CAPÍTULO 4 A VIGILÂNCIA EM SAÚDE DO TRABALHADOR NO
4.1 Contextualizando o CEREST Macrorregional Campos Gerais do
4.1.1 A primeira fase do CEREST (2008 a 2010 inclusive)
A sustentabilidade política, social e comunitária do CEREST foi garantida pela existência de Plano de Ação em Saúde do Trabalhador (PA), aprovado pelo Conselho Estadual de Saúde, o qual expressa as ações em saúde do trabalhador, estabelecendo diretrizes, ações e metas a serem executadas no âmbito local e regional (RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO, 2010).
As primeiras atividades do CEREST foram realizadas sob a coordenação de um técnico em vigilância sanitária que contava inicialmente com uma equipe de apenas mais quatro técnicos que posteriormente se ampliou para dez técnicos. A equipe não era exclusiva para as atividades do CEREST. Os técnicos atuavam também nas respectivas Regionais de Saúde nos municípios de abrangência, compondo outras equipes, a saber: na Regional de Telêmaco Borba, compunham a equipe de Recursos Humanos e SINAN; na Regional de Ponta Grossa, compunham também o Comitê de Mortalidade, a Vigilância Ambiental, a Vigilância Sanitária e o SINAN; na Regional de União da Vitória, compunham também as equipes do Programa do Leite e do Programa da Água. Somente na Regional de Irati, a equipe era exclusivamente de saúde do trabalhador. Destes profissionais, nove eram concursados e um contratado (coordenador). Nesta primeira fase de atuação do CEREST houve rotatividade de metade da equipe (RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO, 2010).
Em um primeiro momento a prioridade das ações do CEREST foi a investigação dos acidentes de trabalho e sua notificação, o que era feito com o apoio das equipes da Vigilância Sanitária dos Municípios da área de abrangência. Os recursos financeiros disponibilizados pela RENAST ao Fundo Estadual de Saúde, que serviriam para a compra de equipamentos, viaturas, capacitação de técnicos, etc, por razões burocráticas não foi liberado imediatamente, de modo que o deslocamento da equipe do CEREST era feita de ônibus até referidos Municípios para então se utilizarem dos veículos das Regionais de Saúde para as visitas de inspeção. (Sujeito 1).
O modo de gestão dos recursos financeiros tornava-se um entrave ao desenvolvimento das ações. Segundo o Relatório de Avaliação dos CEREST (2010), não havia autonomia da coordenação do CEREST para realizar despesas relacionadas à saúde do trabalhador na utilização de recursos da RENAST e sim dependência aos órgãos executivos das Regionais de Saúde e da Secretaria de Comunicação do Estado (no caso de material de divulgação) gerando dificuldade no transporte, agendamento de viagens, na aquisição de materiais didáticos e informativos, liberação de recursos para deslocamento e diárias dos técnicos para participação em eventos. Desta forma, com o documento transitando pelas chefias para discussão e definição, a tramitação tornava-se demorada inviabilizando a liberação a tempo das datas previstas para realização das ações/eventos. Quanto à liberação de recursos para material permanente, a mesma era esporádica.
Ainda segundo informações contidas no Relatório de Avaliação (2010) a elaboração do PA contava com apoio e participação coletiva da equipe do CEREST e do Conselho de Saúde Municipal, tendo por base o perfil produtivo regional e a capacidade técnico-operacional do CEREST, associado ao Plano Operativo (PO) anual elaborado com a participação da equipe técnica e com apoio do CEST. Reuniões mensais da equipe do CEREST tinham a finalidade de análises regulares e sistemáticas das ações do PA, para realinhamento e reprogramação, se necessário. Nesta fase do CEREST a CIST já atuante nas Regionais de Irati e Telêmaco Borba encarregava-se do monitoramento do PA. Na Regional de União da Vitória inexistia qualquer mobilização em relação à composição da CIST e na Regional de Ponta Grossa havia encaminhamento para a composição da mesma.
A CIST, composta por representantes de órgãos governamentais e entidades civis relacionadas ao trabalho, encarregava-se também da análise da prestação de
contas, feitas semestralmente pelo CEREST, da utilização de recursos da RENAST (RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO, 2010).
As práticas de atenção e vigilância à saúde do trabalhador estiveram subsidiadas por dados relacionados a perfil de morbidade, população economicamente ativa, SINAN e Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), além de utilizarem como fonte de informação banco de dados de órgãos públicos como o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), por meio da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), a fim de reconhecer e acompanhar as empresas em atividade no município (RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO, 2010).
