• Nenhum resultado encontrado

POTENCIALIDADES EXPLORADAS E INEXPLORADAS DAS NTIC COMO

As NTIC são uma realidade e a sua ampla utilização, com garantia de acesso a todos, tornou-se corolário dos avanços em termos de participação social democrática. Não obstante, sua utilização no Brasil já poderia ter alcançado um patamar mais significativo.

Convém descrever e analisar criticamente as iniciativas governamentais e as iniciativas sociais voltadas ao uso das NTIC no incremento da participação cidadã no processo democrático.

2.5.1 Iniciativas governamentais

As diveras esferas governamentais por seus variados órgãos parecem ter adotado, até o presente momento, dois tipos de iniciativa de incremento da participação popular por meio das NTIC: a) disponibilização de informações como

reforma constitucional, que precisava ser aprovado pelo Parlamento em duas votações sucessivas com uma eleição entre elas. De qualquer modo, “O fato de a Constituição de um país poder refletir explicitamente princípios que, no contexto do capitalismo global, são revolucionários mostra o elo direto entre um processo de crowdsourcing genuinamente popular e o conteúdo resultante desse processo participativo. Deve-se lembrar que a consulta e a elaboração ocorreram num período de quatro meses, tal como exigido pelo Parlamento, o que desmente a noção de ineficácia da democracia participativa. Claro, a Islândia tem apenas 320 mil habitantes. Mas os defensores da experiência argumentam que, com a internet, com o pleno domínio dela e o acesso irrestrito a ela, esse modelo de participação política crowdsourcing do processo legislativo é passível de ampliação. [...] Entretanto, se a crise de legitimidade política continua a se espalhar pelo mundo, e se cidadãos de toda parte continuam à procura de inspiração na busca de uma verdadeira democracia, as bases tecnológicas e culturais desse aprofundamento da democracia representativa podem ter sido lançadas num pequeno país feito de gelo e fogo, situado numa ilha do Atlântico Norte” (2017, ePub).

medida de transparência e prestação on line de serviços19; b) consulta sobre projetos de lei e políticas públicas em gestação20.

Já existem pesquisas empíricas efetuadas e estudos de casos apresentados, sob a perspectiva da comunicação e da ciência política, que examinam a extensão e o alcance de iniciativas governamentais como essas aqui mencionadas.

Em exame dos canais participativos presentes nos portais da Presidência da República e da Câmara dos Deputados, Francisco Marques constata a inexistência de uso mais efetivo das potencialidades participativas por parte do primeiro, enquanto o segundo lida melhor com essas possibilidades:

No caso do Portal da Presidência, o fornecimento de endereços de e- mail se mostrou o recurso mais comum. Ainda que seja auferida aos órgãos do Planalto a chance de operacionalizar mecanismos mais efetivos de participação, o potencial da Internet é utilizado de maneira rudimentar. Os poucos canais de comunicação com capacidade participativa encontrados no Portal da Presidência apresentam, como traço primaz, uma interação individualizada. [...] O Portal da Câmara encarna uma postura diferente, dispondo de uma multiplicidade de canais participativos, a exemplo das salas de bate-papo e dos fóruns. Atribui-se tal distinção ao fato de que, nesta iniciativa, houve um cuidado melhor no planejamento e na administração dos recursos de informação e comunicação digitais, buscando-se inovar constantemente e atender às exigências crescentes dos usuários, integrando-se, ainda, aquelas seções mais pertinentes da instituição à operação do site (2011, p. 115).

Enfim, no que se refere ao primeiro aspecto (disponibilização de informações como medida de transparência e prestação on line de serviços), a despeito de sua importância até mesmo elementar, dado o estágio tecnológico a que se chegou, a constatação crítica é a de que se trata de iniciativa insuficiente e incapaz de aproveitar as melhores pontencialidades das NTIC no estímulo à participação da cidadania no debate público e nas deliberações fundamentais:

Esse tipo de iniciativa, embora importante, não parece captar as efetivas potencialidades transformadoras da era digital -

19 Já se apontou, inclusive, que nesse sentido é a Lei n° 12.527/2011 - “Lei de Acesso à Informação - LIA”, “[...] que obriga a divulgação pelos órgãos e entidades públicas de ‘informações de interesse coletivo ou geral por eles produzidas ou custodiadas’, impondo-se a transparência mediante utilização, para além dos meios tradicionais, dos respectivos sítios oficiais na internet (Art. 8º, caput, §§ 1º e 2º, Art. 10, § 2º, Art. 30, incisos I, II e III)” (MONTEIRO; MACÊDO, 2017, p. 155-156).

