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– Primeiras edificações em alvenaria da base Xavantina

No documento Bandeirantes do século XX: (páginas 188-200)

Fo nte: Fonte: VARJÃO, Valdon. Aragarças: Portal da Marcha para o Oeste. Brasília: Senado Federal, Centro Gráfico, 1989, p. 102.

Nesta fotografia, ainda vê-se no centro a primeira barraca do co-mandante Cel. Vanique, ainda em pé. A sua frente está à casa de alvenaria que foi construída para a sua residência. Esta edificação esta ladeada por outras qua-tro edificações em alvenaria, sendo que duas estão disposta do lado esquerdo e duas no lado direito. Ainda no primeiro plano, na parte bem a esquerda tem-se uma construção em alvenaria, sem telhado. Olhando da esquerda para direita, no primeiro plano, vê-se uma pequena área desmatada com uma edificação que não pode ser identificada como de alvenaria, bem ao centro uma barraca de palha de buriti e já no lado direito, uma construção que também não pode ser identificada.

Ainda, tomando como referência, a edificação sem telhado, vê-se de baixo para cima, três edificações em tijolo, sendo que a terceira edificação é, atualmente, o teatro Vila Lobos. No segundo plano, vêem-se três edificações em alvenaria, se-gundo os entrevistados, de uso coletivo: almoxarifado, dormitório e cozinha e re-feitório. Na margem do rio, têm-se duas edificações de tijolo e telha para residên-cia. E, no último plano, para contextualizar a imagem, as águas do rio das Mortes

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e a floresta. Quanto aos dois espaços desmatados e terraplanados que apare-cem no segundo plano do lado direito e esquerdo, tendo como referência a antiga barraca do Cel. Vanique, estes se foram reservados para praças, com a mesma utilização no futuro traçado da cidade.

A disposição dos caminhos e dos espaços sem edificação, as praças, também, como na foto anterior, segue a lógica de uma sobreposição de uma racionalidade espacial ocidental sobre um ordenamento da natureza. Praças são vazias de edificações, mas portadoras de enunciados políticos. São os espa-ços públicos, onde as pessoas representam os seus papéis.

Uma questão de ordem metodológica a ser apontada, nesta foto, é a legenda de Valdão Varjão, com a informação: início da povoação de Xavanti-na em 1944, com as primeiras edificações. As primeiras edificações são as que aparecem na fotografia anterior. Todas construídas de folha de buriti. Segundo as informações dos entrevistados, a primeira casa de tijolo e telha de barro foi cons-truída em 1946. As demais edificações, só foram erguidas depois de 1950, como informam as entrevistas de José Celestino, José Batista Porto e Raimundo Rodri-gues. Sendo assim esta fotografia não é de 1944, mas do início dos anos 50 do século XX. Aqui o cotejamento entre as fontes desfez um equivoco. Zé Goiás, em sua entrevista, para compor o seu relato sobre as primeiras edificações da base do rio das Mortes, utilizou o seu acervo fotográfico como suporte para acessar as suas memórias. É o que se lê na citação seguir:

Eu morava numa barraca de paia lá embaixo. Eu mos-tro pra você. (mostrando fotos do seu acervo – pergun-ta para o entrevispergun-tador) Mostra fotos do Vale do Ma-trinchã. Hoje é Vale do Sonho.

Encontra as fotografias: agora repara bem – mostra outra foto – Almoxarifado, oficina mecânica, vista aé-rea das primeiras casas de xavantina.

Encontra outra fotografia dos trabalhadores da expedi-ção: Zé Arunã, Leopoldo, Maranhense, Eu, Euvaldo, Zé Bororo, Manuel Pinto, Chico Piloto, Genaro, Lorival.

Esse aqui é meu pai. Esse aqui é o seu Horlando Vil-las Boas. Eu era o cozinheiro. Eu tava lá fazendo

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mida. Olha lá, pondo comida na mesa. Uma panela na mesa. Ta vendo?378

Nesta passagem do relato de Zé Goiás, o próprio entrevistado co-teja as suas lembranças com um suporte material de memórias: as fotografias. Da ao interlocutor uma garantia de veracidade das suas afirmações. Esta dentro do questionamento que Paul Ricoer379 faz sobre a insegurança do historiador frente aos testemunhos, com a pergunta: como posso saber o que vocês disseram? A-qui Zé Goiás da uma alternativa. Confronte as fontes.

