tempo e sociabilidade em uma escola de samba de Porto Alegre.” (Dissertação de Mestrado) PPG História: UFRGS, Porto Alegre, 1996.

HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

HALL, Stuart. Quem precisa da identidade? In: SILVA, Tomaz Tadeu (org. e trad.). Iden-

tidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 103-133.

LEITE, Ilka Boaventura. Território negro em área rural e urbana – algumas questões.

MAGNANI, José Guilherme Cantor. De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana. RBCS Vol. 17 n. 49, junho/2002, p. 11-29.

MAGNANI, José Guilherme Cantor. Festa no pedaço: cultura popular e lazer na cidade. 2 ed. São Paulo: Hucitec/UNESP, 1998.

MAIA, Mario de Souza. “O Sopapo e o Cabobu: etnografia de uma tradição percussiva no extremo sul do Brasil” (Tese de Doutorado). (PPG Música) UFRGS, Porto Alegre RS, 2008.

MUNANGA, Kabengele. Negritude e identidade negra ou afrodescendente: um racismo ao avesso? Revista da ABPN. v. 4, n. 8, jul.-out. 2012, p. 6-14.

ROSA, Marcus Vinícius de Freitas. “Quando Vargas caiu no samba: um estudo sobre os significados do Carnaval e as relações estabelecidas entre os poderes públicos, a imprensa e os grupos de foliões em Porto Alegre durante as décadas de 1930 e 1940.” (Dissertação de Mestrado). Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), 2008.

SILVA, Fernanda Oliveira da. “Os negros, a constituição de espaços para os seus e o entre- laçamento destes espaços: associações e identidades negras em Pelotas (1820- 1943).” (Dis- sertação de Mestrado). Programa de Pós-Graduação em História. PUC, Porto Alegre, 2011. SILVA, Rafael Rosa. “‘Saí da vila e fui sambar lá no asfalto’: território, sociabilidade e identidade negra no Carnaval de rua de Bagé RS.” (Dissertação de Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades. PPCULT: UFF, Niterói, 2019. SILVA, Tiago Rosa. “Vivências e experiências associativas negras em Bagé-RS no pós -abolição: imprensa, Ccarnaval e Clubes Sociais Negros na fronteira sul do Brasil - 1913- 1980.” (Dissertação de Mestrado). PPG História: UFPEL, Pelotas, 2018.

SIMMEL, Georg. A natureza sociológica do conflito. In: MORAES FILHO, Evaristo (org.), Simmel, São Paulo, Ática, 1983.

SIMMEL, Georg. Questões fundamentais da sociologia: indivíduo e sociedade [tradução, Pedro Caldas]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.

6

“o lArgo dA bAtAtA é nosso”:

dinâmicAs sociAis, políticAs e

identidAdes nA metrópole pAulistA

1

Eymard Ribeiro2 Neste artigo pretendo apresentar as representações territoriais e cul- turais no Largo da Batata, local de manifestações artísticas e resistências culturais, provocando uma centralidade nova na cidade de São Paulo, ana- lisando suas manifestações dentro das dinâmicas sociopolíticas desse espa- ço e a produção de novas identidades culturais a partir da exploração de informações coletadas em campo durante os anos de 2015, 2016 e 2017, quando experimentei muitas incursões no território e tive a oportunidade de acompanhar alguns eventos realizados nesse local.

Neste artigo, tenho como objetivo analisar, contrastivamente, as es- tratégias dos diferentes segmentos sociais em disputa no território.