A conscientização a cerca dos desequilíbrios ambientais, econômicos e sociais, por
parte de segmentos crescentes da população e, de uma forma específica por produtores
familiares rurais da Amazônia aponta para a definição e a implantação de alternativas que
garantam a manutenção dos recursos naturais (MATTOS, FALEIRO & PEREIRA, 2001).
Na busca da construção de uma alternativa que contrapunha os modelos de
desenvolvimento vigentes na Amazônia e que já apontavam para resultados pouco
satisfatórios do ponto de vista socioambiental, é que se colocou o desafio para as organizações
da sociedade civil de conceber uma proposta capaz de articular os instrumentos clássicos de
política agrícola aos objetivos de fomentar processos sócio-organizativos locais, melhorar a
qualidade de vida e a renda familiar e promover a conservação ambiental. Foi nessa
conjuntura que o PROAMBIENTE, uma nova modalidade de crédito ambiental, com garantia
da prestação de serviços de assistência técnica para execução das ações, foi apresentado na
pauta do Grito da Amazônia 2000 (HIRATA, 2006).
A partir de 2000, com a apresentação da proposta preliminar do PROAMBIENTE
pelos movimentos sociais rurais da Amazônia Legal (Federações dos Trabalhadores e
Trabalhadoras na Agricultura - FETAG’s; Movimento Nacional dos Pescadores - MONAP;
Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira - COIAB e Conselho
Nacional dos Seringueiros - CNS e das organizações não governamentais: Instituto de
Pesquisa Ambiental da Amazônia - IPAM e Federação dos Órgãos para Assistência Social e
Educacional – FASE) é que se inicia uma longa caminhada em busca do reconhecimento e
incorporação do programa pelo governo federal. Fato que se concretiza no ano de 2004 com a
incorporação do programa no Plano Plurianual 2004/2007, sendo que a partir de então o
PROAMBIENTE tornou-se uma política pública federal (IBAMA, 2005a).
O PROAMBIENTE tem como principal objetivo promover o uso sustentável dos
recursos naturais, priorizando o emprego de sistemas de produção que incorporem tecnologias
mitigadoras de impactos ambientais, o preparo da terra sem o uso do fogo, a utilização de
áreas alteradas/degradadas por meio de implantação de sistemas alternativos de uso da terra, o
uso de sistemas agropastoris, sistemas agroflorestais, agroextrativismo, o extrativismo
florestal madeireiro (por meio de manejo comunitário) e não madeireiro, as modalidades de
pesca artesanal, práticas indígenas e tradicionais e a verticalização da produção familiar rural
(PROAMBIENTE, 2003).
É sabido que os sistemas alternativos são mais diversificados que os convencionais, e
logo exigem maior capacidade de gerenciamento, mão-de-obra (MO) qualificada e
principalmente, mais conhecimentos técnicos e pesquisas sobre as interrelações dos diferentes
componentes do ecossistema (EHLERS, 1999). Desta forma, um dos pontos fundamentais
para o êxito do programa era ter uma equipe técnica diferenciada, bem remunerada e com
apoio financeiro para seus custos operacionais e reciclagem de conhecimentos, objetivando
instituir um compromisso técnico e, especialmente social com essa nova proposta de
desenvolvimento. Para tanto, a proposta inicial é que cada Polo do PROAMBIENTE seria
composto por 500 famílias e havendo para cada polo uma equipe técnica. Sendo que esta seria
constituída de 15 agentes comunitários do PROAMBIENTE (ACP), quatro técnicos de nível
médio (TNM) e um técnico de nível superior (TNS) (PROAMBIENTE, 2003).
Segundo Mattos, Faleiro & Pereira, (2001) cada polo seria dividido em grupos e cada
grupo composto por 30 a 35 famílias elegia um agente comunitário (que também é um dos
membros do grupo), sendo sua atribuição visitar periodicamente essas mesmas famílias para
identificar demandas de intervenção técnica. Os ACP’s disporiam dez dias mensais para as
visitas aos lotes dos agricultores, assim sobrariam 20 dias para serem dedicados às atividades
produtivas de suas propriedades. A idealização do AC é de extrema importância, pois serviria
de elo estratégico entre os agricultores familiares e os TNM’s. Na proposta inicial a ideia era
que os ACP’s receberiam um salário mínimo por esse serviço, o que não se confirmou no
período de vigência do programa, tendo os ACP’s recebido um valor de R$ 100,00 no Polo
Rio Capim.