Quanto ao nome da cidade, novamente, a narrativa oficial não a relaciona com os relatos das experiências de vida dos trabalhadores da expedi-ção. Um desses trabalhadores, Orlando Villas Boas, relatou sua experiência na base Xavantina para o jornal O Estado de São Paulo, no dia 09 de Março de 1993380, 50 anos depois da Expedição Roncador-Xingu. O relato de Orlando Villas Boas dá indicações das indefinições em torno do nome da base da expedição no rio das Mortes. “[...] Xavantina era um ponto do rio das Mortes, alcançado pela expedição, no rumo de Manaus. Chamou-se São Pedro do rio das Mortes, depois Xavantina[...]”381. Villas Boas não indicou uma data para a adoção do nome Xa-vantina para a base. Mas, no relato de experiência de vida de outro trabalhador da expedição, é possível colher outros sinais. Este trabalhador é o Sr. Salomão Gomes. Por intermédio de seu relato, é possível indicar que até o fim da década de 1940, Xavantina não existia. Segundo o entrevistado, sua chegada à base do rio das Mortes ocorreu em 1948. Em sua entrevista faz a seguinte observação sobre o momento em que foi convidado para trabalhar em Xavantina: “[...] Então vamos pro rio das Mortes. Ninguém falava em Xavantina [...]”382.

378 José Celestino da Silva. Entrevista Realizada em Nova Xavantina em 09/01/2006, ás 15h00min.

379 RICOER, Paul. La Memoria, La história, El Olvido. Madrid, Editorial Trotta S.A., 2003, pag.181.

380Jornal O Estado de São Paulo. As reportagens utilizadas nesta pesquisa estão no seu sitio na rede mundial de computadores: oestadao.com.br.

381 Sitio do Jornal o Estado de São Paulo, Terça-feira, 09 de Março de 1993: oestadao.com.br.

382 Entrevista realizada com o Sr. Salomão Gomes de Souza, em 08/01/2006, em Nova Xavantina.

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Xavantina ou São Pedro do Rio das Mortes

As indefinições em torno do nome de Xavantina provocaram um diálogo entre dois campos simbólicos; o Estado Brasileiro e a Igreja Católica. O entrelaçamento destes dois universos de símbolos surge no relato do Sr. José Celestino da Silva:

[...] Dia 29 de Julho de 1946 teve uma missa [...] Ai o padre falou: de agora em diante aqui não é mais rio das Mortes não. É São Pedro do Rio das Mortes. O Coronel foi olhar no livro do dia e disse: tá certo. Hoje é dia de São Pedro[...].

Mais pela lei natural aqui tem que ser Xavantina, por causa dos Xavante. O Coronel disse: muito bem Orlando (Villas Boas), é isso mesmo. Tá aí, Xavantina. Aqui era pra ser, São Pedro do Rio das Mortes.383

A missa relatada pelo Sr. José Celestino da Silva foi uma opera-ção de posse de território empreendida pelo Governo Vargas ao rio das Mortes.

Apesar de não ter a princípio levado em consideração à presença indígena e os seus territórios, o Governo Vargas não conseguiu fazer com que a força da pre-sença indígena desaparecesse, tanto que o nome da cidade foi constituído to-mando por base o universo simbólico Xavante. Este grupo indígena resistiu bra-vamente durante um século. Quando se viu vencida pelo cerco empreendido pelo governo, passou a lutar no campo do diálogo. O Estado Novo operava no sentido de sobrepor o seu território sobre o território Xavante. Nesta operação se apropri-ava do campo simbólico de outra instituição, a Igreja Católica, para nomear um lugar Ocidental Cristão no rio das Mortes – São Pedro do Rio das Mortes. Nomear lugares é uma das operações de apossamento simbólico de um território. Isso pode ser visto à luz das palavras de Pierre do Bourdieu:

Na ordem simbólica pela produção do senso comum ou, mais precisamente, pelo monopólio da nomeação legítima como imposição oficial – isto é, explícita e pública – da visão legítima do mundo social, os agentes investem o capital simbólico que adquiriram nas lutas anteriores e sobre o poder que detêm sobre as taxionomias instituídas, como os títulos. Assim as estratégias simbólicas por meio das quais os agentes procuram impor a sua visão do mundo podem situar-se entre dois extremos: o insulto [...] ou a nomeação oficial, ato de imposição simbólica que tem a seu

