CONSIDERAÇÕES INICIAIS
2. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
2.2. Preconceito, prestígio e prestígio encoberto
Com a finalidade específica de definir as reações atribuídas às línguas ou variedades linguísticas, Bagno (2009) discute as diferentes noções envolvidas com o termo “norma culta”, que, segundo o autor, relaciona-se com pelo menos dois significados distintos: o primeiro está ligado à crença de que há uma única maneira correta de falar, aquela prescrita pelas gramáticas que tomam como base os clássicos da literatura; enquanto a segunda acepção leva em consideração os usos linguísticos das pessoas dos estratos socioeconômicos mais privilegiados. Enquanto o primeiro significado envolve uma noção normativa, é pretensamente homogênea e não existe como forma concreta de língua, o segundo tem bases científicas (é um conceito utilizado pelos estudiosos da língua), é heterogênea e real.
A esses usos, considerados “cultos”, constrói-se uma oposição, representada por outra variedade que seria popular ou inculta e, de qualquer forma, inferior à primeira. É justamente dessa percepção que surge a ideia de inferioridade que se pode atribuir a uma variedade ou uma língua. Entretanto, como bem assinala Faraco (2002 apud BAGNO, 2009), não existe nenhum ser humano que não seja culto, já que todos participam de algum tipo de atividade cultural ou com ela está envolvido. Usar o adjetivo “culto” para distinguir uma variedade ou uma língua implica a existência correlativa de prestígio social.
Como bem aponta Bagno (2009), em um país tão marcado pela desigualdade como o nosso, a cultura valorizada é aquela associada às elites socioeconômicas, com
escolarização superior. Em conformidade com o que já foi mencionado na caracterização dos municípios em foco, o lado brasileiro da fronteira parece ter maior desenvolvimento urbano e, sobretudo, melhor condição no contexto educacional, o que inclusive leva muitos pais do país vizinho ou “mais paraguaios” como julgamos definir melhor, a matricularem seus filhos em escolas brasileiras, muitas vezes motivados apenas pela situação econômica (já que as escolas brasileiras distribuem uniformes, materiais escolares e merenda, o que não ocorre nas escolas paraguaias).
Para eximir a dubiedade e os preconceitos que podem ser associados ao termo “norma culta”, Bagno propõe diferir entre “norma padrão”, “variedade de prestígio” (ou prestigiada) e “variedade estigmatizada”, epítetos que podem também ser atribuídos às línguas. A primeira se refere ao uso linguístico ideal, que é normatizado. Para designar o uso linguístico dos cidadãos de alto grau de escolaridade, que vivem na área urbana e detêm poder socioeconômico, é preferível usar o termo “variedades de prestígio”. A esse respeito, Bagno afirma que:
aquilo que vem do alto, das classes dominantes, é considerado indiscutivelmente bom, bonito, digno de ser imitado, e passa a ser considerado como um valor natural, incontestável, como se suas qualidades brotassem da própria natureza das coisas. No mesmo movimento, tudo o que não se encaixa nesse modelo é considerado “feio”, “indigno”, “corrompido”, “inculto”. (BAGNO, 2009, p. 79-80).
Fica claro, portanto, que, em termos linguísticos, essa variedade ou língua não dispõe de nenhuma característica que a torne melhor ou superior a outras. Entretanto, o senso comum insiste em atribuir tais características a línguas ou variedades que não se justificam, obviamente, em termos linguísticos. Para Bortoni-Ricardo (2006),
É um ponto consensual em linguística que a norma-padrão de qualquer língua possui preeminência sobre as demais variedades em decorrência de fatores históricos e culturais que determinam a sua imposição e legitimação. Não se reconhece nela qualquer valor inerente ou intrínseco, mas, sim, atributos que se desenvolveram ao longo de um processo sócio-histórico de natureza institucional (BORTONI-RICARDO, 2006, p. 25).
Essa autora também explicita valores culturais que, associados às variedades de prestígio, acabam por torná-las índices de estratificação social. Nas palavras da autora, “Pode-se afirmar que a distribuição injusta de bens culturais, principalmente das formas valorizadas de falar, é paralela à distribuição iníqua de bens materiais e de
oportunidades” (BORTONI-RICARDO, 2006, p. 14). Esse valor social atribuído às línguas é, para a autora, ainda mais evidente em países multilíngues, onde os falantes de línguas minoritárias têm de usar em muitos domínios a língua majoritária por ter consciência de que sua língua não serve para ascensão social. Apesar disso, línguas estigmatizadas são preservadas, certamente em virtude dos laços de solidariedade e afetividade das relações intragrupais.
