3 UMA VISÃO GERAL DO PROCESSO DO TRABALHO
3.1 PRINCÍPIOS QUE REGEM O DIREITO PROCESSUAL DO TRABALHO
O processo do trabalho é constituído por um conjunto de regras e princípios destinados a disciplinar os atos e procedimentos dos órgãos jurisdicionais na solução dos conflitos de interesses individuais e coletivos, decorrentes das relações de trabalho, emprego e prestação de serviço.
O estabelecimento de uma definição ou um conceito de princípios jurídicos é uma incumbência difícil, haja vista que variados doutrinadores jusfilósofos adotam diferentes abordagens sobre esse tema, de acordo com o contexto social e político que vivenciaram. No jusnaturalismo, os caracteres, funções e objetivos dos princípios são diferentes dos considerados pelos pensadores juspositivistas e pelos pós-positivistas.
Como não consiste objeto deste trabalho a exposição e análise detalhada sobre o debate dos jusfilósofos acerca do conceito dos princípios, apresentaremos sumariamente as principais ideias defendidas por alguns doutrinadores acerca deste tema.
Ronald Dworkin (2012) foi o jusfilósofo que se encarregou em apresentar um modelo normativo que se baseou no reconhecimento dos princípios como normas jurídicas. Nessa tangente, ele elaborou uma crítica ao juspositivismo e fez a distinção lógica entre regras, princípios e políticas.
Segundo Dworkin (2012), “política” seria uma espécie de padrão que determina um objetivo a ser atingido e se consubstancia de forma geral numa melhoria em algum aspecto econômico, político ou social para a comunidade. No que tange às “regras”, Dworkin mantém para elas as definições dos positivistas e acrescenta a estas outras normas que são os “standards” ou princípios que para ele também possui força normativa. Para ele, princípios são padrões que devem ser observados por serem uma exigência de justiça ou equidade ou outra dimensão da moralidade. De acordo com esse doutrinador, a aplicação das regras deve ser de maneira do “tudo ou nada”, de forma disjuntiva, ou seja, confrontando o texto da lei com os fatos, ou a regra é válida ou não. Já os princípios não fixam condições para sua aplicação e possuem uma dimensão de peso a ser utilizada em caso de colisão. De acordo com as ideias de Dworkin, a função dos princípios é orientar uma razão para decidir em certo sentido quando os direitos forem controvertidos.
O jus filósofo alemão Robert Alexy (2015), por sua vez, considera os princípios como mandados de otimização, pois podem ser equiparados a valores. Os princípios, para este doutrinador, são normas que ordenam que algo seja realizado na maior medida possível dentro das possibilidades jurídicas e fáticas existentes. No desenvolvimento de sua teoria sobre os princípios, Alexy (2015) possui uma visão não positivista e entende que o Direito precisa ser correto, além de positivado, para ser legítimo, ou seja, deve ser atrelado a uma pretensão de correção. Alexy (2015) parte de críticas à teoria de Dworkin (2012) para construir a definição de princípios jurídicos. Na distinção entre regras e princípios, Alexy (2015) sustenta vários critérios. Dentre eles, destacamos o da generalidade. Para Alexy (2015), este é critério de distinção utilizado com mais frequência, segundo o qual os princípios são normas com grau de generalidade relativamente alto, enquanto as regras possuem grau de generalidade relativamente baixo. De acordo com esse autor, as normas podem ser distinguidas em regras e princípios e entre ambos não existe apenas uma diferença gradual, mas uma diferença qualitativa.
Em geral, a doutrina moderna confere três funções (RODRIGUEZ, 1978, p. 17) aos princípios no contexto do ordenamento jurídico. A primeira função é a fundamentadora das demais normas, ou seja, nos princípios é que as demais normas encontram seu fundamento de validade. A segunda função dos princípios é a interpretativa, haja vista que os princípios orientam a interpretação do ordenamento jurídico. De acordo com Wilson Alves de Souza, a função “interpretadora” dos princípios é inegável e se manifesta quando “determinado caso é resolvido, buscando-se a melhor solução nos princípios jurídicos” (SOUZA, 2012, p. 77). Por fim, a função supletiva ou integradora dos princípios é o papel que estes possuem de suprir eventual lacuna do sistema conferindo-lhe unidade e coerência.
