CAPÍTULO 1 Contexto em que se processaram os movimentos brasileiros
1.5 O primeiro momento de junho de 2013
Por ser o período mais complexo, junho de 2013 merecerá a observação de diversas etapas referenciais. Para nortear nossas ponderações, em termos cronológicos, seguiremos as orientações propostas por Gohn (2014), apresentadas na obra
Manifestações de Junho de 2013 no Brasil e Praças dos Indignados no mundo, e por
Nossas ponderações também serão complementadas por estudo realizado por Maradei (2016), em torno da cobertura da mídia impressa sobre os episódios do período. Tal trabalho nos dará o aporte para observar a cobertura de dois dos maiores jornais brasileiros, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, durante os protestos na maior capital do País, a cidade de São Paulo, local em que os fatos foram fundamentais para os desdobramentos do acirramento dos embates.
Para se ter uma ideia da dimensão dos protestos, entre junho e agosto de 2013, cerca de dois milhões de pessoas saíram às ruas no Brasil, em 483 municípios, para protestar na condição de cidadão indignado contra a tarifa de transporte ou a qualidade de vida urbana (GOHN, 2014). Reforçamos que as manifestações de junho não foram inicialmente de cunho político, mas movimentos construídos coletivamente por meio das redes sociais e telefonia móvel e buscavam a reparação de injustiças sociais em vários setores: transporte, saúde, educação, corrupção política etc.
As manifestações começam tímidas com o 1º Ato de protesto, em São Paulo, contra o aumento da tarifa dos transportes, em 6 de junho, num movimento liderado pelo Movimento Passe Livre (MPL). Observa-se um tom de reprovação na mídia durante os primeiros dias de protestos, ao retratar o ato como algo relacionado ao vandalismo. A criminalização dos movimentos foi a forma mais fácil que muitos dirigentes encontraram para responder à situação e revelar também um desconhecimento dos fatos que estavam se articulando. Buscava-se descaracterizar as reivindicações e gerar dúvidas e apreensão no público receptor das imagens e relatos dos conflitos.
No dia 11 de junho, as manifestações convocadas pelo MPL reuniriam 12 mil pessoas em São Paulo e demonstravam um crescimento do movimento. Houve confronto com a polícia no centro de São Paulo e um policial militar ficou ferido, além de ônibus terem sido danificados (FIGUEIREDO, 2014). As fotos dos jornais impressos da imprensa corporativa34, na ocasião, seguiam a linha de desqualificar o movimento e categorizar os manifestantes como baderneiros (MARADEI, 2016). Na edição dos jornais de 12 de junho, por exemplo, observavam-se os reflexos dos protestos de 11 de junho e a forma como eram caracterizados os movimentos.
34 Por imprensa corporativa entenderemos os veículos ligados a grandes conglomerados de comunicação,
FIGURA 13 - FOLHA DE S. PAULO DESQUALIFICA OS MOVIMENTOS.
Fonte: Folha de S. Paulo, 12 de junho de 2013, Capa.
A manchete do dia, dentro da proposta editorial de tratar os manifestantes como “vândalos”, seria: “Contra tarifa, manifestantes vandalizam centro e Paulista. No 3º e mais violento protesto, ativistas enfrentam PM e atacam ônibus e estações do metrô; 20 cidadãos são detidos”. No dia 13, com a imprensa alinhada contra o que até então era percebido como ato de “vandalismo” e não como uma manifestação legítima dos cidadãos brasileiros, o governo de São Paulo cometeria um erro estratégico que custaria
popularidade a todas as instâncias administrativas: federal, estadual e municipal. Geraldo Alckmin35, governador do Estado de São Paulo, nesta oportunidade, declararia “guerra”
aos manifestantes.
A manchete da Folha de S. Paulo da data foi: “Governo de SP diz que será mais duro contra vandalismo. Polícia acionará Tropa de Choque em ato hoje, e Alckmin cobrará manifestantes por prejuízos”. A legenda da foto de capa da edição colocava um policial como destaque: “Encurralado. Ferido, policial militar Wanderlei Vignoli agarra militante e aponta arma a manifestantes para evitar que fosse linchado no protesto de anteontem em SP; um dia depois, ele disse que teve medo de morrer ao ser cercado”.
Vignoli teria seus minutos de glória e consagração como herói, mas o cenário, especialmente em relação à conduta da Polícia Militar se alteraria. A Folha de S. Paulo, ainda na edição de 13 de junho, abriu espaço para que os líderes do MPL publicassem um artigo, no primeiro caderno, explicando “Por que estamos nas ruas” (CAPELLO, 2013). Entretanto, não foi dado destaque proporcional à fala dos manifestantes na primeira página do jornal. E mais, um editorial sugeria “Retomar a Paulista” (RETOMAR..., 2013 online). Em um texto polêmico e tendencioso, que traduzia a posição do periódico, o protesto é chamado de abusivo, e a reivindicação de redução da tarifa não passaria “de pretexto, e dos mais vis”.
Os jovens manifestantes estariam, segundo o jornal, “predispostos à violência por uma ideologia pseudorrevolucionária”. Os manifestantes são chamados de “grupelho”, numa tentativa de desqualificar os protestos, cercear a liberdade de expressão e restabelecer uma ordem que não parecia levar em conta a desordem do País, as condições dos transportes na cidade de São Paulo e a saturação do cidadão brasileiro em diversas áreas em que deveria ter seus direitos garantidos: saúde, educação, segurança. O texto continua: “[...] É hora de pôr um ponto final nisso. Prefeitura e Polícia Militar precisam fazer valer as restrições já existentes para protestos na avenida Paulista [...].” E o editorial encerra com um decreto: “[...] No que toca ao vandalismo, só há um meio de combatê-lo: a força da lei”.
35 Geraldo Alckmin é governador do Estado de São Paulo, principal estado do Brasil em vigor econômico,
FIGURA 14 - MANCHETE DA FOLHA DE S. PAULO TRATA MOVIMENTO SOCIAL COMO VANDALISMO.
Fonte: Folha de S. Paulo, 13 de junho de 2013, Capa.
Por outro lado, na mesma data, e realizando uma cobertura na mesma direção, defendendo a repressão, o jornal O Estado de S. Paulo trazia o editorial “Chegou a hora do basta”. O tom de combate aos manifestantes, com sugestão do uso da força policial, a desqualificação da mobilização nos primeiros dias de protestos, seria motivo para que a ombudsman da Folha de S. Paulo, Suzana Singer, se pronunciasse sobre o tema em 16 de junho (SINGER, 2013). Segundo ela, a diferença entre os textos dos dois jornais era que a Folha indicava a força da lei para coibir o vandalismo e sugeria “[...] investigar, identificar e processar os responsáveis”. Já o jornal O Estado de São Paulo incitava o governador Geraldo Alckmin a abandonar o que seria uma “postura excessivamente moderada para deixar a polícia agir”. A razão principal para que o tema merecesse o
destaque do ombudsman foram as críticas que já emergiam e atingiam o jornal e toda a imprensa corporativa, que vinha tratando os manifestantes como “vândalos” e subestimando as ações dos cidadãos em torno de direitos legítimos. Na oportunidade, Suzana bem afirmou que: “Folha, O Estado de S. Paulo e Jornal Nacional (Rede Globo) só tinham olhos para a destruição”, o que realmente evidenciamos em nossas análises, mais especificamente entre os dias 6 e 13 de junho.