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Princípio da unidade e unicidade da sentença

1. Afirmados óbices à admissibilidade da resolução fracionada do mérito

1.1 Princípio da unidade e unicidade da sentença

Como já tivemos ensejo de mencionar na abertura do Capítulo I, é frequente a afirmação de que o Código de Processo Civil de 1973, ao menos em sua feição primitiva, seria refratário à possibilidade de fracionamento do objeto litigioso. Inspirado pela lição de Giuseppe Chiovenda, o legislador teria consagrado o princípio da unidade e unicidade da sentença, a impor que o mérito, composto por todas as questões principaliter trazidas à apreciação do órgão judiciário, fosse solvido de uma só vez, em pronunciamento único (sentença final), assim ficando cumprido o processo ou fase de conhecimento.

Muito embora a sentença, analisada em sua substância, possa ser ideologicamente cindida em capítulos, mediante cortes imaginários das deliberações tomadas em sua parte dispositiva182, não se concebia como viável a produção de mais de uma decisão de mérito, suscetível de imunização pela coisa julgada material, ao longo do arco procedimental, seccionando-se o momento de entrega da prestação jurisdicional.

Do ponto de vista do direito positivo, argumentava-se fundamentalmente com a original dicção do artigo 162, § 1º, do Código, que, atrelando a ideia de sentença à conclusão do processo, automaticamente vetava a possibilidade de sentenças parciais e sucessivas. Aludia-se também aos artigos 458, II, e 459 – cuja redação segue inalterada, evidenciando a atualidade da discussão –, enxergando-se neles o dever de concentração.

182 Cf. DINAMARCO, Cândido Rangel. Capítulos de sentença, cit., pp. 22-24. Esclarece o autor que, segundo a teoria de Liebman – à qual adere –, a solução de questões, feita na motivação da sentença, não dá origem à formação de capítulos sentenciais. Os capítulos identificam-se e distinguem-se, sempre, na parte dispositiva, pois é ela que contém os comandos imperativos exarados pelo juiz, capazes de produzir efeitos concretos sobre as vidas dos litigantes.

Assim interpretados os dois últimos dispositivos – observa Donaldo Armelin –, ficariam obviados problemas que fatalmente decorreriam da segmentação das decisões sobre o mérito, sobretudo: (i) o de abrir espaço para a interposição de mais de um recurso no mesmo processo contra decisões de mérito; e (ii) o de enfrentar a questão da eventual formação da coisa julgada em cronologia processual diversa, com todas as consequências disso defluentes.183

Indaga-se, pois: seria a unicidade um princípio realmente compatível e cultuado pelo nosso ordenamento em vigor?

Comecemos pelo exame dos ensinamentos de Chiovenda, sempre invocado em prol da referida limitação. Suas Instituições de Direito Processual Civil, Volume III, principiam com ardorosa defesa do processo oral em detrimento do processo escrito. O processo oral – afirma – é, “com ampla vantagem”, superior ao processo escrito. Proporciona a decisão da causa com “mais economia, simplicidade e presteza”, a ponto de a experiência mostrar ser ele três ou quatro vezes mais rápido que o processo escrito.184

Nas páginas seguintes, Chiovenda se põe a esclarecer, com maior detalhamento, o que se deve entender por processo oral. A oralidade, sustenta, é permeada e conformada por diversos subprincípios, entre os quais se destacam os da imediação, da identidade física do juiz e da concentração do conhecimento da causa em uma única audiência ou em audiências contíguas.185 O que se pretende, mediante o emprego de tais técnicas, é que a discussão, instrução e decisão do mérito ocorram todas simultaneamente em audiência, com o privilégio da forma oral para a prática dos atos.

Eis aí as bases sobre as quais se assenta a ideia de unidade e unicidade da sentença: aglutinada em momento único a discussão de todas as questões de fato e de

183 ARMELIN, Donaldo. “Notas sobre sentença parcial e arbitragem”. Revista de Arbitragem e

Mediação, Vol. 18, Julho de 2008, pp. 274 e seguintes.

