1.2 P RECONCEITO E MISTURA DE RAÇAS NO B RASIL
1.2.3 O PRECONCEITO DE COR COMO HERANÇA DO PASSADO ESCRAVOCRATA
Na obra Brancos e Negros em São Paulo, Bastide e Fernandes(1959), a partir das relações sociais entre brancos e negros na cidade de São Paulo, analisam as mudanças econômicas e sociais tendo-se em vista a incidência do preconceito de cor na estrutura
social. Na sociedade escravocrata e senhorial esse preconceito está vinculado à escravidão e mesmo após a abolição da escravidão e com o desenvolvimento industrial na cidade de São Paulo, esse preconceito se mantém, mas com outros propósitos.
De acordo com os autores, se antes tal preconceito era utilizado para justificar o trabalho escravo, ele serve para justificar a sociedade de classes. Apesar dos estereótipos serem os mesmos da época da escravidão, eles continuam a circular mesmo havendo uma lenta inserção dos negros na estrutura social.
Primeiramente, segundo os autores, tentou-se escravizar o índio para torná-lo mão-de-obra. Com a intensificação da produção de cana-de-açúcar e com a descoberta de ouro em São Paulo, altera-se a economia e há uma grande necessidade de mão-de-obra. Como conseqüência aumenta-se o tráfico negreiro para suprir a falta de trabalhadores. Assim, aumenta-se o número de negros na região de São Paulo.
No século XIX, com o declínio da mineração, desenvolve-se a “grande lavoura” onde o negro é a mão-de-obra fundamental, e com isso a cidade de São Paulo progride por ser o local de fluxo da produção para o porto de Santos por onde os produtos seriam exportados.
A produção cafeeira também passa a substituir a cana-de-açúcar o que traz a necessidade de mão-de-obra escrava e aumenta o fluxo de escravos negros e mulatos para a região de São Paulo.
A proibição do tráfico negreiro e o conseqüente aumento dos preços dos escravos fariam com que muitos produtores de café considerassem a possibilidade da libertação dos escravos. Assim, trabalhadores brancos europeus passam a ser trazidos para trabalharem nas lavouras substituindo os negros e mulatos. Desse modo as oportunidades de trabalho em São Paulo, após a abolição da escravidão, são dadas aos imigrantes europeus em detrimento dos negros e mulatos. Os homens de cor, segundo os autores, dificilmente conseguiam uma ocupação de representatividade social, e assim eles vão pouco a pouco ficando à margem da estrutura de trabalho.
Segundo Bastide e Fernandes, devido à falta de preparo propiciada pela escravidão, os negros e mulatos não estavam aptos para competir com a mão-de-obra dos
imigrantes europeus, e desta forma passaram a trabalhar em atividades mal remuneradas e muito lentamente foram sendo incorporados no sistema de trabalho.
Houve a diminuição da população de pessoas de cor em São Paulo. Pode-se atribuir essa diminuição, segundo os autores, às péssimas condições de vida que eles tinham nos cortiços e ao retorno de muitos para o norte do país de onde tinham saído anteriormente com fluxo de escravos para as lavouras na região de São Paulo.
Por volta de 1940, a população de negros e mulatos, tanto homens quanto mulheres, trabalhava em indústrias, mas ainda as atividades melhor remuneradas eram desenvolvidas pelos brancos. Tanto a situação econômica quanto a questão da cor da pele serviriam como critérios para definir a ocupação.
“Semelhante distribuição das ocupações traduz a persistência das barreiras econômicas que sempre distinguiam socialmente os representantes das duas raças no Brasil, e de antigos critérios de seleção ocupacional associados à cor” (Bastide e Fernandes, 1959:62). É somente no início no século XX que começa a haver a incorporação dos negros e mulatos na sociedade de classes e sua inserção na estrutura econômica devido a sua disposição para competir com a mão-de-obra dos trabalhadores imigrantes, o que acarreta numa melhora das suas condições sociais e econômicas. Entretanto, essa incorporação é muito lenta, sendo a cor da pele uma marca que causa o preconceito.
Para esses autores “foi a cor, que passou a indicar mais que uma diferença física ou uma desigualdade social: a supremacia das raças brancas, a inferioridade das raças negras(...)” (Bastide e Fernandes: 1959:62).
Estabeleceu-se a relação negros e mulatos como escravos, e os brancos como os senhores. A cor da pele, na sociedade escravocrata, constituía-se numa marca racial identificadora da situação social dos negros e mulatos como escravos. A marca racial que identificava os escravos mantinha a ordem social vigente, onde os brancos eram senhores e os negros e mulatos os escravos.
