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É possível que todo o grupo influenciado por Marinetti e Moholy-Nagy se tenha deixado seduzir por uma má compreensão das origens e causas tanto da configuração profana da vida, quanto da configuração "sacra". Aliás, o oposto também é possível: que, mesmo admitindo resultar de mera ação mecânica da tecnologia a "sacralização", ou "dessacralização" da vida humana, todo o grupo de "irracionalistas" em nosso século tenha escolhido ainda o modo "sacro" ou auditivo de organização da experiência. Se não por outro motivo, porque este é o modo novo emergente do nosso tempo eletromagnético ou eletrônico, como acentua Teilhard de Chardin. E porque, para muitos, o novo, como tal, é um mandamento do além a ser venerado mesmo quando seja um mergulho nos padrões não-alfabetizados da consciência. Embora não vejamos nenhuma inerente relevância ou importância religiosa, quer no "sagrado" quer no "profano", como os apresentou ou definiu Eliade ou qualquer outro místico "irracional" de nossos tempos, não podemos subestimar a força puramente cultural das formas não- letradas ou letradas da vida para moldar as percepções e inclinações da comunidade humana inteira. As misérias do conflito entre as igrejas oriental e romana, por exemplo, constituem um caso perfeitamente óbvio do tipo de oposição que existe entre as culturas orais e visuais, nada tendo a ver com a fé.
Eu perguntaria, entretanto, se não é tempo de colocar essas "coisas infantis" sob certa espécie de freio e equilíbrio, a fim de que as perpétuas lavagens de cérebro que impõem à comunidade humana ficassem sujeitas a certo grau de previsão e controle. Tem-se dito que a guerra inevitável é aquela cujas causas não puderam ser descobertas. Como não pode haver maior contradição ou choque entre as culturas humanas do que os que ocorrem entre as que representam a vista e as que representam o ouvido, não é de estranhar que a metamorfose para o modo visual, ocorrida outrora com a homem do Ocidente, nos pareça agora apenas um pouco menos angustiante do que nossa metamorfose presente para o modo auditivo do homem eletrônico. Tais mudanças, contudo, são suficientemente traumatizantes por si mesmas, para que seja ainda necessário que os representantes das culturas auditivas e os das culturas ópticas se lancem uns contra os outros em acessos de sádicos farisaísmos.
Mircea Eliade começa sua introdução em The Sacred and the Profane (O sagrado e o profano) por um manifesto em que anuncia o retardado reconhecimento de "o Sagrado" ou do espaço auditivo em nosso século. Aclama Rudolf Otto em Das Heilige (O sagrado), publicado em 1917, nos seguintes termos (págs. 8 e 9 do seu livro): "Deixando de lado a parte racional e especulativa da religião, Otto concentrou-se principalmente no
seu aspecto irracional, pois ele havia lido Lutero e compreendera o que o "Deus vivo" significava para um crente. Não era o Deus dos filósofos — de Erasmo, por exemplo; não era uma ideia, uma noção abstrata, uma mera alegoria moral. Era um poder terrível, manifestado na cólera divina". Eliade explica depois seu projeto: "As páginas que se vão ler têm por objetivo ilustrar e definir essa oposição entre o sagrado e o profano". Sentindo que "o ocidental moderno experimenta certo mal-estar diante de muitas manifestações do sagrado", como quando, "para muitos seres humanos, o sagrado pode manifestar-se em pedras ou árvores", propõe mostrar porque o homem "das sociedades arcaicas tende a viver tanto quanto possível no sagrado ou em estreita proximidade com os objetos consagrados":
Nossa principal preocupação nas páginas seguintes será elucidar este assunto — mostrar de que modo o homem religioso procura permanecer tanto quanto possível num universo sagrado e, em face disto, comparar o que sua experiência total da vida vem ser em comparação com a experiência do homem sem sentimento religioso, do homem que vive, ou deseja viver, num mundo dessacralizado. Deve-se dizer logo que o mundo completamente profano, o cosmo completamente dessacralizado, é uma descoberta recente na história do espírito humano. Não nos cabe mostrar por quais processos históricos e em resultado de que mudanças nas atividades espirituais e na conduta veio o homem moderno a dessacralizar o seu mundo e adotar uma existência profana. Para nossos fins, basta observar que a dessacralização permeia a existência inteira do homem não-religioso das sociedades modernas e que, em consequência, ele acha cada vez mais difícil redescobrir as dimensões existenciais do homem religioso nas sociedades arcaicas (pág. 13).
Eliade incide em grosseira ilusão ao supor que o homem moderno "acha cada vez mais difícil redescobrir as dimensões existenciais do homem religioso nas sociedades arcaicas". O homem moderno, desde as descobertas eletromagnéticas, há mais de um século, revestiu-se de todas as dimensões do homem arcaico, e mais do que ele. A arte e a erudição do século passado tornaram-se um monótono crescendo de primitivismo arcaico. A própria obra de Eliade é uma popularização extremada dessa arte e erudição. Mas não quer isso dizer que esteja ele errado quanto aos fatos. Certamente está certo ao dizer que "o cosmo completamente dessacralizado é uma descoberta recente na história do espírito humano". De fato, a descoberta resulta do alfabeto fonético e da aceitação de suas consequências, especialmente depois de Gutenberg. O que ponho em dúvida, entretanto, é a qualidade de suas intuições que requerem que a voz humana se ponha a tremer e ressoar com veemência de pregador, ao referir-se e fazer citações sobre a "história do espírito humano".