Os TNM tiveram por missão manter contato direto com os ACP’s. Suas atribuições
foram de elaborar, conjuntamente, com as famílias os diagnósticos e planos de uso das
unidades de produção familiar, e no grupo comunitário o estabelecimento do acordo
comunitário. O plano de uso da unidade de produção familiar seria reformulado anualmente e
sobre suas ações os TNM atuariam na prestação de ATER.
Já o papel do TNS era o de desenvolver e executar programas de treinamento dos
agricultores e TNM’s, incentivar reflexões sobre as oportunidades e limites da produção
familiar, elaborar e acompanhar a execução de projetos econômicos, além de desenvolver
mercados locais, regionais, nacionais e até internacionais para os produtos provindos dos
Polos do PROAMBIENTE. Várias das atribuições dos ACP’s e técnicos de forma em geral
não foram efetivadas devido à paralisação das ações do programa.
O PROAMBIENTE foi uma iniciativa que, sob vários aspectos, introduziu novos
procedimentos de concepção e de gestão de políticas públicas voltadas para o
desenvolvimento rural (HIRATA, 2006). Três características do programa realçam essa
qualidade inovadora: o protagonismo de organizações da sociedade civil em sua elaboração; o
modelo de gestão que articula diferentes instrumentos de apoio ao desenvolvimento rural; e a
instituição de recompensas pelos serviços ambientais
2gerados pela produção familiar rural.
Foram criados onze
3polos pioneiros em toda a Amazônia Legal (sendo que três destes
estão situados no estado do Pará), envolvendo cerca de 4.000 famílias de agricultores
familiares, extrativistas, pescadores artesanais, indígenas, remanescentes de quilombo e
populações tradicionais (IBAMA, 2005b).
Após sua criação os polos passaram por processos similares para conhecerem
detalhadamente a dinâmica de produção e evolução da cobertura vegetal das unidades de
produção, assim foram construídos o Diagnóstico Rápido Participativo (DRP) e o Diagnóstico
da Unidade de Produção Familiar (DU). Para melhor trabalhar ações que beneficiassem não
só os lotes, mas todo o entorno, o Conselho Gestor do Polo (CONGEP) que deveria ser
formado por instituições governamentais e não governamentais ligadas à pesquisa, ensino e
extensão, bem como os Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) dos
municípios de cada polo e as instituições gestoras do programa construíram o Plano de
Desenvolvimento Local Sustentável (PDLS). Já conhecidos a situação atual das unidades de
produção pertencentes ao polo bem como os entraves e trunfos do entorno, partiu-se para a
elaboração do Plano de Uso da Unidade de Produção Familiar (PU) que tinha por objetivo
estabelecer atividades de desenvolvimento à unidade de produção seguindo os princípios da
agroecologia. Após a construção do PU era necessário cumprir com mais um passo para o
início da prestação de serviços de ATER, assim foram construídos os Acordos Comunitários
(AC) que estabeleciam as regras de cumprimento e penalidades das atividades planejadas no
PU.
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São considerados serviços ambientais de acordo com os Padrões de Certificação de Serviços Ambientais do
PROAMBIENTE: a redução do desmatamento; a recuperação de áreas desmatadas (sequestro de carbono); a
conservação do solo, da água e da biodiversidade; a redução progressiva do uso de agroquímicos; a redução do
risco do fogo; a troca para uma matriz enérgica renovável e a transição para a agroecologia (IBAMA, 2005a).
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Polos: Rio Preto da Eva (Estado de Manaus), Vale do Apiaú (Roraima), Alto Acre (Acre), Ouro Preto d’Oeste
(Rondônia), Noroeste do Mato Grosso (Mato Grosso), Laranjal do Jarí (Amapá), Baixada Maranhense
(Maranhão), Bico do Papagaio (Tocantins), Transamazônica, Ilha do Marajó e Rio Capim (Pará).
Nem todos os polos chegaram a concretizar essas etapas, dentre os que conseguiram se
encontra o Polo da Transamazônica e Polo Rio Capim. A liberação de recursos que
assegurassem o pagamento da ATER e dos serviços ambientais pelo MDA era esperada com
ansiedade pelas gestoras dos pólos que concluíram as etapas, entretanto pouco recurso foi
enviado para as gestoras, que o utilizaram para o pagamento dos serviços ambientais (caso do
Polo Transamazônica) e para capacitação (caso do Polo Rio Capim). Após esse período o
MDA não enviou mais recursos, e desde então a maioria dos polos está com suas atividades
paralisadas, sendo que os Polos Transamazônica e Rio Capim têm recebido a atuação de
projetos ligados a instituições como EMBRAPA e IPAM.
No documento
TRANSIÇÃO AGROECOLÓGICA: SONHO OU REALIDADE? Uma reflexão do Pólo Rio Capim do PROAMBIENTE
(páginas 47-51)