“Por aqui se verifica que a ligação entre a escravidão e a seleção da cor como marca racial, para denotar culturalmente as prevenções, os
sentimentos e as idéias das raças dominantes sobre as raças dominadas, não é fortuita nem circunstancial. A alienação social da pessoa do negro se processou inicialmente como alienação social da pessoa do escravo(...)” (Bastide e Fernandes, 1959:83).
O preconceito se manifestava na escolha dos maridos e esposas para os filhos dos senhores, segundo os autores. Os pretendentes não podiam ter sangue de negros ou de judeus e isso era motivo para se proibirem casamentos. O casamento com elementos de cor era uma forma de admitir que brancos e negros fossem iguais. No entanto as relações extraconjugais aconteciam pois não era uma situação legal.
Esses autores afirmam que o preconceito de raça daria lugar ao preconceito de cor. No entanto, para nós, os preconceitos de raça não são substituídos pelos de cor simplesmente porque continuam a existir distinções “raciais” que não se reduzem à cor da pele, como acontece com os judeus, por exemplo.
Além disso, como afirmam os autores, o escravo não estava incluído na Constituição, ele era discriminado legal e politicamente. Para eles havia “O código do negro” que negava seu estado de civil. O que o escravo quisesse fazer tinha que ser por intermédio do seu senhor ou por outra pessoa.
Assim, negro e escravo eram expressões correlatas, sinônimos para os senhores. O que determinava a noção de raça era “o sentimento de comunhão dentro de um sistema de graduação social de prestígio de valores culturais” (Bastide e Fernandes,1959:114). Em primeiro lugar estavam os atributos de escravo e cor da pele e em segundo estavam as características propriamente raciais.
Mesmo após o fim da sociedade escravocrata e senhorial, nas relações sociais em São Paulo as relações interaciais demoraram a se modificar. Certas normas sociais e de controle, que eram aplicadas aos escravos, continuam a valer entre negros, mestiços e brancos.
Os negros e mulatos não foram incorporados coletivamente na ordem social capitalista, mas aos poucos estaria havendo uma integração estrutural das raças na estrutura social e econômica. Para Bastide e Fernandes, a relação de dominação de uma raça sobre a
outra tende a desaparecer, mas os preconceitos de cor não, apesar dos movimentos contrários a eles.
De acordo com as pesquisas realizadas por Bastide e Fernandes há uma tendência entre negros e brancos de negarem a existência de preconceito de cor no Brasil. Essa negação do preconceito pode ser atribuída ao modo como ele se manifesta de forma sutil, encoberta. Fatores como o ideal de democracia racial, a bondade atribuída aos brasileiros, a convivência secular com os negros ajudariam a entender que o preconceito não seja expresso abertamente.
“(...) Os estereótipos recalcados agem nas fronteiras indecisas do inconsciente, menos por construções sociais, um ritual institucionalizado, do que por repulsões instintivas, tabus pessoais (...)” (Bastide e Fernandes, 1959:165).
Na opinião dos autores, apesar dos fatores econômicos e sociais terem sido relacionados com o preconceito de cor, são atribuídos ao nível pessoal o funcionamento dos estereótipos que configuram o preconceito e que por isso ele seria sutil, encoberto.
“(...) o Brasil, nas suas constituições, leis, imprensa, proclama altamente a sua repulsão a todo e qualquer ataque à dignidade do homem negro. É mais difícil descobrir o que pode estar oculto sob a indiferença, as omissões ou as faltas. Será preciso recorrer, muitas vezes, não à análise de comportamentos, mas à da ausência de comportamentos” (Bastide e Fernandes, 1959: 165).
Para esses autores, em referência ao preconceito de cor, ele não precisa ser necessariamente caracterizado por atitudes, ele pode se caracterizar pela ausência, a falta de comportamentos que configuram manifestações de preconceitos.
Outra vez, a questão das leis não é tratada pelos autores de forma a se mostrar a diferenciação entre o estatuto dos negros, como na Constituição do Século XIX, como os próprios autores mencionam.
Além disso, apesar dos autores analisarem um outro tipo de preconceito, o preconceito de cor, este seria resultante do preconceito racial, e não seu substituto. Considerar o preconceito de cor em lugar do preconceito de raça homogeneíza as diferentes raças e reduzindo-se o preconceito ao estigma da escravidão como se não
houvesse outras causas do preconceito como causas econômicas, políticas, de gênero, etc. Ainda nos dias atuais os preconceitos existem explicitamente e nem sempre são encobertos ou sutis.