4.2 Processo de hidr´ olise
4.2.2 Pr´ e-hidr´ olise
O baga¸co tratado passa ent˜ao por um reator de pr´e-hidr´olise no qual recebe vapor, ´acido dilu´ıdo e ´agua, por´em o pH n˜ao ´e t˜ao baixo quanto aquele necess´ario para a rea¸c˜ao de hidr´olise.
Dados de cin´etica das rea¸c˜oes de pr´e-hidr´olise (convers˜ao de hemicelulose a pentose e decomposi¸c˜ao a furfural e ´acido ac´etico) est˜ao dispon´ıveis em AGUILAR et al. [60]. Nesse trabalho foram realizados experimentos envolvendo a pr´e-hidr´olise do baga¸co de cana com ´acido sulf´urico e sua otimiza¸c˜ao visando a obten¸c˜ao de solu¸c˜ao
de pentoses com baixa concentra¸c˜ao de inibidores. Foram desenvolvidos modelos para descrever a cin´etica da rea¸c˜ao de pr´e-hidr´olise.
Forma¸c˜ao de pentoses
O modelo utilizado por AGUILAR et al. [60] ´e baseado no primeiro modelo que descreveu com sucesso a cin´etica das rea¸c˜oes de hidr´olise de materiais lignocelul´osicos (equa¸c˜ao 4.9), proposto por Saeman em 1945 [61]:
Celulose −→ Glicose −→ Produtos da decomposi¸c˜ao (4.9)
Este modelo j´a foi utilizado para descrever rea¸c˜oes de pr´e-hidr´olise anteriormente [60], sendo adaptado como mostrado na equa¸c˜ao 4.10:
Pol´ımeros k1
−→ M onˆomeros k2
−→ Produtos da decomposi¸c˜ao (4.10)
em que k1 ´e a taxa de forma¸c˜ao e k2 ´e a taxa de decomposi¸c˜ao de monˆomeros. O
modelo apresentado na equa¸c˜ao 4.11 pode ser obtido para predi¸c˜ao da concentra¸c˜ao de monˆomeros a partir da resolu¸c˜ao de equa¸c˜oes diferenciais:
M = M0e−k2t+ αP0
k1
k2− k1
(e−k1t− e−k2t) (4.11)
em que M e P s˜ao as concentra¸c˜oes do monˆomero e do pol´ımero expressas em g/L, t ´e o tempo, α ´e a rela¸c˜ao entre hemicelulose suscept´ıvel a hidr´olise e a hemicelulose total presente no baga¸co e o subscrito 0 indica as condi¸c˜oes iniciais.
As melhores condi¸c˜oes de pr´e-hidr´olise (maior concentra¸c˜ao de xilose) foram observadas nos experimentos conduzidos com concentra¸c˜ao de ´acido sulf´urico de 2 % a 122°C [60], depois de 24,1 minutos de rea¸c˜ao. Nestas condi¸c˜oes, os parˆametros cin´eticos foram ajustados a partir dos dados experimentais e α vale 0,973 g/g, k1 ´e igual a 0,1885
min−1 e k2 vale 0,0021 min−1.
A concentra¸c˜ao inicial de hemicelulose foi calculada considerando-se a fra¸c˜ao de 75 % do baga¸co obtida na simula¸c˜ao do processo convencional de produ¸c˜ao de etanol,
considerando-se a concentra¸c˜ao inicial de pentoses igual a 0. Assim, foi poss´ıvel calcular a varia¸c˜ao da concentra¸c˜ao de pentose ao longo do tempo.
Considerando-se a simplifica¸c˜ao da rea¸c˜ao de hidr´olise da hemicelulose:
C5H8O4+ H2O −→ C5H10O5 (4.12)
foi poss´ıvel calcular a concentra¸c˜ao de pentose ap´os 24,1 minutos de rea¸c˜ao (ponto de m´axima concentra¸c˜ao de pentose segundo o modelo) e, conseq¨uentemente, a convers˜ao neste ponto, igual a 81,39 %. Assim foi inclu´ıdo um reator de pr´e-hidr´olise do tipo convers˜ao, sendo a rea¸c˜ao 4.12 a primeira rea¸c˜ao que ocorre neste reator.
S˜ao apresentadas tamb´em as rea¸c˜oes de forma¸c˜ao de glicose, ´acido ac´etico e furfural, baseadas nos modelos propostos por AGUILAR et al. [60].
Forma¸c˜ao de glicose
A glicose formada na pr´e-hidr´olise pode ter sua origem na hemicelulose e na celulose. A celulose normalmente n˜ao ´e hidrolisada dentro das condi¸c˜oes operacionais utilizadas na etapa de pr´e-hidr´olise, portanto ´e prov´avel que a glicose liberada seja totalmente proveniente da hemicelulose [60].
Para o desenvolvimento do modelo cin´etico de forma¸c˜ao de glicose considerou- se que existe uma fra¸c˜ao de glucano na hemicelulose suscept´ıvel a hidr´olise (αG, g/g), e
um parˆametro que considera a convers˜ao quantitativa de glucano a glicose (43,2 g/L). Assim, a concentra¸c˜ao de glicose pode ser calculada pela equa¸c˜ao 4.13 [60]:
G = G0e−k2t+ αGGn0
k1
k2− k1
(e−k1t− e−k2t) (4.13)
em que G ´e a concentra¸c˜ao de glicose (g/L), G0 ´e a concentra¸c˜ao inicial de glicose
(aproximadamente 1,2 g/L, devido a tra¸cos de a¸c´ucares redutores presentes no baga¸co), Gn0 ´e a concentra¸c˜ao de glucano correspondente a convers˜ao quantitativa de glucano a
glicose (43,2 g/L), k1 ´e a taxa de forma¸c˜ao de glicose (0,0357 min−1 nas condi¸c˜oes de
0,00029 min−1), αG´e a raz˜ao glucano suscept´ıvel/glucano total (0,121 g/g) [60]. Assim
como no caso da forma¸c˜ao de pentose foi poss´ıvel calcular a convers˜ao de hemicelulose a glicose (1,76 %), para o tempo de rea¸c˜ao que maximizou a forma¸c˜ao de pentoses.