No que tange ao Direito Processual do Trabalho, José Rodrigues Pinto (2005), com base na diferença que ele aponta entre princípios, peculiaridades e técnicas e levando em conta as especificidades do processo laboral, sistematiza a seguinte classificação dos princípios do processo trabalhista: princípios constitucionais (juízo natural, devido processo legal, isonomia, garantia do controle jurisdicional, motivação das decisões, revisibilidade das decisões, amplo defesa e contraditório) e princípios gerais (imparcialidade do juízo, simetria do tratamento
processual das partes, publicidade dos atos processuais, lealdade processual, preclusão, celeridade e economia processual).
Ademais, Rodrigues Pinto (2005) também considera como fundamentos do processo do trabalho, além dos princípios acima elencados: as peculiaridades do direito processual do trabalho vigentes (conciliabilidade, representação paritária das partes) e emergentes (inaceitação da inépcia, julgamento sem petição, pluralização dos dissídios individuais); as peculiaridades da legislação (instauração de ofício da instância; triplo grau de jurisdição, instância única, poder normativo dos tribunais, capacidade postulatória do leigo ou jus postulandi); e as técnicas de procedimento (oralidade, concentração de atos, instrumentalidade do processo, inquisitoriedade, inidentidade física do juiz com a causa).
Para esse autor, não há distinção de função entre princípios e peculiaridades, a diferença entre ambos está no alcance. O princípios são gêneros e as peculiaridades, espécies. Aqueles estruturam o “tronco comum do processo, dizendo respeito a todos os sistemas processuais” (PINTO, 2005, p. 55). Já as peculiaridades completam os princípios no âmbito de cada sistema processual e conferem identidade peculiar de cada ramo. As técnicas, por outro lado, estão relacionadas “à noção de procedimento, sendo, portanto, meios adequados para obter certo resultado, admitindo opções, portanto.” (PAMPLONA FILHO; SOUZA, 2013, p. 41).
A doutrina de Carlos Henrique Bezerra Leite (2011), por sua vez, categoriza os princípios que regem o processo do trabalho em: informativos; fundamentais; princípios comuns ao processo civil; e princípios peculiares à seara processual trabalhista.
Os princípios informativos, também denominados de princípios-tronco, são tidos como meras regras informativas do processo. São considerados axiomas e, por isso, servem de base para a elaboração da teoria geral do processo. Não necessitam de demonstração, são universais e, por tal razão, são praticamente incontroversos. Não se baseiam noutros critérios, a não ser os estritamente técnicos e lógicos, e não possuem conteúdo ideológico significativo. As espécies de princípios informativos são o princípio lógico, o princípio jurídico, o princípio político e o princípio econômico.
O princípio lógico se relaciona à lógica processual e consiste em descobrir a verdade, evitando os erros, através da escolha dos fatos e forma mais aptos para tanto. Já princípio jurídico é o que proporciona às partes na demanda, mediante regras previstas, a isonomia e a justiça na solução do conflito. Por sua vez, o princípio político busca prover os direitos dos cidadãos com o mínimo de sacrifício da liberdade individual e com a máxima garantia social (PINTO, 2005, p. 60). Através deste princípio, é fixado o dever do magistrado de proferir sentença mesmo na hipótese de lacunas. O princípio econômico busca concretizar que as lides não sejam tão custosas e que durem o tempo razoável. De outro lado, este princípio objetiva efetivar o acesso dos pobres ou dos economicamente hipossuficientes aos serviços do Poder Judiciário, mediante promoção das assistências jurídica e judiciária e da gratuidade da justiça.
A categoria dos princípios fundamentais ou constitucionais que baseiam o processo do trabalho abarca os princípios gerais do processo, muitos dos quais foram abordados no capítulo anterior. De acordo com Flávia M. Guimarães Pessoa e Mayara V. de Jesus (2015), o direito processual não pode ser examinado de forma isolada do direito constitucional, em razão do fenômeno da constitucionalização que conferiu à Carta Magna a função de elemento interpretativo e de integração do direito ordinário. Dentre eles: princípio do devido processo legal; princípio do acesso à justiça ou inafastabilidade do controle jurisdicional, ou, ubiquidade, ou, indeclinabilidade da jurisdição; princípio da igualdade ou isonomia; princípio do contraditório; princípio da ampla defesa; princípio da imparcialidade do juiz; princípio da motivação das decisões; e princípio da razoável duração do processo.
