2 Fundamentação teórica
2.3 Pesquisa de Compreensibilidade
2.3.1 Precursores
Quando se começou a dar importância ao estudo do texto e às características que fazem dele um texto bom ou ruim e contribuem ou não para uma leitura satisfatória, atentou- se inicialmente para o nível mais superficial da produção textual, o que originou as chamadas ‘pesquisas de legibilidade’.
As primeiras pesquisas com esse objetivo se concentravam na legibilidade dos textos, relacionada à qualidade da configuração gráfica e/ou tipológica das produções escritas. Segundo Engberg (apud BERG-SCHMITT, 2003: 61), as pesquisas de legibilidade pertencem ao “âmbito do processamento sensomotor/perceptual” 44, geralmente partindo da hipótese que a configuração textual exerce uma grande influência na recepção, facilitando-a ou dificultando-a.
Sendo assim, essas pesquisas e seus experimentos buscavam identificar determinados fatores gráficos e tipográficos (por exemplo, tipo, tamanho e estilo da fonte, extensão e quebra das linhas, espaço entre as palavras, contraste entre o fundo e a fonte, espaçamento entre as linhas, qualidade da impressão, qualidade do papel, acabamento da superfície, tamanho das margens, entre outros) e verificar o impacto deles na legibilidade de um texto.
Em um texto considerado legível, o receptor deve ser capaz de reconhecer (e compreender) os caracteres e sua interação em forma de palavras e sentenças. Os procedimentos mais adotados eram aqueles do tipo microgenéticos (aktualgenetische
Verfahren), nos quais os informantes deveriam ler trechos de textos impressos sob condições muito desfavoráveis, como grande distância, pouca claridade, curto tempo de exposição ao texto, e procedimentos em condições normais para medir a velocidade de leitura; o primeiro
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era mais usado para a obtenção de dados a respeito da melhor configuração para textos de placas, cartazes etc., enquanto o segundo era destinado à otimização de textos corridos, por exemplo, notícias de jornal, capítulos de livros etc. (GÖPFERICH, 2008b: 109).
A pesquisa de legibilidade deu um impulso para a investigação da melhor forma de configurar um texto, e é considerada precursora das pesquisas de leiturabilidade e de compreensibilidade, fazendo parte delas até os dias atuais, inclusive. Entretanto, apesar de sua importância, os estudos sobre legibilidade receberam muitas críticas por limitarem-se apenas aos elementos visuais, ligados à superfície do texto, e não considerarem outros aspectos igualmente importantes, como o conteúdo do texto e os processos cognitivos do leitor, características que as teorias seguintes tentarão incorporar. Por causa disso, as pesquisas de legibilidade foram substituídas pelas pesquisas de leiturabilidade.
A pesquisa de leiturabilidade ganhou força a partir de meados da década de 30, e foi desenvolvida com o objetivo de contemplar aspectos linguísticos e estilísticos diretamente ligados aos processos cognitivos envolvidos no processamento e na decodificação das produções escritas. Percebe-se que há um avanço com relação à pesquisa de legibilidade, uma vez que, além dos elementos de percepção, a pesquisa de leiturabilidade inclui um estudo do que se passa na mente do receptor após o primeiro contato com o texto e o reconhecimento dos sinais visuais; ou seja, ela estuda a etapa seguinte, que é a do processamento da informação.
O principal produto resultante das pesquisas de leiturabilidade são as chamadas “fórmulas de leiturabilidade”, sendo a Reading-Ease-Formula a mais conhecida e também a mais utilizada. O propósito dessas fórmulas é medir o grau de leiturabilidade dos textos de maneira prática e objetiva, considerando a dificuldade ou a facilidade com que determinados aspectos textuais normalmente são processados pelo leitor. Dentre os elementos analisados, estão o nível de dificuldade da palavra, medido por meio das sílabas de um item lexical, e o nível de dificuldade da sentença, medido pela quantidade de palavras que a compõe e pela frequência das palavras no vocabulário cotidiano que estão empregadas no texto. É possível notar que a pesquisa de leiturabilidade privilegia características que possam ser quantitativamente apreensíveis para a aplicação nas fórmulas.
A pesquisa de leiturabilidade foi muito difundida e tornou-se popular devido à facilidade e à rapidez com que resultados eram obtidos por meio das fórmulas. Com o progresso da informática, a pesquisa ganhou um novo impulso, uma vez que o desenvolvimento de softwares tornou a aplicação das fórmulas mais ágil e precisa. Entretanto, apesar da boa aceitação, da quantidade de resultados e do avanço com relação à legibilidade,
esse tipo de pesquisa foi criticado por ainda permanecer na superfície textual – embora no âmbito mais linguístico – e não contemplar nem aspectos do conteúdo, como a densidade e a organização das informações, nem condições ligadas ao leitor, como conhecimentos prévios e interesses. Além disso, critica-se o fato de as fórmulas apontarem as falhas, mas não apresentarem qualquer tipo de referência a possíveis passagens ou aspectos que poderiam ser aprimorados no texto.
Atualmente, algumas diretrizes da pesquisa de leiturabilidade fazem parte da pesquisa de compreensibilidade, o que leva muitas vezes à utilização desses conceitos como sinônimos, ao que Göpferich (2008b: 110) alerta: “Com isso, a leiturabilidade não deve ser equiparada à compreensão, mas surge muitas vezes como um aspecto parcial daquela” 45.
O conceito de compreensibilidade é muito mais abrangente, porque a qualidade de ser compreensível não depende apenas do texto e de suas características materiais observáveis na superfície, conforme sugerido pelas pesquisas anteriores de legibilidade e leiturabilidade. Um texto compreensível depende também de outros elementos constitutivos, como a função comunicativa, a adequação a um gênero textual e a consideração do leitor como parte integrante do processo de comunicação, sendo essa influenciada por seus interesses, motivação, conhecimentos prévios. Essa mudança de perspectiva mostra que as pesquisas de compreensibilidade estão mais voltadas para o processo de produção do texto e não apenas para o produto final, como suas antecessoras.