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Como registrado em linhas pretéritas, a Constituição Federal de 1988 foi a primeira constituição do Brasil a trazer em seu texto a obrigatoriedade da fundamentação das decisões judiciais, sedimentando essa exigência como um direito fundamental insculpido no art. 5º especificamente em relação a prisão, inciso LXI e princípio inerente a magistratura, conforme disposição do art. 93, inciso IX da Constituição Federal. Acerca da importância do princípio da fundamentação das decisões judiciais e a necessidade de seu conteúdo estar resguardado no Texto

Maior, José Carlos Barbosa Moreira96 já salientava antes do advento da Constituição que, por espelhar garantia inerente ao Estado de Direito, o princípio da motivação obrigatória das decisões judiciais mereceria consagração expressa em eventual reformulação da Lei Maior. Para o doutrinador, sua significação transcende de muito o nível da técnica processual e o único meio seguro de preserva-lhe a invulnerabilidade é inseri-lo, expressis verbis, no texto constitucional.

O destaque para a previsão constitucional do princípio da fundamentação das decisões judiciais não se limita apenas à nortear o transparente exercício da função jurisdicional. Nesse sentido, conforme assinala Zavarize97, não sem razão o constituinte originário, entendendo pelo relevantíssimo papel desse princípio para o Estado Democrático de Direito, o afastou de deliberações tendentes a alterá-lo ou diminuir o seu significado ao posicioná-lo como cláusula pétrea, pela leitura do art. 60, §4º, inciso IV da Constituição Federal, que trata das limitações materiais, ou seja, proteção a direitos e garantias individuais contra qualquer proposta tendente a aboli-los.

Para Fredie Didier Jr98, ainda que a motivação das decisões judiciais não viesse expressamente no Texto Constitucional, por se tratar de uma manifestação do devido processo legal, ou seja, direito fundamental assegurado ao jurisdicionado, o dever de fundamentar as decisões também teria essa natureza.

Ao prever como direito fundamental a necessidade de fundamentação das decisões judiciais que determinem a prisão de um indivíduo a Constituição expressa ao cidadão que está lhe assegurando como direito básico o conhecimento das razões pelas quais o Estado pretende tolher a sua liberdade. Portanto, além de dar a esse direito fundamental a mais abrangente aplicabilidade possível, os juízes tem o dever de resguardá-lo contra eventual violação praticada, seja revendo suas decisões, seja em grau de recurso. Com efeito, dar azo ao manejo do remédio constitucional do Habeas Corpus ante o desrespeito por parte dos magistrados desse direito fundamental ainda é uma constante, mesmo com o advento da audiência de custódia, momento propício a fornecer ao julgador aspectos relevantes

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MOREIRA, José Carlos Barbosa. Op. cit. p. 94.

97

ZAVARIZE, Rogério Bellentani. Op. cit. p. 49.

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DIDIER JR., Fredie; BRAGA, Paula Sarno; OLIVEIRA, Rafael Alexandria de. Curso de direito

processual civil: teoria da prova, direito probatório, ações probatórias, decisão, precedente, coisa julgada e antecipação dos efeitos da tutela. 10. ed. Salvador: Ed. Jus Podivm, 2015. v.2. p. 314.

acerca da prisão do indivíduo, muitas vezes desconsiderados, especialmente nos casos de prisão em flagrante, pois, como o controle jurisdicional da prisão se dá em momento posterior, segundo Aury Lopes Júnior99, após apreciação do fato pelo juiz, é de extrema relevância para o preso que haja elucidação das circunstâncias inerentes à sua prisão, dada a precariedade do título prisional (flagrante).

Prevista no art. 93, IX da Constituição Federal, a obrigatoriedade de motivação das decisões judiciais é trazida de forma expressa como princípio inerente a magistratura brasileira. A importância dada ao princípio constitucional é tamanha que o próprio dispositivo prevê como consequência da sua não observância a nulidade do pronunciamento judicial desmotivado, consequência esta caracterizada como nulidade absoluta, dado o prejuízo às partes e à sociedade pelo exercício irregular e ilegítimo por parte do magistrado da atividade jurisdicional ao violar tal princípio, segundo Rogério Bellentani Zavarize100. Trata-se de verdadeiro dever fundamental imposto aos juízes, o quais devem revelar no julgado as razões e os caminhos levados em consideração para chegar a determinada conclusão, além de ser corolário do Estado Democrático de Direito, conforme ensinam Gilmar Mendes e Paulo Gustavo Gonet Branco101.