Ademais, o processo do trabalho é disciplinado por muitos princípios que também são aplicados no direito processual civil. Dentre eles: princípio dispositivo ou da demanda; princípio inquisitivo ou do impulso oficial; princípio da instrumentalidade; princípio da impugnação especificada; princípio da estabilidade da lide; princípio da economia processual; princípio da perpetuatio jurisdicionis; princípio do ônus da prova; princípio da oralidade; e princípio da lealdade processual.
De acordo com o princípio dispositivo ou da demanda, no processo, a iniciativa de provocar a tutela jurisdicional cabe à parte interessada. No processo do trabalho, a este princípio há exceções como a da reclamação trabalhista promovida
por ofício oriundo da Delegacia Regional do Trabalho (prevista no artigo 39 da Consolidação das Leis do Trabalho) e da instauração de ofício da execução da sentença (artigo 878 da CLT).
Pelo princípio inquisitivo ou do impulso oficial, após o ajuizamento da ação, ao magistrado cabe o dever de conduzir o processo, exercendo os poderes a ele conferidos pelo ordenamento jurídico. No processo trabalhista, há algumas hipóteses previstas na Consolidação das Leis do Trabalho que operacionalizam esse princípio (artigo 878 sobre a execução de ofício da sentença, por exemplo).
O princípio da instrumentalidade processual tem previsão normativa, sem essa denominação expressa no texto legal, no novo Código de Processo Civil (2015), nos artigos 188, 277 e 288, §2° (correspondentes do CPC de 1973 são os artigos 154, 244 e 249, §2º).12 Estes dispositivos legais preceituam que os atos processuais serão considerados válidos se cumprirem a finalidade que motivaram a sua prática ainda que realizados de modo diferente do que o que a lei determina para a prática dele. Pelo princípio da instrumentalidade, os atos processuais só possuem forma determinada, quando a lei a exige. Ainda assim, há possibilidade de aproveitar ato processual praticado de forma diversa do que a prevista em lei, se a finalidade foi cumprida.
O princípio da impugnação especificada tem previsão legal no artigo 341 do Código de Processo Civil de 2015 (correspondente ao artigo 302 do CPC/73), segundo o qual é de incumbência da parte demandada manifestar-se precisamente sobre os fatos narrados na inicial. A inobservância do princípio acarreta a presunção de serem considerados verdadeiros os fatos não impugnados, ressalvadas as hipóteses elencadas nos incisos dos referidos artigos.
O princípio da estabilidade da lide informa que a parte demandante não poderá mais modificar a demanda sem a concordância do demandado, se este já foi citado para se pronunciar sobre os pedidos e pretensões do autor (artigo 329 do Código de Processo Civil de 2015). O pedido do autor de alteração do pedido e da causa de pedir só pode ser feito até o saneamento do processo: antes da citação não terá necessidade de anuência do réu, mas, depois da citação, o réu deverá concordar.
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BRASIL. LEI N° 13.105, DE 16 DE MARÇO DE 2015. Código de Processo Civil. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm>. Acesso em: 23 nov. 2016.
De acordo com o princípio da eventualidade, os litigantes devem alegar todas as matérias de defesa ou de seu interesse, na oportunidade própria prevista em lei ou por ocasião do exercício de faculdade processual.