383 Entrevista realizada com o Sr. Salomão Gomes de Souza, em 08/01/2006, em Nova Xavantina.

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favor toda a força do coletivo, do consenso, do senso comum, porque ela é operada por um mandatário do Estado, detentor do monopólio da violência simbólica legítima. 384

O relato da missa, apresentado por José Celestino da Silva em sua entrevista385, dá visibilidade para o dialogo entre os signos da Igreja Católica e do Estado Novo, pela nomeação do espaço territorial conquistado da sociedade Xavante. Os índios, nem aparecem no relato de José Celestino. O fato de o nome Xavantina prevalecer sobre o nome cristão: São Pedro do rio das Mortes, evidên-cia o protagonismo do Estado Novo em relação a igreja católica. Não significa que o instrumento de poder simbólico da igreja tenha sido dispensado pelo Estado Novo, mas aqui eles entram no campo de poder como coadjuvantes.

O Estado Novo era o detentor do “monopólio da violência simbóli-ca legítima386”. Segundo Seth Garfield387, o Estado Novo incorporou os índios ao seu repertório ideológico, transformando-os em instrumento de popularização da Marcha para Oeste e ajudou a propagar o ideário positivista sobre as populações indígenas, que tinha em Cândido Mariano da Silva Rondon388 um entusiasta. Esta nova postura política, da parte do governo de Getúlio Vargas e da sociedade bra-sileira, reduziu a violência física contra os índios, mas por outro lado, foi substituí-da por estratégias de incorporação destas populações as políticas demográficas do governo brasileiro. Deixou-se a prática da guerra convencional e passou-se a praticar uma guerra psicológica contra os índios. Promovia-se toda sorte de humi-lhação contra estas coletividades. Disseminação de epidemias, incentivo a rivali-dades entre facções internas e redução dos seus territórios a áreas minúsculas dos postos indígenas. Desta forma, as populações indígenas seriam transforma-das em reserva de mão-de-obra, úteis aos projetos de colonização da Marcha para Oeste.

384 Pierre Bordieu, O Poder Simbólico. Lisboa, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989, p. 146.

385 Entrevista com o Sr. José Celestino da Silva, realizada no dia 09/01/2006, em Nova Xavantina.

386 Idem.

387 GARFIELD, Seth. As raízes de uma planta que hoje é o Brasil: os índios e o Estado-Nação na era Vargas. Revista Brasileira de História(Edição Eletrônica, pg. 20), São Paulo, v.20, nº 39, p. 15-42. 2000.

388 Sobre Candido Mariano da Silva Rondon Ver: FERREIRA, Mirian Rejane Guimarães. Os traba-lhadores da Comissão Rondon: violência, esquecimento e silêncio nos caminhos do telégrafo (1907-1915), Cuiabá, Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em História da UFMT, 2007.

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Neste contexto é possível compreender as atitudes de Horlando Villas Boas, que aparece no relato do Sr. José Celestino da Silva, fazendo a defe-sa do mundo Xavante. Mas, esta defedefe-sa dos índios é uma operação de apropria-ção do campo simbólico Xavante para redefinir o seu próprio território. A Expres-são: “aqui tem que ser Xavantina, por causa dos Xavante” cria um efeito de incor-poração dos Xavante ao novo território, mas novamente os exclui, uma vez que os mesmos não fizeram parte da cena descrita pelo entrevistado, na renomeação da base do rio das Mortes como Xavantina.

A atitude de Villas Boas foi bem sucedida, pois o nome São Pedro do Rio das Mortes foi substituído por um derivado da palavra Xavante, Xavantina.

Nesse sentido, os Xavante foram levados em consideração, apesar de estarem excluídos do projeto de colonização proposto pelo governo Vargas. No passado, o espaço que se constituía como território Xavante, era território de outros povos indígenas: Bororo, Carajá, Bakairi Tapirapé. Além de conquistar seu território des-tes povos, os Xavante conseguiram defendê-lo por quase um século389. Mas com a chegada da Expedição Roncador-Xingu ao rio das Mortes, isso não foi mais possível. A execução da expedição visava ampliar a ocupação demográfica do Brasil Central, por movimentos populacionais orientados pelo estado brasileiro.