Nesta fase do CEREST a integração com órgãos da sociedade civil como Sindicatos, INSS, SRTE e Ministério Público do Trabalho (MPT) permitiu a realização de ações conjuntas. O envolvimento dos Sindicatos, principalmente o da madeira que é o maior ramo produtivo na região sede do CEREST, foi essencial para levantamento feito nos municípios da área de abrangência, junto às madeireiras, que levou o nome de Inventário da Madeira, para verificação das condições de trabalho e dos trabalhadores. A adequação das condições de trabalho deste setor produtivo mostrava-se urgente ante a realidade de uma região com vários registros de amputação de mãos por acidente de trabalho (Sujeito 1). As amputações ocorriam em máquinas para serrar, cortar, ranhurar, talhar, prensar, forjar e planear, assim como em ferramentas manuais motorizadas e não motorizadas usadas no setor madeireiro. Acidentes desta natureza também ocorriam em máquinas agrícolas (PARANÁ, 2011). Tal levantamento propiciou a aceleração pela fiscalização a cargo da Vigilância Sanitária, que com base nas irregularidades nele pontuadas, passou a exigir das empresas a adequação das condições de trabalho (Sujeito 3).
Estabelecimentos que manuseavam o chumbo de forma inadequada, com prejuízo à saúde do trabalhador, foram identificados por ações do CEREST, o que acarretou interdição de alguns e impedimento de continuidade de atividades em outros (Sujeito 1).
Neste período de atuação houve intenção do CEREST de realizar no setor da construção civil, ação semelhante à realizada no setor madeireiro, contudo houve resistência e o órgão não logrou êxito em intervenções (Sujeito 1).
A articulação com instituições de ensino como o Colégio Florestal de Irati e a Universidade Estadual do Centro Oeste – UNICENTRO propiciou o oferecimento de
convênios para realização de estágio pelos alunos (RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO, 2010).
As Regionais de Ponta Grossa e Irati realizaram mapeamento de risco em empresas, com o objetivo de levantar informações sobre o processo produtivo, de trabalho e riscos à saúde dos trabalhadores, através de uma ou mais inspeções, a fim de disponibilizar relatório de inspeção com as devidas recomendações de adequação às normas de segurança e saúde do trabalhador, com posterior acompanhamento para verificação do cumprimento das condições recomendadas no relatório. Nas Regionais de União da Vitória e Telêmaco Borba o mapeamento deixou de ser realizado pela ausência de equipe de vigilância sanitária com capacitação para respectiva tarefa (RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO, 2010).
No âmbito das notificações de agravos e doenças relacionados ao trabalho, manteve-se o fluxo de informações entre as unidades notificadoras (sendo três no município sede do CEREST e ao menos uma unidade em cada município da área de abrangência do CEREST), SMS e CEREST, com responsabilidades para todos os serviços/unidades implantadas, informando regularmente o SINAN (RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO, 2010).
Houve empenho especial do CEREST no incentivo às notificações, pois embora compulsórias, deixavam de ser feitas gerando a subnotificação, cuja consequência é a falsa imagem de ausência de acidentes e doenças e o descuido na execução de ações preventivas. “Os pronto-socorros foram pressionados para notificar. As empresas sempre tentavam não notificar. Nos livros da CIPA não constava nada, usavam termos técnicos, culpa sempre do trabalhador. Normas não eram observadas” (Sujeito 1). A resposta veio com o aumento do número de notificações25.
Por iniciativa do CEREST, realizaram-se atividades de formação, com carga horária mínima de 8 h (oito horas) voltadas à capacitação dos profissionais, versando sobre execução e/ou aprimoramento das atividades do CEREST, envolvendo inclusive as equipes do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS), do Programa de Saúde da Família (PSF), das unidades notificadoras e do controle social que é composto pelo Conselho Gestor e Conselho Municipal de Saúde (as Regionais de União da Vitória e Ponta Grossa não realizaram atividades
25
Ver a série histórica das notificações dos agravos relacionados ao trabalho do CEREST Macrorregional Campos Gerais do período de 2007 a 2015 no Anexo E.
para representantes do controle social). No processo de formação permanente oferecido pelo CEST, houve 100% (cem por cento) de participação dos técnicos do CEREST (RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO, 2010).
Embora enfrentando dificuldades acarretadas pela forma de liberação dos recursos e carência de pessoal exclusivo para ações em saúde do trabalhador, o CEREST se fez presente com ações de VISAT. Submetido à avaliação pela SESA, em 2010, alcançou 327,5 (trezentos e vinte e sete vírgula cinco) pontos (do total de quinhentos pontos), classificando-se como Bom/Consolidado (RELATÓRIO DE AVALIAÇÃO, 2010)
Nesta primeira fase do CEREST já estava em discussão a implantação do ambulatório em saúde do trabalhador no Hospital Regional de Ponta Grossa.