Forma¸c˜ao de ´acido ac´etico
O ´acido ac´etico ´e gerado na hidr´olise dos grupos acetila presentes nos hete- ropol´ımeros da hemicelulose, e n˜ao foi verificada experimentalmente a decomposi¸c˜ao do ´acido ac´etico [60]. Dessa forma a equa¸c˜ao 4.14 pode ser utilizada para descrever a forma¸c˜ao de ´acido ac´etico [60]:
AcH = Ac0(1 − e−k1t) (4.14)
em que Ac0 ´e a concentra¸c˜ao potencial de grupos acetila e k1 a taxa de forma¸c˜ao de
´
acido ac´etico (min−1). Nas condi¸c˜oes de opera¸c˜ao, Aguilar et al obtiveram os seguintes valores para os parˆametros cin´eticos: Ac0 igual a 3,65 g/L e k1 igual a 1,55 (min−1) [60].
Assim como no caso da pentose e da glicose, foi calculada a convers˜ao de hemicelulose a ´acido ac´etico (1,82 %) no tempo de rea¸c˜ao para m´axima concentra¸c˜ao de pentose.
Forma¸c˜ao de furfural
Na pr´e-hidr´olise do baga¸co da cana ocorre a decomposi¸c˜ao da pentose a furfural. Assim como no caso da forma¸c˜ao de ´acido ac´etico, foi desenvolvido um modelo (equa¸c˜ao 4.15) para descrever a forma¸c˜ao deste composto [60]:
F = F0(1 − e−k1t) (4.15)
em que F ´e a concentra¸c˜ao de furfural (g/L), F0 ´e a concentra¸c˜ao inicial de furfural
e foi calculada a partir da regress˜ao de dados experimentais (2,96 g/L nas condi¸c˜oes de opera¸c˜ao), k1 ´e a taxa de forma¸c˜ao de furfural (0,0080 min−1) [60]. Foi calculada a
Forma¸c˜ao de HMF
Como a taxa de decomposi¸c˜ao de glicose a HMF (0,00029 min−1) nas condi¸c˜oes de opera¸c˜ao ´e muito menor do que a taxa de forma¸c˜ao (0,0357 min−1) [60], considerou-se que a forma¸c˜ao de HMF na etapa de pr´e-hidr´olise ´e desprez´ıvel.
Rea¸c˜oes no reator de pr´e-hidr´olise
Assim, al´em da rea¸c˜ao 4.12, as rea¸c˜oes de forma¸c˜ao de glicose (4.16) e de decomposi¸c˜ao de pentose a furfural (4.17) e ´acido ac´etico (4.18) foram inseridas no reator de pr´e-hidr´olise na simula¸c˜ao.
C5H8O4+ 2, 67H2O −→ C6H12O6 (4.16)
C5H10O5 −→ C5H4O2 + 3H2O (4.17)
C5H10O5 + H2O −→ 2, 5C2H4O2 (4.18)
Simula¸c˜ao do reator de pr´e-hidr´olise
O baga¸co excedente (75 % do baga¸co gerado no processo convencional de produ¸c˜ao de etanol) recebe vapor e ´acido sulf´urico dilu´ıdo, de modo a atingir con- centra¸c˜ao de ´acido no reator de 2 g H2SO4/100 g licor. O reator de pr´e-hidr´olise opera
a press˜ao de aproximadamente 2 bar e trabalha como um flash, o que faz com que o reator tenha sua temperatura mantida a 123°C. O produto obtido no fundo do reator recebe ´agua de lavagem e passa por um filtro, no qual ´e obtido o licor de pentoses na fase l´ıquida. A vaz˜ao de ´agua de lavagem foi considerada igual ao dobro da vaz˜ao do produto do reator. Considerou-se que no filtro ocorre recupera¸c˜ao de 80 % de ´agua (para umidade de 50 % no baga¸co pr´e-hidrolisado), 90 % de s´olidos sol´uveis e 1 % de arraste de s´olidos (celulose, hemicelulose n˜ao reagida e lignina), o que gera um licor de pentoses de concentra¸c˜ao igual a aproximadamente 9 % em massa de pentoses. A pasta
de s´olidos obtida no filtro possui cerca de 5 % em massa de hemicelulose n˜ao reagida. Na Figura 4.10 ´e representado o fluxograma do processo de pr´e-hidr´olise, in- cluindo o aquecimento do baga¸co por meio de inje¸c˜ao de vapor; a adi¸c˜ao de ´acido sulf´urico; o reator de pr´e-hidr´olise; e a filtra¸c˜ao do produto do reator, com o objetivo de separar o licor de pentoses da massa de s´olidos. A vaz˜ao de ´agua de lavagem do reator ´e calculada utilizando-se a ferramenta Set, e tem vaz˜ao volum´etrica igual a duas vezes aquela do baga¸co pr´e-hidrolisado. No reator ´e feito um flash para manter a temperatura da rea¸c˜ao em n´ıveis da ordem de 123 °C.
Figura 4.10: Fluxograma do processo de pr´e-hidr´olise.