No âmbito infraconstitucional, a obrigatoriedade de fundamentação das decisões judiciais, no Código de Processo Penal, está presente em diversos dispositivos, como, por exemplo, o art. 21, que determina a necessidade do juiz fundamentar sobre o prolongamento da incomunicabilidade do preso por mais de três dias, o art. 387, §1º, que trata da demonstração de motivos pelo julgador acerca da manutenção ou não da prisão preventiva após prolação da sentença condenatória.

Especificamente quanto às medidas cautelares, sobretudo a prisão preventiva, o Código de Processo Penal nos traz importantes dispositivos legais determinando a exposição de fundamentos pelo magistrado nos casos em que decreta, mantém ou revoga alguma medida cautelar, como o art. 283, exigindo ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente na hipótese de decretação de prisão, o art. 310, o qual expõe as posturas do juiz ao receber o auto

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LOPES JÚNIOR, Aury. Op. cit. p.

100

ZAVARIZE, Rogério Bellentani. Op. cit. p. 148.

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de prisão em flagrante e estabelece, seja qual for o posicionamento adotado, a necessidade de fundamentação da decisão. Acerca dos dispositivos relacionados às medidas cautelares, segundo Eugênio Pacelli102, houve verdadeira mudança de paradigma em relação a decretação destas com o advento da reforma do CPP pela lei 12.403/2011, pois, agora, não mais se prende tão somente referindo-se a lei, antecipando a culpa (em sentido lato) do indivíduo, como anteriormente à reforma se verificava. Atualmente, as razões do julgador para determinar alguma medida de restrição da liberdade do indivíduo devem (ou deveriam) ser sempre norteadas pela necessidade de acautelar o processo.

Não existe, para o processo penal, a cautelaridade inerente ao processo civil, com os elementos de fumaça do bom direito (fumus bonis iuris) e perigo na demora da prestação judicial (periculum in mora). No processo penal, as medidas cautelares possuem caráter instrumental e só podem ser decretadas pelo magistrado após este externar em sua decisão os motivos de estar presente no caso indícios mínimos do cometimento de um delito (fumus comissi delicti) e o perigo da liberdade do indivíduo (periculum libertatis) com o fim precípuo, sempre, de assegurar o desenvolvimento regular do processo para se for o caso, ao final, garantir a aplicação da pena, conforme leciona Aury Lopes Júnior103.

Paulo Rangel104, ao comentar a terminologia adotada acima por Aury Lopes Júnior, esclarece que necessariamente o julgador deve mostrar no seu pronunciamento porque entende existentes os pressupostos da prisão preventiva, como indícios do cometimento de um crime e os motivos pelos quais a liberdade do flagranteado é nociva à sociedade, arrematando que “Direito, por si só, já é bom, incluindo aqui o conceito de direito justo”.

Afora o Código de Processo Penal, existe interessante dispositivo no Código de Processo Civil que elenca elementos os quais, se presentes na decisão prolatada, esta não poderá ser considerada fundamentada. Trata-se do art. 489, §1º e seus incisos, balizador dos pronunciamentos judiciais, muitas vezes demasiadamente genéricos ou irrisoriamente arrazoados. No entendimento de

102

PACELLI, Eugênio. Op. cit. p. 234.

103

LOPES JÚNIOR, Aury. Op. cit. p. 315.

104

Fredie Didier Jr.105, o dispositivo legal em comento traz importante inovação ao ordenamento jurídico por eliminar o grau de subjetividade presente nas decisões judiciais e permitir um melhor controle destas.

3.4 A IMPORTÂNCIA DA FUNDAMENTAÇÃO DAS DECISÕES JUDICIAIS EM