184

CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de Direito Processual Civil. Vol. III. 2ª Ed. São Paulo: Saraiva, 1965, p. 46.

185 Agrega a estes subprincípios o da irrecorribilidade das interlocutórias, que efetivamente constitui decorrência lógica da concentração dos atos processuais em audiência, evitando-se o seu espaçamento no tempo: THEODORO JÚNIOR, Humberto. “O problema da recorribilidade das interlocutórias no processo civil brasileiro”, cit.

direito, bem assim a produção das provas, disso deflui que o meritum causae também deveria, ao menos em tese, ser objeto de pronunciamento uno, se possível ainda dentro da própria audiência de instrução e debates.

Além do encurtamento da litispendência – com a consequente atenuação dos danos marginais causados pelo tempo fisiológico do processo –, essa concentração de atos, teoricamente, também militaria em prol da qualidade da prestação jurisdicional, pois o juiz decidiria a causa incontinenti, logo após a colheita das provas, portanto com a memória ainda “fresca” sobre os fatos elucidados pela instrução.

Por outro lado, igualmente como decorrência dessa concentração de atividades processuais em audiência, ficaria eliminada a possibilidade de interposição de recursos em separado contra decisões interlocutórias, contribuindo para a maior rapidez na entrega da prestação final. 186

Lícito supor, portanto, que o princípio da unidade da sentença relaciona-se muito mais com a ideia de se concentrarem as atividades processuais – sobretudo instrutórias – do que, propriamente, com uma planejada vedação a que o julgamento de mérito seja seccionado no tempo. Concentrados os atos todos em uma ou mais audiências realizadas em curto espaço de tempo, com instrução e julgamento concomitantes, eliminar- se-ia praticamente o campo para múltiplas sentenças de fracionamento do mérito. E daí a observação de Paulo Afonso de Souza Sant´Anna, no sentido de que as restrições da doutrina brasileira ao fracionamento do julgamento de mérito resultam, em verdade, de má interpretação das ideias de Chiovenda.187

Realmente parece ter razão o autor. Com efeito, das mesmas Instituições de

186 CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de Direito Processual Civil, cit. pp. 46-66.

187 SANT´ANNA, Paulo Afonso de Souza. “Sentença parcial”, cit., pp. 151 e seguintes. Leciona, nesse particular, o autor: “Ao elaborar o princípio da unidade da sentença, Chiovenda tinha em mente um outro princípio, qual seja, o da concentração. O princípio da concentração foi concebido para que as atividades processuais se concentrem em breve período de tempo e se desdobrem sem interrupção, resolvendo-se os incidentes em ato contínuo, no intuito de assegurar a continuidade do processo. Exatamente para assegurar a concentração, vedava-se a recorribilidade das intelocutórias. (...) A bem da verdade, portanto, o princípio della unità e unicità della decisione decorre diretamente dos princípios da ‘concentração’ e da ‘não impugnabilidade separada dos despachos interlocutórios’. Na visão de Chiovenda, o princípio da unicidade da sentença, inspirado na necessidade de se conferir maior efetividade ao processo por meio da concentração das atividades processuais, tem a ver mais propriamente com a irrecorribilidade das decisões interlocutórias do que com a suposta impossibilidade de fragmentação do julgamento da demanda.”

Direito Processual Civil colhe-se interessantíssima passagem, na qual Chiovenda esclarece ser plenamente possível que, encontrando-se parcela do mérito madura para solução antes da(s) pretensão(ões) remanescente(s), possa ser julgada desde logo pelo juiz. Tratar-se-ia de um julgamento parcial, já que não alcançado todo o objeto litigioso, porém definitivo no tocante às pretensões ali decididas, justamente em vista de sua autonomia e independência frente ao objeto remanescente. Segundo suas exatas palavras, “Sentença definitiva é, por sua natureza, a que decide sobre a demanda, acolhendo-a ou rejeitando-a. Se (no caso de vários processos reunidos ou no caso de várias demandas acumuladas numa só citação) apenas um processo, ou uma demanda, ou apenas parte de uma demanda, ou apenas a ação relativa à reconvenção, ou vice-versa, está em condições de se decidir, a sentença que a acolhe ou rejeita é, entretanto, definitiva, embora parcial.”188