O princípio da preclusão decorre do princípio dispositivo e da própria lógica do processo, que é o “andar para a frente”, sem retornos a etapas ou momentos processuais já ultrapassados. Esse princípio está previsto nos artigos 245 e 473 do Código de Processo Civil de 1973 e artigos 278 e 507 do Código de Processo Civil de 2015. No âmbito do processo do trabalho, o princípio se encontra implícito no artigo 795 da Consolidação das Leis do Trabalho, que preceitua que as nulidades serão declaradas mediante provocação das partes, na primeira oportunidade em que tiverem de se manifestar em audiência ou nos autos. Existem sete espécies de preclusão vislumbradas na doutrina do processo do trabalho. A preclusão consumativa que decorre da própria prática do ato, haja vista que se a parte pratica um ato processual, não poderá realizá-lo novamente. A preclusão temporal ocorre quando o litigante deixa de praticar um ato processual no prazo legalmente previsto para tanto ou o pratica posteriormente. A preclusão também pode ser lógica que se opera quando a parte pratica um ato incompatível com outro que foi anteriormente praticado. A preclusão ordinatória, por sua vez, acontece com a perda da possibilidade de praticar o ato em razão de já ter sido praticado com irregularidade. A preclusão denominada de “máxima” é a coisa julgada, ou seja, acarreta a perda do direito de recorrer de decisão já transitada em julgado. Por fim, a preclusão ainda por ser classificada em pro judicato, através da qual ao magistrado é vedado revogar ou modificar decisão prolatada e publicada. Isso confere estabilidade e segurança jurídicas. O artigo 836 da Consolidação das Leis do Trabalho veda órgãos da Justiça do Trabalho de conhecer de questões já decididas, ressalvadas as hipóteses de cabimento de embargos à declaração e de ação rescisória.
Através do princípio da economia processual, busca-se que o processo alcance a sua finalidade com o mínimo emprego possível de atos processuais e custos financeiros. Importante ressaltar que para a configuração da economia processual, vários parâmetros podem ser considerados. Não se deve restringir esse princípio ao critério relativo aos custos do processo. Dentre os parâmetros para avaliar a economia processual, além do aspecto econômico (custo do processo), temos: economia de tempo; de atos; e eficiência na administração da justiça. Os
dois vieses de maior destaque do princípio da economia processual são os relacionados à tramitação processual e o que diz respeito ao custo do processo.
Pelo princípio da perpetuatio jurisdicionis, a competência do órgão para processar e julgar a causa é fixada no momento da proposição da ação, sendo irrelevantes as alterações do estado de fato ou de direito ocorridas posteriormente, salvo na hipótese de supressão do órgão judiciário ou de modificação da competência quanto à matéria ou à hierarquia.
O princípio do ônus da prova é previsto no artigo 369 do Código de Processo Civil de 2015 e no artigo 818 da Consolidação das Leis do Trabalho. De acordo com esse princípio, à parte que fizer as alegações cabe a prova delas. No processo do trabalho, em razão da presunção de hipossuficiência do trabalhador, esse princípio pode ser mitigado, no caso concreto. Isso ocorre quando o magistrado verificar que o empregado tem dificuldade em obter e produzir a prova de suas alegações no processo. Por isso, justifica-se a inversão do ônus da prova que pode ser autorizada pelo juiz, em razão da aptidão da parte que detém melhores condições de trazer ao processo a prova da verdade real (artigo 852-D da CLT).
O princípio da oralidade, por sua vez, não possui previsão legal expressa no Código de Processo Civil ou na Consolidação das Leis do Trabalho. Esse princípio decorre de quatro outros, quais sejam: princípio da imediatidade ou da imediação; princípio da identidade física do juiz; princípio da concentração; e princípio da irrecorribilidade imediata das decisões interlocutórias. Do princípio da imediatidade, previsto nos artigos 385 e 481 do CPC/15 (correspondentes aos artigos 342 e 440 do CPC/73) e artigo 820 da CLT, temos que o magistrado da causa deve ter contato direto com as partes e respectivas provas testemunhal ou pericial, com o próprio objeto do litígio ou com terceiros que colaborem para a obtenção de elementos necessários ao esclarecimento dos fatos. O princípio da identidade física do juiz, com previsão no artigo 132 do CPC/73, não é aplicado no processo do trabalho, conforme entendimento da súmula n° 13613 do Tribunal Superior do Trabalho. Do princípio da concentração dos atos processuais decorrem várias regras processuais (artigos 849 e 852-C da CLT; artigo 358 do CPC/15; artigos 331 e 450 do CPC73) que regulamentam e orientam a apuração de provas e a produção da decisão
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BRASIL. Tribunal Superior do Trabalho. SÚMULA N° 136, DE 27 DE SETEMBRO DE 2012. Disponível em: http://www.tst.jus.br/sumulas. Acesso em: 23 nov. 2016.
