O PORTFÓLIO NO PROCESSO AVALIATIVO
2 PORTFÓLIO E AS METODOLOGIAS INADEQUADAS
Portfólio atende a diferentes propósitos e se organizam a partir de uma compilação de trabalhos ou objetos produzidos, elaborados por indivíduos vinculados a determinada atividade profissional. Essa organização expõe experiência, competência, habilidades, qualidades e especificidades. A utilização do portfólio por empresas é comum, para convencer clientes e público-alvo de seus produtos ou serviços. O uso pedagógico do portfólio destina-se aos avanços acadêmicos que o estudante conquista em seu processo de ensino e aprendizagem.
Entende-se portfólio como organização de arquivos relacionados a produtos registrados com determinada finalidade. Frequentemente empresas e instituições públicas ou privadas adotam esse recurso. Na educação, da mesma forma coleciona as atividades dos alunos para configurar um portfólio. Essa ação pedagógica é mais frequente na avaliação dos itens do portfólio, desconsiderando o processo evolutivo conquistado.
O prefixo “port” oriundo do latim significa transportar. Alguns dicionários de inglês estabelecem a palavra “folio”, como livro de grandes páginas. Fica evidente que o portfólio se organiza por elementos soltos, unidos em pasta, física, digital ou virtual em disposição cronológica e capaz de registrar processos evolutivos de ações pedagógicas, além de percurso de aprendizagem de cada estudante. Desta forma, ampliam-se aos processos avaliativos, novas perspectivas.
Ainda no campo da educação, Hernández (1998, p. 99) determina:
A utilização do portfólio como recurso de avaliação é baseada na ideia da na- tureza evolutiva do processo de aprendizagem. O portfólio oferece aos alunos e professores uma oportunidade de refletir sobre o progresso dos estudantes em sua compreensão da realidade, ao mesmo tempo em que possibilita a in- trodução de mudanças durante o desenvolvimento do programa de ensino. Além disso, permite aos professores aproximar-se do trabalho dos alunos não de uma maneira pontual e isolada, como acontece com as provas e exames, mas, sim, no contexto do ensino e como uma atividade complexa baseada em elementos e momentos de aprendizagem que se encontram relacionados.
Logo, Hernández defende a pedagogia de projeto, e as estratégias metodológicas que invertem a ordem da transmissão do conhecimento, na aprendizagem para o protagonismo estudantil. A memorização e a visão do docente, como detentor do saber abre novas possibilidades, quando o aluno é desafiado em novas proposições, a partir de soluções para determinada situação problema. (HERNÁNDEZ, 1998). Nesse sentido, Hernández elucida sobre as situações de aprendizagem e a autonomia dos estudantes, na perspectiva da reflexão, discussão, observação, criticidade e tomada de decisões. A prática pedagógica ativa, estabelecida, a partir de projeto pedagógico conduz o aluno para novas atitudes e busca de conhecimentos.
Vale destacar que segundo o Patrono da Educação do Brasil, Paulo Freire (2018, p. 47), “Saber que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. Assim, Freire alerta para a necessidade de se criar indagações que, promovam curiosidades, reflexões e críticas. Ele destaca que a tarefa de ensinar não é transferir conhecimento, ou seja, o discurso docente sobre a teoria deve ser o exemplo concreto e prático da teoria. Freire afirma que o “pensar certo” é saber o que ensinar e não transferir conhecimentos.
As metodologias pedagógicas cartesianas adotadas no processo de ensino e aprendizagem, orientadas para a fragmentação do conhecimento são questionadas, bem como os processos avaliativos resultados dessas práticas.
Certamente, a reflexão sobre as práticas pedagógicas, bem como suas metodologias são fundamentais. Refletir sobre as trilhas pedagógicas tradicionais e conservadoras que as instituições e docentes adotam será
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fundamental, pois não surtem bons resultados, ao examinar que as estruturas da experiência com o conhecimento ficam tensionadas em estratégias pífias, que não focalizam o estudante como protagonista do processo.