Em suma, talvez constitua um equívoco – certamente reforçado, entre nós, pela primitiva letra do artigo 162, §1o, do Código de Processo Civil, bem assim pela deturpada interpretação dada aos artigos 458 e 459189 – estabelecer correlação necessária entre os conceitos de julgamento definitivo e sentença final. Um pronunciamento, teoricamente, pode muito bem ser definitivo, decidindo parte do objeto litigioso em juízo de certeza e com aptidão para a imunização pela res judicata, sem, no entanto, corresponder ao ato final da fase ou procedimento cognitivo.

É de resto o que bem pondera, entre nós, Ovídio Baptista da Silva, destacando que o fato de um pronunciamento ser exarado no curso do procedimento não induz, necessariamente, a que ele não possa representar a solução definitiva para parte da pretensão ou das pretensões postas em juízo. Parcial não é o oposto de definitivo e, se o juiz se pronuncia sobre uma fatia do mérito, fazendo-o, no entanto, mediante cognição exauriente, nada mais havendo a aprofundar a respeito, não há razão para recusar estabilidade ao pronunciamento, nem tampouco para permitir que o juiz possa confirmar

188 CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de Direito Processual Civil, cit., p. 237. Aliás, o mesmo Chiovenda é expresso em admitir que este tipo de pronunciamento, que fere parte do mérito em caráter definitivo, possa ser objeto de ataque imediato mediante recurso, desde que disso não resulte prejuízo ao prosseguimento do feito e ao julgamento das pretensões remanescentes: “Ora, eu adverti mais de uma vez que a proibição de apelação imediata das interlocutórias é compreensível e útil na medida em que constitua uma partícula do processo oral, quer dizer, um adminículo indispensável para assegurar a concentração. Fora daí, é desarrazoado e prejudicial. (...) Em caso de sentença parcial seria, a verdade, de todo em todo inútil adiar a apelação, visto que a causa pode, em referência à parte não julgada e independente da julgada, prosseguir sem prejuízo.” (Instituições, cit., pp. 236-238).

189

Que dispõem que deve haver resposta a todo o pedido, mas em momento algum preveem que isto deva ser feito num único momento e pronunciamento.

ou modificar o decidido em fase posterior do procedimento.190

O fato, retomando a linha de raciocínio, é que a unicidade da sentença constitui decorrência lógica da oralidade e de seus subprincípios. No entanto, o que se constata é que no processo civil brasileiro a oralidade tem perdido espaço e sofrido seguidas mitigações. Pode-se dizer, acredita-se que sem grande exagero, que se trata de um combalido princípio: os atos processuais são predominantemente escritos e espaçados no tempo; a identidade física está longe de ser absoluta, falando por si a regra do artigo 132 do Código, portadora de rol exemplificativo de exceções191; as interlocutórias são recorríveis192; nem mesmo obrigatoriedade de audiência e de contato direto entre juiz e as partes existe, soando emblemáticas a propósito as previsões do artigo 331, § 3º e 330 do Código.

Nesse estado de coisas, não parece ter muito sentido continuar cultuando a ideia de unicidade de sentença e rechaçando de antemão a possibilidade de entrega fracionada da prestação jurisdicional. Como diz Bruno Valentim Barbosa, “se as raízes da unidade/unicidade sentencial – oralidade e irrecorribilidade das interlocutórias – não se