judicial numa mesma audiência. O princípio da irrecorribilidade imediata das decisões interlocutórias tem previsão no artigo 995 do CPC/15 (artigo 522 do CPC/73) e no artigo 892, §3º da CLT. De acordo com ele, as decisões, salvo exceções legais, não têm eficácia suspensa em razão da interposição de recursos e o agravo de instrumento contra decisões interlocutórias, que não é previsto no processo do trabalho, teve cabimento reduzido com o novo CPC.
Vale ressaltar que, como visto, o processo do trabalho possui um sistema próprio de regras, procedimentos e princípios. Desta forma, a doutrina elenca ainda princípios peculiares ao direito processual do trabalho.
O princípio da proteção do processo do trabalho é o que busca compensar as desigualdades que presumidamente existem entre os litigantes (empregado ou trabalhador e empregador) e, por isso, impõe maior proteção ao trabalhador por ser este considerado o lado mais fraco da relação laboral. A aplicação desse princípio no processo do trabalho é tema que enseja controvérsias doutrinárias. Importante salientar que a corrente que defende a aplicação sustenta que a interpretação mais favorável das normas jurídicas ao trabalhador não pode estabelecer um desequilíbrio que macule o princípio da igualdade das partes.
O segundo princípio peculiar do processo do trabalho apontado na classificação de Carlos Henrique Bezerra Leite (2011) é o princípio da finalidade social cuja observância encerra uma exceção ao princípio da isonomia entre as partes, em relação à sistemática tradicional do direito processual. A diferença básica entre o princípio de proteção e o princípio da finalidade social é que, naquele, a desigualdade se opera no plano processual e é conferida pela lei; no último, fica a cargo do magistrado atuar mais ativamente no sentido de fomentar uma solução socialmente justa.
O terceiro princípio próprio do processo trabalhista consiste no princípio da busca da verdade real, presente na regra do artigo 765 da Consolidação das Leis Trabalhistas e decorrente do princípio material da primazia da realidade. Esse princípio atribui dinamismo à atividade do magistrado para que a verdade real seja alcançada, ou seja, ao juiz é conferido o poder de determinar qualquer diligência, além da ampla liberdade de direção do processo.
O princípio da indisponibilidade é o quarto principio peculiar do processo do trabalho. Decorre do princípio da indisponibilidade ou irrenunciabilidade do direito
material no contexto do processo trabalhista, que teria uma função finalística de efetivação dos direitos indisponíveis dos trabalhadores.
Para Carlos Henrique Bezerra Leite (2011), também o princípio da normatização coletiva é inerente ao processo trabalhista, haja vista que, no sistema jurídico brasileiro, a Justiça do Trabalho é a única que pode exercer o poder normativo. Este consiste no poder dos tribunais trabalhistas, no dissídio coletivo, de criar normas e condições gerais e abstratas (atividade típica do Poder Legislativo) ao proferir sentença normativa. Essa decisão possui eficácia ultra partes, ou seja, produzirá efeitos que abrangerão os contratos de trabalho individuais integrantes da categoria profissional representada pelo sindicato que ajuizou o dissídio coletivo. O princípio da normatização coletiva encontra limites no artigo 7° da Constituição Federal, nos artigos 8° e 444 da CLT e nas cláusulas previstas em convenção e acordos coletivos que normatizem sobre condições mínimas de cada categoria profissional.
O princípio da conciliação é aplicado com mais ênfase no processo trabalhista, apesar de não ser uma exclusividade deste. O artigo 764 da CLT atesta a valorização da conciliação no processo laboral, ao prever que o acordo pode ser celebrado até mesmo depois de encerrado o juízo conciliatório. O artigo 831 da CLT ainda prevê, como condição para proferir a sentença trabalhista, a rejeição da proposta de conciliação. Dois são momentos obrigatórios para a conciliação no processo do trabalho: na abertura da audiência (artigo 846 da CLT) e após o término da instrução e da apresentação das razões finais pelas partes (artigo 850 da CLT).