Para Giles e Powesland (1975 apud BORTONI-RICARDO, 2006), a “variedade padrão” pode ser associada ao contexto de uso ou a um grupo social de prestígio. No primeiro caso, trata-se de uma variedade considerada adequada em contextos que exigem o uso mais formal da língua. Nessa situação, todos os membros da comunidade têm acesso aos dois códigos e a escola não estimula o uso da variedade padrão nas interações domésticas, o que reforça a situação diglóssica. Já na situação de língua associada a grupo social de prestígio, uma variedade goza de maior prestígio em virtude de sua associação a um grupo social, geralmente o de maior poder socioeconômico. É possível que essas duas situações podem ocorrer de maneira simultânea no contexto social aqui enfocado.
Associada a essa segunda acepção de variedade padrão, Roncarati (2008) define “prestígio” a partir do conceito proposto por Londoño, Estupiñán e Idárraga (2004), que defendem que a sociolinguística mensura o grau de prestígio com base em características de ocupação (prestígio do indivíduo, atributos de sua reputação e de seu posto social) e na atitude (prestígio como conduta, abalizado por formas e postura social culturalmente valorizadas). De acordo com a autora, alguns agentes institucionais como a escola, o contato com a escrita, a mídia e a origem social, podem influenciar a construção de prestígio e estigma, o que foi constatado verdadeiro na pesquisa de Santos (1996), explicitada na seção 2.1.2.
Por outro lado, a respeito das línguas “estigmatizadas”, alvos de preconceito, Bagno (2004) resume ao seguinte:
Mas os preconceitos, como bem sabemos, impregnam-se de tal maneira na mentalidade das pessoas que as atitudes preconceituosas se tornam parte integrante do nosso próprio modo de ser e de estar no mundo. É necessário um trabalho lento, contínuo e profundo de conscientização para que se comece a desmascarar os mecanismos perversos que compõem a mitologia do preconceito. E o tipo mais trágico de preconceito não é aquele que é exercido por uma pessoa em relação a outra, mas o preconceito que uma pessoa exerce contra si mesma. Infelizmente, ainda existem muitas mulheres que se consideram “inferiores” aos homens; existem negros que acreditam que seu
lugar é mesmo de subserviência em relação aos brancos; existem homossexuais convictos de que sofrem de uma “doença” que pode, inclusive, ser curada (BAGNO, 2004, p. 75-76).
Basta considerar tais palavras para imaginar como são conflituosos muitos dos episódios observados durante nosso trabalho de campo. Crianças que ficam caladas por se sentirem inseguras em se manifestar em língua portuguesa, que têm de ser alfabetizadas em português, quando essa língua não faz parte de sua vivência familiar e que, portanto, não conseguem se sair bem em provas de diversas disciplinas por faltar- lhes compreensão dos enunciados. Todos esses problemas são resultado da pressão normativa.
Há, contudo, situações de prestígio encoberto que podem revelar situações de não acolhimento da norma de prestígio. Ao definir a noção de prestígio encoberto, postulada inicialmente por Labov (2008 [1972]), Roncarati (2008) afirma que se trata de “um conjunto de normas encobertas que atribuem valor positivo ao vernáculo local e informal” (RONCARATI, 2008, p. 51). Essa noção se associa diretamente à identidade do falante, ao seu orgulho linguístico e à marcação de seu pertencimento a uma dada classe social ou comunidade de fala. Trudgill (1972) afirma, a esse respeito, que os homens da classe trabalhadora tendem a atribuir “prestígio encoberto” à maior parte das vinte variantes fonéticas e fonológicas analisadas, enquanto as mulheres se orientam basicamente em direção das formas usadas pela classe mais favorecida socioeconomicamente. Essa atribuição poderia, então, atuar para garantir a identidade do indivíduo com determinado grupo social, revelando sua solidariedade com o uso desse grupo.
Moreno Fernández (2005) também discute a tendência feminina em usar mais as formas que gozam de prestígio na sociedade como um todo e, por outro lado, de serem menos propensas ao uso de variantes que revelam “prestígio encoberto”, que funcionaria com mais força nos homens e pode ser marca de “masculinidade”. Para o autor, “O prestígio encoberto, que é um prestígio de grupo, se opõe ao prestígio aberto, que é prestígio da comunidade e que se associa ao correto, ao adequado, ao normativo34” (MORENO FERNÁNDEZ, 2005, p. 44, tradução nossa).
34 “El prestigio encubierto, que es um prestigio de grupo, se opone al prestigio abierto, que es prestigio
de comunidade y que se asocia a lo correcto, lo adecuado, lo normativo” (MORENO FERNÁNDEZ, 2005, p. 44).
Definidas as noções de preconceito/estigma, prestígio e prestígio encoberto, vejamos os procedimentos metodológicos adotados neste estudo.