190 SILVA, Ovídio Araújo Baptista da. “Decisões interlocutórias e sentenças liminares”. Revista de

Processo, Vol. 16, Janeiro de 1991, pp. 7-23. Aliás, essa mesma advertência, apontando para o equívoco em

se associarem os conceitos de pronunciamento definitivo e o de sentença final, também fora feita por Chiovenda: “Sentença definitiva, no conceito romano e na lógica processual, é a sentença que se pronuncia sobre a demanda judicial, acolhendo-a ou rejeitando-a, ou declarando não poder decidir sobre ela, ou seja, o ato por meio do qual o juiz satisfaz a prestação que lhe cumpre. (...) De outro turno, porém, reconhece-se ainda que, se a prestação principal do juiz pode satisfazer-se em vários momentos, como na hipótese de cumulação de ações, toda sentença que se pronuncia sobre uma das demandas, ou sobre parte da demanda, é definitiva, conquanto parcial. (...) O processo oferece a miúdo situações tais, em que o pronunciamento sobre a demanda se cinde necessariamente em dois momentos, e mesmo a própria ação se parte em duas, uma declaratória e outra de condenação ou constitutiva. Além da hipótese de sentença que se pronuncia sobre o an

debeatur, e à parte o caso da sentença que se pronuncia sobre a divisão e abre as respectivas operações,

encontramos, por exemplo, a sentença que se pronuncia sobre o direito à prestação de contas e abre o respectivo processo. (...) Em nenhum desses casos poder-se-á jamais asseverar que a sentença, quando se pronuncia sobre o direito, e acolhe uma das ações acumuladas, seja interlocutória; é nessa parte, definitiva.” (CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de Direito Processual Civil, cit., pp. 239-240).

191 Assim: AgRg no AREsp 446.472/PR, Rel. Ministro PAULO DE TARSO SANSEVERINO, TERCEIRA TURMA, julgado em 09/09/2014, DJe 25/09/2014; REsp 1441749/BA, Rel. Ministro RAUL ARAÚJO, QUARTA TURMA, julgado em 03/04/2014, DJe 09/04/2014; REsp 995.316/PB, Rel. Ministro ALDIR PASSARINHO JUNIOR, QUARTA TURMA, julgado em 16/11/2010, DJe 01/12/2010.

192 Crítica aguda a esse respeito é formulada por Humberto Theodoro Júnior. Relata que o Código de 1973 teve o mérito de simplificar o sistema recursal, porém pecou ao admitir a ampla e irrestrita recorribilidade das interlocutórias mediante agravo, o que teria provocado o congestionamento dos tribunais. A título de contornar o problema, cogita da conveniência de se retornar ao cenário em que as interlocutórias eram irrecorríveis. Seria preferível conviver com a eventual impetração de mandados de segurança a seguir enfrentando a enxurrada de agravos de instrumento que temos atualmente em nossos tribunais. (THEODORO JÚNIOR, Humberto. “O problema da recorribilidade das interlocutórias no processo civil brasileiro”, cit.).

fazem presentes, não há razões para mantê-la no sistema.”193

Na mesma linha vai também Silas Dias de Oliveira Filho, acrescentando que, a rigor, não há incompatibilidade entre o princípio da oralidade e a técnica do julgamento por etapas do mérito: “se o juiz que tem contato com as provas deve julgar a lide (imediatidade e identidade física do juiz), não há sentido em procrastinar o julgamento dessa parcela do objeto litigioso para depois da prática de uma série de atos processuais que com ele não possuem relação alguma (violação ao princípio da concentração).”194 A cisão, assim, não discrepa nem ofende a identidade física, já que proporciona o exame imediato da demanda pelo magistrado que a respeito já atingiu o nível de certeza processual (cognição exauriente), prevenindo que, por qualquer motivo, a tarefa de julgar seja transferida e venha recair sobre terceiro alheio àquele processo. Ademais, a concentração também resta atendida: julgando-se imediatamente o que já está maduro, evita-se que sejam praticados atos de instrução completamente estranhos àquela fração da lide, distanciando-se no tempo os atos de cognição e de decisão.

Portanto, o culto ao princípio da unicidade, máxime quando identificados pilares sobre os quais se assenta, não serve para justificar o veto apriorístico à cisão do julgamento de mérito, nem para contraindicar o uso desta técnica.