4. O monólogo dramático Effis Nacht
4.1 O pretexto Effi Briest e o programa estético fontaniano
A intertextualidade, logo assinalada pelo título do texto dramático >Effis
Nacht<, faz antever uma relação primordial do monólogo de Rolf Hochhuth com o pre
texto >Effi BriesK de Theodor Fontane (cf. supra, 26). De facto, o texto hochhuthiano procura estabelecer pontes com o seu antecessor, não se submetendo, todavia, a este, mas criando autonomia estética e semântica, apresentando, como veremos, uma prota gonista e um enredo que não só contrastam com os do romance fontaniano, como ques tionam a sua validade.
Em >Effi Briest< é narrada a história da jovem aristocrata Effi que, perante a perspectiva de um casamento conveniente, aceita deixar a protecção da casa de seus pais para assumir o mundo dos adultos e das responsabilidades sociais: »Jeder ist der Rich tige. Naturlich muB er von Adel sein und eine Stellung haben und gut aussehen« {EB,
18). A consciência social de Effi, ilustrada por este pequeno extracto, é alimentada pela mãe desde muito cedo, na infância, e, com apenas dezassete anos, a protagonista do romance de Fontane preparase para casar com o Barão von Innstetten. Disposta a cum prir esse desígnio na sua vida, Effi, todavia, levará consigo para Kessin a ingenuidade de uma infância feliz vivida no locus amenus de HohenCremmen.
Estão assim colocados os carris que, na opinião do crítico Walter MùllerSeidel, ditam o aparecimento e o desenvolvimento de um antagonismo, divisor de humanidade e sociedade, natureza e convenção que Effi carrega como um fardo antagónico (cf. MùllerSeidel, 1975: 369). Kurt Wólfel conclui que o princípio realista de Fontane faz das suas personagens seres sociais que suportam a discrepância entre natureza humana e ordem social no interior de si mesmas, sendo a sua humanidade alienada por uma ordem social inumana (cf. Wõlfel, 1993: 349). Em Kessin a jovem Effi está entregue à solidão de uma casa assombrada e é sensível à ausência permanente do marido. Innstetten sacri fica a convivência familiar em prol de um carreirismo que o levará a ascender a um alto cargo ministerial no estado prussiano. À luz destes factores externos e respondendo a
uma sensibilidade interior que manifesta a sua natureza humana, aflora o envolvimento emocional da protagonista com o major Crampas.
O desfecho do romance de Fontane descreve a consequência trágica de um con- flito, não de classes sociais, mas da esfera privada. Como Kurt Wõlfel sugere, o processo de transformação da Effí - "Tochter der Luft" em - "Dame der Gesellschaft" ' gera um conflito interior na personagem que só é suavizado pelo relacionamento adúltero com Crampas, uma reacção afectiva mais institiva e natural (cf. Wõlfel, 1993: 347-349). Obedecendo ao apelo do dever e da honra como imperativo da aliança do indivíduo com a ordem social estabelecida, a sentença do "Gesellschaft-Etwas" dita a reacção violenta de Innstetten ao adultério de sua mulher, descoberto sete anos depois e numa fase harmoniosa do casal em Berlim. A morte do amante em duelo, o afastamento da mãe adúltera da filha Annie, a exclusão que a levará à periferia de Berlim são factores posteriores na narrativa que concorrem para a agudização do conflito interior em Effi e, deste modo, o processo de abatimento da personagem toraa-se irreversível. O regresso a Hohen-Cremmen é um regresso ao espaço idílico da infância2, agora convertido em local de último repouso. Effi vem em liberdade mas desprovida de esperança. Uma Effi resignada e doente que regressa livre apenas para morrer.
Hochhuth cria com >Effis Nacht< um monólogo que, um século mais tarde, à sombra do romance >Effi Briest< de Fontane e à luz de factos da vida de Elisabeth von Ardenne, comprovados historicamente pela consulta de documentos (cf. supra, 51 s.), dá vida dramática a uma personagem mais próxima da existência real, oferecendo o monólogo ab initio alguns indicadores que fazem corresponder a história da protago- nista com a história real da baronesa Elisabeth von Ardenne. Paralelamente às críticas ao tratamento dado por Fontane à história de Elisabeth von Ardenne e às quais a seu tempo regressarei (cf. infra, 72 s.), o texto de Hochhuth remete também para o próprio programa poético de Fontane, nomeadamente para a sua concepção de Realismo. No discurso de Else, essa referência específica manifesta-se em alongamentos sucessivos em tom de reflexão e crítica, que não deixam de ser curiosos, conhecendo-se a correspondência parcial entre a estética de Hochhuth e o programa literário do Realismo
poético, o qual modelizava a relação absoluta entre realidade e ficção: »Warum muBte
1 Sobre as diferentes leituras/papel de Effi vd. Oliveira, 2000: 215-218.
Sobre a relação entre a heroína e o espaço em >Effi BriesK, especialmente, no que diz respeito à ambivalência espacial de Hohen-Cremmen vd. Delille, 1987: 207-210.