Na década de 1940 o governo federal estava tomando medidas para aliviar as pressões demográficas nos centros urbanos do Sudeste e amenizar os conflitos sociais gerados pela pobreza no Nordeste390.

Para Michel Foucault, atos de poder como a nomeação de Xavan-tina, apresentam-se como um lugar onde se demarcam um ponto instituído como inaugurador, como começo, e se impõem como verdade. É marcada pela idéia cristã de perfeição. O que a pesquisa em História precisa buscar nos “começos”

não é a identidade, ainda, preservada das “origens”, mas as discórdias entre as coisas, os disparates, as ironias. Sendo assim, investigar os “começos” é des-construir a narrativa das classes dominantes391. Os “começos”, pensando como

389 MAYBURY-lewis, David. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1984.

390 OLIVEIRA, Irene Rodrigues de. - João Alberto - A Metáfora de um Revolucionário. Rio de Janeiro, X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ - História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro – 2002.

391 FOUCAULT, Michel. Nietszche, a Genealogia e a História. In: A Microfísica do Poder. Rio de Janeiro, Graal, 1995.

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Michel Foucault, não são os pontos primeiros dos acontecimentos. Eles são pon-tos de entrecruzamento de outros “começos”, que formam uma trama interminá-vel: “O mundo é uma miríade de acontecimentos entrelaçados392”. E a instalação da base da Expedição Roncador-Xingu, no rio das Mortes, pode ser vista como um entrelaçamento de objetivos políticos, oriundos das demandas políticas do Governo Vargas na década de 1940, interna e externa. O Brasil havia acabado de se definir ao lado dos Aliados na Grande Guerra Mundial. Este acontecimento foi utilizado como justificativa para a execução da expedição. As imagens que serta-nistas e exploradores produziram sobre o Brasil Central, nos anos de 1920 e 1930, veiculadas pela imprensa paulista para a opinião pública do Brasil litorâneo é outro fio que se entrelaça na narrativa sobre a fundação de Xavantina. E, fina-mente, temos a leitura dos sertanejos que viam as transformações territoriais ope-radas pela chegada da Expedição Roncador-Xingu ao rio das Mortes393.

O estabelecimento de uma base de operações da Expedição Roncador-Xingu no rio das Mortes, seja com o nome católico de São Pedro do rio das Mortes, seja como referência aos Xavante – Xavantina, foi a ampliação de um movimento demográfico que adentravam o território Xavante, desde a década de 1920. Este avanço demográfico do Sul e Norte para a parte central do Brasil esta-beleceu um grande cerco394, que não era de paz, em torno do território Xavante. A logística operacional da Expedição Roncador-Xingu se constituiu em uma podero-sa máquina de guerra, contra a qual não sobrava outra opção aos Xavante que não fosse a negociação do contato. Este processo é precedido de outros aconte-cimentos. Trata-se da expedição de Francisco Meireles a localidade de São Do-mingos na margem direita do rio das Mortes, ponto de apoio dos padres

392 Idem, p. 29.

393 Neste trabalho estou considerando como incursões não índias; o movimento bandeirante paulistas dos séculos XVII e XVIII, as entradas do General Couto de Magalhães no Vale do Araguaia no século XIX e as “novas bandeiras” do século XX. Sobre estas incursões não índias, ver: LIMA FILHO, Manoel Ferreira. Pioneiros da Marcha para o Oeste: Memória e Identidade na Fronteira do Médio Araguaia, Brasília, Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UNB, 1998 e HOLLANDA, Sergio Buarque de. A visão do Paraíso. São Paulo, Brasiliense, 2000.

394 Sobre a ocupação não índia dos entornos do território Xavante, Ver: GUIMARÃES NETO, Regina Beatriz. Cidades da Mineração: Memórias e práticas Culturais – Mato Grosso na primeira metade do século XX, Cuiabá, Ed.UFMT, 2006. Nesta pesquisa a autora reconstrói o caminho dos primeiros moradores da cidade Guiratinga, ao sul do território Xavante, através do Rio Araguaia.

Ver: SOARES, Luis Antonio Barbosa. Trilhas e Caminhos:povoamento não indígena no Vale do Araguaia – MT. Cuiabá, Dissertação de Mestrado, UFMT, 2004. Este trabalho analisa a ocupação não ao norte do território Xavante.

