3. EVIDÊNCIAS MORFOLÓGICAS E PROSÓDICAS NA BUSCA DO

3.1. Evidências morfológicas na busca do estatuto da palavra

3.1.3. Evidências morfológicas na prefixação

3.1.3.3. Prefixos como formas livres

Muitos prefixos não podem ser considerados como afixos genuínos, pois possuem características típicas de palavra prosódica: podem receber acento primário (será discutido na próxima seção) e podem, em um dado contexto, funcionar como formas livres. Tais prefixos, quando se juntam a uma base, formam com ela uma palavra morfológica e duas palavras prosódicas, assim como ocorre com os compostos. Por isso são considerados compostos fonológicos, sob o ponto vista prosódico. Vejamos alguns exemplos:

(104) a) pré-silábico

b) contraindicação

c) supermercado

Sob o ponto de vista morfológico, os prefixos mostrados nesses exemplos encontram-se, assim como os prefixos genuínos, anexados a uma base. No entanto, devido à autonomia vocabular que possuem, podem estabelecer-se isoladamente em determinados contextos:

(105) Esse negócio é realmente super! Vamos analisar os prós e os contras. Vou começar pelo pré.

Isso justifica o fato de serem considerados como formas livres no PB. Podemos encontrar alguns exemplos em que prefixos acentuados funcionam perfeitamente como categorias lexicais do PB, tais como advérbio e adjetivo, respectivamente nas sentenças abaixo:

(106) (a) Ela é super legal.  Ela é muito legal.

(b) Assistimos a uma mini palestra.  Assistimos a uma palestra pequena.

Vale ressaltar, porém, que prefixos, ainda que se possam isolar da base, não são plenamente independentes do ponto de vista semântico. Analisemos os exemplos a seguir.

Por exemplo, na frase do exemplo anterior, “Vou começar pelo pré”, é necessário um contexto em que esteja especificado anteriormente a que se refere o prefixo pré- (pré-vestibular, pré-treinamento etc.).

Constatamos que a palavra antecedente ao prefixo (pelo – masculino, singular) concorda com a palavra base, que está implícita no contexto. Prefixos sozinhos não determinam as flexões (gênero, número grau), como também não tem o poder de determinar a classe gramatical da palavra. As flexões ocorrem sempre do lado direito, junto à base, como podemos observar a seguir:

Os exemplos mostram que sufixos flexionais e derivacionais se anexam ao lado direito, já o lado esquerdo da prefixação permanece inalterado. Portanto, morfologicamente, não podemos considerar que esse prefixo seja uma palavra morfológica independente. Ainda que o prefixo possa isolar- se em determinados contextos, não possui total independência da palavra a que se anexa. Nos exemplos abaixo:

(108) (a) O prefeito será substituído pelo vice. (b) Maria saiu com seu ex.

Podemos observar que, em (a), vice teve seu significado esclarecido porque foi possível retomar o sentido da base que estava na mesa frase. Em (b), o prefixo ex- não teve seu significado não ficou totalmente esclarecido no âmbito da sentença, mas podemos inferir que possa ser ex-marido, ex-noivo, ex- namorado etc.

Também os radicais, presentes em compostos, ainda que sejam formas presas, possuem maior carga significativa que os prefixos como, por exemplo:

(109) a) ítalo-brasileiro b) pré-candidato

Em 109 (a), temos um caso de composto lexical, formado por um radical e uma palavra e, em 109 (b), temos uma formação com prefixo acentuado. Os exemplos (a) e (b) têm em comum o fato de serem compostos fonológicos e projetarem somente uma palavra morfológica. No entanto, note-

se que ítalo (relativo à Itália) substitui uma palavra da língua que possui sentido próprio e autonomia vocabular. Já os prefixos, ainda que apareçam isolados, sempre necessitarão da palavra base para estabelecer relação de sentido.

Já nas formas compostas, o distanciamento entre o significado do todo e o significado das partes pode ocorrer em vários exemplos da língua:

(110) olho-de-sogra; dedo-duro; puxa-saco

Podemos observar que o significado dessas composições está totalmente desligado do significado estrito de seus componentes. Veremos, na próxima seção, que esse tipo de composto tem significado determinado por metáfora ou metonímia (compostos exocêntricos). Distintamente da derivação, que terá sempre a função de carregar uma ideia acessória e recorrente às várias bases (pré-escolar; pré-vestibular; pré-história), a estrutura da composição se relaciona com a natureza de sua função, que é nomear seres, eventos, fatos ou ações. Daí o fato de a combinação de elementos na formação de uma palavra composta ser imprevisível, na medida em que depende das necessidades específicas de cada caso, além da alternativa metafórica.

Diante dessas evidências, não podemos considerar que esses prefixos, ainda que tenham acento e se possam estabelecer como forma livre em alguns contextos, devam ser uma palavra morfológica. Na verdade, esse tipo de prefixo possui características prosódicas de palavra e características morfológicas de afixo, não de composto.

Na condição de afixo, possui semelhanças e diferenças em relação ao prefixo genuíno. Morfemas como vice, ex, super, mini, etc., funcionam

distintamente dos prefixos genuínos, porque possuem acento e se podem isolar da base em alguns contextos, além de poderem ser fatorados:

(111) micro e macrorregião, super e hipercalórico, ex- e vice-reitor

Já os prefixos genuínos, como vimos na seção precedente, não se podem distanciar da base sob pena de tornar a sentença agramatical, apesar de muitos deles estarem sujeitos fatoração (des- e refazer).

No entanto, prefixos genuínos e prefixos acentuados assemelham-se, no que diz respeito à identidade semântica, aos prefixos genuínos. Possuem uma função semântica pré-determinada, o que vem a delimitar seus possíveis usos e significados: super pode significar muito (superinteressante) ou grande (supermercado), vice terá sempre sentido de cargo imediatamente inferior a outro. Além disso, sempre necessitam do apoio da palavra que o acompanha para estabelecer sentido, funcionando como um modificador, ainda que se mostrem como categoria lexical em uma frase:

(112) Comprou um carro super moderno.

O prefixo super, ainda que se comporte como um advérbio de intensidade (= muito), está ligado ao significado do adjetivo que ele modifica (moderno). Como ocorre também em super-requintado, superinteressante.

Outra característica que aproxima o prefixo acentuado à condição de afixo é que, assim como os prefixos genuínos, não alteram a classe gramatical

ao serem anexados à base: vice-diretor ou diretor, ambos são substantivos, super-requintado ou requintado, funcionam como adjetivos.

Também não influenciam, assim como prefixos genuínos, as flexões e derivações da palavra a que se une:

(113) a) supermercado, supermercados, supermercadoria b) vice-prefeito, vice-prefeita, vice-prefeitinho

Como mostram os exemplos, os prefixos, pelo fato de se adjungirem ao lado esquerdo de uma palavra, não recebem as flexões e os sufixos derivacionais. A palavra base, que é considerado o núcleo,17 é que receberá as

flexões e derivações sufixais.

Portanto, temos argumentos suficientes para afirmar que esses prefixos são, do ponto de vista fonológico, palavras prosódicas, uma vez que recebem acento, mas, morfologicamente ainda figuram como afixos e não se estabelecem como palavras morfológicas, ainda que demonstrem mais autonomia vocabular do que os prefixos legítimos.

No documento Análise do estatuto da palavra prosódica no português brasileiro na interação entre constituintes prosódicos e morfológicos (páginas 120-125)