A resposta do aluno é aferida, a partir da avaliação, da mesma forma tradicional e conservadora, que não considera o estudante seu meio social e político. Freire e Hernández apresentam importantes questionamentos sobre a prática docente. Atualmente, a métrica mais utilizada pelos docentes relaciona a ordem das competências e habilidades que são adotadas pelas escolas e Base Nacional Comum Curricular – BNCC. Elas preveem que estudantes tenham respostas e saberes capazes de atender às mudanças sociais (PERRENEOUD, 1999, p.32) ao declarar que “a escola deve oferecer situações escolares que favoreçam a formação de esquemas de ações e de interações relativamente estáveis e que, por um lado, possam ser transportadas para outras situações comparáveis, fora da escola ou após a escolaridade”
O exemplo disso verifica-se na Base Nacional Comum Curricular – BNCC1
em que as competências e habilidades são as únicas e/ou principais métricas estabelecidas para a educação básica no Brasil. Nesse documento, BNCC a palavra avaliação aparece quarenta vezes em seu texto e somente uma vez: avaliação formativa. A palavra portfólio surge apenas três vezes e somente no caderno: educação infantil. Ou seja, não enfatizar processos avaliativos diferenciados, pode restringir para costumes avaliativos cristalizados na prática docente.
2.1 Portfólio de Aprendizagem
Freire alerta para a prática docente crítica, implicante do pensar certo, em dinâmica dialética entre a ação pedagógica e a reflexão sobre tais ações. “o próprio discurso teórico, necessário à reflexão crítica, tem de ser de tal modo concreto que quase se confunda com a prática” (FREIRE, 2018, p. 40).
A utilização do portfólio na aprendizagem, bem como na avaliação são indissociáveis, ao verificar que há metodologias e avaliações que se tangenciam favoravelmente ao processo de ensino e aprendizagem e ao protagonismo estudantil. Tais práticas corroboram com os fundamentos freirianos e com as teorias de Hernandez. Destaca-se que a verificação das avaliações considera os resultados dos estudantes e das metodologias implementadas, a partir de reflexões sobre as práticas dos protagonistas, docentes e discentes. O processo avaliativo não deve ser punitivo, classificatório ou competitivo, A avaliação deve
1 Destaca-se que a BNCC foi elaborada em parceria com diversas instituições filantrópicas afortunadas
pelo capital financeiro, e organiza um documento que está estruturado ao formato econômico que se baseia em desempenhos universais da aprendizagem. Nesse sentido o ranqueamento estabelece conteúdos míni- mos, relação metodológica pautada em competências e habilidades e caráter tecnicista. A BNCC não é currículo, porém norteia sua elaboração.
ser inclusiva, dinâmica e construtiva. A avaliação diferente da métrica dos exames, que possuem propósitos distintos, não seleciona o estudante (LUCKESI, 2001).
Segundo Luckesi, a avaliação é um processo de diagnosticar que objetiva constatar o estado de algo, (objeto, projeto, ação, fenômeno, aprendizagem, indivíduo...). E isso se inicia por parâmetros mensuráveis de sua constatação e diagnóstico capazes de qualificar, quantificar, atribuir e valorar positivamente ou negativamente.
Nesse sentido o portfólio, como prática avaliativa, potencializa a aprendizagem, pois contribui para que o estudante perceba seu processo. O docente em determinados momentos deixa de ser o avaliador e o aluno deixa de ser o avaliado. Vale destacar que o caráter avaliativo do docente se amplia, ao verificar novas situações de parceria na relação docente – discente. Metodologias para a avaliação são identificadas, no entanto, esse artigo não as abordará, porém reconhece sua relevância.
O portfólio deixa de ser um mero depósito de coleta de dados para identificar “produções” de desempenho da aprendizagem do estudante. Salienta-se que o portfólio propicia um método avaliativo, pois envolve o docente e o aluno na mesma ação pedagógica, a partir da dialogicidade – conceito estabelecido por Freire, a partir da luta pela libertação do ser oprimido, a partir de uma sustentação ética e de esperança (FREIRE, 1997, p. 32).
As vantagens do portfólio se estendem para: a autoavaliação, autonomia discente, elaboração dos dados dos alunos, elaboração dos dados organizados pelos alunos, criatividade na organização dos dados, parceria professor – aluno e avaliação formativa.