20 Ana Cristina Azevedo Pontes apresenta com detalhes a consulta pública realizada pelo Ministério da Justiça a propósito do marco civil da internet como prova da “e-democracia” no Brasil (2013).

potencialidades de proporcionar mudanças paradigmáticas do exercício da cidadania ativa na democracia participativa - pois compõem mesmo um arquétipo no qual as novas ferramentas tecnológicas de comunicação são utilizadas apenas para aperfeiçoar o modelo liberal-democrático-representativo de cidadania (MONTEIRO; MACEDO, 2017, p. 156).

A observação de Wilson Gomes, a propósito da perspectiva de Norris, é bem precisa e direta, sobre tratar-se esse tipo de utilização governamental das NTIC como “mais do mesmo”:

[...] melhore-se a comunicação mediante novos e mais eficazes canais, acelerem-se e se aumentem os fluxos de informação, intensifique-se a transparência, estenda-se a responsabilização dos agentes do Estado, tudo isso via tecnologias digitais, e um projeto legítimo e eficiente de democracia digital terá sido implantado.

Com isso, Norris toma como evidente que democracia eleitoral (eleições limpas e livres, precedidas de e acompanhadas por uma opinião livre e pluralista, de diversidade partidária, com alternância de partidos ao poder, que assegura a liberdade de consciência, com colegiado universal e com igualdade política dentre os cidadãos) mais liberdades civis e políticas são os ingredientes fundamentais para uma democracia saudável. Ora, não há dúvida que esta base, típica da democracia liberal, é de fato fundamental, mas só no sentido de que é um fundamento, uma base, qualificada e irrenunciável. Mas para um corpo significativo de literatura, uma base insuficiente para um padrão adequado de democracia. Admitida tal base, ainda assim se arrolam um número impressionante de déficits institucionais e culturais da democracia liberal, de conseqüências negativas a serem reparadas, de desvios institucionais a serem corrigidos, de riscos a serem evitados, de tendências a serem reforçadas e, por fim, por último, mas não de menos importância, de princípios essenciais a serem ainda implementados (grifou-se) (2015, p. 8).

Já sobre o segundo aspecto - consulta sobre projetos de lei e políticas públicas em gestação – tem-se iniciativa mais próxima da exploração das melhores potencialidades das NTIC na otimização da participação social no debate público e nos processos deliberativos.

É o caso das periódicas enquetes disponibilizadas nos sítios da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, acerca de proposições legislativas em tramitação, bem como consultas formuladas por órgãos do Poder Executivo. Existe intenso debate e até mesmo ativismo político nas redes sociais, quando adeptos de determinado viés sobre os conteúdos dos projetos disponibilizados para consulta efetuam campanhas de mobilização para que os cidadãos acessem os respectivos

sites e se manifestem, para dar maior força e visibilidade às suas vertentes de opinião quanto àqueles assuntos na disputa social e na perspectiva de conseguir influenciar o Parlamento no momento deliberativo.

Todavia, é fácil constatar que tais iniciativas,

[...] embora propositivas de interação da cidadania na formulação de determinadas políticas públicas, esbarram no limite de fácil percepção: o controle governamental, na íntegra, da participação social em todo o processo, desde a origem (o que consultar, como consultar) até o resultado definitivo (o que fazer, em termos deliberativos, com o apanhado das diversificadas opiniões e sugestões captadas na consulta pública) (MONTEIRO; MACEDO, 2017, p. 157).

Francisco Marques também conclui nessa linha de pensamento, ao abordar a maior utilização, pelo Portal da Câmara dos Deputados, dos canais participativos e identificar a resistência dos “agentes institucionais” em aceitar a participação como parceria de integração do processo de decisão política:

Mesmo em experiências nas quais se percebe uma maior provisão de canais participativos, são de se questionar, por exemplo, os efeitos políticos que tais recursos podem gerar, uma vez que não adianta dar voz e oportunidades de expressão e discussão aos usuários se a eles não se demonstra, também, seriedade na consideração das questões encaminhadas (2011, p. 116).

2.5.2 Iniciativas sociais

No já mencionado artigo sobre a cidadania ativa na “era digital”, Maurício Gentil Monteiro e José Eduardo Macêdo bem expõem que “É no campo das iniciativas da sociedade voltadas ao exercício da cidadania ativa no ambiente da ‘era digital’ que se apresentam experiências mais férteis e com potencialidades mais agudas” (2017, p. 157).

