Artigos 80.º 107.º Parte II – Organização Económica Artigos 108.º 276.º Parte III – Organização do Poder Político
2.2.3. Princípio do bem-estar ou do Estado social
A interpretação actual da Constituição de 1976 permite-nos defender o bem-estar como um elemento estruturante do Estado Social, configurando um instrumento de realização da democracia económica, social e cultural nos termos dos artigos 1.º e 2,º da CRP. Contudo, é na dignidade humana que reside a motivação para a concretização do Estado do bem-estar (artigos 9.º al d) e 81.ºal a),da Constituição).
De suma importância para a defesa do respeito e da garantia da dignidade da pessoa humana são as cartas Encíclicas apresentadas pela Doutrina Social da Igreja no século XIX e início do século XX, em especial as Encíclicas Rerum Novarum (1891) e Quadragésimo Anno (1931), sendo o seu fundamento defendido posteriormente nas Cartas Encíclicas Mater e Magistra (1961) e Passem in Terris (1963)90 .
Não obstante todos os contributos, a primeira ligação de bem-estar à dignidade humana concretiza-se na Constituição de 1933. Mais tarde, no texto constitucional de 1976 o princípio do Estado Social é apresentado como uma tarefa fundamental do
85
A soberania popular legitima democraticamente a actuação dos seus governantes.
86
Traduz-se pela tolerância às diferentes visões e concepções do bem comum ou mesmo do bem individual.
87
Pode ser traduzida como “um Estado de direitos humanos que envolve um Poder político passivo ou abstencionista na limitação dos direitos de liberdade e, simultaneamente um Poder activo ou intervencionista na implementação das prestações inerentes à satisfação dos direitos sociais”. Cfr. Paulo OTERO – Direito Constitucional Português, volume I, 2010, p. 54.
88
A concretização do Estado de Direito democrático exige que “todos os poderes do Estado, cada um à sua maneira, com os seus próprios meios e segundo os respectivos procedimentos fixados por lei”. Cfr Paulo OTERO – Direito Constitucional Português, volume I, 2010, p. 54.
89
Cfr. Paulo OTERO – Direito Constitucional Português, volume I, 2010, p. 51.
90
51
Estado, a par da democracia e do Estado de Direito, exigindo-se deste modo a materialização da dignidade e da justiça social.
O Estado social surge como um modelo de organização jurídica da sociedade, à luz do qual o Estado vai concretizar tarefas que se prendem com o “aumento do bem-estar e da qualidade de vida do povo; a igualdade real entre os portugueses; a efectivação dos direitos fundamentais de carácter económico, social, cultural e ambiental; a transformação e modernização das estruturas económicas. Trata-se, em resumo, de realizar a democracia económica, social e cultural, a que alude o art. 2.º”91
. Numa posição convergente, pronunciou-se o Tribunal Constitucional ao sublinhar que,
“ (...) não deve esquecer-se que, como resulta da al d) do artigo 9º da Constituição, incumbe ao Estado (como tarefa fundamental) promover a efectivação de todos os direitos económicos, sociais e culturais (...) está interligada quer com a constituição económica (dependendo da aplicação das normas constitucionais respeitantes à organização económica do país), quer com condicionalismos económicos e institucionais (por exemplo, o modo de organização e funcionamento da administração pública e a disponibilidade de recursos financeiros)”92
.
Daqui resulta o reconhecimento e a identificação no texto constitucional de várias necessidades colectivas, que em grande parte correspondem a direitos fundamentais dos cidadãos e que incumbe ao Estado satisfazer por se encontrar vinculado à Constituição.
Recentrando esta reflexão no direito à educação, cumpre-nos salientar que o seu reconhecimento constitucional significa a consciência da necessidade de criação de condições sociais para que se alcance universalidade da educação. Esta exigência é motivada pela cláusula ou princípio do bem-estar. Esta cláusula, envolve uma dimensão aberta e nesse sentido apela a uma progressiva concretização das condições (materiais e imateriais) dos cidadãos. Veremos ao longo desta tese que se vão tecendo
91
Cfr. CANOTILHO; MOREIRA, Constituição da República Portuguesa, anotada, volume I, 2007, p. 278.
92
Cfr. Acórdão do Tribunal Constitucional, nº 590/2004. Processo nº 994/03, sobre o crédito bonificado para habitação.
52
mudanças em matéria de direitos fundamentais e em concreto no direito à educação onde a sua satisfação vai exigir um esforço de complementaridade entre o Estado e a sociedade civil.
As dificuldades a que Portugal tem de fazer face, farão com que o país enverede por um compromisso entre o Estado e a Sociedade de molde a que sejam garantidas às famílias um conforto material necessário ao exercício do direito/dever de promoverem a educação dos filhos. À medida que se caminha para este compromisso, esbate-se a centralidade, responsabilidade e visibilidade social do Estado e emergem novos intervenientes no campo social em torno de uma multiplicidade de necessidades educativas que se inscrevem numa nova concepção do bem comum e do espaço público. Voltaremos a esta reflexão a propósito da transferência de poderes decisórios do Estado para os entes infra-estaduais à luz do princípio da subsidiariedade, cujos efeitos já se fazem sentir no interior do Estado (v.
infra cap. 8).
Em matéria de educação, vai-se moldando um sistema plural e descentralizado, ao mesmo tempo que timidamente se afirma a autonomia autárquica ao transferir a gestão educativa do actual executivo para as mãos do poder autárquico93 e estabelecimentos de ensino94. Foi nesse sentido que o Conselho Nacional de Educação (CNE), veio apelar através da Recomendação nº 7/201295, na qual se exige uma maior clarificação das responsabilidades dos vários agentes educativos. Nesse sentido, o CNE, ao referir-se aos diferentes níveis de responsabilidade, sublinha que “A autonomia pressupõe, pois, um processo social,
93
Cfr. Decreto-Lei nº 144/2008 de 28 de Julho que desenvolve o quadro de transferência de competências para os municípios em matéria de educação. São transferidas para o município o pessoal não docente, sendo igualmente transferidas as dotações inscritas no Ministério da Educação para pagamento do referido pessoal. A partir de 21010, as transferências de recursos financeiros referidos e previstos no artigo 4.º do referido diploma, são incluídas no Fundo Social Municipal e actualizadas segundo as regras aplicáveis às transferências para as autarquias locais.
94
Cfr. Decreto-Lei nº 75/2008 de 22 de Abril que aprova o regime de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos públicos de educação. O Decreto-Lei nº 224/2009, DR 177 Série I de 11.09.2009, procede à primeira alteração do Decreto-Lei nº 75/2008, de 22 de Abril, que aprovou o regime de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básicos e secundário, e prevê a existência de postos de trabalho com a categoria de encarregado operacional nos mapas de pessoal dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas.
95
53
uma responsabilização progressiva, uma conquista social local, uma crescente adequação entre processos e resultados, um exercício de participação e de inscrição da educação no espaço público. Por tudo isto, a autonomia é um processo político, mais do que uma questão técnica”96
. Trata-se de um regresso segundo Mário Pinto, “ a uma ideia clássica, de limitação das manifestações do poder excessivo do Estado, e de garantia da intervenção dos cidadãos”.97