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nos nas fracassadas tentativas de contato com os Xavante na década de 1930 e 1940. No ano de 1946, sob o comando do SPI, Francisco Meireles, logrou um pe-queno êxito com a troca de presentes entre a sua equipe e um grupo Xavante.

Porém é preciso considerar que cinco anos antes, 1941, outro funcionário do SPI, Genésio Pimentel Barbosa, não teve sucesso e acabou sendo morto junto com a sua equipe de atração e contato. Mesmo assim, o discurso que o SPI vendeu a leitores desavisados foi à idéia de que a expedição de Francisco Meireles, em 1946, estabeleceu o contato e pacificou395 os Xavante. Mesmo que troquemos o termo pacificação por contato, a data 1946, eleita pelo SPI como o início das rela-ções entre o estado brasileiro e os Xavante, não encontraríamos sustentação em nenhuma fonte. Segundo a antropóloga Aracy Lopes da Silva, o processo de con-tato entre índios Xavante e Funcionários das agências indigenistas estatais se prolongaram até a década de 1960. Também, não se podem generalizar os conta-tos pontuais dos trabalhadores do SPI com pequenos grupos de índios, para toda a sociedade Xavante. Algumas facções desta sociedade optaram pelo contato, outras optaram pelo distanciamento das bases de operação da Fundação Brasil Central e sustentaram esta alternativa política até o limite do possível, década de 1960396.

A sobreposição de um território ocidental cristão sobre o território Xavante, não levou a rendição desta sociedade pelas armas convencionais, como demonstraram os estudos da historiadora Regina Beatriz Guimarães Neto397 e do antropólogo David Maybury-Lewis398. Para compreender o avanço da Expedição Roncador-Xingu sobre o Rio das Mortes, com incidentes com os Xavante, que não resultaram em mortes399 entre os trabalhadores da expedição, é preciso es-tudar o impacto simbólico das armas de fogo. Os índios ficavam aterrorizados

395. O termo pacificar neste discurso ultrapassa os limites do etnocentrismo e cai em uma desqualificação grotesca das pessoas, pois pacificação é um termo utilizado por adestradores de animais para o convívio doméstico

396SILVA, Aracy Lopes. Dois Séculos e meio de História Xavante. In: CUNHA, Manuela da (org).

História dos índios no Brasil, São Paulo. Companhia das Letras, 1992, p. 368..

397GUIMARÃES NETO, Regina Beatriz. Cidades da Mineração: Memórias e práticas Culturais – Mato Grosso na primeira metade do século XX, Cuiabá, Ed.UFMT, 2006 e

398 MAYBURY-LEWIS, David. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves, 1984.

399 Orlando Villas Boas cita “escaramuças com os Xavante” que não foram citadas por nenhum dos entrevistados que participaram da segunda fase da Expedição Roncador Xingu. Ver: Jornal: O Estado de São Paulo, Terça-Feira, 09 de Março de 1993.

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com os seus estampidos400. “Por isso, levaríamos, além das armas, inumeráveis e rumorosos foguetões cuja ação era tanto ou mais eficiente que a das armas de fogo”401. Também é preciso analisar como foram vistos e sentidos os aviões pelos Xavante, pois estes foram uma arma de guerra, utilizados tanto para provocar terror, como para cooptá-los, lançando presentes. Esta etnologia ainda não foi feita. Um diálogo da Antropologia com a História, no estudo dos Xavante seria muito promissor, pois como sugere Michel de Certeau, “[...] existem relatos que

‘marcham’ à frente das práticas sociais para lhes abrir um campo402”.

400 FONSECA, Sylvio da. Frente a Frente com os Xavante. Rio de Janeiro. Irmãos Pongetti Editores, 1948, p. 92.

401 FONSECA, Sylvio da. Frente a Frente com os Xavante. Rio de Janeiro. Irmãos Pongetti Editores, 1948, p. 92.

402 CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano: Artes de Fazer. Petrópolis-RJ, Vozes, 1994, p.

211.

196 Considerações Finais.

No dia 08 de Janeiro de 2006, em um fim de tarde, fui recebido por um trabalhador da Fundação Brasil Central na base Xavantina, o Sr. Salomão.

Fui acomodado na varanda de sua Casa, uma construção da extinta SUDECO,

Fui acomodado na varanda de sua Casa, uma construção da extinta SUDECO,

No documento Bandeirantes do século XX: (páginas 188-200)