Afinal, já se fala em opinião pública digital21 e sua importância no espaço público:

21 Pierre Lévy já preconizava, em 2001, que “A opinião pública moldar-se-á cada vez mais em listas de discussão, fóruns, salas de conversação, redes de sítios interligados e outros dispositivos de comunicação próprios para as comunidades virtuais, dos quais alguns media ‘clássicos’ serão, quando muito, pontos de reunião. Neste enquadramento, o texto de um jornalista distinguir-se-á cada vez menos da opinião de um especialista de renome ou de um internauta de escrita fácil num grupo de discussão. A noção de opinião pública (a insistir na manutenção desse termo) qualificará prioritariamente comunidades linguísticas e de afins diversos mais do que cidadãos de um Estado.

[...] já se pode apontar a consolidação de uma “opinião pública digital”, em paralelo à tradicional “opinião pública” reverberada pelos meios tradicionais de comunicação social (televisão, rádio, jornais, revistas). Essa “opinião pública digital” é composta por cidadãos que se acostumaram a ler notícias e reflexões a partir de conteúdos disponibilizados na internet, tanto os conteúdos disponibilizados pelas corporações de comunicação social já existente em seus sítios oficiais como, sobretudo, por conteúdos disponibilizados por jornalistas e grupos de modo autônomo, no sentido de não vinculados aos grupos empresariais de comunicação.

Trata-se do fenômeno da difusão de blogs com conteúdos políticos, econômicos e culturais, com ampla diversidade ideológica e com espaço para abordagens bem diferentes daquelas usualmente tratadas na mídia convencional.

E essa “opinião pública digital” explodiu com o advento e consolidação das “redes sociais”, por meio das quais tanto pessoas conhecidas e famosas no espectro político e da informação (jornalistas, políticos) quanto qualquer cidadão expressam livremente suas opiniões, debatem temas polêmicos, interagem entre si, difundem ideologias e propostas de ação, combinam mobilizações, dentre tantas outras práticas cuja catalogação exaustiva seria difícil de elaborar.

Nesse contexto é que podem ser citadas, apenas como exemplos, iniciativas como “Avaaz.org – o mundo em ação” (por meio da qual é possível a qualquer cidadão elaborar um “petição on line” como parte de uma determinada pauta social mobilizadora) ou “Vote na Web”, iniciativas da sociedade, que apontam para a cidadania ativa de modo mais efetivo (MONTEIRO; MACÊDO, 2017, p. 157-158).

Enfim, não obstante essas iniciativas sociais assumam especial relevância no apontamento de possíveis caminhos de viabilização da democracia participativa com o uso intenso das NTIC, o fato é que não conseguem escapar da mesma crítica efetuada às iniciativas governamentais adotadas até o presente momento: remanesce o controle governamental, especificamente do resultado final do processo:

Aliás, a maioria das comunicações no ciberespaço estão a adquirir um caráter ‘público’. O mínimo correio eletrônico pode ser reproduzido, reenviado, interceptado, etc. As pessoas que frequentam várias comunidades virtuais fazem passar de uma para outra as informações que consideram pertinentes. Tudo quanto surge num sítio pode ser visto e indexado pela via de um link de hipertexto pelos internautas de todo o mundo. Por conseguinte, a esfera pública está em crescimento e em reorganização continuados. Ela desdobra-se, particulariza-se em pequenas e médias comunidades, cola-se aqui e acolá, floresce noutro ponto, reconstitui uma singularidade nesta ou naquela área do espaço semântico (e qualquer regularidade pode morrer ou propagar-se de modo fulgurante), etc. É aquilo a que poderíamos chamar o carácter fractal da conversação ou da inteligência coletiva no ciberespaço. Em vez de apenas se multiplicarem num único nível, numa única escala (no palco clássico dos media), as suas formas, complexas e dinâmicas, reproduzem-se em todas as escalas e passam imprevisivelmente de um nível para o outro no seio da rede viva, móvel e em expansão da inteligência colectiva da humanidade” (2012, p. 53-54).

É claro que, também aqui, há o limite mencionado no item anterior, que é o integral controle governamental da participação social no processo, senão da origem, mas do resultado final (o que fazer, em termos deliberativos, com o apanhado das diversificadas opiniões e sugestões e mobilizações decorrentes das iniciativas sociais).

Porém, esse limite é mesmo o limite da cidadania ativa em seu conjunto, e não se localiza apenas no exercício da cidadania pela via das novas ferramentas tecnológicas de comunicação: como fazer da cidadania ativa a expressão maior da deliberação democrática? Como efetivar a soberania popular, a determinação constitucional de que todo o poder emana do povo? Enfim, como materializar a democracia participativa? (MONTEIRO; MACÊDO, 2017, p. 158- 159).