Fontane Effis Geliebten adelnl Warum durfte mein Hartwich nicht Richter bleiben, sondem muBte Major werden und von Crampas? So stecken wir alie in Konventionen - sogar Fontane« (EN, 26-27). Se os porquês insistentes de Else questionam o processo criativo de Fontane, uma vez que a concretização do real foi relegada para segundo plano e a ficção foi moldada por um certo convencionalismo afecto ao escritor, por outro lado, o retorno a Fontane ao longo do monólogo e alguns comentários finais não deixam de trair uma simpatia cúmplice que Hochhuth nutre pelo romancista (cf. EN, 87). Esta simpatia pelo programa não apenas literário do Realismo leva também Hochhuth a dedicar o ensaio >Menzel Maler des Lichts< (1991) à figura e obra do pintor Adolf Menzel (1815-1905), precursor do programa realista na pintura3. Lembre- se, todavia, que para Fontane, o conceito de Realismo se definia muito para além de uma reposição nua e crua da realidade da vida quotidiana. No ensaio >Unsere lyrische
und epische Poésie seit 1848< (1853), Fontane reclama para o Realismo o imperativo
estético de uma transformação do real, um trabalho laborioso de lapidação que inclui o conceito de Verklãrung, ou seja, uma transfiguração da realidade (cf. infra, 116):
Vor alien Dingen verstehen wir nicht darunter das nackte Wiedergeben alltãglichen Lebens, am wenigsten seines Elends und seiner Schattenseiten. (...) Diese Richtung verhãlt sich zum echten Realismus wie das rohe Erz zum Metal: die Láuterung fehlt. (...) Das Leben ist doch immer nur der Marmor- steinbruch, der den Stoff zu unendlichenn Bildwerken in sich trãgt.4
Este programa fontaniano é, porém, o ponto de discórdia no monólogo de Hochhuth, sendo severamente criticado por Else (cf. EN, 52), enquanto princípio geral que não estabelece uma relação prioritária com o real e se reserva o direito a uma intervenção ficcional "distorcida" da realidade. Segundo Hochhuth, a escrita de Fontane acaba por ir
- Como em obras anteriores, parece ser este o assunto preferencial do dramaturgo: »DaB aber in einer Epoche, die den Realismus so hartnackig bekãmpte wie die victorianische, jemand sich dazu aufschwingt, diese Wirklichkeit auch dort ins Kunstwerk hineinzunehmen, ja aus ihr das Kunstwerk zu machen: Dazu gehõrt als oberste Tugend Mut\ Denn noch stimmte, was den Kunstler an der Wirklichkeit reizte - sondern er Realist ist - mit dem uberein, was die Òbrigkeit, die Gesellschaft, die Konvention von ihr wahrhaben und wahrnehmen wollten! Und gar in einem Kunstwerk. Und am wenigsten das 19. Jahrhundert!« (MML, 49). Hochhuth não se limita a associar Menzel a Fontane, como dispõe-se a ser testemunha textual da admiração do escritor pelo pintor (cf. MML, 147), enaltece a sua coragem estética, elege-o como vanguardista na pintura de um progTama disposto a quebrar barreiras e convenções, ávido do real intimista como matéria-prima da arte.
4 Unsere lyrische und epische Poésie seit 1848. [1853] In: Theodor Fontane - Sàmtliche Werke. Edgar GroG (Hrsg.),
ao encontro ou revelar-se ao serviço de forças dominantes da época. As críticas de Hochhuth a Fontane, que revelam uma visão quiçá superficial do autor oitocentista, pretendem reclamar para o texto dramático hochhuthiano a qualidade do objectivo e do real. Todavia, também a construção do texto de Hochhuth obedece a um programa que ultrapassa a mera descrição da realidade. Para Hochhuth, como vimos já, o drama surge com a missão clara de denunciar e de colocar o homem perante a liberdade de decisão: »Widerstand gegen herrschende Tendenzen und Personen und wenigstens in Grenzen Freiheit zur und der Entscheidung: Sie allein ermõglichen Dramen. Dramatisch aber ist generell nicht Ûbereinstimmung« (GTK, 55). Assim sendo, também para ele o processo criativo pressupõe uma transformação estética do real à luz da ideia, como realça de novo em >Die Geburt der Tragòdie aus dem Krieg< (2001): »Was ist, in die Sprache von heute ubersetzt, ein "schõnes, belebtes Ganzes"? Es ist die sprachlich komprimierte und von Zufálligkeiten entschlackte Realitát - durchaus die umgestaltete, verdichtete Realitát, nicht die vom Licht des Tages, sondem vom Licht der Idee erhellte« {GTK, 105). Nas várias lições sobre poética dirigidas por Hochhuth à Academia de Frankfurt, a problemática da relação arte/realidade volta a ser, como anteriormente para Fontane, um tema central no seu pensamento.